quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Sem misericórdia, ainda é noite

"Para os cristãos, a grande mentira é ver os outros sem misericórdia; é fechar os olhos à bondade da sua humanidade e sobrecarregá-los com o peso dos seus pecados.

Não veremos correctamente as pessoas, se não for com misericórdia.

Não verei correctamente um velho mendigo a pedir à beira da estrada, enquanto não o vir como um futuro cidadão do Reino. (...)

Um dia, um rabino perguntou aos seus discípulos:

«Como se pode dizer que a noite terminou e o dia está de volta?»

Um discípulo sugeriu:

«Quando se pode ver claramente que um animal, à distância, é um leão e não um leopardo.»

«Não», disse o rabino.

Um outro disse: «Quando se pode ver que uma árvore tem figos e não pêssegos?»

«Não», disse o rabino, «é quando se pode olhar para a face de outra pessoa e ver que aquela mulher ou aquele homem é vossa irmã ou vosso irmão. Porque enquanto não forem capazes de o fazer, seja qual for o tempo do dia, ainda é noite»."

Timothy Radcliffe, in "Ser Cristão para quê?"

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Deus ama-me exactamente como sou

Henri Caffarel conta uma história passada em Itália em fins do séc. XVIII, num convento em construção na encosta dos Apeninos: o prior do convento chamou o arquitecto e mandou-lhe construir uma cela isolada sem janelas, com frinchas que apenas deixassem entrar alguns raios de sol; nada mais dentro da cela a não ser uma inscrição com estas palavras: «Amo-te exactamente como és». Nessa cela, ia ser proibido qualquer pensamento ou tema de meditação para além deste: «Deus ama-me infinitamente, ternamente, Deus ama-me exactamente como sou». A cela destinava-se a algum monge que andasse triste ou ansioso a perguntar-se «como é que o Senhor pode amar alguém como eu?».
Quem não sabe amar a Deus entre na cela do monge e deixe-se lá ficar; veja a inscrição na parede e não pense em mais nada. «Deus que te ama gratuitamente, te ensinará a amar.»
Luís Rocha e Melo, in"Se tu soubesses o dom de Deus"

sábado, 17 de setembro de 2016

O teu próximo


«O teu próximo não é aquele que tu fazes entrar no horizonte das tuas atenções, mas próximo és tu quando assumes o cuidado de um homem: não quem tu amas, mas quando tu amas."
Ermes Ronchi

terça-feira, 13 de setembro de 2016

"Jesus é a corporização, em tons de urgência, do amor total!
Deixemos que a bondade brilhe. 
Que a paz se instale. 
Que a justiça floresça.
E que o amor vença.

Não foi por tudo isto que Ele deu a vida?"
Pe. João António - Blog http://theosfera.blogs.sapo.pt/

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Perdoar sem medida

"Senhor, quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mt 18, 21).

Pedro e André não foram à escola. E Pedro só conseguiu contar até sete na tentativa de regulamentar o perdão ao fixar um tecto limite. Pedro fez uma tentativa para dissimular a sua limitação de quantificar a misericórdia e, na maior das boas intenções, tinha medo de “exagerar” e se mostrar generoso e excessivo no perdão, pois, talvez, poderia enfraquecer com isto a sua autoridade.

Pedro ainda não compreendera que o perdão não é um prémio, uma imposição, mas uma estupenda possibilidade; não um peso, mas uma libertação. O perdão é uma inacreditável possibilidade que nos é oferecida de fazer o mesmo gesto misericordioso e sem limites do Pai que anula todas as contas e dívidas.

Temos que aniquilar o perdão regulamentado porque ele é sempre de mão única e um perdão de superioridade: de cima para baixo e, portanto, um perdão sem as entranhas da compaixão.


Pedro só descobriu o perdão quando se tornou um devedor insolvente pela negação que fez de Jesus: “Não conheço este homem!” (Lc 22, 57).

O perdão cristão, como a misericórdia do Pai, não entra em nenhuma medida humana e, por isso, por mais que queiramos, será impossível tomar posse dele e reservá-lo para nós.

Que não sejamos nós a perguntar a Cristo: quantas vezes podemos ser generosos como foste connosco?

