quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O AMOR DE DEUS

«O Amor vem de Deus e leva-nos para Deus para retornar a Ele através de nós e nos levar a todos de volta para Ele na corrente da sua infinita misericórdia.

Assim, todos nós passamos a ser portas e janelas através das quais a luz de Deus se reflecte no interior da sua própria casa.

Quando o amor de Deus está em mim, Deus é capaz de amar-te através de mim e tu és capaz de amar Deus através de mim. Se a minha alma estiver fechada a esse amor, o amor de Deus por ti, o teu amor a Deus e o amor de Deus por Ele próprio em ti e em mim, ficariam privados da expressão particular que encontra através de mim e de mais ninguém.

Porque o amor de Deus está em mim, ele pode chegar a ti desde uma direcção diferente e particular, que se encontraria fechada se Ele não vivesse em mim. E, porque o seu amor está em ti, pode chegar até mim desde uma direcção que não poderia tomar de qualquer outro modo. E porque está em ti e em mim, Deus recebe uma glória maior.
O seu amor exprime-se de mais duas maneiras nas quais não poderia exprimir-se de outro modo; isto é, em mais duas alegrias, que não poderiam existir sem Ele.»

Thomas Merton, em "Novas sementes de contemplação"

domingo, 26 de dezembro de 2010

NATAL...

Jesus, neste natal encontrar-nos-ás?...

Já houve um dia em que não tiveste lugar nas casas iluminadas da cidade...

Hoje, com as pernas e o Coração a Caminho,
procuro-te nas ruas enfeitadas,
nas luzes, nas montras, nos rostos,
nas mãos carregadas de presentes sem história…

Há passos apressados e sacos cheios de menoridades necessárias
que esvaziam as algibeiras
mas não vejo encherem muito os corações…
Há rostos pesados e cansados
de olhares em sobressalto
entre a mais recente promoção e os últimos nomes da lista…
Há embrulhos, laços, postais, música…

E há as crianças...

Sim, sempre elas, a dar o tom da Alegria
Sem outra preocupação senão descobrir a última novidade
no céu, no semáforo que fica intermitente
ou no rafeiro que está deitado à entrada de um prédio...

Há as crianças...

Porque a alegria da maior parte dos que não são como elas não me convence…
Estão preocupados demais
para poderem estar alegres.
Estão apressados demais
para saborearem os caminhos que percorrem.
Estão ocupados demais
para perguntarem o porquê dos gestos que fazem.

Parece-me que o natal lhes sai dos bolsos
mas não lhes entra no coração!


E depois, sem que se dêem conta,
o natal já passou.
E não ficou…

Porque inventámos um natal
onde ninguém precisa de nascer para que seja NATAL!
Porque já vai longe a lembrança
de que um dia um Menino nasceu,
antes de haver shoppings e cartões de crédito;
num país onde não havia um Pai Natal
que gostasse de andar atrelado a renas;
onde não havia pinheirinhos com luzinhas
nem se cantava Jinglebells…

E, apesar de faltar tudo isso,
consta que houve NATAL…
E hoje, apesar de haver tudo isso,
consta que não há tanto NATAL como as montras dizem…


Rui Santiago, Derrotar Montanhas

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

UMA NOITE ILUMINADA, A PARTIR DE DENTRO



«Se, nas nossas vidas, cada noite pudesse vir a ser como uma noite de Natal, uma noite iluminada, a partir de dentro...

Já não sabendo como fazer para ser compreendido,o próprio Deus veio à Terra, pobre e humilde:se Jesus Cristo não tivesse vivido no meio de nós, Deus permaneceria longínquo, inatingível. Pela sua vida, Jesus concede-nos a graça de ver Deus de forma transparente.»

Irmão Roger, de Taizé, em "Viver em tudo a paz do coração"

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

SÓ O AMOR É DIGNO DE FÉ

O filósofo Jean Guitton, na sua obra "As minhas razões de crer", coloca uma questão pertinente: "Que se passaria em mim se a minha fé diminuísse e se desvanecesse; se, como dizem as pessoas, «perdesse a fé»? (...)

Jean Guitton afirma que o famoso padre jesuíta Teilhard Chardin colocou a si mesmo esta questão, e respondeu, «que se deixasse de crer em Deus, no Deus cristão, e mesmo em Deus pura e simplesmente, continuaria a crer no Mundo.»

Quanto a mim, se eu «perdesse a fé», estaria em plena sintonia com Jean Guitton, pois «seria no amor ou, para ser mais exacto, no que existe de absoluto no amor, que eu creria.»

Faço minhas suas palavras: «Se eu tivesse vergado sob o peso do desespero e privado de toda a esperança encontraria, nesta loucura possível do amor, força suficiente para dar ainda alguns passos na estrada da dor.
Dito de outra forma, a ideia que me daria forças face à perda de tudo, seria a ideia de que existe talvez, algures, um ser capaz de amar com um amor infinito.
E então, mesmo que esse ser fosse único, parece-me que valeria a pena o mundo ser aceite, e que teria uma razão de ser, e que o homem teria uma razão para viver e também para morrer.(...)

Também me revejo nas palavras do padre Valensin citado na referida obra de J. Guitton:
«Se na hora da minha morte visse claramente que me espera o nada e que todas as crenças estão repletas de ilusão, não lamentaria absolutamente nada ter-me enganado toda a vida e ter crido na verdade do cristianismo, pois era o amor infinito que estaria errado por não existir, e não eu por ter acreditado nele.»

Por fim, para melhor exprimir tudo o que tentou dizer sobre esta questão, Jean Guitton recorre às palavras de São João Maria Vianney, que dizia: «Se na hora da morte me aperceber de que Deus não existe, terei sido bem enganado, mas não lamentarei o facto de ter passado a vida inteira a crer no amor.»

Jean Guitton, em "As minhas razões de crer"

domingo, 19 de dezembro de 2010

O PESO DO JULGAMENTO

«Imaginemos que não temos nenhuma necessidade de julgar ninguém. Imaginemos que não temos nenhuma vontade de decidir se alguém é boa ou má pessoa. Imaginemos que somos completamente livres de sentir e ajuizar sobre o tipo de comportamento, seja de quem for. Imaginemos-nos com a capacidade para dizer: «Não vou julgar ninguém!»

Imaginemos - não seria isto uma autêntica liberdade interior?

Os Padres do deserto do século IV diziam: «Julgar os outros é um fardo pesado.» Eu tive alguns momentos na vida em que me senti livre da necessidade de fazer qualquer juízo de valor acerca dos outros. Senti que me tinha sido tirado um peso dos ombros. Nesses momentos, experimentei um amor imenso por todos os que encontrei, por todos aqueles de quem ouvi algumas coisas e, sobretudo, por aqueles dos quais li algumas coisas. Uma solidariedade profunda com todos os povos e um profundo desejo de os amar desceram as paredes do meu íntimo e tornaram o meu coração grande como o universo.

Um desses momentos ocorreu depois duma passagem de sete meses por um mosteiro de Trapistas. Vivia tão inundado da bondade de Deus que via essa bondade onde quer que fosse, mesmo atrás das fachadas de violência, destruição e crime. Tive que me coibir de abraçar as mulheres e homens que me venderam géneros alimentícios, flores e um fato novo. É que todos me pareciam santos!

Todos podemos desfrutar destes momentos se estivermos atentos ao movimento do Espírito de Deus dentro de nós. São como amostras do céu, de beleza e de paz. É fácil descartar estes momentos como produto dos nosso sonhos ou da nossa imaginação poética. Mas, quando optamos por pedi-los como uma forma de Deus nos dar umas pancadinhas no ombro e de nos mostrar a verdade mais profunda da existência, gradualmente somos capazes de ultrapassar a necessidade de julgar os outros e a inclinação para ajuizar acerca de tudo e de todos. Então poderemos crescer rumo a uma verdadeira liberdade interior e a uma verdadeira santidade.

Mas, só poderemos pôr de lado o fardo pesado de julgar os outros quando não nos importamos de suportar o ligeiro peso de ser julgados!»

Henri Nouwen, em "Aqui e Agora"

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

UMA VIDA QUE BROTA DO ESPÍRITO

«É muito perigoso quando sentimos um orgulho idólatra e presunçoso (embora muito secreto) em nossa capacidade de obstinação, resolução e autodeterminação - mesmo em coisas boas como a oração, leitura bíblica ou serviço cristão.

A vida que Jesus veio trazer é uma vida que não depende da força de vontade. Brota do Espírito de Deus e activa e transforma nosso espírito. É uma vida baseada em infusão - o Espírito de Deus infunde meu espírito; os desejos mais profundos, os anseios e os sonhos de Deus tornam-se meus. É esse o caminho - e o único caminho - para a liberdade e a satisfação de preferir a vontade de Deus à minha.»


David G. Benner, em "Desejar a vontade Deus"

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

UM CORAÇÃO PURO E LÍMPIDO

«A oração torna o coração puro. É este o começo da santidade. A santidade não é um luxo reservado a alguns: é um dom simples oferecido a vós e a mim.
Onde começa a santidade? Nos nossos corações. É por isso que temos necessidade da oração contínua para manter o coração puro e assim ele tornar-se-á sacrário do Deus vivo. (...)

Deixar o amor de Deus tomar posse do coração, de forma total e absoluta, torna-se para o coração como uma segunda natureza. Que o coração não deixe entrar nada nele que seja contrário ao amor de Deus; que se esforce continuamente por aumentar este amor de Deus ao procurar agradar-Lhe em tudo e não Lhe recusando o que Ele pede; que aceite, como vindo da mão de Deus, tudo o que lhe acontece; que tome a firme decisão de nunca cometer uma falta deliberada e conscientemente, mas se cair, que peça perdão e se levante imediatamente. Um coração assim reza continuamente.

O conhecimento de Deus produz o amor e o conhecimento de si próprio faz-se na humildade. A humildade é apenas a verdade. O que é que possuímos que não tenhamos já recebido? - pergunta São Paulo. Se recebi tudo, que bem é que tenho de mim mesmo? Se estamos convencidos disto, nunca ergueremos a cabeça com orgulho.
Se fordes humildes, nada vos tocará, nem o louvor nem o opróbrio, porque vós sabeis o que sois. Se vos culpam, não desanimareis. Se vos proclamam santo, não vos colocareis a vós próprios num pedestal. O conhecimento de nós próprios faz-nos ajoelhar.
Mudai os vossos corações...Não há conversão sem mudança de coração:mudar de lugar não é solução;mudar de actividade não é solução.A solução é mudar os nossos corações.E como os mudamos?Rezando.

