quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

AMOR PACÍFICO E FECUNDO


Não quero amor
que não saiba dominar-se,
desse, como vinho espumante,
que parte o copo e se entorna,
perdido num instante.

Dá-me esse amor fresco e puro
como a tua chuva,
que abençoa a terra sequiosa,
e enche as talhas do lar.
Amor que penetre até ao centro da vida,
e dali se estenda como seiva invisível,
até aos ramos da árvore da existência,
e faça nascer
as flores e os frutos.
Dá-me esse amor
que conserva tranquilo o coração,
na plenitude da paz!

Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

UM SANTO NATAL



Um Santo e abençoado Natal para todos vós.
Sintam-se abraçados fraternalmente.

"Ouvi contar esta história.
Uma criança com toda a naturalidade, voltou-se para Deus e perguntou-lhe:
"E tu, o que é que queres ser quando fores grande?"
"Pequeno", respondeu-lhe Deus, também com toda a naturalidade.
Os homens querem ser grandes, mas a grandeza de Deus está em tornar-se pequeno, em dar a vida, em desaparecer pelo bem do outro."

(Vasco Pinto de Magalhães, s.j. in "Não há soluções, há caminhos")

domingo, 20 de dezembro de 2009

FELIZ NATAL




Jesus, neste natal encontrar-nos-ás?...

Já houve um dia em que não tiveste lugar nas casas iluminadas da cidade...

Hoje, com as pernas e o Coração a Caminho,
procuro-te nas ruas enfeitadas,
nas luzes, nas montras, nos rostos,
nas mãos carregadas de presentes sem história…

Há passos apressados e sacos cheios de menoridades necessárias
que esvaziam as algibeiras
mas não vejo encherem muito os corações…
Há rostos pesados e cansados
de olhares em sobressalto
entre a mais recente promoção e os últimos nomes da lista…
Há embrulhos, laços, postais, música…

E há as crianças...

Sim, sempre elas, a dar o tom da Alegria
Sem outra preocupação senão descobrir a última novidade
no céu, no semáforo que fica intermitente
ou no rafeiro que está deitado à entrada de um prédio...

Há as crianças...

Porque a alegria da maior parte dos que não são como elas não me convence…
Estão preocupados demais
para poderem estar alegres.
Estão apressados demais
para saborearem os caminhos que percorrem.
Estão ocupados demais
para perguntarem o porquê dos gestos que fazem.

Parece-me que o natal lhes sai dos bolsos
mas não lhes entra no coração!

E depois, sem que se dêem conta,
o natal já passou.
E não ficou…

Porque inventámos um natal
onde ninguém precisa de nascer para que seja NATAL!
Porque já vai longe a lembrança
de que um dia um Menino nasceu,
antes de haver shoppings e cartões de crédito;
num país onde não havia um Pai Natal
que gostasse de andar atrelado a renas;
onde não havia pinheirinhos com luzinhas
nem se cantava Jinglebells…

E, apesar de faltar tudo isso,
consta que houve NATAL…
E hoje,
apesar de haver tudo isso,
consta que não há tanto NATAL como as montras dizem…

Rui Santiago, Derrotar Montanhas

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

QUEM É PERDOADO PERDOA


«Tenho dificuldade em perdoar quem me ofendeu verdadeiramente, principalmente quando acontece mais que uma vez. Começo a duvidar daquele que pede perdão pela segunda, terceira ou quarta vez. Mas Deus não faz contas. Deus aguarda simplesmente o nosso regresso, sem ressentimento ou desejo de vingança. Deus quer que regressemos a casa. «O Amor do Senhor é para sempre.»

Talvez o motivo porque eu tenho tanta dificuldade em perdoar aos outros seja o de não acreditar ser inteiramente perdoado. Se eu fosse capaz de aceitar como verdade que sou perdoado e não tivesse que viver com culpa e vergonha, seria verdadeiramente livre. A minha liberdade permitir-me-ia perdoar aos outros setenta vezes sete.

Não perdoando, eu próprio me acorrento ao desejo de vingança, perdendo assim a liberdade. Quem é perdoado perdoa. É isto que proclamamos quando rezamos «perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.

Esta luta duma vida inteira é o centro da vida cristã.»

(Henri Nouwen, em "A Caminho de Daybreak")

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A MISSÃO DO CRISTÃO

«O mistério do amor de Deus consiste em que os nossos corações ardentes e os nossos ouvidos e olhos receptivos possam descobrir que Aquele que encontrámos na intimidade do nosso ser continue a revelar-se a nós entre os pobres, os doentes, os famintos, os prisioneiros, os refugiados e todas as pessoas que vivem no medo.

Assim percebemos finalmente que a nossa missão não consiste apenas em ir falar do Senhor ressuscitado aos outros, mas também em receber esse testemunho daqueles a quem somos enviados.
Muitas vezes, a missão é vista exclusivamente em termos de dar, mas a verdadeira missão também é receber. Se é verdade que o Espírito de Jesus sopra onde quer, não há ninguém que não possa transmitir esse mesmo Espírito. A longo prazo, a missão só é possível na medida em que for tanto receber como dar, tanto ser amado como amar. Nós somos enviados aos doentes, aos moribundos, aos deficientes, aos prisioneiros e aos refugiados para lhes levar a boa nova da ressurreição do Senhor.
Em breve, porém, ficaremos queimados, se não conseguirmos receber o Espírito do Senhor daqueles a quem somos enviados.

Esse Espírito, o Espírito de amor, está escondido na sua pobreza, fragilidade e dor. Foi por isso que Jesus disse: «Bem aventurados os pobres, os perseguidos, os que choram.» De cada vez que lhes estendermos a mão, eles, por sua vez – quer tenham consciência disso quer não – abençoar-nos-ão com o Espírito de Jesus, tornando-se assim nossos ministros.

Sem esta troca mútua de dar e receber, missão e ministério tornam-se facilmente manipuladores ou violentos. Quando só um é que dá e o outro recebe, quem dá, em breve, torna-se opressor e quem recebe torna-se vítima. No entanto, quando o que dá recebe e o que recebe dá, o círculo de amor, iniciado na comunidade dos discípulos, pode crescer até abarcar o mundo.»

(Henri Nouwen, em “Não nos ardia o coração?”)

domingo, 13 de dezembro de 2009

VIVER E PENSAR COMO JESUS


«Quando os olhos de Jesus observavam as ruas e ladeiras, ele sentia compaixão porque as pessoas estavam desorientadas. Ele lamentou por Jerusalém. Suas palavras não vinham carregadas de repreensão e humilhação, castigo e moralismo, acusação e condenação, ridicularização e depreciação, ameaça e chantagem, avaliação e rotulagem.
Sua mente era constantemente habitada pelo perdão de Deus. Ele tomou a iniciativa de procurar os pecadores e justificou sua incrível facilidade e familiaridade com eles por meio de parábolas de misericórdia divina. (...)

Ele era impiedoso somente com aqueles que mostravam desprezo pela dignidade humana, e não tinha compaixão dos que punham intoleráveis fardos nas costas de outros, eles próprios se recusando a carregá-los. Jesus desmascarou as ilusões e boas intenções superficiais dos fariseus pelo que eles eram, chamando-os hipócritas: "Raça de víboras" (Mt 12:34). Ele não compactuava com os que não mostravam misericórdia ou compaixão.
Viver e pensar como Jesus é descobrir a sinceridade, a bondade e a verdade muitas vezes ocultas por trás do grosso e áspero exterior de nossos semelhantes. É ver nos outros o bem que eles próprios não vêem e afirmá-lo em face de poderosas evidências em contrário. (...)

Brennan Manning, em "Convite à loucura"

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

DEUS É AMOR


«Ao escolher a pobreza, a humildade, a fraqueza e a dor, Deus não Se apropriou de qualidades que não possuía para Se tornar mais atraente!
Procurou valores humanos que, de algum modo, correspondessem a valores divinos.

Quando Ele se define Amor e se declara vulnerável não está a qualificar assim a Sua natureza humana mas a revelar algo da Sua natureza divina.»

Louis Evely, em "Sofrimento"

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

VIVER PELA GRAÇA DIVINA


«O que resta de autêntico na minha vida?» é a pergunta que de vez em quando ouço, depois de a pessoa ter feito uma lista dos seus motivos escondidos, descobertos em situações e acções em que fora particularmente fiel...

O que sobre de autêntico na nossa vida é o que vem de Deus e não de nós mesmos; da sua graça e não dos nossos próprios méritos.»

Paul Tournier, em "Culpa e Graça"

domingo, 6 de dezembro de 2009

VISLUMBRES DA GRAÇA DIVINA


«A graça não pode ser armazenada; nós só temos vislumbres dela...

Mas esses momentos têm sabor suficiente para nos fazer entrever o verdadeiro relacionamento humano e nos fazer desejá-lo ardentemente.» Paul Tournier, em "Culpa e Graça"

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O «OURO» OU OS «LADRÕES»?

Um antigo mestre cristão disse uma vez ao seu discípulo: «Estás carregado de ouro; cuidado com os ladrões». Nós, da mesma forma que esse discípulo, também estamos carregados de ouro porque temos Jesus.
Mas devemos estar alerta; ter cuidado com os ladrões porque estão sempre à espreita.
Podemos encontrá-los dentro da sociedade que nos quer arrastar para um estilo de vida em muitas ocasiões não muito próximo do Evangelho. Mas também os podemos encontrar dentro de nós mesmos. E têm nomes: preguiça, passividade, egoísmo, falta de relação com Deus...
Nós estamos carregados de ouro porque Jesus é o nosso grande tesouro.
Mas, embora queira habitar em todos os corações, embora se dê gratuitamente, temos de ter os meios para O reconhecer, O experimentar e viver.

Quem não se preocupa com a sua vida, jamais estará próximo de Deus, apesar de Deus estar perto d`Ele. Quem não se preocupa com a sua vida, começará a perder este enorme tesouro que é Jesus. Quem não se preocupa com a sua vida, deixará de ter medo aos ladrões, porque deixará de estar carregado de ouro. Quem não se preocupa com a sua vida perderá o melhor que tem: ele mesmo.

Na nossa vida estão presentes o «ouro» e os «ladrões». Por qual dos dois queremos apostar?»

Pedro Muñoz Peñas, em "Orar com Deus"

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

UM DEUS VIVO

«Tomemos cuidado para não despojar Deus da sua humanidade, sob o pretexto de libertarmo-nos de um antromorfismo ingénuo, pois então não teríamos mais que um Deus glacial, remoto, imutável, na eternidade, estranho à vida, estranho à hsitória, estranho à nossa própria vida, um Deus de filósofos e não o Deus vivo da Bíblia. Um Deus sem sentimentos seria, se ouso dizer, um Deus sem alma, morto, mais morto ainda que o deus de Nietzsche.