Adaptado de: http://matersol.blogspot.pt/2011/09/o-caminho-da-beleza-43-xxiv-domingo-do.html

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

«Fé é dar confiança ao amor (...) 
Fé quer dizer crer no amor, na vida que pode vencer a nossa morte. »

[Paolo Scquizzato, in "O Elogio da Imperfeição"]

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Abraçar Deus


«Abraçar Deus não é abraçar o vento ou abraçar uma ideia. 
Abraçar Deus na terra dói: dói no mínimo a dor do outro em nós.»

terça-feira, 30 de agosto de 2016


"Há barreiras em que é preciso ser pequeno para passar...
Há limites em que é preciso pensar menos para vencer...
Há fronteiras em que é preciso ser muito livre para atravessar...
Há regras diante das quais é preciso amar muito para desobedecer...
E até se ouve, vinda do fim, uma voz que nos segreda que só vivemos uma vez... 
Felizes aqueles em cujo íntimo esta voz se torna uma fonte de Sabedoria."

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

«Quem quiser falar sobre Deus, talvez deva olhar primeiro para o seu próprio coração para ver se este contém amor suficiente ou, pelo menos, um anseio de amor, uma disponibilidade para aprender a amar.»
Tomás Halik, in "Quero que tu sejas"

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A Felicidade de Jesus

"Não é difícil desenhar o perfil de uma pessoa feliz na sociedade do tempo de Jesus. Seria o caso de um homem adulto e de boa saúde, casado com uma mulher honesta e fecunda, com filhos homens e terras ricas, observante da religião e respeitado em seu povoado. O que mais se podia pedir?

Certamente não era este o ideal ao qual Jesus aspirava. Sem esposa nem filhos, sem terras nem bens, percorrendo a Galileia como um ambulante, sua vida não correspondia a nenhum tipo de felicidade convencional. Sua maneira de viver era provocativa. Se era feliz, o era de maneira contracultural, ao revés do estabelecido.

Na verdade, Ele não pensava muito em sua felicidade. Sua vida girava muito mais em torno de um projeto que o entusiasmava e o fazia viver intensamente. Esse projeto se chamava “Reino de Deus”. Parece que só era feliz quando podia fazer felizes os outros. Sentia-se bem devolvendo às pessoas a saúde e a dignidade que lhes foram arrebatadas injustamente.

Não buscava seu próprio interesse, mas vivia criando novas condições de felicidade para todos. Não sabia ser feliz sem incluir os outros. Propunha a todos critérios novos, mais livres e radicais, para construir um mundo mais digno e feliz.

Acreditava num “Deus feliz”, o Deus Criador que olha com amor entranhável todas as suas criaturas, o Deus amigo da vida e não da morte, mais atento ao sofrimento das pessoas do que a seus pecados.

A partir da fé nesse Deus, rompia os esquemas religiosos e sociais. Não pregava “Felizes os justos e piedosos, porque receberão o prêmio de Deus': Não dizia “Felizes os ricos e poderosos, porque contam com a bênção de Deus”. Seu clamor era desconcertante para todos: “Felizes os pobres, porque Deus será sua felicidade”.

O convite de Jesus vem a dizer isto: “Não busqueis a felicidade na satisfação de vossos interesses, nem na prática interessada de vossa religião. Sede felizes trabalhando de maneira fiel e paciente por um mundo mais feliz para todos".

 José Antonio Pagola, in “O Caminho Aberto por Jesus”

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Com olhos novos


«O homem novo vê o mundo com olhos novos. 
O homem renascido na misericórdia de Deus vê o mundo à luz dessa mesma misericórdia». 
[Carlos Maria Antunes]

"Quem olha para o próximo com olhos humanos, reconhece-o, a maior parte das vezes, indigno, abominável, soberbo, fastidioso, inoportuno, perturbado, inquieto, hostil, perseguidor e malfeitor. O coração humano inclina-se a rejeitá-lo, os olhos humanos a desdenhá-lo, a língua humana a difamá-lo, a mente humana a desprezá-lo e, por vezes, as mãos humanas apressam-se a magoá-lo.
Mas quando a alma se reanima na fé e, com os olhos da fé, volta a olhar o próximo, este parece-lhe outro, muito diferente de antes. Descobre-o digno de ser estimado, socorrido, compadecido, amado, como a si mesmo, seja uma pessoa comum, em qualquer estado ou condição em que se encontre, independentemente dos seus modos, aparências e costumes. Embora seja amargo e desolador e a razão humana retrate o próximo tal como é na sua natureza; a razão da fé apresenta-o como ele é em Deus."