Madre Teresa de Calcutá, em "Oração: Frescura duma fonte"

domingo, 12 de dezembro de 2010

CAMINHO ESTREITO


«Custa a crer que Deus nos revelaria a sua divina presença na vida de autodespojamento e humildade do Homem de Nazaré. Uma grande parte de mim procura influência, poder , sucesso e popularidade. Mas o caminho de Jesus é o do recato, da falta de poder e da pequenez. Não parece um caminho muito atraente. E, no entanto, quando penetrar na verdadeira, profunda comunhão com Jesus, descobrirei que é este caminho estreito que conduz à paz e à alegria verdadeiras.(...)

Continuo tão dividido. Desejo sinceramente seguir-te, mas quero igualmente seguir os meus próprios desejos e ainda dou ouvidos às vozes que falam de prestígio, de sucesso, de reconhecimento humano, de prazer, de poder e de influência. Ajuda-me a ficar surdo a essas vozes mais atento à tua voz, que me chama a escolher o caminho estreito...
Em todos os momentos da minha vida tenho que escolher o teu caminho. Tenho de escolher pensamentos que sejam os teus pensamentos, palavras que sejam as tuas palavras e acções que sejam as tuas acções.
Não existem nem tempos nem lugares sem escolhas. E eu sei quanto resisto a escolher-te. »

Henri Nouwen, em "A caminho de Daybreak"

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

UM REFLEXO DE CRISTO

"Tu que aspiras a seguir Cristo Ressuscitado, questionas-te sobre o sinal que te permita perceber que já o encontraste. Serás capaz de compreender que Ele vive sempre nas profundezas de ti próprio, no mais íntimo do teu coração? (...)


Paira em nós um reflexo de Cristo. De nada serve procurar saber do que se trata. Existem na terra muitas pessoas em quem, sem elas o saberem e, porventura, sem se atreverem a acreditar nisso, resplandece a santidade de Cristo.»

Irmão Roger, de Taizé, em "Em tudo a paz do coração"

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

DEUS NUNCA SE DECEPCIONA

«Somos moldados por todas as graças que recebemos, por todas as graças que recusámos,
por todos os gestos de amor e todos os gestos de ódio ou de indiferença,
pelos nossos fracassos e os nossos êxitos;
tudo, literalmente tudo se inscreve na nossa carne.

Assim, a experiência do amor de Deus por nós,
experiência que fazemos um dia (...),
não muda a nossa história nem o que nos moldou,
mas muda-nos porque nos revela que Deus nos ama,
tal como somos,
não tais como gostaríamos de ser,
não tais como a sociedade ou os nosso pais gostariam que fôssemos,
mas tais como somos hoje, com as nossas fragilidades, as nossas feridas,
os nosso medos, as nossas qualidades e os nosso defeitos.

Tais como somos hoje, somos amados por Deus.

E, se temos a impressão de que constantemente decepcionamos os outros,
que somos incapazes de corresponder às suas expectativas,
à sua confiança, às esperanças que depositaram em nós;
se temos o sentimento de que há uma distância
entre o que parecemos ser e o que somos na realidade,
entre aquilo que os outros pensam que somos capazes de fazer e o que podemos fazer de facto, então é preciso que saibamos que a Ele, o nosso Deus, jamais O decepcionaremos.

Ele conhece-nos exactamente.
Conhece o estranho mundo de trevas e luz que nos habita,
conhece melhor que nós esta mistura misteriosa que somos,
sabe aquilo de que somos capazes.
Os outros podem ser decepcionados por nós porque formam sonhos a nosso respeito
e nos projectam no ideal;
Deus nunca Se decepciona, porque aquele que ama, é aquele que eu sou hoje;
Deus não vive no futuro nem no passado mas sim no presente.
Ele "é" o presente e vê-me na minha realidade presente.»

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

domingo, 5 de dezembro de 2010

COM OS OUTROS

«Uma das descobertas que fazemos na oração é que, quanto mais nos aproximamos de Deus, mais perto ficamos de todos os nossos irmãos e irmãs da família humana.

Deus não é um Deus privado. O Deus que mora no nosso santuário íntimo é também o Deus que mora no santuário íntimo de cada ser humano. Reconhecendo a presença de Deus no nosso próprio coração, podemos também reconhecer essa presença no coração dos outros, porque o Deus que nos escolheu a nós como lugar de habitação também nos dá a capacidade de ver o Deus que habita nos outros. Se virmos só demónios dentro de nós mesmos, também só veremos demónios nos outros. Mas, quando vemos Deus dentro de nós, também podemos ver Deus nos outros.

Tudo isto poderá parecer sobremaneira teórico, mas, se orarmos, experimentaremos cada vez mais que somos parte da família humana, infinitamente atraída por Deus que a todos nos criou para partilhar da sua luz divina.

Com frequência, perguntamo-nos o que é que podemos fazer pelos outros, especialmente por aqueles que mais necessidades sentem. Não é nenhum sinal de fraqueza dizermos: «Devemos rezar uns pelos outros.»
Rezar uns pelos outros é, antes de mais, reconhecer, na presença de Deus, que pertencemos uns aos outros como filhos do mesmo Deus. Sem este reconhecimento de solidariedade humana, o que fizermos uns pelos outros não nascerá do que realmente somos.
Somos irmãos e irmãs, e não competidores ou rivais. Somos filhos de Deus, não seguidores de diferentes deuses.

Orar, isto é, escutar a voz daquele que nos trata como «muito amados», é aprender que essa voz não exclui ninguém. Onde eu moro, Deus mora comigo e onde Deus mora comigo encontro todos os meus irmãos e irmãs. E assim, a intimidade com Deus e a solidariedade com toda a gente são dois aspectos inseparáveis do mesmo viver, no momento presente.»

Henri Nouwen, em "Aqui e Agora"

domingo, 28 de novembro de 2010

TORNAR-SE CRISTÃO

«Tornar-se cristão não é garantia de um prémio individual; não é a reserva privada de um bilhete de entrada no Céu, que nos permite olhar de cima para os outros e afirmar: «Tenho o que os outros não têm».
Tornarmo-nos cristãos não é algo que nos seja dado, para que nós, individualmente, o introduzamos num qualquer sistema e nos distanciemos dos outros, a quem isso não foi dado. Não: de certa forma, uma pessoa não se torna cristã para si própria, mas para o todo, para os outros, para todos. (...)

Tem de nos ser suficiente saber, na fé, que nós, ao nos tornarmos cristãos, nos colocamos à disposição para a prestação de um serviço para o todo. Desta forma, tornarmo-nos cristãos não é sinónimo de agarrar qualquer coisa só para nós; pelo contrário, significa deixar de lado o egoísmo, que só se conhece a si próprio e que só pensa em si próprio, e assumir a nova forma de existência daqueles que vivem uns para os outros. (...)

Ser cristão é essencialmente, e em primeira linha, a libertação do egoísmo daquele que vive só para si e o mergulho na grande orientação básica do estar à disposição dos outros. (...)

No fim, o movimento essencial da cristandade não é mais do que o movimento essencial do amor, no qual participamos no amor criador do próprio Deus

Joseph Ratzinger, em "Do sentido de ser cristão"

CONFIAR EM DEUS

«A nossa confiança em Deus pode ser reconhecida
quando se exprime no dom simples das nossas vidas:
é acima de tudo quando é vivida que a fé se torna credível e se comunica.»
Irmão Roger, de Taizé, em "Em tudo a paz do coração"

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O ESPÍRITO INEXTINGUÍVEL

“A Sagrada Escritura é como um ser humano. O Antigo Testamento é o corpo, o Novo Testamento é a alma, e o sentido do que ali está é o espírito.
De um outro ponto de vista, podemos dizer que toda a Escritura sagrada, Antigo e Novo Testamento, tem dois aspectos: o conteúdo histórico, que corresponde ao corpo, e o sentido profundo, o objetivo a que devemos aspirar, e que corresponde à alma. Se pensamos nos seres humanos, vemos que eles são mortais em seu aspecto visível, mas imortais em suas qualidades invisíveis. Assim é a Escritura. Ela contém a letra, o texto visível, que é transitório. Mas também contém o espírito escondido por trás da letra, e esse não se extingue nunca, e deveria ser o objeto da nossa contemplação”.

São Máximo Confessor

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O FILHO DO AMOR

"Ao dar-se conta de que havíamos esquecido nossa própria história, Deus enviou-nos Jesus como a personificação do amor.
O Filho veio para revelar o carácter do Pai e para nos levar de volta ao Pai, ou seja, de volta para o amor. (...)
Jesus veio a este mundo para nos levar de volta ao Amor.
Ele veio a este mundo para protagonizar a maior história de amor do mundo. Mas é óbvio que isso não foi feito por simples decreto.
Ele, o Filho do Amor, veio a este mundo para nos revelar que o amor é o nosso destino, a nossa cura e nossa realização.
Ele veio para revelar o Amor Perfeito que tanto desejamos e ao qual pertencemos. E Ele veio para nos mostrar como nossa entrega total ao amor deve ser feita."

David G. Benner, em "A Entrega Total ao Amor"

domingo, 21 de novembro de 2010

CONVIDAR E ACOLHER JESUS

Quando se aproximaram da aldeia para onde iam, fez menção de seguir para diante. Eles, porém, insistiam com Ele, dizendo: Fica connosco; porque é tarde, e já declinou o dia. E entrou para ficar com eles.» (Lc 24, 28-29)

«Estamos mais inclinados a pensar que é Jesus quem nos convida a partilhar a sua casa, a sua mesa, a sua refeição. Jesus, porém, quer ser convidado. Se não o for, prosseguirá viagem, em busca de outros lugares.
É muito importante percebermos que Jesus nunca nos força a aceitar a sua presença. A menos que nós o convidemos, continuará a ser um estranho, possivelmente um estranho muito atraente e inteligente, com quem podemos ter entabulado um diálogo interessante, mas que não deixa de ser um estranho...Sem um convite, que é expressão do desejo de uma relação perdurável, a boa notícia que ouvimos não poderá dar frutos duradouros...
Só mediante um convite a «fica comigo» um encontro interessante se pode transformar numa relação transformadora.

