sábado, 12 de dezembro de 2020

"Ninguém vem ao Pai a não ser por mim." (João 14:6)


"Esta é a frase de Jesus que os fundamentalistas cristãos e os «exclusivistas» citam com predileção. (...) No entanto, eles, curiosamente - como salienta Richard Kearney (filósofo irlandês) -, esquecem-se de perguntar quem é o sujeito desta frase de Jesus, quem constitui o «eu» de Jesus, quem é e onde está Jesus, o único mediador entre nós e o Pai.

Quem sou eu? Jesus responde a esta pergunta, mas apenas com aquela declaração: «Sempre que fizeste isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes.»

Os mais pequeninos, os homens à margem (também à margem das Igrejas), os necessitados e os que sofrem indigência (não só social), os feridos (e não apenas no corpo) apontam o caminho fidedigno e exclusivo, não relativizável, para o Pai, a que é impossível esquivar-se.

Tomás Halík, in "O meu Deus é um Deus ferido"

Foto: Michael Belk


quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

DEUS CHEIRA MAL


«Deus não se deixa encontrar só por aqueles que O procuram, mesmo aqueles que não O procuram Deus faz-se encontrar, Deus dá-se a ver. E Deus dá-se a ver onde? Antes de tudo, no encontro com o nosso irmão. Antes de tudo, no encontro com a vida nua, com a vida frágil, com a vida carente, com a vida necessitada. Antes de tudo é aí que Deus Se dá a ver, Se dá a tocar, é aí que Deus Se revela.

Às vezes Deus parece que está ausente, Deus está calado, Deus está silenciado na nossa vida porque simplesmente nós estamos a passar ao lado de Deus. E estamos à espera que Deus nos apareça limpinho, sublime, sobre as nuvens a cair e Deus está caído na rua, Deus tem piolhos, Deus cheira mal, Deus tem a vida desordenada, Deus merecia estar preso, Deus merecia estar excluído. Deus é assim, Deus não toma banho, Deus cheira mal, não cheira bem. Isto é, o encontro com Deus é o encontro com os últimos, é o encontro que só a misericórdia sustenta. Há um encontro com Deus que só a misericórdia sustenta e por isso nós temos de abrir o coração. É um desafio muito grande, este desafio ao cuidado da vida frágil, ao cuidado da vida pobre...

A religião é misericórdia. É preciso dizermos isso e nos convertermos a isso. Religião é misericórdia. Religião sem misericórdia não é religião... Porque Deus é amor, Deus é entranhas de misericórdia, vísceras de misericórdia.

E a misericórdia não é uma coisa teórica é, antes de tudo, a capacidade de sentir compaixão, sentir compaixão. Nós, por muitas razões, tornamo-nos duros de coração, desconfiamos do outro, achamos que o outro não merece, que não vale a pena, desistimos, descartamos. E a misericórdia é alguma coisa que aos poucos vai sendo declarada impossível na nossa vida. Porque nós vemos uma situação e levantamos logo isto, mais aquilo, mais aquele outro e a verdade é que passamos ao lado das situações em vez de nos envolvermos com elas...»

José Tolentino Mendonça

Foto: Desenho do meu caro amigo Agustin De La Torre


sábado, 5 de dezembro de 2020

O DEUS DAS PEQUENAS COISAS


"Deixar Deus falar em nós é uma coisa muito simples. Por vezes o nosso problema é que estamos agarrados às grandes ideias, aos grandes projetos, às coisas espetaculares quando Deus se dá nas coisas pequenas, quando Ele se manifesta naquilo que é até insignificante.

No fundo, o Deus que se revela na nossa vida é o Deus das coisas pequenas. Às vezes ficamos desconcertados, às vezes cega-nos a pequenez de Deus. Deus tem metro e meio, Deus, como diziam os monges budistas, “está num grão de arroz”, Deus está nas pequenas coisas, nos detalhes, no escondido da vida, no banal, naquilo que é mais próximo, naquilo que até nos repugna pensar que Deus possa estar contido naquilo.

Nós temos de sentir que Deus chega a nós no pequeno, no pequeno. Chega a nós no banal, naquilo que nós, em princípio, não damos importância. Mas Ele vai tocando à porta do nosso coração, Ele vai-Se manifestando, Ele vai-Se tornando presente se nós quisermos ver.