Gennaro Maria Sarnelli Cssr (Nápoles, 12 de Setembro de 1702 - Nápoles, 30 de Junho de 1744).

segunda-feira, 20 de junho de 2016

"Qual é o teu tormento?"



«Não é apenas o amor a Deus que tem por substância a atenção. O amor ao próximo, que sabemos ser o mesmo amor, é feito da mesma substância. Os infelizes não precisam de outra coisa neste mundo que de homens capazes de lhes prestarem atenção. A capacidade de prestar atenção a um infeliz é uma coisa muito rara, muito difícil; é quase um milagre, é um milagre. (...)

A plenitude do amor ao próximo é simplesmente ser capaz de lhe perguntar: “Qual é o teu tormento?” É saber que o infeliz existe, não como unidade numa colecção, não como um exemplar da categoria social etiquetada “infelizes”, mas enquanto homem exactamente semelhante a nós, que foi um dia atingido e marcado com uma marca inimitável pela infelicidade. Para isso é suficiente, mas indispensável, saber pousar sobre ele um certo olhar.

Este olhar é em primeiro lugar um olhar atento, em que a alma se esvazia de todo o conteúdo próprio para receber nela mesma o ser que olha tal como ele é, em toda a sua verdade. Disto só é capaz aquele que é capaz de atenção.»


Simone Weil

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O dom da compaixão




«Ter compaixão é algo mais do que ter dó. Ter dó sugere distância, e até uma certa condescendência. Com frequência, eu atuo por dó. Dou algum dinheiro de esmola a algum pedinte numa avenida, mas não olho para ele – olhos nos olhos; não me sento ao seu lado nem falo com ele. Estou demasiado ocupado para prestar realmente atenção à pessoa que me estende a mão. O meu dinheiro substitui a minha atenção pessoal e representa uma desculpa para continuar o meu caminho. 



Ter compaixão significa aproximar-se de quem sofre. Mas só podemos aproximar-nos de uma outra pessoa quando estamos dispostos a tornar-nos vulneráveis. Uma pessoa compassiva diz: “Eu sou teu irmão; eu sou tua irmã; eu sou humano, frágil e mortal; precisamente como tu. Não me escandalizo com as tuas lágrimas nem tenho medo da tua dor. Também eu já chorei”. Só podemos estar com o outro quando o outro deixa de ser “outro” para se tornar como nós. (…)


Quando reflito sobre a minha própria vida, compreendo que os momentos de maior conforto e consolação foram os momentos em que alguém disse: “Eu não posso tirar-te o sofrimento, não posso oferecer uma solução ao teu problema, mas posso prometer-te que não te deixarei  sozinho e estarei ao teu lado tanto tempo e tão bem quanto me for possível”. Há muita angústia e sofrimento na nossa vida, mas que bênção quando não temos que viver a nossa angústia e sofrimento sozinhos! Esse é o dom da compaixão.»

Henri Nouwen, in “Aqui e Agora”

sábado, 11 de junho de 2016

O olhar de Jesus


Imagem: "A negação de Pedro" - Michael D. O'Brien

No evangelho de Lucas( 22; 60-62) lemos a seguinte passagem:

«Mas Pedro disse: Homem, não sei o que dizes.
Imediatamente, enquanto ele ainda falava, o galo cantou e o Senhor, voltando-Se, fixou o olhar em Pedro... E Pedro, saindo, chorou amargamente.»