O Deus da Bíblia é o Deus que entra na história, que age, fala e combate. Ele trava uma dura luta com o homem, para arrancá-lo de sua desgraça, oferecendo-lhe sua salvação final.
A Bíblia descreve a relação entre Deus e o homem como um combate, um conflito, onde Deus age tanto mais forte quanto mais o homem se endurece, para arrancá-lo deste endurecimento nefasto.»

Paul Tournier, em "Culpa e Graça"

domingo, 29 de novembro de 2009

SÓ EXISTE UM INFERNO

«Só existe um inferno e talvez já o tenhas conhecido: é o lugar onde nada se espera, onde não se ama absolutamente ninguém e de ninguém se atende absolutamente nada, onde não se tem confiança em ninguém...
Isto é a tentação. A nossa tentação. De todos. É o pecado infernal que nos assediará até ao fim dos nossos dias: a instalação definitiva no canto (onde nos deixarão em paz, onde acabaremos por não sofrer mais, por não escutar mais nenhum apelo, onde a dilacerante comunicação será, por fim, cortada. Extinta). Isto é Inferno. Ter perdido o gosto de amar - para não sofrer mais.»

Louis Evely, em "Sofrimento"

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O SOFRIMENTO E A VERDADE

«O sofrimento não nos aproxima necessariamente da virtude, mas aproxima-nos sempre da verdade.(...)

«O que, para a maioria das criaturas nem o amor nem a oração nem a poesia nem a arte puderam conseguir, só a morte e o sofrimento serão capazes de o alcançar. Mas talvez ainda venha um dia em que o amor, a arte e a oração exerçam tal poder sobre nós que possamos ser dispensados de sofrer e de morrer.»

Louis Evely, em "Sofrimento"

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O NOSSO PODER SOBRE DEUS

«Amar um ser representa, inevitavelmente, depender dele; dar-lhe poder sobre vós.
Deus amou-nos livremente, Deus deu-nos poder sobre Ele. Deus quis ter necessidade de nós.

A Paixão é a revelação do nosso terrível poder sobre Deus. Ele entregou-se a nós, tivemo-Lo à nossa disposição, fizemos dele o que quisemos.

Na Normandia, lê-se. sobre os pratos, esta frase cruel: "Aquele que menos ama é sempre o mais forte!" É sempre o menos enamorado que obriga o outro a andar, que conserva a cabeça fresca e o domínio da situação. Deus, em relação a nós, será sempre o mais fraco porque nos ama.

Podemos renegar, esquecer Deus;
Deus não pode renegar-nos nem esquecer-nos.
Nós poderemos estar sem Deus; Deus não pode estar sem os homens.
Nós podemos deixar de ser filhos; Ele não pode cessar de ser Pai.

«O homem revoltado contra Deus é o pássaro que, na tempestade, se lança contra a falésia. Mas Deus, na Sua piedade, fez-se carne para que a violência do choque fosse suportada por Ele e não por nós.»

Assim, Deus será sempre o mais fraco contra nós, porque nos ama.»

Louis Evely, em "Sofrimento"

domingo, 22 de novembro de 2009

UMA DESINTEGRAÇÃO ATÓMICA

«Deus é um risco total. Abrir-se a Deus é dar um salto mortal.

O amor descentra e liberta. Mas é preciso começar por mergulhar. Por saltar da cama tépida e confortável. Quem perde a sua vida, salva-a. Mas importa, primeiramente, aceitar «perder». É indispensável passar por este despojamento doloroso.

Passar do egoísmo para o amor é quase tão violento como uma desintegração atómica. Coisa parecida.

O que constitui a integridade do átomo é ele ser um sistema fechado onde os electrões giram, continuamente, em redor do seu núcleo.
Tudo salta, tudo estremece, tudo se anima, quando um electrão, por virtude dum inaudito dinamismo, se desprende desta ronda infernal, se interessa por um centro que não é o seu e ingressa no circuito de um outro.

Quando nos pomos a amar, quer dizer a preferir à nossa vontade a vontade de alguém que não somos nós, opera-se uma reviravolta psicológica da mesma ordem.

Mas é este o preço da vida eterna. Porque a vida eterna é amor.»

Louis Evely, em "Sofrimento"

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A EDUCAÇÃO CRISTÃ

«A educação cristã é, primariamente, educação para a Paternidade de Deus e não para o Sacrifício; para o amor de Deus por nós e não para o nosso amor por Deus; para aquilo que Deus fez por nós e não para o que nós fazemos por Deus.» Louis Evely, em "Sofrimento"

terça-feira, 17 de novembro de 2009

SÓ DEUS SALVA

«A maior parte das pessoas lê a Bíblia como se ela fosse um código moral revestido de autoridade sagrada, um conjunto de prescrições cuja estrita observância deveria nos assegurar uma existência isenta de culpa. Bela utopia, na verdade! Mas como a Bíblia não pode ser obediência em todos os seus detalhes, nasce um desespero, uma angústia neurótica de cometer algum sacrilégio, uma culpa que não encontra solução. (...)

O sentido do Sermão do Monte não será o de uma receita para se libertar da culpa por uma conduta meritória. Muito pelo contrário. É a palavra que abala, que sacode, que convence de morte aquele que não perjurou; de adultério aquele que não o cometeu; de ódio aquele que vangloriou de amor, e de hipocrisia aquele que era conhecido por sua piedade. Como se vê, é totalmente o contrário de um código moral; pode-se muito mais compará-lo com um diálogo socrático sobre a impotência do homem em atender à virtude autêntica e assim se justificar por sua conduta impecável.»

Paul Tournier, em "Culpa e Graça"

domingo, 15 de novembro de 2009

A LINGUAGEM DE DEUS

«Deus fala-nos em todo o tempo. Fala-nos desde sempre na Sua linguagem, nesta severa e simples linguagem da nossa existência quotidiana.
E nós não O ouvimos porque preferíamos que Ele falasse na nossa linguagem, na linguagem da felicidade como nós a sonhamos, através de pobres e estúpidas satisfações de sentimento, de amor-próprio ou de conforto, únicas mensagens que estamos decididos a reconhecer como suas.

Mas Deus fala-nos na Sua linguagem, com perseverança. Deus fala-nos nessa língua, para nós desconhecida e que temos repugnância em aprender, da aceitação, do sacrifício, da renúncia, do plano prodigiosamente vasto, inimaginavelmente audacioso, duma generosidade inconcebível, pelo qual Ele nos quer salvar, a nós e o mundo.

Deus fala-nos sem cessar através dos acontecimentos da nossa vida, através da obstinação com que Ele contraria os nossos mesquinhos arranjos humanos, pela regularidade com que decepciona os nossos projectos e as nossas tentativas de evasão, pelo fracasso perpétuo de todos os nossos cálculos para nos dispensarmos d`Ele.
E pouco a pouco, Ele nos educa e nos familiariza. E um dia, quando estamos cravados numa cama, humilhados por um fracasso, isolados por uma desgraça, esmagados pela sensação da nossa impotência; um dia, Ele consegue resignar-nos a escutar a Sua linguagem, a admitir a Sua presença e a reconhecer a Sua Vontade.

E percebemos então que Ele nos falava a toda a hora

Louis Evely, em "Sofrimento"

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

TRANSFORMADOS EM AMOR

«Não podemos crer que Deus nos ama, sem acreditar que tal amor nos confere um valor. (...)

O amor de Deus não nos impele somente a fazer o que não teríamos feito mas permite-nos vir a ser o que não seríamos: um ser infinitamente mais aberto, mais ágil, mais abandonado, mais alegre, mais irradiante, mais calmo do que aquele que teríamos forjado e cuja desoladora imagem nos obstinamos, em conservar. Um ser mais amável, em suma.

«Simão, tenho uma coisa a dizer-te... Aquele a quem se perdoa pouco, ama pouco. Aquele a quem se perdoa muito, muito ama».

Só Deus sabe amar. E somente os que sabem ser assim amados, perdoados são capazes de por sua vez amar. Aquele que ama nasceu de Deus (I João 4, 7). E conhece Deus. Só aqueles que responderam a este amor, retribuindo-o, comunicando-o, serão convidados a entrar mais profundamente nele.
«As minhas ovelhas conhecem a minha voz. E seguem-me». Não descansarão enquanto não fizerem pelos outros o que Deus fez por eles. Este novo ser que Deus neles acordou, aquele rosto que lhes apresentou e no qual puderam finalmente reconhecer-se e aceitar-se, irão eles agora, com igual amor e a mesma paciência, ajudar os outros a descobri-lo em si. Vão auxiliar outros a descobrirem-se capazes daquela fidelidade, daquela gratidão, daquela ternura cuja revelação receberam.

Porque o mandamento de Jesus não é: Amai-vos uns aos outros, mas: Amai-vos uns aos outros como eu vos amei (Jo 15, 12).

Louis Evely, em "Tu és esse homem"

terça-feira, 10 de novembro de 2009

TUDO CANTA A GLÓRIA DO SENHOR


«Quando rezava, no fundo do meu coração, tudo o que me cercava aparecia sob um aspecto maravilhoso: árvores, ervas, pássaros, terra, água, ar... tudo parecia dizer-me que existem para o homem, que através do Amor de Deus, tudo rezava, tudo cantava a glória do Senhor. Compreendia assim aquilo que a Filocalia chama de consciência, o conhecimento da linguagem da criação, e via como é possível conversar com as criaturas de Deus»

domingo, 8 de novembro de 2009

AQUELE QUE TUDO CRIOU...


"É preciso lembrar-se de Deus em todo tempo, em todo lugar e em todas as coisas.
Se fabricas alguma coisa, deves pensar no Criador de tudo o que existe;
se vês a luz do dia, lembra-te Daquele que criou a luz para ti;
se olhas o céu, a terra e o mar e tudo o que eles contêm,
admira, glorifica Aquele que tudo criou;
se te vestes com uma roupa, pensa Naquele de quem a recebeste e lhe agradece,
a Ele que provê a tua existência.
Em resumo, que todo movimento seja para ti um motivo para celebrar o Senhor:
assim rezarás sem cessar e tua alma estará sempre alegre".

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (3ª PARTE)

«A nossa atitude espiritual, o nosso caminho de procura de paz e perfeição, dependem inteiramente do nosso conceito de Deus.
Se formos capazes de acreditar que Ele é verdadeiramente o nosso Pai amoroso, se conseguirmos realmente aceitar a verdade da sua infinita e compassiva preocupação por nós, se acreditarmos que Ele nos ama, não porque somos merecedores, mas porque precisamos do seu amor, podemos então avançar com confiança. Não seremos desencorajados pelas nossas inevitáveis fraquezas e fracassos. Podemos fazer tudo o que Ele nos pede.