Às vezes nós recusamos e dizemos: “Não, Deus não está aí, só está o chato que tu és. Não, Deus não está aí só está este aborrecimento. Deus não está aí, só está a minha fadiga. Deus não está aí, só está esta coisa atordoante. Deus não está aí, só está a natureza, ou só está um dia de sol ou um dia de chuva. Deus não está aí, Deus está noutro lado.” E a verdade é que Deus está, a verdade é que Deus é em cada uma dessas coisas. Falta-nos um coração simples, um coração confiado para dizer: “Se Deus não está aqui, não está em mais nenhum lugar.”

A verdade é esta, se Deus não está aqui, nesta hora, neste momento da nossa vida não está em mais nenhum lugar. Qualquer que seja a situação que nós estamos a viver, qualquer que seja o nosso problema, ou a nossa esperança, se Deus não está nele, não está em mais nenhum lugar. Porque Deus é. Por isso, não pode haver interrupções para Deus, não podemos interromper a Sua presença. Ele chega-nos de uma forma abundante nas coisas pequenas. Por isso, a primeira bem-aventurança é: “Bem-aventurados os pobres de espírito.” Isto é, “Bem-aventurados aqueles que têm um coração de pobre porque verão a Deus.” Quem tem um coração pobre, quem tem um coração humilde vê a Deus. Vê a Deus muitas vezes ao longo do seu dia.»

José Tolentino Mendonça

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

A 2ª MILHA

 


«Se quiséssemos falar de Jesus a uma pessoa que não O conhecesse e só pudéssemos citar três frases Suas, que frases escolheríamos? Alguém, no outro dia, me deixou surpreendido ao escolher a seguinte frase:

“Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele duas“. (Mt 5, 41)

(...) Parece que, no tempo do Império Romano, oficiais do governo podiam obrigar qualquer pessoa a carregar um fardo por uma milha (quilómetro e meio, mais ou menos). Hoje é fácil contratar uma transportadora (se tivermos dinheiro) mas no tempo de Jesus e do Império Romano não seria assim tão fácil. Talvez fosse esta a situação que Jesus tinha em mente. Alguém com autoridade e cheio de malas podia dizer-nos “Requisito-te para vires comigo e me ajudares a carregar estas malas até à próxima aldeia”. Como reagimos?

A reação mais natural seria dizermos “vai pedir à tua tia!” ou inventarmos uma mentirazinha para nos esquivarmos ou então pegarmos nas malas com cara resignada sussurrando entre dentes que “manda quem pode”. (...)

A proposta de Jesus é que nos ofereçamos para carregar as malas não só até essa aldeia mas até à outra que fica a duas milhas de distância. (…)

Em geral, na vida, caminhar a 2.ª milha é ser capaz de gratuidade e de dar um passo para além daquilo que é o estritamente necessário, daquilo que é a nossa obrigação.

Caminhar a 2ª milha não é necessariamente fazer mais ou fazer o que for mais difícil fazer. Caminhar a 2.ª milha é uma atitude, um modo de fazer, que se reflete na entrega que pomos em tudo o que fazemos.

Resumindo: caminhar na 1.ª milha é fazer o que os outros pedem ou exigem ou o que eu sei que devo fazer. E, se o fizer, isso é ótimo! Mas caminhar a 2.ª milha é ir para além disso: é dar o melhor de mim. O olhar na 1.ª milha está posto nas obrigações; o olhar na 2.ª milha está posto no bem. (…)

Santo Inácio de Loyola falou e escreveu sobre isto muitas vezes. A ideia ficou consagrada nesta pequenina palavra latina: “MAGIS”. Ou seja: “mais”. (…)

“Devemos somente desejar e escolher o que MAIS nos conduz à finalidade para que somos criados”

Ou seja: para se ser cristão não basta tentar ser um bom cidadão e cumprir com todas as obrigações religiosas de modo a evitar qualquer pecado mortal. Para se ser cristão é preciso desejar ir mais longe e estar disposto a pagar o preço desse “mais”.

A 1.ª milha é muito importante, permite que as coisas funcionem. Mas é a 2.ª milha que lhes dá brilho e sabor.