Jesus é uma pessoa muito interessante; as suas palavras são cheias de sabedoria. A Sua presença aquece o coração. A sua bondade e doçura tocam-nos profundamente. A Sua mensagem constitui um forte desafio.
Mas será que nós O convidamos para nossa casa? Porventura queremos que Ele venha conhecer-nos entre as paredes da nossa vida mais íntima? Porventura queremos apresentá-Lo a todas as pessoas com quem vivemos? Porventura queremos que Ele nos veja na nossa vida quotidiana? Queremos que Ele nos toque nos pontos em que somos mais vulneráveis? Porventura queremos que Ele entre na arrecadação de nossa casa, nessas divisões que nós próprios preferimos manter seguramente fechadas à chave? Desejamos verdadeiramente que Ele fique connosco quando vai caindo a noite e o dia já está no ocaso?»

Henri Nouwen, em "Não nos ardia o coração?"

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Deus ama-te apaixonadamente, tal como és. (...)
O Senhor é um Deus apaixonado por ti.
Deus é amor e não pode, não sabe, não é capaz de fazer outra coisa
senão amar-te, gostar de ti,
querer-te bem. (...)

O Senhor ama-te porque Ele é bom,
porque é amor.
Não está à espera que tu sejas anjo ou santo para te amar.
Ele sabe que és barro, que és frágil e por isso te ama,
te quer bem.
Não duvides deste amor e abre-te a Ele. (...)

Recorda o que o Senhor disse a Catarina de Sena:
«faz-te receptiva e Eu serei torrencial».
Aprende a ser receptivo,
aprende a ter um coração pobre, despojado e humilde,
e o Senhor será, em ti, torrencial,
encher-te-á, mais e sempre mais, do seu amor. (...)

Deixa Deus ser Deus,
deixa Deus amar-te, abraçar-te, beijar-te,
acariciar-te como faz o Pai do pródigo.
Não fujas, não recues, não te afastes,
não coloques obstáculos.
Deixa-te amar por Deus. (...)

Antes de pensares nos teus pecados,
contempla o amor que Deus tem por ti,
antes de olhares as tuas misérias,
descobre a ternura amorosa do teu Deus. (...)
Convence-te, cada dia sempre mais,
que Ele não é capaz de deixar de te amar. »

Dário Pedroso, s.j. , em "Sinfonias do Amor" (adaptado)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O Céu

" O Céu é o contacto do ser do homem com o ser de Deus,
o encontro íntimo de Deus e do homem."

François Varillon, s.j. , em "Alegria de Crer e Viver"

domingo, 14 de novembro de 2010

A PAZ DO CORAÇÃO

«O coração alcança paz quando,
depois de ter sido ferido ou humilhado,
confia a Deus, sem hesitar um instante sequer,
aqueles que o feriram ou maltrataram.»

Irmão Roger, de Taizé, em "Em tudo a paz do coração"

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O In-comparável

"Deus nunca será propriamente um objecto de inteligência, porque nada há na mente que não haja previamente passado pelos sentidos. Como não pode ser objecto directo de inteligência, o Senhor é, em compensação, objecto de fé. Só na fé Ele pode «ser entendido» cabalmente. (...)

Deus «entende-se» de joelhos: assumindo-O, acolhendo-O, vivendo-O. (...)
O difícil e necessário é deixar-se conquistar por Ele. (...)
O verdadeiro crente entrega-se na escuridão e só então começa a entender o mistério e nasce a certeza.


Deus é completamente diferente das nossas ideias, conceitos e preconceitos, representações e imagens. Diz Santo Agostinho:

«Julgas saber o que é Deus? Julgas saber quem é Deus? Não é nada do que imaginas, nada do que o teu pensamento abarca.
Ó Deus que estás acima de todo o nome, acima de todo o pensamento, para além de qualquer ideal e de qualquer valor, ó Deus vivo.»


O Senhor é muito maior, muito mais admirável e magnífico que tudo o que possamos conceber, sonhar, desejar, imaginar. Realmente Ele é o In-comparável.

Deus só se assume na fé. Mais do que objecto de inteligência, é objecto de contemplação.


Na noite profunda da fé, quando a alma, como terra cega e sedenta se abre docilmente à acção divina e acolhe o Mistério Infinito como chuva mansa que cai e inunda e fecunda..., só assim, entregues, receptivos, começaremos a «entender» o Ininteligível.»

Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O Homem

«Com o facto da Encarnação renunciou a todas as vantagens de ser Deus e submeteu-se a todas as desvantagens de ser homem...

...Aceitou-se a si mesmo como homem; e aceitou-se sem evasões nem compensações, sem recorrer à Sua divindade para utilidade própria; fê-lo sim, mas para utilidade dos outros. Foi totalmente fiel ao homem.
Nunca «atraiçoou» a Sua condição humana.
Tudo isso está expresso quando a Escritura diz que Jesus «desceu» até à condição de servo, feito igual a qualquer homem (Flp. 2, 5 ss).»

Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

domingo, 7 de novembro de 2010

ENTREGA

"O explorador do fundo do mar ou o astronauta,
na sua nave espacial,
lançam-se à aventura em nome da ciência.
Quando tu deixares tudo por amor a Deus,
talvez arriscando todo o teu ser por Ele,
então a autenticidade da tua vida interior tornar-se-á evidente aos olhos dos outros."

Francisco Xavier Nguyen Van Thuan

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

IMPELIDOS PELO AMOR

"Não digas: «Perdi a inspiração.»
Por que haverias de trabalhar sob inspiração?
O trabalho de Deus não é de modo algum equiparável à criação poética.
Trabalha, impelido pelo amor e pela certeza de que nunca perderás o amor de Deus."

Francisco Xavier Nguyen Van Thuan

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

COMO AS CRIANCINHAS


«As crianças a brincar juntas mostram-nos a alegria de estarem juntas, assim..., nem mais nem menos.
Um dia, quando eu estava muito ocupado a entrevistar uma artista que admirava bastante, a sua filhinha de cinco anos disse-me: «Fiz um bolo de aniversário com areia. Agora tem de vir e fingir que o está a comer e que gosta dele. Vai ser divertido!»
A mãe sorriu e disse-me: «É melhor você brincar com ela antes de falar comigo. Talvez ela tenha mais a ensinar-lhe do que eu.»

A alegria simples e directa duma criança recorda-nos que Deus se manifesta nos lugares onde há sorrisos e até risadas. Os sorrisos e as risadas abrem as portas do reino. Eis por que Jesus faz um apelo a que nós sejamos como crianças.»

Henri Nouwen, em "Aqui e Agora"

domingo, 31 de outubro de 2010

A VIDA E A MORTE

O dia acaba,
As sombras da morte adensam-se
No fim do caminho ocidental.
O sol poente, pródigo na despedida,
Reúne com ambas as mãos os seus tesouros.
Na confusão das cores, vejo
O horizonte luminoso da morte,
A grandeza da vida.

A minha respiração terminará
Com estas palavras de despedida:
«Quanto amei!»
O mistério eterno, derramando-se nas margens
Uniu a vida e a morte,
E encheu noite e dia
O meu cálice de dor com néctar.

Viajei solitário
Pelo duro caminho do peregrino da Dor,
Sob o ardente sol de Abril!
Quantos dias
Estive sem companhia!
Quantas noites
Sem uma luz!

E, no entanto, dentro do meu coração
Senti o seu contacto.
A coroa de espinhos da Calúnia
Feriu-me muitas vezes...
E tinha-a adoptado como minha grinalda de casamento.

Os que, encarnados em homens,
Pronunciaram a Palavra -
Divina e inexprimível -
São meus semelhantes.
Quantas vezes jazi derrotado
No medo e na vergonha!
E, no entanto, na minha voz ecoou
A vitória do Infinito.
Embora a minha adoração seja imperfeita,
De vez em quando a minha alma soluçante
Consegue sair abrindo as portas da sua cela.

Nesta vida recebi
O direito ao nascimento do Homem...
Essa é a minha boa sorte.
Para mim é o néctar divino
Que flui através dos tempos
No pensamento, conhecimento e trabalho,
A perfeição,
Cuja imagem resplandece no meu coração
Para que todos participem dela.

Ele, que é excelente para lá de toda a excelência,
Ele perante quem me inclino,
Embora ás vezes me esqueça de pronunciar o Seu nome.
As bênçãos dos ceús silenciosos,
O êxtase do amanhecer,
Tocaram o meu coração.
Neste mundo repleto de maravilhas,
Nesta vida plena de grandezas,
A morte tornar-me-á completo.

Rabindranath Tagore

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

ESPERAR A HORA DE DEUS

«É muito difícil esperar na provação.
Ou somos assaltados pela angústia e tentamos forçar os acontecimentos,
tentamos "fazer coisas", lançamo-nos numa actividade louca e sem real objectivo,
apenas para canalizar essa angústia, evacuar as energias doidas que nos submergem pouco a pouco.
Ou então destruímos tudo, escapamo-nos, fugimos: não podemos mais permanecer quando nada se passa e nada muda.

Na provação, é preciso aprender a esperar, muitas vezes sem nos mexermos,
numa atitude de oração e oferenda.

É preciso pedir a Jesus essa graça de saber esperar, sem compreender sempre o que se passa,
e sem querer ditar a nossa vontade aos acontecimentos, às coisas e às pessoas.
É certo, o ser humano tem vontade de compreender, de saber, de avançar, e é magnífico.
Mas às vezes, também, é preciso aceitar não compreender imediatamente.

Há muitas coisas que não se compreendem e, às vezes, é preciso saber esperar a luz, permanecer, não se mexer, velar, esperar a hora de Deus.»

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

domingo, 24 de outubro de 2010

SÓ O AMOR É CREDÍVEL

«Só o amor é credível, nada mais do que o amor pode e deve ser crido.

O que decididamente atrai a atenção para Cristo não é que Ele seja mais poderoso do que os outros homens (graças a uma ciência ou a uma força de vontade inauditas, ou a outras faculdades psíquicas e parapsíquicas que, por exemplo, explicariam os seus milagres), é que Ele quer ser tão «manso e humilde de coração» (Mt 11, 29) e assim tão «pobre em espírito» (Mt 5, 3) que, mediante esta disposição humana, o amor absoluto pode transparecer perfeitamente e tornar-se nele presente.
Mais ainda, esta disposição amorosa só pode, no fim de contas, ser determinada (inventada e suscitada) por este amor absoluto.»