Mas se acreditarmos que Ele é um austero e frio legislador, que não tem verdadeiro interesse por nós, um mero governante, um senhor, um juiz e não um pai, teremos grande dificuldade em viver a vida cristã.
Precisamos, por isso, de começar a acreditar que Deus é o nosso Pai; se assim não for, não conseguiremos enfrentar as dificuldades do caminho da perfeição cristã.
Sem fé, o "caminho estreito" é completamente impossível.»

Thomas Merton, em "Vida e Santidade"

terça-feira, 3 de novembro de 2009

EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (2ª PARTE)

«"Ser perfeito" não é tanto uma questão de procurar Deus com ardor e generosidade, mas de ser procurado, amado e possuído por Deus, de tal modo que a sua acção em nós nos torna completamente generosos, e nos ajuda a transcender as nossas limitações e a reagir contra a nossa fraqueza.
Tornamo-nos santos, não por dominarmos violentamente a nossa fraqueza, mas por deixarmos que Deus nos dê a força e a pureza do Espírito, em troca da nossa fraqueza e miséria.
Não compliquemos as nossas vidas nem nos frustremos, fixando demasiado a atenção em nós mesmos, esquecendo assim o poder de Deus e ofendendo o Espírito Santo.»

Thomas Merton, em "Vida e Santidade"

domingo, 1 de novembro de 2009

EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (1ª PARTE)

«Uma pessoa não se torna perfeita, quando pratica na sua vida um padrão uniforme de perfeição universal, mas quando responde à chamada e ao amor de Deus, realizada nas limitações e circunstâncias da sua vocação particular.
De facto, a nossa procura de Deus não é de modo algum uma questão de O encontrar através de certas técnicas ascéticas. É antes uma pacificação e ordenação de toda a nossa vida pela negação de si mesmo, pela oração e boas obras, para que o próprio Deus, que nos procura mais do que nós O procuramos, possa "encontrar-nos" e "tomar posse de nós".

Thomas Merton, em "Vida e Santidade"

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

VIDA NO ESPÍRITO

«A "vida espiritual" é a vida perfeitamente equilibrada, em que o corpo com as suas paixões e instintos, o espírito iluminado passivamente pela Luz e o Amor de Deus, formam um homem completo, que está em Deus e com Deus, de Deus e para Deus - um homem em quem Deus é tudo em tudo, um homem em quem Deus realiza, sem obstáculos, a Sua própria Vontade.»

Thomas Merton, em "Novas sementes de contemplação"

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O QUE É A LIBERDADE? (2ª parte)

«Toda a verdadeira liberdade é-nos outorgada como um dom sobrenatural de Deus, uma participação na sua própria Liberdade essencial pelo Amor que Ele derrama nos nossos corações, unindo-nos a Ele, primeiro por um acordo total, depois pela união transformante de vontades.

A outra liberdade, a denominada liberdade natural, isto é, a indiferença a respeito das boas e más escolhas, não é senão uma capacidade, uma potencialidade à espera de ser transformada pela graça, a vontade e o amor sobrenatural de Deus.

Todo o bem, toda a perfeição, toda a felicidade se encontram na infinitamente boa, perfeita e abençoada vontade de Deus. E como a verdadeira liberdade significa a capacidade de desejar e escolher sempre, sem errar, sem desfalecer, o que é realmente bom, então, a liberdade só poderá encontrar-se na perfeita união e submissão à vontade de Deus. Se a nossa vontade seguir a sua, alcançará o mesmo fim, gozará da mesma paz e será repleta da infinita felicidade que Lhe é própria.

Por isso, a definição mais simples de liberdade é esta: significa a capacidade de cumprir a vontade de Deus. Ser capaz de resistir à sua vontade é não ser livre. Não existe nenhuma liberdade no pecado

Thomas Merton, em "Novas sementes de contemplação"

domingo, 25 de outubro de 2009

O QUE É A LIBERDADE? (1ª parte)

«A faculdade pura e simples de escolher entre o bem e o mal é o grau mais ínfimo da liberdade, e, nele, o único elemento livre é podermos ainda escolher o bem.

Enquanto tivermos liberdade de escolher o mal, não somos livres, porque escolher o mal destrói a liberdade.
Nunca podemos escolher o mal enquanto mal: somente como um bem aparente. Mas se decidimos fazer alguma coisa que nos parece boa, quando realmente não o é, estamos a fazer o que realmente não queríamos fazer, e, por isso, não somos verdadeiramente livres.

A liberdade... não consiste num equilíbrio entre boas e más escolhas, mas em amar e aceitar o que é realmente bom, e odiar e rejeitar o que é mau, de maneira que tudo o que fazemos é bom e faz-nos felizes, e recusamos, rejeitamos e ignoramos tudo o que poderia conduzir-nos à infelicidade, decepção e sofrimento profundo.

Só é verdadeiramente livre o homem que rejeitou tão completamente o mal que se tornou incapaz de o desejar.»

Thomas Merton, em "Novas sementes de contemplação"

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A EXPERIÊNCIA DO ABANDONO

«Exprimo aquilo que a maior parte dos homens sente obscuramente. Sim, entre as pessoas que conheci, as ocasiões que me foram oferecidas, as minhas intuições, existem semelhanças.
O que veio de fora encontra em mim um acordo com o que me foi ordenado de dentro: o eixo, a vocação, o dever, a razão de ser. E é este acordo entre exterior e interior que me dá não a impressão mas a certeza de que existe um Outro ligado a mim, certamente não para me corromper através da felicidade mas, pelo contrário, para me apoiar, para me elevar, para me fazer crescer graças aos obstáculos que doseia. (...)

Quando reflicto na relação destes acontecimentos com as minhas orações, apercebo-me de que a presença do Ser aumenta de densidade na medida em que me desinteresso, que renuncio a mim próprio e, como se diz agora, me esforço para me omitir. (...)

Se resolvo esquecer, confiar-me verdadeiramente ao Hospedeiro, encontro-o. É aqui que reconheço a eficácia do dom de si mesmo, da perda inteira de si mesmo. Quando esta perda é total, quando está ligada à felicidade, quando conhecemos a emoção triunfante do abandono, então somos senhores das coisas. E o acontecimento chega, imprevisto, surpreendente e gracioso.
Mas é muito difícil conseguir este abandono total. Somos sempre retidos por um cabelo, por um pequeno nada que se transforma em tudo. É a pobreza que produz riqueza, é o abandono que dá poder. Esta experiência, que fiz frequentemente ao longo da minha vida, de um vínculo entre o abandono de si mesmo e a chegada de circunstâncias favoráveis, creio que todos podem fazê-la e é uma prova singular, embora indizível, da existência desse Outro. (...)

É preciso dizer que a experiência é frequentemente dolorosa. Constato que o Outro se ocupa, sem cessar, a destruir o que eu creio desejar, para realizar o que eu quero mais profundamente do que desejo. Por estes seus atalhos que são, muitas vezes, o contrário do que eu teria escolhido, quebra os meus projectos - até ao dia em que o molde se partirá e eu verei o meu destino, em que saberei, por fim, o meu verdadeiro nome, o meu lugar no conjunto das coisas, o meu papel neste mundo: em resumo, tudo o que ainda ignoro e que sinto confusamente neste noite deliciosa a que chamamos a vida.»

Jean Guitton, em "As minhas razões de crer"

terça-feira, 20 de outubro de 2009

REZAR

«Rezar é abraçar o mundo na sua totalidade, continuando com as raízes no mundo e no tempo. É pôr as mãos em concha para ouvir, decifrar o sentido oculto, adivinhar os acenos e os murmúrios. Depois arregaçar as mangas para a resposta, reunir forças para ser senhor de si próprio. E a partir daí soltar as velas e reorientar a vida na crista das ondas.

Rezar é calar para escutar a música profunda que ecoa em nós.

A salvação é a descoberta e o reconhecimento em nós desta possibilidade de grandeza que torna incapaz a alienação.»

Henrique Manuel, em "Mas Há Sinais..."

domingo, 18 de outubro de 2009

SEGUE O CAMINHO DA HUMILDADE

É na humildade que se encontra a maior liberdade.(...)

É só quando deixamos de prestar atenção aos nossos feitos, à nossa fama e à nossa superioridade, que estamos finalmente livres para servir Deus perfeitamente e por Ele só.

A pessoa que não está despojada, pobre e despida no íntimo da sua alma tenderá insconscientemente a realizar em seu proveito as obras que tem a fazer, mais do que para a glória de Deus. Será virtuosa não porque ame a vontade de Deus, mas porque deseja admirar as suas virtudes pessoais. Mas cada momento do dia irá trazer-lhe alguma frustração que a tornará ríspida e impaciente, e será descoberta na sua impaciência.

Planeou executar actos espectaculares. Não pode imaginar-se sem uma auréola. E, quando os acontecimentos da sua vida diária lhe vão recordando a sua insignificância e mediocridade, fica envergonhado e o orgulho impede-o de engolir uma verdade que não surpreenderia qualquer pessoa sensata.

Thomas Merton, em "Novas sementes de contemplação"

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O QUE É O PECADO?

«O pecado é a recusa da vida espiritual, a rejeição da ordem interior e da paz, que vêm da nossa união com a vontade divina.
Numa palavra, o pecado é a recusa da vontade de Deus e do seu amor.

Não é apenas a recusa de fazer esta ou aquela coisa desejada por Deus, ou uma determinação para fazer o que é proibido.
É, mais radicalmente, a recusa de sermos o que somos, uma rejeição da nossa realidade misteriosa, contingente e espiritual, escondida no próprio mistério de Deus.

O pecado é a nossa recusa de sermos aquilo para que fomos criados - filhos de Deus, imagens de Deus.»

Thomas Merton, em "Vida e Santidade"

terça-feira, 13 de outubro de 2009

TESTEMUNHAS VIVAS DO AMOR DE DEUS

«Todas as relações humanas, sejam elas entre pais e filhos, maridos e esposas, apaixonados e amigos, sejam elas entre membros duma comunidade, são para serem sinais do amor de Deus pela humanidade com um todo e por cada pessoa em particular. Este é um ponto de vista pouco comum, mas é o ponto de vista de Jesus. Jesus diz: «Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei. É nisso que todos reconhecerão que sois meus discípulos» (Jo 13, 34-35). E como é que Jesus nos ama? Ele diz: «Como o Pai Me amou, assim vos amei Eu» (Jo 15, 9). O amor de Jesus por nós é a plena expressão do amor de Deus por nós, porque Jesus e o Pai são um. «O que Eu vos digo», diz Jesus, «não o digo de Mim mesmo, mas o Pai que está em Mim é que faz as obras. Acreditai que estou no Pai e o Pai em Mim» (Jo 14, 10-11).