É na 2.ª milha que a vida começa a ter mais cor. É aí que surge a liberdade interior e a criatividade. E é também nesta parte do percurso que conhecemos as pessoas mais interessantes, aquelas que não se movem por agradar aos outros ou simplesmente por cumprir as obrigações mas por ir ainda mais longe, depois de cumpridas todas as obrigações.

Entre as pessoas interessantes que podemos encontrar na 2.ª milha, a mais interessante é Jesus, o homem livre que nos aponta sempre saídas inesperadas e criativas para as situações da vida. Creio que é só na 2.ª milha que podemos começar a conhecer Jesus na intimidade.

Resta-nos desejar “MAIS” e pôr-nos no caminho da 2.ª milha.

Boa caminhada de Advento!»

P. Nuno Tovar de Lemos, sj, in Ponto SJ (adaptado)

Foto: Michael Belk

domingo, 29 de novembro de 2020

ADVENTO

 


"Advento, tempo de espera. Não apenas de um dia, mas daquilo que os dias, todos os dias, de forma silenciosa, transportam: a Vida, o mistério apaixonante da Vida que em Jesus de Nazaré principiou.

Advento, tempo de redescobrir a novidade escondida em palavras tão frágeis como "nascimento", "criança", "rebento".

Advento, tempo de preparar, mais do que consumir. Tempo de repartir a vida, mais do que distribuir embrulhos.

Advento, tempo de procura, de inconformismo, até de imaginação para que o amor, o bem, a beleza possam ser realidades e não apenas desejos para escrever num cartão.

Advento, tempo de dar tempo a coisas, talvez, esquecidas: acender uma vela; sorrir a um anjo; dizer o quanto precisamos dos outros, sem vergonha de parecermos piegas.

Advento, tempo de se perguntar: "há quantos anos, há quantos longos meses desisti de renascer?"

Advento, tempo de rezarmos à maneira de um regato que, em vez de correr, escorre limpidamente.

Advento, tempo de abrir janelas na noite do sofrimento, da solidão, das dificuldades e sentir-se prometido às estrelas, não ao escuro.

Advento, tempo para contemplar o infinito na história, o inesperado no rotineiro, o divino no humano, porque o rosto de um Homem nos devolveu o rosto de Deus."

José Tolentino Mendonça

Desenho do meu caro amigo Agustin de la Torre

sábado, 28 de novembro de 2020

A NOITE DO SAMARITANO


"Uma vez encontrei uma pintora que estava a trabalhar as parábolas de Jesus, e uma parábola que ela tratou no seu trabalho artístico foi a do Bom Samaritano. Ela depois designou a exposição “A noite do samaritano.” Porque ela disse: “Eu li muitas vezes a parábola do Bom Samaritano mas só ao fim de muito tempo é que eu descobri isto: o samaritano passou uma noite inteira junto daquele ferido, passou uma noite inteira a cuidar dele. Então, o que me interessa é tratar a noite do samaritano.” Isto é, aquela noite, aquele tempo longo, aquele gesto talvez desmesurado de amor, de compaixão pelo outro que ocupa a noite inteira. E ele, possivelmente, ficou em vigília toda aquela noite, cuidando do outro. Essa noite, a noite do samaritano é a noite de Deus na nossa vida. (...)".

No fundo, o grande desafio é tornarmos a nossa vida uma parábola de misericórdia, que a nossa vida seja uma parábola. Não tem de ser esta do Bom Samaritano, mas a nossa vida tem de ser uma história de misericórdia e tem que ter histórias de misericórdia.»

José Tolentino Mendonça

Imagem: "O Bom Samaritano", Rembrandt

 

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

A IGREJA EM QUE ACREDITO (2ª parte)

"Acredito numa Igreja de Discípulos, aquela em que a atitude fundante de todas as opções e escolhas é a escuta orante e sem preconceitos da Palavra do Mestre, fonte permanente de Sabedoria, novidade e apelos de mudança. 

A Igreja dos Discípulos é aquela em que ninguém se considera superior a ninguém e as comunidades se estruturam de maneira fraterna. O único Mestre é Jesus Cristo e a única Sabedoria que se procura é a do Espírito Santo. 