Hans Urs von Balthasar, em "Só o Amor é Digno de Fé"


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A HORA DE FALAR ACABOU

"Não percas de vista o final da vida. Não esqueças o teu propósito e destino como criatura de Deus. O que tu és à vista Dele é o que tu és, e nada mais. Lembra-te que quando deixares esta terra não poderás levar contigo nada que recebeste - sinais efémeros de honra, paramentos do poder -, mas apenas o que te foi dado: um coração pleno enriquecido por honesto serviço, amor, sacrifício e coragem." - Francisco de Assis

Para Francisco, o discipulado - seguir a Cristo - não era apenas a coisa mais importante da vida - era a única coisa. Era literalmente uma questão de vida ou morte: sou o que sou aos olhos de Deus e nada mais. O discipulado exige que coloquemos de lado os acessórios, paremos de fazer jogos de palavras e cheguemos á essência das coisas.
Para o seguidor de Jesus a essência está em viver pela fé e não pela religião. Viver pela fé consiste em constantemente redefinir e reafirmar a nossa identidade com Jesus, medindo-nos a partir do padrão que é Ele - não medindo a Ele a partir dos nossos dogmas eclesiásticos e heróis locais.
Jesus é a luz do mundo. Na sua luz descobrimos que não é mera retórica o que Jesus exige, mas renovação pessoal, fidelidade à Palavra e conduta criativa. Como disse Emile Leger quando deixou a sua mansão em Montreal para viver numa colónia de leprosos em África: "A hora de falar acabou."


Brennan Manning, em "A assinatura de Jesus"

domingo, 17 de outubro de 2010

EVITA TODAS AS FORMAS DE AUTOCENSURA

«Deves evitar não só culpar os outros mas também a ti mesmo. Tens tendência a recriminar-te pelas dificuldades que sentes nos relacionamentos que entabulas. Mas a auto-recriminação não é uma forma de humildade. É uma forma de autocensura, na qual ignoras ou negas a tua própria virtude e beleza.

Quando uma amizade não floresce, quando uma palavra não é acolhida, quando um gesto de amor não é apreciado, não te censures a ti mesmo, porque isso é falso e doloroso. Sempre que te rejeitas idealizas os outros. Queres estar com os que consideras melhores, mais fortes, mais inteligentes e mais dotados do que tu. Assim, tornas-te emocionalmente dependente, levando os outros a sentirem-se incapazes de satisfazerem as tuas expectativas e a afastarem-se de ti. O que faz com que te censures ainda mais e entres numa espiral perigosa de auto-rejeição e carência.

Evita todas as formas de autocensura. Reconhece as tuas limitações, mas assume as tuas virtudes únicas e começa a viver como um igual entre iguais. Assim libertar-te-ás das tuas necessidades obsessivas e possessivas e darás a ti próprio a oportunidade de dar e receber afecto e amizade verdadeiros.


Henri Nouwen, em "A voz íntima do amor"

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

PASSAR POR CIMA DAS NOSSAS FERIDAS

«Os humanos sofrem imenso. Muito, para não dizer a maior parte, do nosso sofrimento tem origem na relação com aqueles que nos amam. Estou constantemente ciente de que a minha agonia profunda provém, não dos terríveis eventos que leio nos jornais ou vejo na televisão, mas da relação com as pessoas com quem partilho a minha vida diária. São precisamente os homens e mulheres, que me amam e que estão muito perto de mim, os que me ferem.

À medida que ficamos mais velhos, geralmente vamos descobrindo que nem sempre fomos bem amados. Com frequência, os que nos amaram também nos usaram. Os que se interessaram por nós foram, por vezes, também invejosos. Os que nos deram muito, por vezes, exigiram também muito em troca. os que nos protegeram quiseram também possuir-nos nos momentos críticos. Habitualmente, sentimos a necessidade de esclarecer como e porque é que estamos feridos; e, com frequência, chegamos à alarmante descoberta de que o amor que recebemos não foi tão puro e simples como tínhamos julgado. É importante esclarecer estas coisas, especialmente quando nos sentimos paralizados por medos, preocupações e anseios obscuros que não compreendemos.

Mas compreender as nossas feridas não basta. Ao fim e ao cabo, temos que encontrar a liberdade para passar por cima das nossas feridas e a coragem para perdoar aos que nos feriram. O verdadeiro perigo está em ficarmos paralizados pela raiva e pelo ressentimento. Então começaremos a viver com o complexo do "ferido", queixando-nos sempre de que a vida não é "justa".

Jesus veio livrar-nos destas queixas auto-destrutivas. Diz Ele. "Põe de lado as tuas queixas, perdoa aos que te amaram mal, passa por cima da sensação que tens de seres rejeitado e ganha coragem para acreditar que não cairás no abismo do nada mas no abraço seguro de Deus cujo amor curará todas as tuas feridas."

Henri Nouwen, in "Aqui e Agora"

sábado, 9 de outubro de 2010

PERMANECER EM JESUS

«Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o viticultor (...)
Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim.
Eu sou a videira; vós sois as varas. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer (...)
Como o Pai me amou, assim também eu vos amei; permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor.»
(Jo 15; 1-10)

"A tarefa mais importante do discípulo é permanecer em Jesus. A permanência é a condição para poder dar fruto. O ramo só pode dar frutos se permanecer preso à videira. Permanecer em Jesus significa ficar imbuído do espírito e do amor de Jesus. Assim como o ramo recebe a seiva da videira, assim flui dentro de nós o amor de Jesus manifestado na sua morte de cruz.

Trata-se de um permanecer mútuo. Nós devemos permanecer em Jesus. E então também Ele permanecerá em nós impregnando-nos com o Seu amor. E esse amor nos faz dar frutos. O verdadeiro fruto não consiste em grandes feitos exteriores, ele se mostra, isso sim, no amor que passamos a irradiar. Tudo o que fazemos só será fecundo se levar a marca do amor."

Anselm Grün, em "JESUS - Porta para a Vida"

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

SER

«As pessoas não necessitam de reflectir tanto sobre o que deveriam fazer; elas deveriam, pelo contrário, reflectir sobre aquilo que elas são. Ora, se as pessoas e os seus modos fossem bons, então as suas obras poderiam refulgir limpidamente.

Se tu fores justo, então as tuas obras também serão justas. Não se pode pensar a santidade com fundamento numa acção; deve-se, pelo contrário, fundamentar a santidade em um ser, pois as obras não nos santificam, senão que nós devemos santificar as obras. (...)

O fundamento para que a essência e o fundamento do ser do homem, de onde as obras humanas recebem a sua benignidade, seja inteiramente bom, é o seguinte: que o carácter do homem esteja totalmente virado para Deus.
Coloca todos os teus esforços em que Deus seja grandioso para ti e que toda a tua ambição e devoção se dirijam para Ele em todo o teu actuar. Em verdade, quanto mais assim fizeres, tanto melhores serão as tuas obras, não importa de que género elas sejam.

Mestre Eckhart, em "Tratados e Sermões"

domingo, 3 de outubro de 2010

ACOLHER JESUS

«Quando se aproximaram da aldeia para onde iam, fez menção de seguir para diante. Eles, porém, insistiam com Ele, dizendo: Fica connosco; porque é tarde, e já declinou o dia. E entrou para ficar com eles.» (Lc 24, 28-29)

«Estamos mais inclinados a pensar que é Jesus quem nos convida a partilhar a sua casa, a sua mesa, a sua refeição. Jesus, porém, quer ser convidado. Se não o for, prosseguirá viagem, em busca de outros lugares. É muito importante percebermos que Jesus nunca nos força a aceitar a sua presença. A menos que nós o convidemos, continuará a ser um estranho, possivelmente um estranho muito atraente e inteligente, com quem podemos ter entabulado um diálogo interessante, mas que não deixa de ser um estranho...Sem um convite, que é expressão do desejo de uma relação perdurável, a boa notícia que ouvimos não poderá dar frutos duradouros...Só mediante um convite a «fica comigo» um encontro interessante se pode transformar numa relação transformadora.

Jesus é uma pessoa muito interessante; as suas palavras são cheias de sabedoria. A Sua presença aquece o coração. A sua bondade e doçura tocam-nos profundamente. A Sua mensagem constitui um forte desafio. Mas será que nós O convidamos para nossa casa? Porventura queremos que Ele venha conhecer-nos entre as paredes da nossa vida mais íntima? Porventura queremos apresentá-Lo a todas as pessoas com quem vivemos? Porventura queremos que Ele nos veja na nossa vida quotidiana? Queremos que Ele nos toque nos pontos em que somos mais vulneráveis? Porventura queremos que Ele entre na arrecadação de nossa casa, nessas divisões que nós próprios preferimos manter seguramente fechadas à chave? Desejamos verdadeiramente que Ele fique connosco quando vai caindo a noite e o dia já está no ocaso?»

Henri Nouwen, em "Não nos ardia o coração"

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

«Deus não nos ama por causa das nossas virtudes. Ama-nos apesar de nós!»

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

SOMOS IMAGEM DE DEUS

«Quando o homem libera e põe a descoberto a Luz divina que Deus por sua natureza criou nele, então se revela a Imagem de Deus nele. Ao nascer se conhece a revelação de Deus. Dizer que o Filho nasceu do Pai significa que o Pai, em forma paterna, revela seu Mistério a ele.

Por isso: quanto mais e com maior claridade o homem põe a descoberto a imagem de Deus, com tanto mais claridade Deus nasce nele. O nascer de Deus se entende assim: o Pai põe a descoberto a Imagem e brilha no homem.»

Mestre Eckhart

domingo, 26 de setembro de 2010

A TENTAÇÃO DE IMPRESSIONARMOS

«Como podemos ultrapassar esta tentação que invade toda a nossa vida?
É importante reconhecer que a nossa fome de coisas espectaculares - tal como o nosso desejo de nos evidenciarmos - tem muito a ver com a nossa procura de identidade. Ser uma pessoa e ser-se visto, aprecidado, amado e aceite tem-se tornado quase a mesma coisa para muita gente. Quem sou eu, se ninguém me presta atenção, me agradece ou reconhece o meu trabalho?
Quanto mais inseguros, hesitantes e solitários formos, maior será a nossa necessidade de popularidade e apreço.

