sexta-feira, 20 de abril de 2007

"Como Eu vos amei, amai-vos também vós uns aos outros"

Os livros são uma parte indissociável de mim.Há livros que são autênticas descobertas. Principalmente os livros que tenho lido ultimamente. A maior parte relacionados com Jesus e os ensinamentos dos evangelhos(mas não só). São livros que têm aumentado a minha percepção e conhecimento de Jesus e me aproximado cada vez mais do Deus Pai que Ele nos revelou. Recentemente, tem crescido o meu assombro e tocado profundamente o meu coração a forma como Jesus tratava e se relacionava com certas pessoas que, naquela época, eram consideradas a "escumalha" ou a "ralé" da sociedade. Gostaria de destacar esta questão, porque ela é pertinente e de um grande significado para os dias actuais, para a sociedade em que vivemos e a forma como vivemos e nos relacionamos uns com os outros.

Quem já leu a Bíblia, e mais concretamente os evangelhos, poderá ter-se deparado com uma passagem em que Jesus é descrito e acusado de ser "um comilão e um bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores" (Lucas 7:34) . Jesus partilhava muitas refeições com pessoas que, na sociedade do seu tempo, eram consideradas impuras, indignas, abomináveis ou repugnantes( prostitutas, publicanos, leprosos, adulteros, gentios...). Ele era criticado e condenado por determinados sectores da sociedade devido a esse comportamento, que era considerado estranho e invulgar. Porque é que Ele era criticado e rejeitado por alguns membros sociedade judaica que consideravam esse seu comportamento errrado e condenável? Porque é que Jesus tinha preferência pelos pobres, marginalizados e oprimidos? Porque é que Jesus se sentava à mesa com eles, comia e conversava com eles? Como é que essas pessoas se sentiam na sua presença? Como é que Jesus olhava para elas? Como é que Ele as tratava?

No seu livro "O Evangelho Maltrapilho", Brennan Manning diz:" No Judaísmo da Palestina do primeiro século o sistema de classes era colocado em vigor à risca. Era legalmente proibido misturar-se com pecadores à margem da lei: sentar-se à mesa com mendigos, cobradores de impostos(traidores da causa nacional, porque colectavam impostos do seu próprio povo para Roma, a fim de ganharem uma comissão) e prostitutas era tabu religioso, social e cultural(...)
No Oriente Médio, compartilhar de uma refeição com alguém é uma garantia de paz, confiança, fraternidade e perdão: a mesa compartilhada representa a vida compartilhada. Para um judeu ortodoxo, dizer «gostaria de jantar consigo» é uma metáfora que implica «gostaria de iniciar uma amizade consigo» (...)

A preferência de Jesus por gente de menor envergadura e a sua parcialidade em favor dos maltrapilhos é facto irrefutável na narrativa do Evangelho. Como disse o filósofo francês Maurice Blondel:«Se quiseres realmente compreender um homem, não ouças apenas o que ele diz, mas observa o que ele faz.»
Um dos mistérios do evangelho é essa estranha atracção de Jesus pelos que não tinham nada de atraente, esse estranho desejo pelos que não eram em nada desejáveis, esse estranho amor pelos que não tinham nada de amável. " Qual a chave deste mistério? "Jesus faz o que Ele vê o Pai fazer, Ele ama aqueles que o Pai ama. ( Joaõ 14:10; 12:44,45 ; 7:16-18).
Seu ministério era com aqueles que a sociedade considerava pecadores de verdade. Eles não tinham feito coisa alguma para merecer a salvação, ainda assim abriam o coração para a dádiva que lhes era oferecida." Como é que esses pecadores se sentiam perantes os gestos amorosos e acolhedores de Jesus? Como isso os afectava? Que impacto produzia nas suas vidas?

No seu livro B. Manning cita um escritor que diz:" Seria impossível subestimar o impacto que essas refeições devem ter tido sobre os pobres e os pecadores. Aceitando-os como amigos e como iguais Jesus havia removido a vergonha, a humilhação e a culpa deles. Ao demonstrar que eles importavam para ele como pessoas, Ele concedeu-lhes um senso de dignidade e libertou-os do seu antigo cativeiro. O contacto físico que Ele deve ter tido com eles à mesa( João 13:25) e que Ele obviamente nunca sonharia em condenar( Lucas 7:38,39) deve tê-los feito sentirem-se limpos e respeitáveis. Além disso, porque Jesus era visto como um homem de Deus e como profeta, eles teriam interpretado o seu gesto de amizade como a aprovação de Deus sobre eles(...)"