Acredito numa Igreja de Profetas, na dinâmica comunitária daqueles que estão implicados na Palavra que proclamam e celebram, aqueles que assumem a totalidade das consequências da sua Fé, da sua Esperança e do seu Amor. 

A Igreja dos Profetas é aquela que dá à luz gente capaz de morrer por Cristo, é a Igreja indomável diante dos poderes do mundo, contexto comunitário de amadurecimento pessoal de homens e mulheres que não se deixam domesticar pelas “falinhas mansas” de todos os anti-evangelhos de rosto sedutor que por aí andam.

Repudio a igreja dos sacerdotes de templo. A igreja dos sacerdotes de templo é aquela em que os peritos do culto querem mandar e perceber mais que o Espírito Santo quando se trata da relação do Homem com Deus. O cumprimento das normas substitui facilmente a Verdade, os ritos ocupam o lugar do Amor e a função do sacerdote esgota toda a acção da comunidade.

Repudio a igreja dos fariseus, aqueles que se consideram a medida perfeita de Deus e dos Homens, os que se têm a si próprios como critério para falar de Deus e avaliar os outros.
Os fariseus são os que substituíram o Coração por uma régua, trocaram os olhos por microscópios, as mãos por algemas, e quando falam vemos-lhes a língua bifurcada dentro da boca, se estivermos atentos..."

Rui Santiago cssr

terça-feira, 24 de novembro de 2020

A IGREJA EM QUE ACREDITO (1ª parte)


"Acredito numa Igreja de Pecadores e Imperfeitos.

A Igreja dos Pecadores e dos Imperfeitos é aquela em que Deus tem espaço para ser Graça, e todos têm espaço para serem acolhidos sem se sentirem julgados.

A Igreja dos Pecadores e Imperfeitos é aquela em que as comunidades não conhecem divisões entre puros e impuros, aquelas em que, sem ingenuidades nem mediocridades, cada um é aceite tal como é e amado pela Verdade que procura no seu Coração. 

Acredito numa Igreja de Pobres e Pequenos, aqueles que são capazes de perceber que a Vida é a sua maior riqueza, os que não têm os dias sempre cheios demais para dar importância quotidiana à Palavra de Deus, os que não estão sempre a pensar no que podem ganhar ou perder em cada opção que haja a tomar.

A Igreja dos Pobres e Pequenos é aquela em que as comunidades não querem possuir nem dominar, onde cada um está disponível para partilhar com os outros o que tem, sabe e é. 

Os Pequenos são os que não precisam de ser grandes para se sentirem felizes, porque já têm maturidade suficiente para perceber que a única grandeza verdadeira é a do Coração, porque só essa é eterna. A verdadeira grandeza é aquela que engrandece os que estão ao lado.

Na Igreja dos Pobres e Pequenos todos são profundamente Ricos e Grandes, porque recupera-se o gosto pelas coisas simples e o maravilhamento pelas belezas não maquilhadas da Vida e da Criação. A Palavra de Deus e o Espírito Santo não deixam que se embruteça o Coração com a brutidade da presunção e da vaidade."

Rui Santiago cssr

Foto: mehdi_zavvar


quinta-feira, 19 de novembro de 2020

CONTARAM-ME...

 


contaram-me a história de um homem
que foi uma história de salvação
sem ter sido uma história de sucesso

negou a glória que o mundo dá
para afirmar a salvação que o mundo precisa

só podia salvar alguém
quem resistisse a salvar-se a si mesmo

a pedra mexeu
a pedra rolou
a estátua tombou
a Vida tomou conta de tudo

Rui Santiago cssr

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

LER PARA CRER

 

«Jesus – Um encontro passo a passo» - James Martin, sj *

Sobre o livro

“O jesuíta James Martin lança o desafio para que o leitor explore mais a vida de Jesus. Convida-o a encontrar o Jesus que estudou, o Jesus da sua fé, mas também o Jesus histórico que ele descobriu aquando da sua visita à Terra Santa.
O autor aborda apenas alguns acontecimentos da vida de Jesus que têm marcado a sua vida e que possam trazer algo de novo para a compreensão de Jesus. Trata-se do Jesus da experiência do autor, dos seus retiros espirituais, e também, do seu percurso de vida ao longo dos anos junto dos mais marginalizados da sociedade.