Infelizmente, essa fome nunca será saciada. Quanto mais apreciados somos, mais desejamos sê-lo.
A fome de aceitação humana é como um barril sem fundo, que ninguém pode encher: nunca poderá ser satisfeita.


Jesus respondeu ao tentador: «Não tentarás ao Senhor, teu Deus.»
De facto, a procura de prestígio pessoal é a expressão da dúvida que temos relativamente à forma plena e incondicional com que Deus nos aceita.

Trata-se, de facto, de pôr Deus à prova. É o mesmo que dizer: «Não estou bem certo de que Tu gostas mesmo de mim, de que Tu me amas de facto, de que Tu achas mesmo que eu valho alguma coisa. Vou dar-te a oportunidade de mo demonstrares acalmando os meus medos internos com o apreço humano, e aliviando a minha baixa auto-estima com aplausos humanos.»

O verdadeiro desafio que nos é proposto é regressar ao centro, ao coração, e encontrar aí a voz suave que nos fala e nos confirma de uma forma que nenhuma voz humana alguma vez poderia fazê-lo.

A base da nossa vida cristã é experiência da aceitação ilimitada e irrestritiva de nós mesmos como filhos bem-amados, uma aceitação tão plena, tão total e tão abrangente, que nos liberta da necessidade compulsiva de sermos vistos, apreciados e admirados, e nos liberta para Cristo, que nos conduz pelo caminho do serviço.

Esta experiência da aceitação de Deus liberta-nos do nosso eu carente, criando assim, um novo espaço onde podemos prestar uma atenção desinteressada aos outros.

Só uma vida de contínua comunhão íntima com Deus pode revelar-nos a nossa verdadeira identidade; só uma vida assim pode libertar-nos para agirmos segundo a verdade, e não segundo a nossa necessidade de coisas espectaculares.

Isto está longe de ser fácil. Requer-se uma disciplina séria e perseverante de solidão, silêncio e oração. Uma disciplina assim não nos recompensará com o brilho exterior do êxito, mas com a luz interior que ilumina todo o nosso ser, e que nos permite ser testemunhas livres e desinibidas da presença de Deus nas nossas vidas.»

Henri Nouwen, em "O esvaziamento de Cristo"

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Jesus, luz do coração,
gostaríamos de nunca te abandonar na berma do nosso caminho.
Pois sempre que te deixamos transfigurar as nossas fragilidades,
eis que despontam em nós aptidões que não conhecíamos.


Irmão Roger, de Taizé, em "Viver em tudo a Paz do Coração"

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Deus de misericórdia,
Tu conheces aquilo por que esperamos:
ser reflexo da tua presença
e tornar bela a vida daqueles que nos confias.
Irmão Roger, de Taizé, em "Em tudo a Paz do Coração"

domingo, 19 de setembro de 2010

DEIXA QUE JESUS TE TRANSFORME

«Andas à procura de Jesus. Tentas encontrá-lo não apenas na tua mente mas também no teu corpo. Buscas o seu afecto e sabes que esse afecto envolve tanto o seu corpo como o teu. Ele encarnou para ti, para que o pudesses encontrar na carne e receber o seu amor na carne. Mas permanece em ti algo que impede este encontro. Continua a haver uma grande quantidade de vergonha e de culpa enraizada no teu corpo bloqueando a presença de Jesus. Não te sentes completamente à vontade no teu corpo; olhas para ele como se não fosse um lugar suficientemente bom, bonito ou puro para encontrar Jesus.

Quando olhas para a tua vida com mais atenção verás como ela tem estado recheada de medos, principalmente de medo daqueles que detêm autoridade: os teus pais, professores, bispos, guias espirituais e até mesmo amigos. Nunca te sentiste igual a eles e humilhaste-te sempre diante deles. Durante a maior parte da tua vida sentiste que precisavas da autorização deles para seres tu próprio.

Pensa em Jesus. Ele que foi inteiramente livre perante as autoridades do seu tempo. Ele que disse às pessoas para não se submeterem ao comportamento dos Escribas e Fariseus. Jesus viveu entre nós como igual, como um irmão.

Ele quebrou as relações piramidais entre Deus e as pessoas humanas, bem como entre as próprias pessoas, e apresentou um novo modelo: o círculo, onde Deus vive em perfeita solidariedade com as pessoas e as pessoas umas com as outras. Não serás capaz de encontrar Jesus no teu corpo enquanto o teu corpo se mantiver cheio de dúvidas e receios. Jesus veio para te libertar desses nós e para criar dentro de ti um espaço onde te possas encontrar com Ele. Ele deseja que tu vivas a liberdade dos filhos de Deus.

Não desesperes, pensando que não és capaz de te modificar após estes anos todos. Penetra simplesmente na presença de Jesus como és e pede-lhe que te dê um coração intrépido, onde Ele possa estar contigo.

Jesus veio para te dar um coração novo, um espírito novo, uma mente nova e um corpo novo. Deixa-o transformar-te através do seu amor, permitindo-te, por conseguinte, receber o seu afecto com todo o teu ser.»

Henri Nouwen, em A Voz Íntima do Amor

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Quero o que Tu queres

«Ó Cristo, hoje Tu me chamas!
Nas portas que abres e que fechas,
nas surpresas que nem sempre entendo,
és Tu que me maravilhas no desejo permanente de me fazer feliz.
Mesmo sem me perguntar se posso,
mesmo sem saber se me apetece,
sem me perguntar se quero,
quero o que Tu queres,
agora e sempre,
Ámen».

(Oração atribuída a Madeleine Delbrêl, em "Se tu soubesses o dom de Deus", de Luís Rocha e Melo S. J.)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

"DEUS EXISTE. EU ENCONTREI-O!"


André Frossard: do ateísmo... ao fervor da fé!


Quem era André Frossard? (cliquem sobre o nome) Ele próprio conta a sua história num livro intitulado "Deus Existe. Eu Encontrei-o." Este livro deu a volta ao mundo inteiro e suscitou entusiasmo e desprezo. Como sempre! Há quem veja e há quem não queira ver; há quem ouça e há quem não queira ouvir. Não há por que nos admiremos.

André Frossard era o filho do primeiro secretário do Partido Comunista Francês: a sua família era ateia e afastada de toda a problemática religiosa. Observa com fina ironia: «Na nossa casa, nem por distracção se aflorava o assunto "religião". Éramos ateus perfeitos, daqueles que nunca se interrogam sobre o seu ateísmo.»

No entanto, aos vinte anos de idade, André Frossard tem um extraordinário e inefável encontro com Deus. Ele começa assim o relato memorável do encontro com Deus:

«Agora, acontece que, por um acaso extraordinário, conheci a verdade sobre a mais debatida das causas e sobre o mais antigo dos problemas: Deus existe. E eu encontrei-o!
Encontrei-o por combinação - antes deveria dizer: por acaso, se o acaso tivesse algo a ver com esta espécie de aventura. - Encontrei-o com o assombro e aturdimento de quem, ao virar a esquina habitual da costumada rua de Paris, visse diante dos olhos, em vez da praça e do cruzamento de todos os dias, um mar inesperado que se estende até ao infinito, lambendo com as suas ondas as paredes das casas. Um momento de espanto que ainda dura. Nunca me habituei à existência de Deus.»

Ele prossegue assim o relato da sua experiência:

«Ás cinco e dez de uma tarde (era o dia 8 de Julho de 1937), entrei numa capela do bairro latino de Paris para procurar um amigo e saí às cinco e um quarto, com um amigo que não era deste mundo. Entrei céptico e ateu (…) e mais que céptico e ateu, entrei indiferente e tão preocupado com outras coisas do que com um Deus que eu nem sequer pensava em negar (…)

Em pé junto da porta, busquei com o olhar o meu amigo e não consegui reconhecê-lo (…)
O meu olhar passa da sombra à luz, retorna aos fiéis, sem ir atrás de nenhum pensamento, vai dos fiéis às religiosas imóveis, das religiosas ao altar e, depois, não sei porquê, detém-se na segunda vela que arde à esquerda da cruz. Não na primeira nem na terceira: na segunda. E, então, de repente, desencadeia-se uma série de prodígios que com inexorável violência desmontará num instante o ser absurdo que eu sou, para dar vida ao rapaz estupefacto que nunca fui.
Primeiro surgem-me estas palavras "vida espiritual."
Não ditas nem formadas por mim próprio. Ouvidas como se fossem pronunciadas ao meu lado em surdina por uma pessoa que está a ver o que eu ainda não vejo. (...)

Logo que a última sílaba deste prelúdio sussurrado atinge o fio da consciência, começa uma avalancha ao contrário. Não digo que o céu se abre; não se abre, atira-se, eleva-se de repente, silenciosa fulguração(...) Um cristal indestrutível, de uma transparência infinita, de uma luminosidade quase insustentável (um pouco mais ter-me-ia aniquilado) e azulada, um mundo, outro mundo de um esplendor e de uma densidade que atiram de chofre o nosso para as sombras frágeis dos sonhos irrealizados. (...)
Há uma ordem, no universo, e no cume, para lá deste véu de neblina resplandecente há a evidência de Deus (...) Um Deus cuja doçura sinto, uma doçura activa, desconcertante, que vai além de toda violência, capaz de quebrar a pedra mais dura e, mais duro ainda que a pedra, o coração humano.
A sua irrupção transbordante e total, é acompanhada por uma alegria que é a exultação de quem foi salvo, a alegria do náufrago que foi recolhido a tempo.(...)
Estas sensações, que tenho dificuldade de traduzir na linguagem inadequada das ideias e das imagens, são simultâneas (…)
Tudo é dominado pela presença (…) daquele cujo nome nunca poderei escrever sem o receio de ferir a sua ternura, aquele diante do qual tive a sorte de ser um filho perdoado, que se esforça para aprender que tudo é dom.

Então, uma oração comovida sela o relato da conversão de Frossard:
«Amor [Deus], para falar de ti será demasiado curta toda a eternidade»

Depois de escrever este relato André Frossard apercebe-se da enormidade das suas palavras e apressa-se a precisar:

«Não nego o que uma conversão como esta, pela sua característica de instantaneidade imprevista, pode ter de chocante e até inadmissíevl, para os espíritos contemporâneos que preferem as vias do racionalismo aos raios místicos e que apreciam cada vez menos as intervenções do divino na vida quotidiana.»