Estas palavras, à primeira vista, podem parecer sobremaneira irreais e mistificadoras, mas têm implicações directas e radicais quanto à maneira de vivermos o nosso relacionamento diário.

Jesus revela-nos que somos chamados por Deus a ser testemunhas vivas do amor de Deus. E tornamo-nos essas testemunhas seguindo a Jesus e amando-nos mutuamente com Ele nos ama. O que tem isto a ver com o casamento, a amizade e a comunidade? É que a fonte do amor que sustenta estas relações não são os parceiros em si mesmos mas Deus que junta os parceiros.

Amar-se reciprocamente não é agarrar-se uns aos outros de modo a encontrar segurança num mundo hostil, mas viver em conjunto de tal maneira que todos nos reconheçam como povo que torna o amor de Deus visível no mundo. Não só provém de Deus toda a paternidade e maternidade, mas também toda a amizade, a camaradagem e o matrimónio, bem como a verdadeira intimidade e comunidade.

Quando vivemos como se as relações humanas fossem uma criação dos homens e, portanto, sujeitas às voltas e às mudanças dos regulamentos e costumes humanos, não podemos esperar nada senão uma imensa fragmentação e alienação que, de resto, caracterizam a nossa sociedade. Mas, quando proclamamos e reclamamos constantemente Deus como a fonte de todo o amor, então descobriremos o amor como um dom de Deus ao seu povo.»

Henri Nouwen, em "Aqui e Agora"

domingo, 11 de outubro de 2009

O AMOR DE DEUS

O Amor vem de Deus e leva-nos para Deus para retornar a Ele através de nós e nos levar a todos de volta para Ele na corrente da sua infinita misericórdia.

Assim, todos nós passamos a ser portas e janelas através das quais a luz de Deus se reflecte no interior da sua própria casa.

Quando o amor de Deus está em mim, Deus é capaz de amar-te através de mim e tu és capaz de amar Deus através de mim. Se a minha alma estiver fechada a esse amor, o amor de Deus por ti, o teu amor a Deus e o amor de Deus por Ele próprio em ti e em mim, ficariam privados da expressão particular que encontra através de mim e de mais ninguém.

Porque o amor de Deus está em mim, ele pode chegar a ti desde uma direcção diferente e particular, que se encontraria fechada se Ele não vivesse em mim. E, porque o seu amor está em ti, pode chegar até mim desde uma direcção que não poderia tomar de qualquer outro modo. E porque está em ti e em mim, Deus recebe uma glória maior.
O seu amor exprime-se de mais duas maneiras nas quais não poderia exprimir-se de outro modo; isto é, em mais duas alegrias, que não poderiam existir sem Ele.

Thomas Merton, em "Novas sementes de contemplação"

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O BEM ACIMA DE TUDO

"Nunca se sabe todo o bem que se faz quando nos pomos a fazer o bem." (G. Courtois)

"Jamais se perde o bem que se faz." (Fenelon)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

UMA VIDA AGRADECIDA

Como poderemos viver realmente uma vida em acção de graças?
Quando olhamos para trás e vemos tudo o que nos aconteceu, facilmente dividimos a nossa vida em várias fases, com coisas boas a agradecer e coisas más para esquecer. Mas, como um passado assim dividido, não podemos caminhar livremente em direcção ao futuro. Com tantas coisas para esquecer, o máximo que podemos fazer é coxear rumo ao futuro.

A gratidão espiritual abarca todo o nosso passado, tanto os bons como os maus eventos, tanto os momentos alegres como os tristes.
Do lugar em que nos encontramos, podemos concluir que tudo o que nos aconteceu nos trouxe a este lugar. Recordemos tudo isso como parte do plano de Deus que nos conduz. Isso não quer dizer que tudo o que nos aconteceu no passado seja bom, mas quer dizer que mesmo o mal não aconteceu fora da presença amorosa de Deus.

Os sofrimentos do próprio Jesus foram-lhe causados pelas forças das trevas. Mesmo assim, Ele fala dos seus sofrimentos e morte como o caminho da glória.

É muito difícil colocar todo o nosso passado sob a luz da gratidão. Há muitas coisas de que nos sentimos culpados e envergonhados, muitas coisas que desejaríamos que pura e simplesmente não tivessem acontecido.
Mas, cada vez que temos a coragem de olhar para elas «na sua totalidade» e de as ver como Deus as vê, então a nossa culpa torna-se uma culpa feliz e a nossa vergonha uma vergonha feliz, porque provocam em nós um reconhecimento mais profundo da misericórdia de Deus, uma convicção mais forte de que é Deus quem nos conduz e um empenho mais radical na aceitação da vida ao serviço de Deus.

Desde que todo o nosso passado seja recordado com gratidão, adquirimos a liberdade para ser enviados para o mundo a proclamar a Boa Nova aos outros.
Assim como as negações de Pedro não o paralizaram, mas, uma vez perdoado, se tornaram uma nova fonte de fidelidade, assim também as nossas falhas e traições podem transformar-se em gratidão e capacitar-nos a ser mensageiros de esperança.

Henri Nouwen, em "Aqui e Agora"

domingo, 4 de outubro de 2009

VERDADEIRAMENTE HUMANOS

Enquanto não compreendermos que, antes de o homem se tornar santo tem de ser primeiro homem, com toda a humanidade e fragilidade da verdadeira condição humana, não seremos capazes de entender o significado da palavra "santo". (...)

Se devemos ser "perfeitos" como Cristo é perfeito, devemos lutar para sermos tão perfeitamente humanos como Ele, de modo que Ele possa unir-nos com o seu divino ser e partilhar connosco a sua filiação do Pai do céu. Assim, a santidade não é uma questão de ser menos humano, antes mais humano do que os outros homens. Isto implica uma maior capacidade de preocupação, sofrimento, compreensão, simpatia e também de humor, alegria e valorização das coisas boas e belas da vida.

Por conseguinte, um pretenso "caminho de perfeição", que simplesmente destrói ou frustra os valores humanos, precisamente porque são humanos, tendo como ideal a atingir a separação dos outros homens, está condenado a não ser mais do que uma caricatura. E tal caricatura de santidade é, sem dúvida, um pecado contra a fé na Incarnação. Evidencia desprezo pela humanidade, pela qual Cristo não hesitou em morrer na cruz.»

Thomas Merton, em "Vida e Santidade"

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

DEUS HÁ-DE SABER OUVIR-TE

«Quatro séculos depois de Cristo, Santo Agostinho escrevia estas palavras que permanecem mais actuais do que nunca: «Existe uma voz do coração e um idioma do coração. Esta voz interior é a nossa oração quando os nosso lábios se fecham e a nossa alma se abre diante de Deus. Calamo-nos, mas o nosso coração fala; não já aos ouvidos humanos, mas a Deus. Não duvides: Deus há-de saber ouvir-te.»

Irmão Roger de Taizé, em "Em tudo a paz do coração"

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A UNIÃO COM CRISTO

"Não nos servirá de nada fazer do Evangelho uma moral - porque não a poderemos praticar - se não fazemos dele ao mesmo tempo uma mística que consiste na nossa união com Cristo, na nossa inserção na sua pessoa.

Infelizmente muitos dos que se dizem cristãos não chegam a fazer isto e vivem obcecados pelos mandamentos, dos quais defendem ferozmente os princípios sem chegar a praticá-los, não tendo a menor experiência do que é a oração, o olhar de Cristo sobre eles, a familiaridade com Ele, o abandono à sua misericórdia."

(A.M. Besnard)

domingo, 27 de setembro de 2009

VIDA DE AMOR

«Toda a vida cristã consiste na procura da vontade de Deus com uma fé amorosa e no cumprimento dessa vontade abençoada, através de um amor fiel. (...)

Quando perdemos de vista o elemento central da santidade cristã, que é o amor, e quando esquecemos que o caminho para cumprir o mandamento cristão do amor não é algo de remoto e esotérico, mas sim algo que está imediatamente diante de nós, então a vida cristã torna-se complicada e muito confusa. Perde a simplicidade e a unidade que Cristo lhe deu no seu evangelho, e torna-se um labirinto de preceitos sem conexão, conselhos, princípios ascéticos, casos morais e até detalhes técnicos legais e rituais. Estas coisas tornam-se dificeis de entender, na medida em que perdem a sua conexão com a caridade que as une e lhes dá uma orientação para Cristo.»

Thomas Merton, em "Vida e Santidade"

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

AS MINHAS TREVAS

«Jesus Cristo, luz do meu coração, não permitas que as minhas trevas falem comigo.»

Ao escrever esta oração, Santo Agostinho teve a seguinte intuição: quando as nossas próprias trevas atraem a nossa atenção, logo surge uma contenda interior com aquilo que nos faz mal, em nós mesmos. Aonde é que isso poderá conduzir? A lado nenhum.»

Irmão Roger, de Taizé, em "Em tudo a paz do coração"

terça-feira, 22 de setembro de 2009

LEMBRAR-SE DE DEUS

"É preciso lembrar-se de Deus em todo tempo, em todo lugar e em todas as coisas. Se fabricas alguma coisa, deves pensar no Criador de tudo o que existe; se vês a luz do dia, lembra-te Daquele que criou a luz para ti; se olhas o céu, a terra e o mar e tudo o que eles contêm, admira, glorifica Aquele que tudo criou; se te vestes com uma roupa, pensa Naquele de quem a recebeste e lhe agradece, a Ele que provê a tua existência. Em resumo, que todo movimento seja para ti um motivo para celebrar o Senhor: assim rezarás sem cessar e tua alma estará sempre alegre".

Excerto do livro "Relatos de um Peregrino Russo"

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O PESO DO JULGAMENTO


Henri Nouwen (24 de Janeiro de 1932 - 21 de Setembro de1996)
Passam hoje 13 anos sobre a morte de Henri Nouwen.

Convido-vos a ler a homenagem que lhe prestei há precisamente um ano: http://seguirjesus.blogspot.com/2008/09/henri-nouwen.html


«Imaginemos que não temos nenhuma necessidade de julgar ninguém. Imaginemos que não temos nenhuma vontade de decidir se alguém é boa ou má pessoa. Imaginemos que somos completamente livres de sentir e ajuizar sobre o tipo de comportamento, seja de quem for. Imaginemos-nos com a capacidade para dizer: «Não vou julgar ninguém!»

