terça-feira, 28 de abril de 2015

A FÉ É SEMPRE QUESTÃO DE VIDA


"Bem longe de ser um vago e cego arrepio da alma ou o resultado, claro e distinto, de uma demonstração lógica, a fé é sempre questão de vida - e de morte do medo de confiar num outro e de se lhe confiar."
José Frazão Correia, in "A Fé vive de afeto"

sábado, 25 de abril de 2015

NASCESSE HOJE...


«Foi baptizado em água doce, amou a pesca, andou com pescadores, encheu-lhes as redes (...)
Pediu ao ofendido que oferecesse a outra face, colocando o ofensor em risco de ridículo, mas ao mesmo tempo estabelecendo um limite para a prova: duas, e não mais, são as faces. 
Não escreveu, não ditou, as suas palavras faziam a viagem das abelhas sobre as pétalas abertas das orelhas. (...)
Salvou uma mulher condenada à lapidação pedindo aos seus acusadores que o primeiro dentre eles, desde que puro de pecados, se chegasse à frente com a primeira pedra. Sabia que os homens atiram com prazer as segundas.
Nascesse hoje, e seria num barco de imigrados, atirado ao mar juntamente com a mãe à vista da costa de Puglia ou da Calábria.(...)
Depois dele o tempo reduziu-se a um entretanto, a um parêntesis de vigília entre a sua morte e a sua nova vida. Depois dele ninguém é residente, mas todos são refugiados à espera de um visto. Somos nós, bem nutridos do ocidente, a coluna de estrangeiros em fila para lá do último guichet.»
Erri De Luca, in Caroço de Azeitona

domingo, 5 de abril de 2015

PÁSCOA


Vimos a pedra vazia no interior da terra
A manhã. Nós não tocámos a luz
Inesperada. Pensámos
Que já o sono sendo eterno te afastara
E que farol que foste
Agora onda após onda, brasa extinta, naufragava
Nunca mais, pensámos, dormirias na proa
E quase desaprendêramos a guiar o barco
Em nossas viagens não amainaria mais, pensámos, e chegar a casa
Seria ver multiplicar-se
A nossa fome como o peixe e como o pão
Chegámos a terra porém e esperavas-nos
Os pés furados como conchas sobre a areia
E sentámo-nos em redor para comer
Daniel Faria, «Poesia», Lisboa 2012

sábado, 4 de abril de 2015

SÁBADO SANTO


«O sábado santo não é apenas um dia imenso: é um dia que nos imensa. Aparentemente, representa uma espécie de intervalo entre as palavras finais de Jesus, pronunciadas na sexta-feira santa, “tudo está consumado”, e a insurreição da vida que, na manhã da Páscoa, ele mesmo protagoniza. […] O silêncio do sábado santo é o nosso silêncio que Jesus abraça. O silêncio dos impasses, das travessias, dos sofrimentos, das íntimas transformações. Jesus abraça o silêncio desta sôfrega indefinição que somos entre já e ainda não.»

José Tolentino Mendonça

sexta-feira, 3 de abril de 2015

ERA UMA VEZ O AMOR...



«Salvou os outros e não conseguiu salvar-Se a Si mesmo», comentava-se junto Daquele crucificado, sem perceber nada da sua história.
Na verdade, a história mais simples do mundo, mas por vezes complicamos tanto a simplicidade do mundo! Comprometemos a transparência da vida com o nosso excesso de razões!

No entanto, aquela história, a de Jesus, conta-se assim: «Era uma vez o Amor...». 
O amor, essa entrega de nós para lá do cálculo e da retenção, a ponto de não conseguirmos viver para nós próprios. 
O amor, essa descoberta de que ou nos salvamos com os outros (porque aceitamos o risco de viver para os outros) ou gastamos inutilmente o nosso tesouro.
O que se comentava junto da cruz, naquele dia, não era um insulto, mas o maior dos elogios feitos a Jesus.
Compreender isso é, de alguma maneira, acolher o sentido verdadeiro da Páscoa.

José Tolentino Mendonça

quinta-feira, 2 de abril de 2015

COMO RESISTIR A ESTE AMOR?



«...Os perdões arrogantes geram revolta; os reticentes esmagam; os sem amor não conseguem libertar nem salvar. Só o verdadeiro perdão, fruto de um amor puríssimo, pode fazer brotar uma nascente de vida no coração do infiel e regenerar quem fracassou no amor fazendo-o renascer para ele.

Também para Deus, e antes de mais para Deus, perdoar é amar, amar com um amor tal que faça surgir na escuridão e na impureza da alma um amor inteiramente novo que a purifica, transforma e encaminha para uma perfeição também inteiramente nova.

Pensemos no olhar de Cristo sobre Pedro quando este acabou de negá-lo... Não foi, como toda a certeza, um olhar de censura ou de cólera. Foi, o que é muito mais terrível, um olhar de amor, de amor intenso, exprimindo uma ternura mais solícita, mais calorosa e mais envolvente que nunca.
Pedro não pôde resistir-lhe; partiu-se-lhe o coração e soltaram-se-lhe as lágrimas, ao mesmo tempo amargas e doces. Simultaneamente, pela ação conjugada do olhar de Jesus e do Espírito de Cristo operando nele, um amor novo apoderou-se de todo o seu ser. De tal modo que, poucos dias depois da sua negação, ele ousou afirmar sem hesitações: «Tu sabes que eu sou deveras teu amigo». E Pedro não mente: esse amor novo que o olhar do seu Mestre fez jorrar nele levá-lo-á ao dom da sua vida numa cruz, depois de uma existência passada a pregar às multidões o amor com que Deus nos ama.»

Henri Caffarel, em "Nas Encruzilhadas do Amor"

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O AUGE DO AMOR


«Na cruz, o Cristo encontra-se no ápice do poder... exactamente porque Ele se encontra no auge do amor! Ele mostra, então, que o verdadeiro poder é o amor e que nada é possível contra o amor.


Não é possível impedir o Cristo de amar: "Perdoai-lhes porque eles não sabem o que fazem..." Até ao último instante, Ele é o mais forte. E Ele é o mais forte, na extrema fraqueza!»


Jean-Yves Leloup, em "Amar... apesar de tudo"

Nada é grave...

"Nada é grave, a não ser perder o amor." [Irmão Roger de Taizé]