segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Autonegação

"Sendo a obediência a si mesmo a fonte mais segura de destruição para os homens, assim o único porto seguro é não ter outra vontade, outra sabedoria, senão seguir o Senhor aonde quer que nos conduza. Permitamos que esse, então, seja o primeiro passo, abandonar a nós mesmos, e aplicar toda a energia mental ao serviço de Deus." - João Calvino

Calvino baptizou de "autonegação" a transformação global da personalidade, termo que usou para sintetizar toda a vida cristã. Jamais deve ser confundida com auto-rejeição, nem deve ser pensada como acto doloroso e trabalhoso, repetido de tempos em tempos em razão de grande resistência interna. Trata-se de uma condição global, organizada, da vida no reino de Deus, mais bem descrita como "morte do eu".(...)

(...) O que é a "autonegação" ("morte do eu"), que anda de mãos dadas com a restauração da alma e, logo, com o todo da pessoa? No início, parece algo terrivelmente negativo, cujo objectivo é aniquilar-nos. Sendo franco, da perspectiva da alma arruinada, a autonegação é e sempre será tão brutal quanto parece à maioria das pessoas à primeira vista. A vida arruinada não será complementada, mas substituída. Precisamos simplesmente perder a vida, a arruinada, sobre a qual a maioria das pessoas, de qualquer modo, tanto se queixa.

Qualquer um que quiser salvar a sua vida perde-la-á, mas qualquer um que perder a sua vida por minha causa, encontra-la-á. Pois, de que adianta você conquistar o mundo inteiro se no processo perder a sua vida (alma) - perder a si mesmo. Ou o que o homem poderá dar em troca da sua alma? Mateus16-25-26; Mc 8:35-36: Lc 9:24-25

Quando Jesus diz que devemos perder a vida se quisermos encontrá-la, está a ensinar-nos, pelo lado negativo, que não devemos fazer de nós e da nossa "sobrevivência" o principal ponto de referência do nosso mundo - ou seja, não devemos tratar de nós como Deus deveria ser tratado, ou tratar-nos como Deus.(...)
(...) Tornar os meus desejos supremos é o que Paulo descreveu como ter "mente carnal" ou "mente da carne", que é um estado de morte (Rm 8:6).
(...) Quando Jesus diz que os homens que encontram a sua vida, ou alma, perde-la-ão, ele está mostrando que os que acreditam estar a controlar a sua vida - «Eu sou o mestre do meu destino: eu sou o capitão da minha alma», como disse o poeta William Ernest Henley - descobrirão em definitivo que não estão no controle: estão totalmente à mercê de forças além deles, e até mesmo dentro deles.(...)

(...) A autonegação em Mateus 16:24 e em outras passagens dos evangelhos refere-se sempre à rendição de um eu menor, morto, para um eu maior, eterno - a pessoa planeada por Deus quando a criou (...) Jesus não nos nega uma realização pessoal, mas mostra-nos o único caminho verdadeiro para alcançá-lo. No Mestre "encontramos a nossa vida". (...)

(...)Estar morto para o eu é a condição em que a mera circunstância de não conseguir o que quero já não me surpreende ou me ofende, e não tem nenhum controle sobre mim.(...)
Quem está morto para o eu não perceberá certas coisas que outros vêem - por exemplo: desprezo social, comentários mordazes, insinuações ou desconfortos físicos. No entanto, outras rejeições ao "querido eu", conforme o filósofo Kant o chamou, ainda serão percebidas, ás vezes de forma muito clara. Porém, se estivermos mortos para o eu num grau significativo, essas rejeições não nos controlarão, nem mesmo a ponto de perturbar os nossos sentimentos ou a nossa paz de espírito. Vamos ainda, como disse Francisco de Assis, "usar o mundo como uma roupa folgada, que nos toca em poucos lugares e só levemente".
Isso significa que alguém morto para o eu não tem sentimentos? Cristo estaria recomendando a "apatia" do estóico ou a eliminação do desejo, como Buda? Não. A questão não é só sentir ou desejar, mas sentir ou desejar da forma correcta, ou não ser controlado por sentimentos e desejos.

Dallas Willard, em "A Renovação do Coração"

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