Imaginemos - não seria isto uma autêntica liberdade interior? Os Padres do deserto do século IV diziam: «Julgar os outros é um fardo pesado.» Eu tive alguns momentos na vida em que me senti livre da necessidade de fazer qualquer juízo de valor acerca dos outros. Senti que me tinha sido tirado um peso dos ombros. Nesses momentos, experimentei um amor imenso por todos os que encontrei, por todos aqueles de quem ouvi algumas coisas e, sobretudo, por aqueles dos quais li algumas coisas. Uma solidariedade profunda com todos os povos e um profundo desejo de os amar desceram as paredes do meu íntimo e tornaram o meu coração grande como o universo.

Um desses momentos ocorreu depois duma passagem de sete meses por um mosteiro de Trapistas. Vivia tão inundado da bondade de Deus que via essa bondade onde quer que fosse, mesmo atrás das fachadas de violência, destruição e crime. Tive que me coibir de abraçar as mulheres e homens que me venderam géneros alimentícios, flores e um fato novo. É que todos me pareciam santos!

Todos podemos desfrutar destes momentos se estivermos atentos ao movimento do Espírito de Deus dentro de nós. São como amostras do céu, de beleza e de paz. É fácil descartar estes momentos como produto dos nosso sonhos ou da nossa imaginação poética. Mas, quando optamos por pedi-los como uma forma de Deus nos dar umas pancadinhas no ombro e de nos mostrar a verdade mais profunda da existência, gradualmente somos capazes de ultrapassar a necessidade de julgar os outros e a inclinação para ajuizar acerca de tudo e de todos. Então poderemos crescer rumo a uma verdadeira liberdade interior e a uma verdadeira santidade.

Mas, só poderemos pôr de lado o fardo pesado de julgar os outros quando não nos importamos de suportar o ligeiro peso de ser julgados!»

Henri Nouwen, em "Aqui e Agora"

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O INFERNO

«O inferno é a solidão onde o amor já não pode entrar. (...)» (François Varillon)

Deus ama incondicionalmente a todos nós, sem exclusão. Ele quer a salvação de todos, sem excepção.

François Varillon escreveu: «Eu rezo por todos os homens sem excepção, incluindo Judas e todos os que foram monstruosos neste mundo... porque, de facto, eu espero a sua salvação. Se a não esperasse, não rezaria... Mas esta fé e esta esperança implicam precisamente que o amor com que os homens são amados seja um amor tomado a sério. Que é um amor a sério? É um amor que não anula a liberdade humana, mas fundamenta-a. O amor não seria amor se manipulasse a liberdade com o fim de obter a todo o custo a reciprocidade. (...)

O amor já não é amor se disser: vou obrigar-te, finalmente, a que me ames. Não se pode obrigar ninguém a amar. Constrangir a amar não é amar.

Num livro admirável, Jean Lacroix escreveu uma frase que é talvez uma das mais profundas que se escreveram nestes últimos anos:
«Amar é prometer e comprometer-se a nunca empregar, em relação ao ser amado, os meios do poder. Recusar qualquer poder é expor-se à recusa, à incompreensão, à infidelidade».

Em Deus, o amor não é senão amor, portanto, um amor que se proíbe absolutamente de fazer uso do poder. O seu amor é verdadeiramente oferecido, e isso implica que se torne um amor acolhido. Quem poderá garantir que o amor realmente dado, ou oferecido, nunca será um amor livremente recusado? Se se pretender que uma tal garantia existe, deixa de haver amor. Porque não se pode encontrar essa garantia senão no uso do poder. A única garantia possível seria que Deus nos obrigasse a amá-l`O!

Na verdade, a recusa do amor é qualquer coisa particularmente assustadora. Está no limite do pensável. Ou, se preferirem, não se pode pensar senão como limite. Pelo contrário, o que está para além do que se pode pensar, para além de todo o limite, é que Deus possa deixar de amar. Não há mal-amados de Deus. Mas a liberdade do homem - que constitui a sua grandeza - é tal que o amor incondicionalmente oferecido pode ver-se incondicionalmente recusado. (...)

Quando se acredita verdadeiramente na grandeza do homem, acredita-se também que a eventualidade da condenação está inscrita, como recusa incondicional do amor, na própria estrutura da sua liberdade.

Sempre que o Evangelho parece dizer que Deus toma por sua conta a condenação dos homens,, que é Ele quem pronuncia a sentença de condenação (Mt 13, 41; 25, 41), quer dizer que Deus mesmo nada pode, senão sofrer perante uma liberdade que se fecha ao amor.

O castigo não procede de Deus, vem do interior, como aquele que fecha as persianas e nesse mesmo instante fica privado da luz do sol. Isto significa ainda que o acto criador, que é eterno, não pode deixar de incluir esta eventualidade; é o grande risco do acto criador.»

François Varillon, em "Alegria de crer e viver"

domingo, 13 de setembro de 2009

ENSINA-ME

Ensina-me a empreender um novo início,
a destruir os esquemas de ontem,
a deixar de dizer «não posso» quando posso,
«não sou» quando sou,
«estou bloqueado» quando estou totalmente livre.

Rabbi Nachman Di Braslav

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

ABRIR-SE A DEUS

Quando somos capazes de exprimir a Deus
tudo o que sobrecarrega a nossa vida
e mantém em nós a angústia de um julgamento,
as nossas regiões obscuras começam a clarear.
Saber-se escutado, compreendido, perdoado por Deus,
é uma das fontes da paz...
que traz consigo mesma a cura do coração.
Irmão Roger de Taizé, em "Em tudo a paz do coração"

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A VONTADE DE DEUS

A vontade de Deus para mim é aquilo que eu, no fundo mais fundo, quero.
Mas só o sei através de uma relação de amizade que me vai tirando as defesas,
os múltiplos apeteceres, tantas cascas que não me deixam ver quem sou.
Deus quer que eu seja verdadeiramente eu! Deus quer a minha felicidade!
(Vasco Pinto de Magalhães, em "Onde há crise, há esperança")

domingo, 6 de setembro de 2009

AMAS-ME?

A afirmação simples «Deus é Amor» tem implicações de longo alcance a partir do momento em que começarmos a viver a nossa vida baseados nessa afirmação. Se Deus, que me criou, é amor e só amor, sou amado mesmo antes que qualquer ser humano me ame.

Quando era criança, perguntava constantemente ao meu pai e à minha mãe: «Gostas de mim?» Fazia esta pergunta tão frequente e persistentemente que se tornou uma fonte de irritação para os meus pais. Embora me garantissem centenas de vezes que me amavam, eu nunca parecia completamente satisfeito com as suas respostas e continuava a fazer-lhes a mesma pergunta. Agora, muitos anos depois, compreendo que pretendia uma resposta que eles não me podiam dar. Eu queria que eles me amassem com um amor eterno. E sei que o caso era esse, porque a minha pergunta «Gostas de mim?» era sempre acompanhada duma outra pergunta. «E tenho que morrer?» De alguma forma, já devia saber na altura que, se os meus pais me amassem com um amor total, ilimitado e incondicional, nunca morreria. Por isso mesmo, continuava a importuná-los com a estranha esperança de eu constituir uma excepção à regra que diz que toda a gente há-de morrer um dia.

Muita da nossa energia está resumida na pergunta: «Amas-me?,... Gostas de mim?» À medida que envelhecemos, vamos desenvolvendo muitas maneiras mais subtis e sofisticadas de fazer esta pergunta. Dizemos: «Confias em mim, preocupas-te comigo, aprecias-me, és-me fiel, apoias-me, dirás bem de mim?»... e assim por diante. Muita da nossa dor vem da nossa experiência de não ter sido bem amados.

O grande desafio espiritual é descobrir, com o passar do tempo, que o amor limitado, condicional e temporal que recebemos dos pais, cônjuges, filhos, professores, colegas e amigos, é um reflexo do amor ilimitado, incondicional e eterno de Deus.

Se conseguirmos dar esse grande salto de fé, então chegaremos a compreender que a morte já não é o fim mas a entrada para a plenitude do Amor Divino.»

Henri Nouwen, em "Aqui e Agora"

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

EXISTE UM MISTÉRIO...

"Existe um mistério dentro do homem, que, por um lado, deseja e tem uma imensa saudade de Deus e do amor, e é isso que no fundo nos define, nós somos esse desejo de infinito. Mas, por outro lado, o envolvimento imediato, a pressa, a ansiedade, o pecado, todas estas coisas desordenadas dentro de nós próprios, parece que afogam a nossa identidade mais essencial."

Vasco Pinto de Magalhães, em "Onde há crise, há esperança"

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O "DEUS" FEITO DE PALAVRAS E SENTIMENTOS

«Temos uma máscara externa, superficial, que juntamos às palavras e às acções que não representam plenamente tudo o que há em nós; assim também, até as pessoas de fé tratam com um Deus feito de palavras, sentimentos e slogans reconfortantes, menos o Deus da fé do que o produto de rotinas sociais e religiosas. Esse "Deus" pode tornar-se um substituto da verdade do Deus invisível da fé, e, embora essa imagem reconfortante possa parecer-nos real, ela é realmente uma espécie de ídolo. Sua função principal é proteger-nos contra um encontro profundo com nosso verdadeiro eu interior e com o verdadeiro Deus.»

Thomas Merton

domingo, 30 de agosto de 2009

O ESPÍRITO DE AMOR

«Enquanto me dou conta que, de há dez anos, não fazia a mínima ideia de como as coisas me iriam acontecer, continuo, no entanto, a manter a ilusão de que tenho o controlo da minha própria vida. Gosto de decidir tudo à minha maneira, a próxima coisa que farei, o objectivo que quero atingir é imaginar o que os outros pensarão de mim.
Enquanto estou ocupado com a própria vida, torno-me insensível aos movimentos imperceptíveis do Espírito de Deus em mim, apontando-me para direcções bastante diferentes das minhas.

É necessária uma grande capacidade para criar silêncio, solidão interior e nos tornarmos conscientes destas inspirações divinas. Deus não grita nem empurra. O Espírito de Deus é calmo e sereno como uma voz suave ou uma ligeira brisa. É o espírito de amor.

Se calhar, ainda não acreditamos perfeitamente que o Espírito de Deus é, na verdade, o Espírito de amor que nos conduz cada vez mais profundamente para o amor. Se calhar, ainda não confiamos no Espírito, com medo de sermos conduzidos para lugares que nos possam tirar a liberdade. Ou, quem sabe, ainda pensamos no Espírito de Deus como um inimigo que exige de nós algo que julgamos não ser bom para nós.