Fonte: "Onde está o teu Deus? - Histórias de conversões no século XX" (Angelo Comastri)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

PENSAR...

O homem será o que for o coração, e a ginástica própria do coração é o amor." (Ortega Gaisan)

"Só Deus pode fazer uma árvore." (Kilmer)

"A minha sede de verdade era em si mesma uma oração." (Edith Stein)


"Não devo desejar ser aquilo que não sou, mas ser muito bem o que sou." (João XXIII)

"Deus é pura Poesia." (Miguel Torga)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

SOFRIMENTO


"Deus não veio suprimir o sofrimento,
nem mesmo explicá-lo,
mas veio enchê-lo da sua presença."
(Paul Claudel)


"O cristão não é um voluntário do sofrimento,
mas do amor,
um amor que amadurece também através do sofrimento."
(G. Davanzo)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O NOME DE JESUS

"O nome de Jesus se compara ao azeite.
O azeite tem cinco propriedades:
sobrenada a todos os líquidos,
amolece as coisas duras,
dulcifica as ásperas,
ilumina as escuras, sacia os corpos.

Também o nome de Jesus está acima de todo nome de homens e de anjos,
se o pregas amolece os corações duros,
se o invocas dulcifica as tentações ásperas,
se pensas nele ilumina o coração, se o lês sacia o espírito".

Santo António

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A PÉROLA

"A toda a hora e a todo o momento,
guardemos nosso coração, ciosamente,
dos pensamentos que escurecem o espelho da alma;
espelho que sua natureza destina a receber os traços e a impressão luminosa de Jesus Cristo... Procuremos o reino dos céus dentro do coração
e certamente encontraremos a pérola...
contanto que purifiquemos os olhos do espírito."

(Do livro : "Pequena Filocalia" , Filoteu, O Sinaíta, pag 93)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A MAIOR DÁDIVA

«O que Deus dá parece por vezes tão grande... e nós somos tão pobres!
Ele oferece aquilo que se nos afigura difícil de imaginar:
o nosso coração ser habitado por Cristo, pelo Espírito Santo.

Jesus, Amor de todo o amor,
Tu estavas sempre em mim e eu esquecia-me.
Estavas no íntimo do meu coração e eu procurava-te fora.
Enquanto andava longe de ti,
Tu estavas à minha espera.
Agora, ouso dizer-te:
Cristo, Tu és a minha vida."

Senhor Ressucitado,
sempre que possuímos o desejo simples de acolher o teu amor eis que,
pouco a pouco,
uma chama se acende no mais profundo do nosso ser.
Avivada pelo Espírito Santo,
mesmo sendo muito frágil,
ela não pára de arder.
E quando descobrimos que Tu nos amas,
a confiança da fé torna-se o nosso próprio cântico.»

Irmão Roger, de Taizé, em "Em tudo a paz do coração"

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

PAZ E PERDÃO

«O coração alcança paz quando,
depois de ter sido ferido ou humilhado,
confia a Deus,
sem hesitar um instante sequer,
aqueles que o feriram ou maltrataram.

Não perdoamos para que o outro mude.
Seria um acto calculista que nada tem a ver com a gratuidade do amor evangélico.
Perdoamos por causa de Cristo.
Perdoar é ir ao ponto de renunciar saber o que o outro vai fazer desse perdão.»


Irmão Roger, de Taizé, em "Em tudo a paz do coração"

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

CAMINHO ESTREITO

«Custa a crer que Deus nos revelaria a sua divina presença na vida de autodespojamento e humildade do Homem de Nazaré. Uma grande parte de mim procura influência, poder , sucesso e popularidade. Mas o caminho de Jesus é o do recato, da falta de poder e da pequenez. Não parece um caminho muito atraente. E, no entanto, quando penetrar na verdadeira, profunda comunhão com Jesus, descobrirei que é este caminho estreito que conduz à paz e à alegria verdadeiras.(...)

Continuo tão dividido. Desejo sinceramente seguir-te, mas quero igualmente seguir os meus próprios desejos e ainda dou ouvidos às vozes que falam de prestígio, de sucesso, de reconhecimento humano, de prazer, de poder e de influência. Ajuda-me a ficar surdo a essas vozes mais atento à tua voz, que me chama a escolher o caminho estreito...

Em todos os momentos da minha vida tenho que escolher o teu caminho. Tenho de escolher pensamentos que sejam os teus pensamentos, palavras que sejam as tuas palavras e acções que sejam as tuas acções. Não existem nem tempos nem lugares sem escolhas. E eu sei quanto resisto a escolher-te. »

Henri Nouwen, em "A caminho de Daybreak"

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

SENHOR DO IMPOSSÍVEL

"Tornamo-nos verdadeiramente cristãos quando descobrimos que Deus é o senhor do impossível e que precisamos do Espírito Santo para fazer o que não podemos fazer por nós próprios.

A vida do discípulo é ir até ao fim, até que se torne impossível e descobrir então que Deus pode tornar possível o impossível."

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O GRANDE SEGREDO

Respondeu-lhe Jesus: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu é que lhe pedirias e ele havia de dar-te água viva!»

Disse-lhe a mulher: «Senhor, tu não tens com que tirá-la, e o poço é fundo; donde, pois, tens essa água viva? És tu, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do qual também ele mesmo bebeu, e os filhos, e o seu gado?

Replicou-lhe Jesus: Todo o que beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der há-de tornar-se nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna.» (João 4, 10-14)

"Quande se ama alguém, dá-se-lhe a vida,
dá-se-lhe confiança em si próprio,
mostra-se-lhe como é belo,
revela-se-lhe o poder do amor que está nele
e a sua capacidade para dar a vida.

Dizendo a essa mulher da Samaria que nela a água que Ele, Jesus, lhe ia dar
se tornaria nela "nascente de água jorrando para a vida eterna",
Jesus revela-lhe que há nela um poço,
uma nascente, uma fonte divina.

Nós não sabemos que há em nós essa nascente.
Sabemos que temos uma inteligência, sabemos que podemos produzir coisas,
sabemos que temos emoções, desejos, pulsões,
mas ignoramos que há em nós
um poço de ternura,
uma fonte que pode dar a vida,
uma nascente que pode comunicar o próprio amor de Deus.

Jesus revela à samaritana este mistério que está nela: ela é capaz de amar,
pode tornar-se um poço, uma nascente de vida eterna
se matar a sede na nascente que é Jesus.

É o grande segredo para cada um de nós: se bebemos na nascente que é Jesus,
podemos tornar-nos fonte de ternura que dá vida ao mundo
e corresponder ao desejo de Jesus de que sejamos fecundos e produzamos muito fruto."

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

DEUS NUNCA SE DECEPCIONA

«Somos moldados por todas as graças que recebemos, por todas as graças que recusámos,
por todos os gestos de amor e todos os gestos de ódio ou de indiferença,
pelos nossos fracassos e os nossos êxitos;
tudo, literalmente tudo se inscreve na nossa carne.


Assim, a experiência do amor de Deus por nós,
experiência que fazemos um dia (...),
não muda a nossa história nem o que nos moldou,
mas muda-nos porque nos revela que Deus nos ama,
tal como somos,
não tais como gostaríamos de ser,
não tais como a sociedade ou os nosso pais gostariam que fôssemos,
mas tais como somos hoje, com as nossas fragilidades, as nossas feridas,
os nosso medos, as nossas qualidades e os nosso defeitos.

Tais como somos hoje, somos amados por Deus.

E, se temos a impressão de que constantemente decepcionamos os outros,
que somos incapazes de corresponder às suas expectativas,
à sua confiança, às esperanças que depositaram em nós;
se temos o sentimento de que há uma distância
entre o que parecemos ser e o que somos na realidade,
entre aquilo que os outros pensam que somos capazes de fazer e o que podemos fazer de facto, então é preciso que saibamos que a Ele, o nosso Deus, jamais O decepcionaremos.

Ele conhece-nos exactamente.
Conhece o estranho mundo de trevas e luz que nos habita,
conhece melhor que nós esta mistura misteriosa que somos,
sabe aquilo de que somos capazes.
Os outros podem ser decepcionados por nós porque formam sonhos a nosso respeito
e nos projectam no ideal;
Deus nunca Se decepciona, porque aquele que ama, é aquele que eu sou hoje;
Deus não vive no futuro nem no passado mas sim no presente.
Ele "é" o presente e vê-me na minha realidade presente.»

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

CONSTRÓI SOBRE A ROCHA

«Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, será comparado a um homem prudente, que edificou a casa sobre a rocha. E desceu a chuva, correram as torrentes, sopraram os ventos, e bateram com ímpeto contra aquela casa; contudo não caiu, porque estava fundada sobre a rocha. Mas todo aquele que ouve estas minhas palavras, e não as põe em prática, será comparado a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia. E desceu a chuva, correram as torrentes, sopraram os ventos, e bateram com ímpeto contra aquela casa, e ela caiu; e grande foi a sua queda.» (Mateus 7, 24-27)
A parábola da casa na rocha é utilizada num sermão de João Crisóstomo, como prova da sua tese: «Ninguém te pode magoar a não ser tu mesmo.» Aquele que constrói a sua casa na rocha não pode ser prejudicado pelas tormentas interiores e exteriores. As tormentas de emoções que correm para ele não o magoam. As pessoas que lutam contra ele, que o difamam, que intrigam contra ele, não têm qualquer poder sobre ele. A sua casa permanece de pé. O seu fundamento não está em ser amado pelos homens, mas por Cristo. (...)
Jesus está convencido de que as tormentas e marés não nos podem fazer mal se nós tivermos construído a nossa casa na rocha das suas palavras. (...)

Quando construímos a nossa casa em Cristo, encontramos o caminho para a verdadeira vida, então aprendemos a ter prazer na vida, sempre e em todo o lado, mesmo nas tormentas que nos assaltam, mesmo nas marés de emoções que se abatem sobre nós diariamente.

Cristo, como fundamento da casa da nossa vida, oferece-nos segurança e liberdade, tranquilidade e serenidade, em todos os contratempos da vida.