«Eu tinha um relacionamento bastante bom com o Senhor. Conversava com Ele, pedia-Lhe coisas, louvava-O, agradecia-Lhe. Mas tinha sempre um sentimento ou sensação inesquecível de que Ele queria que eu olhasse bem no fundo dos Seus olhos... E isto eu não queria. Conversava muito, mas desviava os olhos, cada vez que percebia que Ele estava a olhar para mim. Sim, olhava sempre para outro lado. E eu sabia porquê! Tinha medo. Receava encontrar uma acusação nos olhos d´Ele: algum pecado não arrependido. Mas pensava também poder encontrar, naquele olhar, algum pedido: algo que Ele quisesse de mim. 
Um dia, finalmente, juntei toda a minha coragem e olhei! Não havia acusação alguma. Nem exigência ou pedido. Aqueles olhos diziam-me, simplesmente: «Eu amo-te!». Nessa altura eu olhei-os ainda mais no fundo com a persistência de quem procura algo. Nada encontrei, apenas a mensagem de sempre: «Eu amo-te!». Como Pedro, também eu saí... e chorei.»


Anthony de Mello, in "O canto do pássaro"

domingo, 5 de junho de 2016

Um poder infinito de perdão


"O mais profundo que podemos dizer de Deus é que Ele é um poder infinito de perdão" [François Varillon s.j., in "Alegria de Crer e de Viver"]

«Só percebe a necessidade do perdão quem experimenta a força extraordinária do Amor. Quem descobre como Deus esteve sempre a seu lado, como Deus o abraçou quando esteve caído, como Deus o vai conduzindo a uma maior fortaleza, a um maior compromisso de Amor. (...)

Perante as marcas do desamor em nós, os arranhões da ofensa, as ruturas do sofrimento, só o excesso de amor (e o perdão é isso, um excesso de amor) pode restabelecer a unidade da imagem e semelhança de Deus em nós. Só o excesso de Amor permite compreender o perdão. Este perdão imprevisível, este perdão sem condições nem medida, este perdão capaz de nos fazer levantar.»

José Tolentino Mendonça, in "Pai-nosso que estais na terra"

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Deus da fragilidade


«Não quero um Deus que se erga na justiça absoluta, no poder ilimitado, na perfeita inteligência. Seria um Deus que não sente a necessidade de se inclinar numa carícia, quando se eleva um gemido de dor.
Pelo contrário, o meu Deus é Jesus: que conhece a pressão do medo, a dor da recusa, a paixão do abraço, o calafrio pela carícia dos cabelos embebidos em nardo da mulher pecadora e amorosa.
Um Deus que me concede o direito de ser débil, «cana rachada», frágil como um homem e não hirto como um herói. E não me condena se sou mecha fumegante, mas pega neste meu fio de fumo, presságio de fogo possível, trabalha-o e protege-o, até dele fazer irromper de novo a chama. Não acaba por quebrar a cana rachada que eu sou, mas enfaixa-a como se fosse um coração ferido. Deus da fragilidade.»
[Ermes Ronchi, in «Tu és Beleza»]

sábado, 28 de maio de 2016

Quem é que tem medo da verdade?


Aproximou-se um homem habituado
ao uso inveterado do silêncio
o seu olhar varrendo toda a fraude
das palavras
Aproximou-se firme e impoluto
Esquadrinhou as faces oxidadas
da mentira
Olhou depois o chão como quem abre
um sepulcro
e lentamente desenhou
o puro rosto da verdade
sobre a areia.

Levantou depois os olhos azulados
À sua frente havia apenas céu
Para onde tinham ido os impostores? 
Quem é que tem medo da verdade? 
Baixou de novo os olhos 
e guardou na areia seca do deserto dois loiros grãos de trigo 
dois pedaços de azul
duas lágrimas
duas palavras interditas.

António Couto

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Deus é simples

«Deus é simples; nós é que O fazemos complicado.
Está próximo, nós é que O vemos à distância.
Faz parte da realidade e de tudo o que está ao nosso redor, nós é que O buscamos em sonhos e utopias.
O verdadeiro segredo para entrar em contacto com Deus é a humildade, simplicidade do coração é a agudeza do espírito; coisas essas que são infelizmente, apagadas em nós pelo orgulho, pela ganância e pela malícia.
Jesus já dizia: «Se não tiverdes um coração de criança, não entrareis no reino do céu»; e não adianta tentar enganar.»