Podemos perceber, através das palavras do autor, qual é a intenção e propósito desta obra: 

 «Bem […] escreverei sobre aquele Jesus que encontrei na minha vida. Esse é um Jesus sobre o qual ainda ninguém escreveu». Isto pode assemelhar-se a ouvir um amigo contar-nos algo inesperado acerca de um amigo mútuo. «Eu não sabia isso acerca dele», poderá alguém dizer, pensativo. Ver um amigo através de outros olhos poderá ajudar-nos a apreciar mais essa pessoa. Poderemos acabar por compreender esse amigo de uma forma completamente nova. Assim, gostaria de convidar o leitor a conhecer aquele Jesus que já conhece, mas de uma forma nova. Ou, se não sabe muito acerca de Jesus, gostaria de lho apresentar. Acima de tudo, gostaria de apresentá-lo àquele Jesus que eu conheço e amo, à pessoa que ocupa o centro da minha vida. Chegar a conhecer Jesus, como chegar a conhecer qualquer outra pessoa, tem sido para mim uma verdadeira peregrinação. Parte dessa peregrinação foi uma viagem a Israel, uma viagem que mudou a minha vida.”
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Opiniões

«Este não é apenas um livro: é uma viagem. E uma viagem que teremos vontade de recordar, sempre.» 
(José Tolentino Mendonça)

«Muito acessível, convidativo – com atração magnética… Um livro profundo.» 
(Joan Chittister, OSB)

«A descrição de James Martin toca a nossa imaginação, incendiando-a de novo.»
(Timothy Radcliffe, OP, antigo Mestre-Geral dos Dominicanos)

«No total de 25 breves capítulos, escritos numa linguagem muito acessível em diálogo com o leitor, o autor parte de textos evangélicos e episódios da vida de Jesus, em chave de fascínio e atração.»
(Rui Pedro Vasconcelos, in revista Mensageiro de Santo António)
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Excerto

PARÁBOLA VIVA DA OVELHA PERDIDA

“Há quase vinte anos, trabalhei com o Serviço Jesuíta para aos Refugiados (SJR) em Nairobi, no Quénia. A minha função era ajudar os refugiados a iniciar pequenos negócios que lhes permitissem sustentar-se a si próprios e suas famílias. Certo dia, encontrava-me ao volante do meu jipe, fora da cidade, perto do vale Rift, para ir visitar um lavrador… Enquanto subia um íngreme desfiladeiro montanhoso, fiquei siderado a olhar para a erva verdejante que atapetava a encosta. De repente, aparentemente vinda do nada, uma ovelha branca solitária desceu a custo o monte e atravessou a correr à frente do meu carro. Guinei para evitar atropelá-la (não havia outros veículos por perto). Depois, fiquei a observar a ovelha descer cuidadosamente até ao vale, situado do lado direito da estrada.
Nesse preciso momento, uma figura atravessou rapidamente a estrada, vindo da minha esquerda. Era um jovem pastor maasai. Na cultura maasai, os rapazes mais novos cuidam das ovelhas, por vezes desde os cinco anos, os mais crescidos apascentam cabras, e os mais velhos, incluindo homens adultos, têm a seu cargo o gado bovino. O pastor atravessou a toda a velocidade diante do meu vagaroso jipe. Descalço e sorridente, acenou-me ao passar. Desceu com dificuldade a encosta do monte, perseguindo a ovelha, levantando nuvens de pó e chamando em voz alta, enquanto a procurava. Fiquei a observá-lo durante alguns segundos, enquanto ele descia o monte. A seguir, ergui o olhar e avistei o resto do rebanho, cerca de vinte ou trinta ovelhas, a subir o monte situado à minha esquerda.
“Que estúpido! – pensei. – Deixou para trás todo o rebanho só por uma ovelha.” Então fez-se luz no meu espírito, e desatei a rir em voz alta. Era a parábola da ovelha perdida, ao vivo!»
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*“JAMES MARTIN é jesuíta e editor-geral da revista America. Depois de se ter licenciado na Escola de Negócios da Universidade da Pensilvânia, James Martin trabalhou durante seis anos em Finanças, antes de entrar na Companhia de Jesus e cursar Filosofia e Teologia. Exerceu apostolado nos EUA, Jamaica e Quénia, entre as populações mais desfavorecidas, em particular com reclusos e refugiados políticos. Dotado contador de histórias, é autor de bestsellers galardoados e traduzidos em nove idiomas, além de presença frequente em universidades e meios de comunicação de larga audiência. Em Portugal, a Paulinas Editora publicou, das suas obras: Torna-te aquilo que és: Da imitação à autenticidade (2009).”