Mas Deus é amor, só amor, e o Espírito de Deus é o Espírito de Amor que anseia por nos guiar para lugares onde os desejos mais profundos do nosso coração podem ser satisfeitos. Com frequência, nem sequer nós próprios sabemos qual é o nosso mais profundo anseio. Ficamos muito facilmente enredados pela nossa cobiça e raiva, partindo do pressuposto errado de que esses sentimentos nos comunicam o que realmente queremos.

O Espírito de amor diz: «Não tenhas receio de pôr de lado a necessidade que sentes de controlar a tua própria vida. Deixa-me preencher os verdadeiros desejos do teu coração.»

Henri Nouwen, em "Aqui e Agora"

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

CRISTO VIVE EM NÓS!

«Cada vez que somos capazes de romper com as nossas rotinas,
as nossas resignações, as nossas condescendências, as nossas alienações
em relação à ordem estabelecida ou à nossa individualidade acanhada. (...)
Cada vez que damos algo de novo à forma humana,
Cristo está vivo, a criação prossegue em nós, por nós, através de nós.
A Ressurreição realiza-se todos os dias

(R. Garaudy)

domingo, 23 de agosto de 2009

MINIATURAS DE CRISTO

"...até que Cristo seja formado em vós" (Gálatas 4.19)

Ele age em nós de todas as maneiras. Mas, acima de tudo, ele age em nós por intermédio uns dos outros. Os homens são espelhos ou "transmissores" de Cristo para outros homens. Geralmente são aqueles que conhecem a Cristo que o levam aos outros. É por isso que a Igreja, todo o conjunto de cristãos que revelam Cristo uns aos outros, é tão importante.

É muito fácil pensar que a Igreja tem muitos objectivos diferentes - educação, obras, missões, cultos... A Igreja não existe para outro propósito senão atrair os homens para Cristo, transformá-los em miniaturas de Cristo. Se ela não faz isso, então todas as Catedrais, todos os líderes, todas as missões, todos os sermões, a própria Bíblia - tudo não passa de perda de tempo. Deus não se tornou homem por outro motivo. E é até de duvidar, veja só, que todo o Universo tenha sido criado por qualquer outro motivo.»

C.S. Lewis

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A TENTAÇÃO DE IMPRESSIONARMOS

Como podemos ultrapassar esta tentação que invade toda a nossa vida? É importante reconhecer que a nossa fome de coisas espectaculares - tal como o nosso desejo de nos evidenciarmos - tem muito a ver com a nossa procura de identidade. Ser uma pessoa e ser-se visto, aprecidado, amado e aceite tem-se tornado quase a mesma coisa para muita gente. Quem sou eu, se ninguém me presta atenção, me agradece ou reconhece o meu trabalho?
Quanto mais inseguros, hesitantes e solitários formos, maior será a nossa necessidade de popularidade e apreço.

Infelizmente, essa fome nunca será saciada. Quanto mais apreciados somos, mais desejamos sê-lo. A fome de aceitação humana é como um barril sem fundo, que ninguém pode encher: nunca poderá ser satisfeita.

Jesus respondeu ao tentador: «Não tentarás ao Senhor, teu Deus.» De facto, a procura de prestígio pessoal é a expressão da dúvida que temos relativamente à forma plena e incondicional com que Deus nos aceita.

Trata-se, de facto, de pôr Deus à prova. É o mesmo que dizer: «Não estou bem certo de que Tu gostas mesmo de mim, de que Tu me amas de facto, de que Tu achas mesmo que eu valho alguma coisa. Vou dar-te a oportunidade de mo demonstrares acalmando os meus medos internos com o apreço humano, e aliviando a minha baixa auto-estima com aplausos humanos.»

O verdadeiro desafio que nos é proposto é regressar ao centro, ao coração, e encontrar aí a voz suave que nos fala e nos confirma de uma forma que nenhuma voz humana alguma vez poderia fazê-lo.

A base da nossa vida cristã é experiência da aceitação ilimitada e irrestritiva de nós mesmos como filhos bem-amados, uma aceitação tão plena, tão total e tão abrangente, que nos liberta da necessidad compulsiva de sermos vistos, apreciados e admirados, e nos liberta para Cristo, que nos conduz pelo caminho do serviço.

Esta experiência da aceitação de Deus liberta-nos do nosso eu carente, criando assim, um novo espaço onde podemos prestar uma atenção desinteressada aos outros.

Só uma vida de contínua comunhão íntima com Deus pode revelar-nos a nossa verdadeira identidade; só uma vida assim pode libertar-nos para agirmos segundo a verdade, e não segundo a nossa necessidade de coisas espectaculares.

Isto está longe de ser fácil. Requer-se uma disciplina séria e perseverante de solidão, silêncio e oração. Uma disciplina assim não nos recompensará com o brilho exterior do êxito, mas com a luz interior que ilumina todo o nosso ser, e que nos permite ser testemunhas livres e desinibidas da presença de Deus nas nossas vidas.

Henri Nouwen, em "O esvaziamento de Cristo"

domingo, 16 de agosto de 2009

O NASCIMENTO DIVINO DENTRO DE NÓS

«O que é que torna a vida do homem "divina"? Com certeza, se essa qualidade especial o caracteriza, ela deve ser, em certo sentido, reconhecível.
A vida "divina" caracteriza-se, de facto, por uma fé que liberta o homem de todas as formas de servidão, até, e talvez especialmente, em questões religiosas (ver Gálatas). Essa fé o coloca sob a orientação directa do Espírito Santo de amor que vive na Igreja de Deus.

O homem "divino", ou "o filho de Deus", é então paradoxalmente marcado por grande humildade e modéstia. Não é violento, mas clemente e bondoso (Mt 5, 43-48), livre de qualquer necessidade de auto-afirmação agressiva. Não se aflige com as próprias necessidades, mas confia plenamente em Deus para tudo (Mt 6,19-34).

O homem que leva uma vida "divina" é, portanto, filho perfeito de Deus à imitação de Cristo que, em todas as coisas, considerava apenas a vontade e o amor de Seu Pai. O homem divino vive em contacto constante com a fonte interior da vida divina ou, como teria dito Mestre Eckhart, com "o nascimento divino dentro de nós"

Thomas Merton, em "Amor e Vida"

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

SALMO PELO DESEJO DE MUDAR DE VIDA

Há dentro de mim, Senhor,
algo que me preocupa. Queria fazer grandes coisas.
Vejo a necessidade de dirigir
a minha vida por outros caminhos.
Sinto que deveria fazer algo mais.
Mas na hora da verdade,
muitas vezes a coisa fica-se por palavras.

Critico toda a gente
porque penso que as pessoas deviam fazer as coisas melhor.
Mas, na hora da verdade, não olho para mim mesmo,
sou incapaz de reconhecer que às vezes,
sou pior do que as pessoas que critico.

E o que mais me preocupa
é que me encontro num beco sem saída,
levo tanto tempo com bons desejos e poucas acções
que penso que nada vai mudar.
Costumo dizer como Santo Agostinho:
amanhã, amanhã, amanhã mudarei.
Mas o amanhã nunca chega
e quase sempre se converte noutro amanhã.

Quando escuto essas tuas palavras que dizem:
«Assim porque és morno - e não és frio nem quente -
vou vomitar-te da minha boca»,
sinto-me francamente mal
e penso que tenho de começar a dar algum passo;
que deveria delinear a minha vida a sério
e fazer uma opção clara por ti.

Faz, Senhor com que saia desta roda interminável,
faz, Senhor, com que saiba renunciar
às comodidades que me estorvam.
Faz, Senhor, que me atreva a andar pelo caminho estreito,
Faz, Senhor, com que seja o sal da terra e a luz do mundo.
Faz, Senhor, com que ame os meus irmãos como tu me amas.

Olha-me, Senhor, com carinho
e transforma-me numa pessoa nova
para que o meu coração de pedra
se converta num coração de carne como o teu.
Porque estou convencido de que a autêntica vida
e a autêntica felicidade só poderei encontrá-las a teu lado.»

Pedro Muñoz Peñas, em "Orar com Deus"

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O AMOR PRESENTEADO

«Na sua forma mais simples e mais íntima, a fé mais não é do que aquele ponto no amor em que reconhecemos que também precisamos de ser presenteados. Assim, a fé é aquele ponto no amor que o identifica realmente como amor; ela consiste em vencer a presunção e a auto-satisfação dos que se acham suficientes e afirmam; já fiz tudo, já não preciso de qualquer ajuda. Só uma «fé» assim põe fim ao egoísmo, a verdadeira antítese do amor. Desta forma, a fé está presente no amor verdadeiro; ela é, simplesmente, aquele momento do amor que o conduz verdadeiramente para si próprio: a franqueza daqueles que não insistem na sua própria capacidade, mas que sabem ser presenteados e necessitados. (...)

Ele não nos ama por sermos especialmente bons, especialmente virtuosos, especialmente merecedores, por lhe sermos úteis ou, mesmo, necessários: Ele não nos ama por nós sermos bons, mas porque Ele é bom. Ele ama-nos apesar de nada termos para Lhe oferecer; Ele ama-nos, inclusive, nas roupas andrajosas do filho perdido, que já nada tem em si que seja digno de amor. (...)»

Joseph Ratzinger, em "Do sentido de ser cristão"

domingo, 9 de agosto de 2009

SÓ O AMOR É DIGNO DE FÉ

O filósofo Jean Guitton, na sua obra "As minhas razões de crer", coloca uma questão pertinente: "Que se passaria em mim se a minha fé diminuísse e se desvanecesse; se, como dizem as pessoas, «perdesse a fé»? (...)

Jean Guitton afirma que o famoso padre jesuíta Teilhard Chardin colocou a si mesmo esta questão, e respondeu, «que se deixasse de crer em Deus, no Deus cristão, e mesmo em Deus pura e simplesmente, continuaria a crer no Mundo.»

Quanto a mim, se eu «perdesse a fé», estaria em plena sintonia com Jean Guitton, pois «seria no amor ou, para ser mais exacto, no que existe de absoluto no amor, que eu creria.»

Faço minhas suas palavras: «Se eu tivesse vergado sob o peso do desespero e privado de toda a esperança encontraria, nesta loucura possível do amor, força suficiente para dar ainda alguns passos na estrada da dor.
Dito de outra forma, a ideia que me daria forças face à perda de tudo, seria a ideia de que existe talvez, algures, um ser capaz de amar com um amor infinito.
E então, mesmo que esse ser fosse único, parece-me que valeria a pena o mundo ser aceite, e que teria uma razão de ser, e que o homem teria uma razão para viver e também para morrer.(...)

