quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Gravidade e Graça

Simone Weil concluiu que duas grandes forças governavam o universo: a gravidade e a graça. A gravidade leva um corpo a atrair outros corpos, de modo que aumenta continuamente, absorvendo mais e mais do universo em si mesmo. Alguma coisa igual a esta mesma força opera nos seres humanos. Nós também queremos nos expandir, adquirir, inchar significativamente. O desejo de "sermos como deuses", afinal, levou Adão e Eva a se rebelarem.
Emocionalmente, Weil concluiu: nós, humanos, operamos por meio de leis tão fixas quanto a lei de Newton. "Todos os movimentos naturais da alma são controlados por leis análogas às da gravidade física. A graça é a única exceção." Muitos de nós continuamos presos no campo gravitacional do amor-próprio e, assim, "tapamos as fissuras pelas quais a graça poderia passar"(...)

"Qual é a aparência de um cristão cheio de graça?".
A vida cristã, eu creio, não se centraliza principalmente em ética ou regras, mas, antes, envolve uma nova maneira de ver. Eu escapo da força da "gravidade" espiritual quando começo a ver a mim mesmo como um pecador que não pode agradar a Deus por nenhum método de autodesenvolvimento ou autoengrandecimento.
Então posso voltar para Deus para buscar ajuda de fora: a graça. E, para o meu próprio espanto, aprendo que um Deus santo já me ama apesar dos meus defeitos. Consigo escapar da força da gravidade novamente quando reconheço que os meus semelhantes também são pecadores amados por Deus. Um cristão cheio de graça é aquele que olha para o mundo por meio de "lentes tingidas de graça"(...)

Deus precisa de pessoas humildes (o que geralmente significa pessoas humilhadas) para realizar a sua obra. Qualquer coisa que nos faça sentir superiores às outras pessoas, qualquer coisa que nos tente a exibir um senso de superioridade é gravidade, e não graça(...)
Quando me sinto tentado a afastar-me horrorizado dos pecadores, das pessoas "diferentes", lembro do que deve ter sido para Jesus viver na terra. Perfeito, sem pecado, Jesus tinha todo o direito de ficar enojado com o comportamento daqueles que o cercavam. Mas não. Ele tratou pecadores notórios com misericórdia, e não com julgamentos.
Aquele que foi tocado pela graça não vai mais olhar para aqueles que se desviaram como "aquela gente ruim" ou "aquela pobre gente que precisa da nossa ajuda".
Nem devemos procurar sinais de "merecimento de amor". A graça ensina-nos que Deus nos ama pelo que Ele é, e não pelo que nós somos. Categorias de merecimento não valem nada.
Em sua autobiografia, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche falou da sua capacidade de "sentir o cheiro" das partes mais ocultas de cada alma, especialmente a "abundante sujeira escondida no fundo do carácter". Nietzsche foi um mestre da não-graça. Nós somos chamados para fazer o oposto, para sentir o cheiro dos resíduos do valor oculto.

Philip Yancey, em "Maravilhosa Graça"

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