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

PARÁBOLAS DA VIDA


“Há quase vinte anos, trabalhei com o Serviço Jesuíta aos Refugiados (SJR) em Nairobi, no Quénia. A minha função era ajudar os refugiados a iniciar pequenos negócios que lhes permitissem sustentar-se a si próprios e suas famílias. Certo dia, encontrava-me ao volante do meu jipe, fora da cidade, perto do vale Rift, para ir visitar um lavrador (...) Enquanto subia um íngreme desfiladeiro montanhoso, fiquei siderado a olhar para a erva verdejante que atapetava a encosta. De repente, aparentemente vinda do nada, uma ovelha branca solitária desceu a custo o monte e atravessou a correr à frente do meu carro. Guinei para evitar atropelá-la (não havia outros veículos por perto). Depois, fiquei a observar a ovelha descer cuidadosamente até ao vale, situado do lado direito da estrada.
Nesse preciso momento, uma figura atravessou rapidamente a estrada, vindo da minha esquerda. Era um jovem pastor maasai. Na cultura maasai, os rapazes mais novos cuidam das ovelhas, por vezes desde os cinco anos, os mais crescidos apascentam cabras, e os mais velhos, incluindo homens adultos, têm a seu cargo o gado bovino. O pastor atravessou a toda a velocidade diante do meu vagaroso jipe. Descalço e sorridente, acenou-me ao passar. Desceu com dificuldade a encosta do monte, perseguindo a ovelha, levantando nuvens de pó e chamando em voz alta, enquanto a procurava. Fiquei a observá-lo durante alguns segundos, enquanto ele descia o monte. A seguir, ergui o olhar e avistei o resto do rebanho, cerca de vinte ou trinta ovelhas, a subir o monte situado à minha esquerda.
“Que estúpido! – pensei. – Deixou para trás todo o rebanho só por uma ovelha.” Então fez-se luz no meu espírito, e desatei a rir em voz alta. Era a parábola da ovelha perdida, ao vivo!

James Martin, sj, in "Jesus - Um Encontro Passo a Passo"

 

terça-feira, 10 de novembro de 2020

O DESAFIO MAIOR DE VIVER


"Todos os "amo-te" nos salvam da Morte, se tivermos vivido de maneira a saber recebê-los. Sempre que dizemos a alguém "gosto de ti", estamos a dizer-lhe "não morrerás". O desafio maior de Viver é construir qualquer coisa que, de tão bela e partilhada, não faça sentido deixar de existir. Construir a Vida é dar-lhe razões para existir sempre.

E "desafio" significa confiar e arriscar... E "construir" significa perguntar e experimentar... E "existir" é receber-se e dar-se, sem ser fonte de si mesmo. E, por isso, não creio que haja outro caminho para chegar a ser Feliz, senão tacteando estas veredas de um certo "não-saber" que, despojando-me das certezas absolutas, me liberta para receber a Vida em toda a sua Graça. Então, há momentos em que a cortina se entreabre um pouco, com a Dança que lá vai dentro, e podemos ter um vislumbre que nos dá Fome e Paz ao mesmo tempo, Sede e Ternura, Desejo e Consolação.

E se eu não fosse tão miserável nas coisas da matemática, poderia saber o que é equacionar a Vida segundo a Regra dos Três Simples. Mas, ainda que às apalpadelas, atrevo-me a rezar aos Três Simples: "Pai, Filho e Espírito Santo, ajudem-me a amar de tal maneira que descubra a Simplicidade salvadora inscrita no mais profundo de todos os dias, lá no centro da existência que é inspirada pelo vosso Mistério sereno e forte de Comunhão."

Rui Santiago cssr, in Derrotar Montanhas, 2013


 

INDAGAÇÕES SOBRE O CARPINTEIRO

“A árvore é força vertical da natureza, da terra em direcção ao céu. Tem a postura da espécie humana. Por isso o cego que Jesus curou em Bet...