Carlos Carreto

domingo, 22 de maio de 2016

A oração de Deus


"Sim, Deus também reza, e é de misericórdia o tom apaixonado da sua oração. Se escutardes com o coração, com o coração nas mãos, ouvireis em primeiro lugar, para espanto e encanto vosso, a oração de Deus. E Deus reza assim: «Que a minha vontade seja que a minha misericórdia possa vencer a minha ira, e que a minha misericórdia possa prevalecer sobre os meus outros atributos, de modo que eu trate os meus filhos com o atributo da misericórdia, e que, no meu relacionamento com eles, pare sempre no limiar da execução da justiça».

E, se continuardes a escutar com o coração, é quase certo que ouvireis o vosso nome, dito por Deus. Assim: Maria, Ana, Joana, Isabel, Marta, Madalena, António, Rui, Paulo, João, José, Pedro, Manuel, Ismael, minha filha, meu filho, bendiz-me! E vós direis então lá do fundo do vosso coração: «Que a Tua vontade seja que a Tua misericórdia possa vencer a Tua ira, e que a Tua misericórdia possa prevalecer sobre os Teus outros atributos, de modo que possas tratar os teus filhos de acordo com o atributo da misericórdia, e possas, no teu relacionamento com eles, parar antes da execução da justiça. E Ele acenar-vos-á que sim com a cabeça». Ele é Aquele que com a cabeça te acena sempre que sim com a cabeça. Ele é o Sim, Ele é a Porta, Ele é a Misericórdia sempre ali, sempre aqui, à tua espera, à nossa espera."

quinta-feira, 19 de maio de 2016

"Assim como Deus me fez, também eu te faço a ti"

«Se quisermos que o nosso mundo seja curado, já não nos podemos apoiar na lógica de "assim como tu me fizeste, também eu te faço a ti". Devemos aprender a lógica de "assim como Deus me fez, também eu te faço a ti" - o caminho do perdão e da reconciliação.»

[Tomás Halik, in "A Noite do Confessor"]


"O preceito mais radical de Jesus é talvez: «Sede misericordiosos como também o vosso Pai é misericordioso»(Lucas 6, 36).

Jesus descreve a misericórdia de Deus não só para me mostrar o que Deus sente por mim, ou para me perdoar os pecados e oferecer-me uma vida nova e muita felicidade, mas para me convidar a ser como Deus, a ser tão misericordioso para com os outros como Ele é para comigo. Se o único sentido da história fosse: toda a gente peca, mas Deus perdoa, muito facilmente começaria a pensar nos meus pecados como sendo uma bela ocasião para Deus me dar o seu perdão. Vistas assim as coisas, nem sequer haveria lugar para um autêntico desafio. Resignar-me-ia a ser fraco e ficaria à espera de que Deus acabasse por fechar os olhos aos meus pecados e me deixasse entrar em casa, fosse o que fosse que tivesse feito. Tal mensagem, porém, tão sentimental e romântica, não é a mensagem do Evangelho.


Se Deus perdoa aos pecadores, então aqueles que têm fé deveriam fazer o mesmo. Se Deus recebe os pecadores em casa, então aqueles que confiam em Deus também deveriam fazê-lo. Se Deus é misericordioso, então os que amam a Deus deveriam ser misericordiosos. O Deus que Jesus anuncia e em nome de quem actua, é o Deus da misericórdia, o Deus que se propõe como exemplo e modelo do comportamento humano."

Henri Nouwen, in "O Regresso do Filho Pródigo"

segunda-feira, 16 de maio de 2016

QUE SIGNIFICA AMAR?


«Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. (...)

Dia após dia, tocados pela sua compaixão, podemos também nós tornar-nos compassivos para com todos.»

Papa Francisco, in “Misericordiae Vultus” (“O rosto da Misericórdia”) - Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia


«Que significa amar?

Amar um ser é esperar nele para sempre.

Amar um ser é não o julgar; julgar um ser é identificá-lo com aquilo que dele se conhece. «Agora, conheço-te. Agora julgo-te. Sei aquilo que vales»... Isto representa matar um ser.

Amar um ser é esperar sempre dele algo de novo, algo de melhor.

Pensai, por exemplo, em Maria Madalena: Cristo esperava dela algo que ninguém tinha conseguido descobrir e amou-a tanto, perdoou-lhe tão generosamente que dela obteve o amor mais puro e mais fiel e, admirados, todos à sua volta comentavam: «Será possível que ela seja assim?! Tínhamo-la julgado, pensávamos conhecê-la, haviamo-la condenado e tudo porque nunca fora convenientemente amada...»
Cristo amou-a com tal perfeição que a tornou aquilo que os outros, pobres e desconfiados, demasiado avarentos de amor, não tinham sido capazes de suscitar nela.