Também me revejo nas palavras do padre Valensin citado na referida obra de J. Guitton:
«Se na hora da minha morte visse claramente que me espera o nada e que todas as crenças estão repletas de ilusão, não lamentaria absolutamente nada ter-me enganado toda a vida e ter crido na verdade do cristianismo, pois era o amor infinito que estaria errado por não existir, e não eu por ter acreditado nele.»

Por fim, para melhor exprimir tudo o que tentou dizer sobre esta questão, Jean Guitton recorre às palavras de São João Maria Vianney, que dizia: «Se na hora da morte me aperceber de que Deus não existe, terei sido bem enganado, mas não lamentarei o facto de ter passado a vida inteira a crer no amor.»

Jean Guitton, em "As minhas razões de crer"

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A fé não exige que se destrua o desejo humano,
nem que seja exaltado,
mas que seja integrado num desejo ainda maior: a sede de Deus.
Sim, o mero desejo de Deus já é o começo da fé.

Irmão Roger, de Taizé, em "Em tudo a paz do coração"

terça-feira, 4 de agosto de 2009

CELESTE CÃO DE CAÇA

Dele fugi, noites e dias adentro;
Dele fugi, pelos arcos dos anos;
Dele fugi, pelos caminhos dos labirintos
De minha própria mente; e no meio de lágrimas
Dele me ocultei, e sob riso incessante.
Por sobre esperanças panorâmicas corri;
E lancei-me, precipitado,
Para baixo de titânicas trevas de temores abissais,
Para longe daqueles fortes Pés que seguiam,
Seguiam após mim.
Mas com desapressada perseguição,
E com inabalável ritmo,
Deliberada velocidade, majestosa urgência,
Eles marcavam os passos - e uma Voz insistia
Mais urgente que os Pés -"Tudo no mundo te atraiçoa quando tu me trais!...
Tudo foge de ti quando foges de Mim...
Ah, pobre cego e insensato!
Aquela treva que parecia envolver a tua vida
Nada mais era que a sombra de minhas mãos,
Estendidas para abraçar-te!

Francis Thompson

domingo, 2 de agosto de 2009

COM OS OUTROS

Uma das descobertas que fazemos na oração é que, quanto mais nos aproximamos de Deus, mais perto ficamos de todos os nossos irmãos e irmãs da família humana.
Deus não é um Deus privado. O Deus que mora no nosso santuário íntimo é também o Deus que mora no santuário íntimo de cada ser humano. Reconhecendo a presença de Deus no nosso próprio coração, podemos também reconhecer essa presença no coração dos outros, porque o Deus que nos escolheu a nós como lugar de habitação também nos dá a capacidade de ver o Deus que habita nos outros. Se virmos só demónios dentro de nós mesmos, também só veremos demónios nos outros. Mas, quando vemos Deus dentro de nós, também podemos ver Deus nos outros.

Tudo isto poderá parecer sobremaneira teórico, mas, se orarmos, experimentaremos cada vez mais que somos parte da família humana, infinitamente atraída por Deus que a todos nos criou para partilhar da sua luz divina.

Com frequência, perguntamo-nos o que é que podemos fazer pelos outros, especialmente por aqueles que mais necessidades sentem. Não é nenhum sinal de fraqueza dizermos: «Devemos rezar uns pelos outros.»
Rezar uns pelos outros é, antes de mais, reconhecer, na presença de Deus, que pertencemos uns aos outros como filhos do mesmo Deus. Sem este reconhecimento de solidariedade humana, o que fizermos uns pelos outros não nascerá do que realmente somos.
Somos irmãos e irmãs, e não competidores ou rivais. Somos filhos de Deus, não seguidores de diferentes deuses.

Orar, isto é, escutar a voz daquele que nos trata como «muito amados», é aprender que essa voz não exclui ninguém. Onde eu moro, Deus mora comigo e onde Deus mora comigo encontro todos os meus irmãos e irmãs. E assim, a intimidade com Deus e a solidariedade com toda a gente são dois aspectos inseparáveis do mesmo viver, no momento presente.

Henri Nouwen, em "Aqui e Agora"

quinta-feira, 30 de julho de 2009

IMAGEM DE DEUS

"Sto. Agostinho diz: quando a alma do homem se vira completamente para a eternidade, para Deus somente, então resplandece e ilumina-se a imagem de Deus; mas se a alma se vira para o exterior, mesmo que seja para o exercício exterior da virtude, então essa imagem torna-se completamente encoberta. (...)

O mestre Orígenes apresenta-nos a seguinte metáfora: a imagem de Deus, ou seja o Filho de Deus, é no fundo da alma como uma fonte de água viva. Mas se alguém atirar terra, isto é os desejos terrenos, para cima dela, então ela ficará entulhada e encoberta, de forma que não a reconheceremos nem nos aperceberemos dela; no entanto, ela permanece viva em si mesma, e quando se retira a terra que foi atirada de fora para cima dela, então ela aparece de novo e nós apercebemo-nos dela.»


Mestre Eckhart, em "Tratados e Sermões"

terça-feira, 28 de julho de 2009


"Deus é um Deus do presente: como te encontra, assim te assume e te permite vires a Ele. Deus não pergunta o que tens sido, mas o que tu és agora." (Mestre Eckhart)

"O anel de ouro, o vestido de festa, o banquete, são para as almas que regressam." (Julien Green)

domingo, 26 de julho de 2009

OLHAR EM VOLTA

As palavras de Jesus: «Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo» (Mt 6, 33) são o que melhor sintetiza a maneira como somos chamados a viver a vida; com o coração fixo no reino de Deus.

Esse reino não é nenhuma terra longínqua que um dia esperamos alcançar, nem é a vida depois da morte ou um estado ideal. Não. O reino de Deus é, antes de mais, uma presença activa do espírito de Deus no nosso íntimo que nos oferece a liberdade por que realmente anelamos.

E, por isso, a principal questão é a seguinte: Como centrar, acima de tudo, o nosso coração no reino, se ele está preocupado com tantas coisas?

De alguma forma, é necessária uma mudança de coração, uma mudança que nos possibilite a experiência da realidade, da nossa existência do ponto de vista de Deus.

Uma vez, assisti a uma mímica em que um homem se esforçava por abrir uma das três portas dum quarto em que se encontrava. Ele empurrava e puxava as maçanetas das portas, mas nenhuma das portas se abria. Então deu um pontapé no painel de madeira da porta, mas a madeira não cedeu. Finalmente, deixou-se cair com todo o seu peso contra as portas, mas nenhuma delas cedeu.
Era uma visão ridícula, mas muito hilariante, porque o homem estava tão concentrado nas três portas fechadas que nem sequer reparou que o quarto não tinha parede e que podia perfeitamente sair, bastando para isso olhar à sua volta.

A conversão é isto mesmo. É uma volta completa que nos permite descobrir que não somos prisioneiros como julgamos ser.
Do ponto de vista de Deus, frequentemente parecemo-nos com o homem que procura abrir as portas fechadas do seu quarto. Preocupamo-nos com muita coisa e chegamos mesmo a causar mágoa a nós próprios por nos preocuparmos tanto.
Deus diz: «Dá uma volta, centra teu coração no meu reino. Eu dou-te toda a liberdade que quiseres.»

Henri Nouwen, em "Aqui e Agora"

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A CHAMA DA FÉ


Senhor Ressucitado,
sempre que possuímos o desejo simples
de acolher o teu amor eis que, pouco a pouco,
uma chama se acende no mais profundo do nosso ser.
Avivada pelo Espírito Santo,
mesmo sendo muito frágil,
ela não pára de arder.
E quando descobrimos que Tu nos amas,
a confiança da fé torna-se o nosso próprio cântico.

Irmão Roger de Taizé, em "Em tudo a paz do coração"

terça-feira, 21 de julho de 2009

HARMONIA NA CARIDADE

A vossa concórdia e harmonia na caridade é como um hino a Jesus Cristo.
Procurai todos vós formar parte deste coro,
de modo que, harmonizados pela concórdia,
recebendo a melodia de Deus na unidade,
possais cantar em uníssono por Jesus Cristo ao Pai.

(S. Inácio de Antioquia)

domingo, 19 de julho de 2009

OS FERIDOS QUE CURAM

"Ninguém escapa de ser ferido. Somos todos pessoas feridas, física, emocional, mental ou espiritualmente. A questão principal não é "como podemos esconder nossas feridas", assim não temos de nos sentir envergonhados, mas "como podemos colocá-las a serviço de outros".

Quando nossas feridas deixam de ser uma fonte de vergonha e passam a uma fonte de cura, tornamo-nos pessoas feridas que curam.
Jesus é o enviado de Deus que, mesmo ferido, cura. Por meio de suas feridas somos curados. O sofrimento e a morte de Jesus trouxeram alegria e vida. Sua humilhação trouxe glória; sua rejeição, uma comunidade de amor.
Como seguidores de Jesus, também podemos permitir que nossa feridas tragam a cura aos outros."

Henri Nouwen, em "Pão para o caminho"

quinta-feira, 16 de julho de 2009

PAIRA EM NÓS...

«Paira em nós um reflexo de Cristo. De nada serve procurar saber do que se trata. Existem na terra muitas pessoas em quem, sem elas o saberem e, porventura, sem se atreverem a acreditar nisso, resplandece a santidade de Cristo!

Jesus de misericórdia, Tu concedes-nos a graça de estar em comunhão contigo. E o nosso coração rejubila quando descobrimos que ninguém está excluído, nem do teu perdão, nem do teu amor.»

Irmão Roger, de Taizé, em "Em tudo a paz do coração"

terça-feira, 14 de julho de 2009

SÊ VERDADEIRO PERANTE DEUS

«Muitos queixam-se que não experimentam Deus na oração. Uma razão importante pela qual não experimentam Deus é porque eles não se experimentam a si mesmos. Eles oferecem a Deus apenas o seu lado piedoso. Mas escondem de Deus tudo o que é reprimido. Então, a sua oração não se pode tornar vida. Pois tudo aquilo que nós eliminamos, falta-nos em vivacidade.

Quando escondemos algo de Deus, entre Deus e nós não há fluxo. Sentimo-nos diante de Deus vazios e bloqueados.
Rezar significa elevar a Deus tudo o que há em nós; exprimirmo-nos diante de Deus. Rezar é sempre o caminho do autoconhecimento e do contacto connosco mesmos. Quando elevo a minha verdade a Deus, pressinto quem é Deus e quem eu sou.»

Anselm Grün

domingo, 12 de julho de 2009

ABRIR A PORTA DO CORAÇÃO

A oração tem como primeiro efeito criar em mim as condições de abertura a Deus, de comunhão com Ele, de Lhe abrir a porta.
Pedir é dispor-me a receber,
não é estar a avisar a Deus do que me falta,
é abrir o coração para receber o que Ele sabe que eu necessito e tem para me dar.
É um acto de humildade de quem se reconhece carente de amor e graça.