Anselm Grün, em "Bento de Núrsia - Mestre da Espiritualidade"

domingo, 1 de agosto de 2010

ENCONTRAR DEUS NAS DIFICULDADES

«Nós encontramos Deus no meio daquilo que nos acontece, que nos agride, sejam os irmãos, que nos fazem mal, seja a própria sombra, que nos ataca.
É na rotina diária que se decide se o indivíduo se torna amargo e duro, pelas frustrações da vida, ou se opta por se abrir a Deus, deixando-se modificar pelo seu Espírito. (...)

A raiva perante a injustiça e perante situações adversas torna-nos cegos para as hipóteses de solução que se escondem nas dificuldades da vida. (...)
Quando as situações adversas são vividas à luz de Deus, esta luz altera os nossos sentimentos e dá-nos força interior. (...)
É nos problemas e dificuldades que arrasto comigo que me encontro com Deus, que actua em mim e me modifica.»

Anselm Grün, em "Bento de Núrsia - Mestre da Espiritualidade"

quinta-feira, 29 de julho de 2010

INOCÊNCIA

Inocente é aquele em quem não reside o mal,
E que não o comete;
Nele não existe qualquer duplicidade, o seu coração não
Está dividido;
Nele não há sinuosidade: nem no seu comportamento
Nem nas suas palavras.
Só tem um olhar,
O do amor,
Mas do amor que se dá,
E se difunde sem cálculos.

O inocente em quem não reside o mal,
Não o vê no outro,
Confia sempre…
«Não tenho receio de ti, posso aproximar-me de ti sem
Qualquer temor, não tens segundas intenções, nem preconceitos;
Não és manhoso nem matreiro; os teus olhos límpidos
Desmontam as barreiras que ergui em torno do meu coração, barreiras de medo.
A tua inocência seduz-me».



O mundo não pode receber esse inocente.
A sua presença condena.
O brilho dos seus olhos condena,
Não o da criança que pretende captar e seduzir,
Nem o do ignorante ou do ingénuo,
Mas o do homem consciente do alcance
Dos seus actos,
Que sabe que diante dos homens
E da lei
Pode ser tido por louco ou até condenável,
Mas prefere deixar-se guiar por essa outra lei, a lei eterna
Da pessoa e do seu amor, e da sua verdade.

O inocente é o homem livre que se faz escravo de Espírito.
Não se deixa aprisionar num grupo,
Branco ou negro,
Com as suas convenções sociais,
As suas maneiras de agir e os seus costumes.
Esse Espírito dá-lhe um coração universal
Que lhe permite poder encontrar o miserável,
O rico, o pobre,
Com um coração feito amor para o acolher e introduzir
No seu próprio coração,
Com esse sopro eterno.

A inocência verdadeira é a do amor que se difunde
Sem medo,
Porque somos amados e envolvidos
Pelo Amor do Pai.
E essa primeira fonte chama-se JESUS CRISTO.

E tu, inocente
Não tens medo,
Não tens medo do mundo,
Nem medo do mal,
Nem medo dos outros,
Nem medo de ti mesmo e da tua carne.
Tu caminhas pela vida
Sem temor,
Olhando, dando,
Entregando-te em absoluta tranquilidade,
De rosto radiante e límpido.
Mas tu não irradias a tua própria inocência,
É por isso que não tens medo…
Não tens medo de a perder,
Porque sabes que essa inocência vem do Alto,
Ou, antes, de uma nascente mais profunda
Do que tu:
A inocência que jorra de Deus
E que se chama JESUS CRISTO.

Porque és pobre
E porque o sabes
E porque amas a tua pobreza,
É que podes enfrentar a vida, o mundo e os outros,
Sem medo,
Para oferecer a tua inocência,
Para dar a tua paz,
Essa certeza e essa força do Amor.

Tu, inocente,
Podes tocar no mundo, na matéria e no outro,
Não para os tomar para ti,
Arrebatando-os ao outro,
Nem para os possuir só para ti
(contacto impuro e possessivo),
Nem para os destruir, pisar,
Fazer desaparecer, matar
(contacto de ódio e violência),
Mas para lhes transmitir a vida,
A liberdade
Que brota da paz.

O teu contacto, então, é como o de Jesus,
Um contacto feito de doçura,
De ternura
De vida,
Que cura.
«Ó contacto delicado

Que transforma a morte em vida!» (S. João da Cruz)

A inocência,
Miragem imaginária que se esfuma
Mal a procuro,
Porque não se pode procurar.
Ela só existe na medida
Em que te encontro
A ti
E a ti, Jesus Cristo,
A quem amo.

Jean Vanier, em "Novas Perspectivas do Amor"

domingo, 25 de julho de 2010

ABRIR-SE À TERNURA - A HISTÓRIA DE HELENA

A Helena, da comunidade de Punla nas Filipinas, morreu há alguns meses.
Tinha quinze anos quando chegou à comunidade.
Tinha vivido no hospital desde a nascença e era muito pequena.


Era cega, incapaz de andar, de falar, de fazer fosse o que fosse com as mãos; um pobre corpinho ferido e frágil.
Era Keiko, uma jovem japonesa, que se ocupava dela. E quando fui a Manila nesse ano, Keiko disse-me como era difícil conviver com a Helena.

Helena não tinha qualquer reacção. Era completamente amorfa, não reagindo a nada, não reclamando nada, capaz apenas de mamar o biberão que lhe metiam na boca. Era muito duro não saber nada do que ela podia sentir e não ter qualquer comunicação com ela.


Encorajei Keiko a falar-lhe com muita doçura, a tocá-la com muita ternura, a segurá-la com muito amor. E disse-lhe. "Se Deus quiser, um dia ela sorrirá. E, nesse dia, Keiko, mandar-me-ás um postal".


Alguns meses depois, recebi um postal de Manila:
"A Helena hoje sorriu", escrevia Keiko.
Helena tinha recuperado a vida: algo de emparedado nela, no fundo dela, se tinha libertado, uma pequena nascente havia surgido, tinha recuperado a confiança.


É assim, nós somos seres de comunhão, e quando a comunhão não é possível, fechamo-nos em nós próprios, tornando-nos incapazes de comunicar, de agir, de entrar nessa circulação vital do mundo e dos seres; é como se tivéssemos deixado de ser irrigados.
A criança que está abandonada, deixada a si própria desde a nascença, fecha-se num mundo de tristeza e de depressão e torna-se incapaz de reagir. (...)


Tudo o que a criança pode viver é a comunhão, esse vaivém de amor em que se dá e se recebe.
Ás vezes oiço os psicólogos dizerem que a criança não ama, que o amor é algo que se desenvolve, algo que é da ordem do dom e do altruísmo.

É verdade que há no amor essa dimensão oblativa que é necessário indubitavelmente adquirir pouco a pouco, mas é falso dizer que a criança não ama.
Pelo contrário, a criança não é senão amor.
Mas vive uma forma de amor que nós perdemos e de que temos muito medo: o amor de confiança.
Há um amor de generosidade de que sem dúvida o pequenino não é capaz.
Um bebé não é generoso! Mas é extraordinariamente confiante e a confiança é já um dom de si.

Nós crescemos talvez em generosidade, mas perdemos a confiança: a confiança em Deus, a confiança nos outros. Temos tanto medo de ser enganados, manipulados, traídos, de depositar mal a nossa confiança que desenvolvemos todo um sistema de defesa, ao abrigo do qual procuramos provar a nossa independência, a nossa autonomia.


A criança não pode ser autónoma. É tão pequena quando nasce que nada pode fazer por si própria, nem sequer puxar os cobertores se tem frio de noite!
Está dependente em tudo e só pode gritar.
Mas o que é extraordinário é que o seu grito é também um sinal de confiança: "Tenho confiança em ti, sei que me amas, sei que queres o meu bem, que queres que eu seja feliz. Sei que responderás ao meu grito", diz ela.
E a mãe responde ao grito da criança, interpreta o seu grito: "Tem fome, tem sede, sente-se triste, tem medo do escuro..."
Gosto muito de ouvir uma mãe interpretar o grito do seu bebé, compreendê-lo, porque o ama e o conhece. (...)


A criança precisa de ser amada, com esse amor que lhe revela que é bela, que estamos felizes de estar com ela, felizes que ela exista, felizes de nos ocuparmos dela, de tocá-la, de a banhar, de a beijar ou de brincar com ela.
Ela sente-o através da forma como a tocamos, como lhe falamos, pois não contam apenas as palavras, mas também, e mais ainda, o tom de voz.
Quando uma criança é pequena demais para compreender as palavras, compreende no entanto muito bem o tom de voz. (...)


Não conhecemos a história da Helena, não sabemos exactamente o que a feriu, mas sabemos que ela estava horrivelmente ferida.
Deve ter chamado e chamado para receber amor, ternura, para que alguém se ocupasse dela com doçura, para que lhe fizessem sentir que ela era importante, que ela contava para alguém.


E se ninguém respondeu - e ninguém deve ter respondido- um dia deixou de chamar, fechou-se em si própria, retirou-se o mais que pôde do mundo. (...)


Como sairá Helena da sua prisão de medo e de desespero?
Como se abrirá de novo à comunicação?
Encontrando alguém em quem possa ter confiança, alguém que não a julgue nem a condene.
Porque se Helena se abre um pouco e logo a seguir é julgada ou condenada, se a acham "má", ela fechar-se-á definitivamente.


Como tocar a Helena para lhe devolver confiança, para que não se sinta julgada?
Helena grita pela comunhão e não-condenação, mas o seu grito está encerrado nela.
É como uma pedra e não reage a nada. (...)


Para viver, uma Helena precisa imensamente de ternura, precisa de sentir que está em comunhão com os outros.
E se recebe essa comunhão, deixará cair as suas barreiras de defesa, abrir-se-á pouco a pouco. E, um dia, sorrirá.


A história de Helena na comunidade foi muito curta.

Foi Jing que, um dia, a resumiu assim: "A Helena veio, sorriu, foi baptizada e, depois, morreu".
A sua morte foi muito dolorosa: teve uma crise de epilepsia, mas não conseguiu recuperar a respiração e sufocou.
Agora, é o anjo da guarda da comunidade, aquela que no coração de Jesus vela sobre a comunidade. É misterioso que tenha ficado tão pouco tempo connosco, cerca de uma ano.
Talvez não tenha vindo senão para sorrir e nos ensinar o segredo da comunhão.