Cristo aguardava, esperava tudo de toda a gente. Fazia surgir, ao Seu redor, vocações, amizades e generosidades; e todos os que supunham conhecer de longa data aqueles personagens, ficavam perplexos: «Como? Zaqueu tornou-se generoso? Maria Madalena tornou-se pura e fiel? Tomé tornou-se crente? Mateus, o publicano, feito Apóstolo? E todos esses pobres, todos esses pecadores se transformaram em apóstolos e santos?... Como é possível?»

Alguém os tinha amado, tinha acreditado neles.

Louis Evely, in "Fraternidade e Evangelho"

sábado, 14 de maio de 2016

«Vede como eles se amam!»

O que é um cristão? Como se reconhece um cristão?
“Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 35)
“Dou-vos um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13, 34)

Tertuliano, considerado um dos pais da igreja, testemunhou o espanto dos que não eram cristãos quando olhavam para o comportamento dos cristãos:
«Vede como eles se amam!»
Os primeiros cristãos levavam as palavras e ensinamentos de Jesus tão a sério que os pagãos exclamavam, admirados:
«Vede como eles se amam!»
No fundo, eles apercebiam-se de como a palavra dos seus lábios se repercutia na palavra da sua vida.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

UM DIA...

Um dia, vamos conhecer os verdadeiros santos de todas as religiões, credos, culturas, e de todos os ateísmos: os que viveram amando, no anonimato, sem nada esperar.

domingo, 8 de maio de 2016

Aceitas o convite para a Festa?

O Pai que perdoa, Frank Wesley, 1998.

Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos.
O filho disse-lhe: 'Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho.'
Mas o pai disse aos seus servos: 'Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado.' 

E a festa principiou.

Ora, o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se de casa ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. 
Disse-lhe ele: 'O teu irmão voltou e o teu pai matou o vitelo gordo, porque chegou são e salvo.' 
Encolerizado, não queria entrar; mas o seu pai, saindo, suplicava-lhe que entrasse. 
Respondendo ao pai, disse-lhe: 'Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos; e agora, ao chegar esse teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo.'

O pai respondeu-lhe: 'Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado.' 

(Lucas 15, 20-32 )

«O evangelho desvela o verdadeiro rosto do Pai – um rosto materno – e a sua incurável debilidade diante do filho “pecador” arrependido. 

O filho mais velho, ainda que não tivesse deixado a casa paterna, está distante da ternura do Pai. Sua fidelidade é puramente formal; sua obediência está privada de alegria e de amor; o seu coração é mesquinho e ele recusa-se a abandonar os seus esquemas rígidos.

A verdadeira traição é a daquele que permanece sem dar o passo decisivo: ultrapassar a soleira da porta e penetrar no centro da casa onde está o coração do Pai. Este coração, que recupera o filho por meio da nostalgia, do desejo, da espera vigilante: “Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos”. 

Somos convidados a participar da festa final, caso contrário, faremos como o filho mais velho que com o seu coração ressequido interrompe a festa, os bailes, a música e o banquete. Como um diligente executor de ordens, não suporta a alegria e azeda a vida de todos os que estão disponíveis para a alegria e a ternura. Ele desafina a partitura paterna da sinfonia da misericórdia com uma nota que tem o poder de estragar a sua harmonia e suspender a sua execução. A música só voltará a tocar se ele, o distante, passar pela soleira da porta e entrar na festa.

Será que terá esta magnanimidade?»

Comunidade dos Manos da Terna Solidão
Pe. Paulo Botas, mts 
Pe. Eduardo Spiller, mts 
Adaptado de: http://matersol.blogspot.pt/2013/09/o-caminho-da-beleza-43-xxiv-domingo-do.html

terça-feira, 3 de maio de 2016

UM FÉ À JESUS

«A única Fé decente e digna é a que humaniza as pessoas, as liberta dos medos e as cura dos egoísmos. Uma Fé à Jesus é capaz destes milagres.»

sábado, 30 de abril de 2016

EM SINTONIA COM JESUS

«Quando estiverem afinadas, Mestre,
todas as cordas da minha vida,
cada vez que as toques, cantarão de amor.»

