domingo, 7 de outubro de 2007

João, o poeta do Amor


No seu livro «O Mestre Inesquecível», o psiquiatra Augusto Cury, faz uma análise interessante e pertinente da personalidade do Apóstolo João - antes e depois de conhecer Jesus. Acredito que a sua análise do processo de transformação da personalidade de João é muito útil e proveitosa para cada um de nós.

«Todos têm um conceito de que João foi o mais dócil dos discípulos, o que não corresponde à realidade. Ele transformou-se ao longo da vida, num ser humano repleto de amor, mas, antes de encontrar Jesus e durante a sua caminhada com Ele, a sua emoção flutuava como um pêndulo. João era um adolescente. Tinha momentos de brandura alternados com reacções de intensa agressividade. Tinha momentos de simplicidade alternados com intolerância. Ele foi o único que propôs excluir os opositores».

Mas, paulatinamente, João começou a mudar, graças à sua convivência com o Mestre.

Ele «tinha uma enorme capacidade de observar detalhes. Fotografava os comportamentos de Jesus nos solos da sua memória como um fotógrafo profissional que observa luz, sombra, espaço. Desde cedo, percebeu que Jesus não tolerava a agressividade(...) Tinha de aprender a arte do perdão, a suportar críticas, a receber um "não", a enfrentar injustiças(...) João bebia continuamente da afectividade e da sabedoria de Jesus(...)

O tempo passou e foi contagiado pelo amor de Jesus. Começou a olhar as pessoas com os olhos do coração. Olhava-as além da cortina dos seus comportamentos. Passou a entender que, por detrás de uma pessoa agressiva, falsa, arrogante, havia alguém em conflito, que teve uma infância infeliz. Desse modo, a intolerância foi dando espaço à gentileza. O julgamento precipitado foi dando lugar à compreensão. A indiferença foi substituída pela sublime preocupação com a dor dos outros.Tinha aprendido a navegar noutras águas, nas águas da emoção.

Com Jesus, poderia enfrentar dificuldades maiores do que as tempestades do mar, mas a sua vida só teria sentido se estivesse ao lado do seu Mestre. João encorajou os cristãos a cortarem as amarras do egoísmo irracional e a aprenderem a doar-se uns aos outros como Jesus se doara a eles(...) Para João, quem não ama não conhece a Deus. Uma pessoa pode ter cultura teológica e aparente espiritualidade, mas se não amar, a sua vida é teatral e vazia. Para ele, o verdadeiro amor rompe a prisão do medo. Que tipo de medo? O medo do amanhã, do desconhecido, de ser criticado, de ser incompreendido, de empobrecer, de contrair doenças, de morrer, de ser punido por Deus.
O medo rouba a tranquilidade, mas o verdadeiro amor apazigua as águas da emoção e produz paz.»

O Mestre Inesquecível - Augusto Cury



O exemplo do Apóstolo João é paradigmático para todos os que humildemente reconhecem os seus defeitos, falhas, limites e imperfeições e desejam uma transformação profunda, verdadeira, construtiva.
Não podemos desfrutar do privilégio, do prazer e da alegria indescritíveis de estar na presença física do Mestre Jesus; de poder olhá-Lo nos olhos, senti o calor afectuoso do Seu abraço, ouvir a Sua voz pronunciar palavras de sabedoria, amor, perdão. Contudo, Jesus está vivo e a Sua presença pode ser sentida por todos os que humildemente O buscam, bebem avidamente das suas palavras e ensinamentos, e sentem a força, sabedoria e amor que emanam do Seu Espírito e penetram no coração de quem O recebe inteiramente.

Jesus ama-nos incondicionalmente. Quando tivermos bem conscientes e convictos desse amor que excede qualquer entendimento, então aí começa verdadeiramente o nosso processo de transformação. Num coração cheio de amor, não há lugar para o medo paralisante, o egoísmo sufocante, a intolerância irracional, o preconceito limitador...

Mas, a transformação é lenta, gradual - com avanços e recuos. Neste processo, não há milagres. Jesus nunca realizou o milagre da transformação instântanea de uma personalidade como a de João. Este processo exige paciência, perseverança e absoluta confiança no poder transformador e regenerador do Amor de Deus. Exige sobretudo muita oração, recolhimento, meditação na Palavra de Deus; e uma entrega sem medos, sem julgamentos, sem autocensura e autorecriminação. Temos de ter absoluta confiança que Deus é Amor e que nos ama incondicionalmente. Se aceitarmos esse Amor Gratuito de Deus, a transformação ocorrerá naturalmente; pois à medida que caminhamos com Deus e em Deus, com absoluta confiança no Seu Amor, Ele mesmo produzirá em nós a mudança profunda e íntima.


Um comentário:

Maria João disse...

É uma transformação lenta e gradual, mas que é tão boa...

Jesus é realmente o Caminho, a Verdade e a Vida. Ele tem sede de nós. E a nossa sede vai aumentando ao longo do caminho. Mas, não é uma sede que passa facilmente. Existe sempre, cada vez mais, à medida que vamos conhecendo Jesus Cristo.

Mas, ao contrário da sede da outra água, esta sabe bem. E porquê? Porque é Amor. Ao caminharmos vamos percebendo algo extraordinário: já não procuramos tanto Jesus para Ele nos ajudar nisto ou naquilo, mas procuramo-Lo, sobretudo, porque o amamos loucamente. E não esqueçamos que Ele ainda nos ama muito, mas mesmo muito mais...

Continuemos a caminhar com amor e humildade e... de mãos dadas a Jesus!

beijos em Cristo

Nada é grave...

"Nada é grave, a não ser perder o amor." [Irmão Roger de Taizé]