Vasco Pinto de Magalhães, em "Onde há crise, há esperança"

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Santo Agostinho e o Amor

«É tão grande a força do amor que transforma amante em imagem do amado.

Amando a Deus nos tornamos divinos; amando ao mundo nos tornamos mundanos

Cada homem é aquilo que ama.

Quanto mais amas, mais alto sobes.»

Santo Agostinho

terça-feira, 7 de julho de 2009

DEUS EM TODAS AS COISAS

Nosso Senhor disse:«Sede semelhantes aos homens que esperam o seu senhor» (Lc 12, 36).

Em verdade, essas pessoas que esperam são despertas e olham em seu redor para verem donde virá aquele que elas esperam, e elas esperam-no em tudo o que chega, e por muito estranho que algo lhes seja, perguntarão se porventura ele não estará nisso.

Assim devemos nós também procurar conscientemente com o olhar a Nosso Senhor em todas as coisas. Para tal é necessário zelo, e não se devem poupar esforços no que conseguirmos realizar somente com nossos sentidos e forças; então as pessoas estarão certas, e alcançarão Deus de modo igual em todas as coisas, e na mesma medida encontrarão Deus em todas as coisas.

Mestre Eckhart, em "Tratados e Sermões"

domingo, 5 de julho de 2009

AGARRA-TE A DEUS

«Agarra-te a Deus,
assim Ele prenderá em ti todo o bem.
Busca a Deus,
assim encontrarás a Deus e todo o bem. (...)

Quem se agarra a Deus,
é agarrado por Deus a toda a virtude.
E aquilo que tu antes procuraste,
procura-te agora a ti;
aquele a quem tu perseguiste antes,
persegue-te agora;
e aquilo de que tu antes querias fugir,
foge agora de ti.

Por conseguinte: quem agarra Deus apertadamente,
é agarrado por tudo o que é divino,
e dele foge tudo o que é dissemelhante e estranho a Deus.

Mestre Eckhart, em "Tratados e Sermões"

quinta-feira, 2 de julho de 2009

ENCONTRAR DEUS NAS DIFICULDADES

Nós encontramos Deus no meio daquilo que nos acontece, que nos agride, sejam os irmãos, que nos fazem mal, seja a própria sombra, que nos ataca.
É na rotina diária que se decide se o indivíduo se torna amargo e duro, pelas frustrações da vida, ou se opta por se abrir a Deus, deixando-se modificar pelo seu Espírito. (...)

A raiva perante a injustiça e perante situações adversas torna-nos cegos para as hipóteses de solução que se escondem nas dificuldades da vida. (...)
Quando as situações adversas são vividas à luz de Deus, esta luz altera os nossos sentimentos e dá-nos força interior. (...)
É nos problemas e dificuldades que arrasto comigo que me encontro com Deus, que actua em mim e me modifica.

Anselm Grün, em "Bento de Núrsia - Mestre da Espiritualidade"

terça-feira, 30 de junho de 2009

SER

«As pessoas não necessitam de reflectir tanto sobre o que deveriam fazer; elas deveriam, pelo contrário, reflectir sobre aquilo que elas são. Ora, se as pessoas e os seus modos fossem bons, então as suas obras poderiam refulgir limpidamente.
Se tu fores justo, então as tuas obras também serão justas. Não se pode pensar a santidade com fundamento numa acção; deve-se, pelo contrário, fundamentar a santidade em um ser, pois as obras não nos santificam, senão que nós devemos santificar as obras. (...)

O fundamento para que a essência e o fundamento do ser do homem, de onde as obras humanas recebem a sua benignidade, seja inteiramente bom, é o seguinte: que o carácter do homem esteja totalmente virado para Deus.
Coloca todos os teus esforços em que Deus seja grandioso para ti e que toda a tua ambição e devoção se dirijam para Ele em todo o teu actuar. Em verdade, quanto mais assim fizeres, tanto melhores serão as tuas obras, não importa de que género elas sejam.

Mestre Eckhart, em "Tratados e Sermões"

domingo, 28 de junho de 2009

Oração do Cardeal John Newman adaptada por Madre Teresa de Calcutá

Ó Jesus, ajuda-me a difundir
a tua fragância
Por onde quer que eu vá.
Inunda a minha alma como o teu espírito
e com a tua vida.
Penetra em mim, apodera-te
do meu ser de modo tão completo
que toda a minha vida seja uma irradiação da tua.
Ilumina por meu intermédio
cada alma
e toma posse de mim de tal modo
que cada alma de que me aproxime
possa sentir a tua presença na minha alma.
Faz com que, ao ver-me,
não me veja, mas a ti.
Fica comigo.
A minha luz virá toda de ti, Senhor,
e nem sequer um raiozinho será meu.
Serás Tu a iluminar os outros
por meio de mim.
Sugere-me o louvor que mais te agrada,
iluminando outros à minha volta.
Que não te pregue com palavras,
mas com o meu exemplo,
com a influência das minhas acções,
com o fulgor visível do amor que o meu coração recebe de ti.
Amén.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

A MAIS PERFEITA ORAÇÃO

«Onde eu nada quiser para mim mesmo, há-de Deus querer para mim. (...)

Na verdadeira obediência, não deverá haver qualquer «eu quero assim ou assim» ou «isto ou aquilo», mas unicamente um perfeito renunciar ao que é teu.

Assim, na mais perfeita oração que o homem conseguir rezar, não deverá dizer-se :«Dá-me esta virtude, ou aquele modo», nem «Sim, Senhor, dá-te a mim ou dá-me a vida eterna», mas somente «Senhor, não me dês nada, excepto o que Tu quiseres, e faz, Senhor, o que quiseres e como quiseres de qualquer modo!». (...)

Como, pois, diz Santo Agostinho: «O fiel servidor de Deus não cobiça que lhe digam ou lhe dêem aquilo que ele gostaria de ouvir ou de possuir; porque a sua primeira, suprema ambição é a de acatar aquilo que mais agrada a Deus.»

Mestre Eckhart, em "Tratados e Sermões"

quinta-feira, 25 de junho de 2009

RENUNCIAR A SI MESMO

«Nada faz de alguém um verdadeiro ser humano, senão a renúncia à sua vontade. Em verdade, sem renúncia à vontade própria em todas as coisas nada conseguiremos perante Deus. (...)

Tu deves entregar-te a Deus com absolutamente tudo, e não te preocupares com o que Ele faz do que é seu. (...)

Só será uma vontade perfeita e verdadeira, aquela que entrar inteiramente na vontade de Deus, despojada de vontade própria. E quem mais longe tiver ido neste ponto, tanto mais e mais verdadeiramente terá ascendido a Deus. (...)

Em verdade, um homem que se tenha despojado inteiramente do que é seu estará de tal modo envolvido por Deus, que nenhuma criatura o conseguirá tocar, sem tocar primeiro em Deus; e aquilo que deverá chegar até ele, deverá primeiro passar por Deus; aí receberá primeiro o seu sabor e tornar-se-á divino.


Mestre Eckhart, em "Tratados e Sermões"

domingo, 21 de junho de 2009

COMUNIDADE CONHECER E SEGUIR JESUS

Caros amigos, irmãos, seguidores e visitantes do blogue:

Como alguns de vós já têm conhecimento, criei uma Comunidade com o mesmo nome do blogue, com o intuito de reunir todos aqueles que estejam interessados em compartilhar suas experiências de fé em Jesus, ou simplesmente confraternizar e construir amizades sinceras e verdadeiras.

Para participar basta clicar na opção "Associar-se" do badge que está no lado esquerdo do layout. Ou então, enviarem-me o vosso e-mail para vos enviar um convite pessoal de participação.

Já enviei um mail a todos aqueles que possuem endereço de e-mail no seu perfil do blogger. Contudo, há alguns cujo e-mail não está visível. Se estiverem interessados em participar, enviem-me o e-mail para poder enviar-vos o convite.

Todos são bem-vindos!
Espero que possam atender ao meu apelo, pois a vossa participação é para mim e para todos membros da Comunidade muito importante e preciosa.
Todos têm algo para partilhar da sua riqueza humana e espiritual.

«Os seres humanos formam como que uma grande orquestra, na qual todos contribuem para uma harmonia, e onde, por isso mesmo, todos são imprescindíveis, por mais pequeno que seja o contributo.» (Louis Evely)

ABRAÇO FRATERNO!

PAULO COSTA

sexta-feira, 19 de junho de 2009

RECONHECER A SUA VOCAÇÃO (2ª parte)

Onde quer que estejamos, não ficaremos lá senão compreendermos
que a isso fomos chamados por um apelo de Jesus que
nos convida a algo misterioso, de secreto e de muito belo:
a crescer no amor.
Peçamos a Jesus que nos ajude a não termos medo da nossa
pobreza,
a não ter vergonha da nossa pobreza
e a tomar consciência da nossa vocação, da nossa missão.

O apelo de Jesus é sempre diferente
e o seu objectivo é sempre o mesmo;
é um apelo a crescer no amor,
a fazer crescer o amor em nós e no mundo...

Cada apelo é diferente, cada apelo é único,
mas cada um, aí onde está e como é, é chamado a dar a vida.

São Marcos conta como um homem se abeira de Jesus,
e ajoelhando diante d´Ele Lhe pergunta: "Bom Mestre, que
devo fazer para ter a vida eterna?"
Jesus fala-lhe dos mandamentos de Deus e o homem responde:
"Mestre, tudo isso tenho praticado desde a minha juventude".
Então Jesus olhou-o e amou-o...
Prestai bem atenção a esta frase, o texto não diz: "amou-o" mas
sim "olhou-o e amou-o". Os seus olhos devem ter sido tão expressivos!
Então Jesus diz-lhe: "Uma só coisa te falta: vai, vende o que
tens, dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem
e segue-Me" (Mc 10, 17-22).

"Vem e segue-Me; vamos caminhar juntos,
vais tornar-te Meu amigo.
Ensinar-te-ei, num mundo onde há tento egoísmo, injustiça
e violência, a ser um homem que ama,
um homem de esperança, um homem de paz.
Não tenhas medo, ensinar-te-ei pouco a pouco a viver de tal
forma que todo o teu corpo, todo o teu ser
se tornem um sinal de boa nova".
E, no entanto, o jovem tem medo.
No apelo de Jesus, há algo de muito belo.
Descobrimos que somos amados,
um outro mundo se abre diante de nós.
Mas há também algo de muito exigente:
é preciso aceitar deixar o nosso antigo mundo, vender aquilo
a que dávamos valor.

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"