[Rabindranath Tagore]
Afinar a nossa vida pela vida de Jesus.
Sintonizar o nosso coração com o coração do Mestre.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Uma pergunta pertinente de José Tolentino Mendonça:
«O que é que estamos a perder quando nos falta o desprendimento?»
Perante esta pergunta, ecoam em mim as palavras de Jesus ao jovem rico "Ainda te falta uma coisa...." (Mc 10:17-22). Assim como as que Jesus dirigiu a Marta, irmã de Maria: "Andas preocupada com tantas coisas, quando uma só é necessária" (Lc 10:38-42).

sábado, 23 de abril de 2016

DEIXAR-SE LEVAR


«Há um passo importante no nosso itinerário para Deus: deixar-se levar. As experiências que acompanham a maturidade na fé reconduzem-nos sempre à infância. Quanto mais nos aproximamos de Deus, mais captamos o sentido dos gestos simples que brotavam espontaneamente em nós quando éramos crianças. Por exemplo: dar a mão e deixar-se levar. (...)
Aprendemos a caminhar pela vida, assim, de mão dada, levados por outro, sem medo, com a alegria de ser amado.»

Carlos Maria Antunes, in "Só o Pobre se faz Pão"

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Amar é também saber dizer não

São Francisco abraçando um leproso, Julie Lonneman, 2014

«Jó define a lepra como a "primogénita da morte" (Jó 18, 13). De facto, os leprosos eram considerados como mortos e a sua cura eventual suscitaria o mesmo efeito de uma ressurreição da morte. O corpo do leproso é intocável não só por uma questão de higiene, mas pela simples razão de que ele é um cadáver e tocá-lo desencadearia uma impureza que impediria a participação nos actos religiosos da comunidade. 
No evangelho (Mc 1:40-45), o leproso desafia todas as normas, transgride a lei, aproximando-se de Jesus, mas coloca-se de joelhos à sua frente. Jesus é movido pela compaixão até às entranhas e transborda de ternura. Jesus toca o leproso e reafirma a transgressão iniciada por ele. Ele quer limpar o mundo dos estigmas e das exclusões que atentam contra a compaixão do seu Pai. E paga caro por esta atitude: "não pode entrar mais abertamente nas cidades, é forçado a ficar nos lugares desertos" (Mc 1, 45). (...)

Jesus se revela como a própria presença de Deus que destrói toda a falsa barreira legalista. É Aquele que rompe as fronteiras, derruba os muros seculares da separação, ultrapassa os preconceitos e aniquila as discriminações sociais e religiosas. A dor é o campo dramático em que se arrisca a fé: ou ela se cumpre ou se nega. Jesus está sempre presente nesta linha de fronteira da existência humana, nesta situação-limite em que a compaixão deve falar mais alto. Ele não conhece a hesitação dos puritanos nem o egoísmo dos bem situados e bem pensantes. Ele nos faz saber que onde está a dor devem estar presentes, sobretudo, os que O seguem. 

Nós, os cristãos, tantas vezes criamos “os leprosos”: os que não se comportam como as nossas ideias, os que nos incomodam e se tornam inoportunos. Quantos “leprosos” excluídos, escorraçados, ignorados, condenados ao isolamento no cenário teatral das nossas famílias, religiões e igrejas.(...)

A compaixão pode exigir-nos uma atitude de transgressão, pois o amor é maior do que tudo e leva-nos a confrontar todas as limitações, as imposições e, muitas vezes, a dizer um não a elas. Amar é também saber dizer não

Comunidade dos Manos da Terna Solidão
Pe. Paulo Botas, mts
Pe. Eduardo Spiller, mts

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A EXPERIÊNCIA MAIS AUTÊNTICA DE DEUS

«A experiência mais autêntica de Deus é darmo-nos conta de que Ele está completa e incondicionalmente a favor do homem, que se colocou do nosso lado até ao extremo de assumir a nossa fragilidade, o nosso medo, a nossa noite.»
Pedro Miguel Lamet, s.j., in "As Palavras Vivas - confidências de João, o discípulo predilecto"