Helena não vivia senão de comunhão.
Teve tempo de a recuperar e de nos ensinar quanto medo também nós temos, e quantos defesas; talvez não a imobilidade como ela - muitas vezes preferimos a hiperactividade - mas a hiperactividade é igualmente eficaz para nos fecharmos e nos escondermos dos outros.
Para nos aproximarmos de uma Helena, é preciso que nós também nos abramos, que cessemos de querer fazer coisas, que também estejamos dispostos a viver em comunhão, para que não tenhamos mais medo da nossa doçura e da nossa própria ternura.


A Helena precisava que nós descobríssemos a nossa própria ternura e nossa doçura.
Viveu profundamente a primeira bem-aventurança - era tão pobre - e tinha imensa necessidade da terceira bem-aventurança: "Bem-aventurados os mansos..."


Para nos aproximarmos de uma Helena, é preciso ter muita mansidão, isto é, muita doçura;
para a tocar sem a ferir, é preciso uma imensa ternura e se, no nosso íntimo, há violência, não poderemos tocá-la.
Quanto mais alguém está ferido, mais doçura é necessária. Para lavar o corpo de alguém que vai morrer, é precisa uma doçura extrema.

Helena ensinou-nos a viver a terceira bem-aventurança.


Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

quinta-feira, 22 de julho de 2010

DEUS NUNCA SE DECEPCIONA

«Somos moldados por todas as graças que recebemos, por todas as graças que recusámos,
por todos os gestos de amor e todos os gestos de ódio ou de indiferença,
pelos nossos fracassos e os nossos êxitos;
tudo, literalmente tudo se inscreve na nossa carne.

Assim, a experiência do amor de Deus por nós,
experiência que fazemos um dia (...),
não muda a nossa história nem o que nos moldou,
mas muda-nos porque nos revela que Deus nos ama,
tal como somos,
não tais como gostaríamos de ser,
não tais como a sociedade ou os nosso pais gostariam que fôssemos,
mas tais como somos hoje, com as nossas fragilidades, as nossas feridas,
os nosso medos, as nossas qualidades e os nosso defeitos.

Tais como somos hoje, somos amados por Deus.

E, se temos a impressão de que constantemente decepcionamos os outros,
que somos incapazes de corresponder às suas expectativas,
à sua confiança, às esperanças que depositaram em nós;
se temos o sentimento de que há uma distância
entre o que parecemos ser e o que somos na realidade,
entre aquilo que os outros pensam que somos capazes de fazer e o que podemos fazer de facto, então é preciso que saibamos que a Ele, o nosso Deus, jamais O decepcionaremos.

Ele conhece-nos exactamente.
Conhece o estranho mundo de trevas e luz que nos habita,
conhece melhor que nós esta mistura misteriosa que somos,
sabe aquilo de que somos capazes.
Os outros podem ser decepcionados por nós porque formam sonhos a nosso respeito
e nos projectam no ideal;
Deus nunca Se decepciona, porque aquele que ama, é aquele que eu sou hoje;
Deus não vive no futuro nem no passado mas sim no presente.
Ele "é" o presente e vê-me na minha realidade presente.
»

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

terça-feira, 20 de julho de 2010

CONTINUA A PREFERIR DEUS

Enfrentas escolhas permanentes. O problema está em saber se preferes Deus ou o teu eu duvidoso. Sabes qual é a escolha certa, mas as tuas emoções, paixões e sentimentos continuam a sugerir-te escolher o caminho da auto-exclusão.

A escolha radical está em confiar sempre em que Deus está contigo e te dará o que mais precisas. As tuas emoções de auto-exclusão talvez digam assim «Isto não vai dar em nada. Continuo a sentir-me tão angustiado como há seis meses. O mais provável é continuar a agir e a reagir do mesmo modo depressivo. De facto não mudei nada». Etc, etc. É difícil não dar ouvidos a estas vozes. Contudo, sabes que esta não é a voz de Deus.
Deus diz-te: «Eu amo-te, estou contigo, quero que te aproximes de mim e experimentes a alegria e a paz da minha presença. Quero dar-te um coração e um espírito novos. Quero que fales com a minha boca, vejas com os meus olhos, oiças com os meus ouvidos, toques com as minhas mãos. Tudo o que é meu é teu. Limita-te a confiar em mim e deixa-me ser o teu Deus.»

Esta é a voz que deves escutar. E essa escuta exige uma escolha real, não apenas de vez em quando, mas a cada momento de cada dia e de cada noite. És tu quem decide o que pensar, dizer e fazer. Podes optar pela depressão, podes convencer-te a ser pobre em segurança e agir de modo a censuraras-te permanentemente. Mas tens sempre a oportunidade de escolher pensar, falar e agir em nome de Deus e assim caminhares para a Luz, a Verdade e a Vida.

À medida que vais concluindo este período de renovação espiritual confrontas-te uma vez mais com a escolha. Podes optar por recordar este tempo como uma tentativa falhada de renascimento total ou podes igualmente escolher recordar-te dele como do tempo precioso em que Deus iniciou em ti coisas novas que precisam de ser levadas à plenitude. O teu futuro depende de como decidires recordar o teu passado. Escolhe dentro da verdade que conheces. Não permitas que as tuas emoções ainda ansiosas te distraiam. Enquanto continuares a preferir Deus as tuas emoções deixarão gradualmente a sua rebeldia e converter-se-ão à Verdade que habita em ti.

Enfrentas uma verdadeira batalha espiritual. Mas não tenhas medo. Não estás só. Os que te guiaram durante este período não te vão abandonar. As suas orações e apoio estarão contigo onde quer que vás. Mantém-nos junto do teu coração para que eles te possam conduzir enquanto fazes as tuas escolhas.

Lembra-te, estás em segurança. És amado. Estás protegido. Estás em comunhão com Deus e com os que Deus te enviou. O que é de Deus permanecerá. Pertence à vida eterna. Escolhe-a e ela será tua.


Henri Nouwen, A voz íntima do amor

domingo, 18 de julho de 2010

O DOM DA UNIDADE

«A unidade entre as pessoas não é consequência do esforço humano mas sim um dom divino.
A unidade entre as pessoas é um reflexo da unidade de Deus.

Quando Jesus reza pela unidade (João 17, 21), Ele pede ao Pai que aqueles que crêem nele, que está em perfeita comunhão com o Pai, façam parte dessa unidade. Continuo a ver em mim próprio e nos outros como nos esforçamos por ser unidos, focando toda a nossa atenção uns nos outros e tentando descobrir o ponto onde nos possamos sentir unidos. Mas ficamos muitas vezes desiludidos, quando vemos que nenhum ser humano é capaz de nos oferecer o que mais desejamos. Esta desilusão pode tornar-nos facilmente amargos, cínicos, exigentes e até mesmo violentos.

Jesus chama-nos a procurar a nossa unidade com e através dele. Quando dirigimos primeiramente a nossa atenção interior não para os outros mas para Deus, a quem pertencemos, então sim, descobriremos que em Deus também pertencemos uns aos outros.
A amizade mais profunda é a que tem Deus como mediador; os mais fortes laços matrimoniais são os mediados por Deus.»

Henri Nouwen, em "A Caminho de Daybreak"

quinta-feira, 15 de julho de 2010

VIVER O ESPÍRITO DE JESUS


«A humildade é o lado oculto do amor... (1)

Todas as bem-aventuranças são a lei nova do amor ou a pedagogia dele - o seu lado oculto - e supõem uma espiritualidade pascal de morte e ressurreição.
Amar é sair de si; para sair de si é preciso esquecer-se de si... (2)

O espírito de Jesus que está na base de todas as bem-aventuranças é o espírito da humildade...
As bem-aventuranças são sete, oito ou nove situações (podem ser muitas) - situações humanas concretas que implicam um comportamento moral - em que o espírito de Jesus se vive, em estreita relação com o amor do Pai derramado nos corações. Sem elas, o amor não é verdadeiro.

Os pobres, os mansos, os misericordiosos, os que têm fome e sede de justiça são homens modestos que não fazem alarido, que pensam pouco em si e que, por isso mesmo, não têm medo de dar a cara. A humildade é neles energia de aceitação de si que lhes dá capacidade de integração de todas as coisas, define a sua personalidade de homens e os prepara para serem perseguidos por causa da justiça. São homens unificados que não esperam nada de nada e podem olhar o mundo pelo prisma de Deus com olhos de misericórdia, de justiça, de pureza...
Homens que vivem o espírito de Jesus, vão reproduzindo neles a sua imagem». -

Luís Rocha e Melo, em "Se tu soubesses o dom de Deus"

(1) Caridade - cfr. 1 Cor 13: 4-7.
(2) «Negar-se a si mesmo» - Mt 16, 24; «perder a vida para ganhá-la» - Mt 16, 25.

terça-feira, 13 de julho de 2010

A SEMENTE

"Os olhos de quem vai de começo em começo, numa vida de comunhão com Jesus Cristo, não se fixam nos seus próprios progressos ou retrocessos.
A semente do Evangelho, depositada nas profundezas do ser, germina e cresce dia e noite."

Irmão Roger, de Taizé, em "Viver em tudo a Paz do Coração"

domingo, 11 de julho de 2010

AMAR E ORAR

"... O ponto de partida para entrar em oração é o de exercitar na fé a consciência de ser amado por Deus. Ser amado significa imensas coisas, mas baste-nos isto para já: é ser desejado, querido, acolhido e escolhido, aceite e respeitado, cada um como é com todas as suas qualidades e com todos os seus defeitos.

Deus acolhe cada um assim mesmo como é e não como deveria ser, pois o que cada um devia ser mas não é nem sequer existe. Deus não ama o que não existe. Se Deus amasse esse ser ideal, perfeito, criava-o porque amar e criar são acções simultâneas em Deus. Só existe de facto a realidade do que cada um é no presente com suas grandezas e misérias.
É a esse homem real que Deus ama, respeita, acolhe e escolhe, com predilecções que a nossa inteligência não pode sequer entender.
A consciência de ser amado por Deus vai ganhando corpo quando se insiste na oração e na contemplação silenciosa da vida de Jesus Cristo." -

Luís Rocha e Melo S. J. , em "Se tu soubesses dom de Deus"