Por que é que Jesus tinha preferência por este tipo de pessoas e amava-as tanto? O que é que Ele via nelas? Como escreveu Helmut Thielicke:"... Seus olhos captavam a origem divina que está oculta por toda a parte - em cada homem!... Primeiro, e principalmente, Ele nos dá novos olhos...
Quando Jesus amava uma pessoa qualquer carregada de culpa e a ajudava, via nela um filho de Deus desviado. Via um ser humano a quem seu Pai amava e por quem se entristecia por ele andar em caminhos errados. Ele o via como Deus o concebera originalmente e queria que ele fosse e, portanto, olhava, por baixo da camada superficial da sujeira e da imundície, para o verdadeiro homem. Jesus não identificava a pessoa com o seu pecado, antes via nesse pecado alguma coisa estranha, alguma coisa que realmente não fazia parte da pessoa, alguma coisa que simplesmente a acorrentava e a dominava e da qual Ele a libertaria e a traria de volta para o seu verdadeiro eu. Jesus foi capaz de amar os homens porque Ele os amava da maneira certa através da camada de lama."

Que significado tinha para aquelas pessoas o facto de Jesus conviver com elas intimamente? Regressando ao livro "Evangelho Maltrapilho": "Os convidados pecadores de Jesus estavam muito conscientes de que a comunhão à mesa envolvia mais do que mera polidez ou cortesia. Ela significava paz, aceitação, reconciliação e irmandade(...)
Como é que eles viviam essa experiência? Como reagiam? "Os maltrapilhos descobriam que compartilhar de uma refeição com Ele era uma experiência libertadora de puro júbilo. Ele os libertava da autodepreciação, exortava-os a não confundirem a sua percepção de si mesmos com o mistério que de facto eram, dava-lhes o que precisavam mais do que qualquer coisa - encorajamento para a vida - e distribuía palavras reconfortantes como «Não vivam sob o domínio do medo, pequeno rebanho; não temam; o medo é inútil, necessária é a confiança; não se preocupem;animem-se - seus pecados são perdoados»"

Jesus repreendeu os fariseus( que tinham uma ética e moral insuperáveis) e acolheu as meretrizes e os publicanos. Chegou inclusive a afirmar que estes precederiam os fariseus no reino dos ceús"(Mateus 21:3) Qual destes grupos nós aprovaríamos e qual rejeitaríamos? Porque é que as meretrizes e os publicanos tinham vantagem em relação aos fariseus?
No livro "O Mestre da Vida", Augusto Cury responde que a vantagem está "nos sentimentos ocultos no coração(...) Os fariseus eram orgulhosos, arrogantes, auto-suficientes, não precisavam de um mestre e nem de um médico para reparar os pilares das suas vidas, por isso baniram drasticamente Aquele que dizia ser o filho do Altíssimo.
Por outro lado, as prostitutas e os publicanos reconheciam os seus erros, injustiças e fragilidades, e por isso amaram intensamente Jesus. Muitos deles choraram de gratidão pelo acolhimento carinhoso do Mestre da vida. Aquele que teceu o homem amou a todos, mas só conseguiu tratar dos que admitiam que estavam doentes, dos que tiveram a coragem de se chegar a Ele, ainda que com lágrimas."
Jesus aprecia a honestidade, a franqueza, a autenticidade. Jesus ama aqueles que, apesar das suas inúmeras falhas e pecados, são capazes de as reconhecer humildemente e arrepender-se.


"Quando proclamamos «o meu conhecimento teológico é melhor do que o dos outros», «a minha moral é mais elevada do que a deles», será que Aquele que vê em secreto se agrada desses comportamentos?Talvez alguns miseráveis da nossa sociedade, aqueles para quem facilmente apontamos o dedo, tenham um coração melhor do que o nosso. Não disse Jesus que "com o mesmo critério que julgarmos os outros seremos julgados?(Mateus 7:2) Se empregamos tolerância e compreensão, o Autor da vida compreender-nos-á e nos tratará com tolerância(...) Os que empregam tolerância compreendem as próprias limitações e, por conhecê-las, vêem melhor as fragilidades dos outros(...) Os homens que não se conhecem são especialistas em apontar o dedo aos outros(...) O homem que não é juiz de si mesmo nunca está apto para julgar o comportamento dos outros."
Leiam as parábolas: Lucas 18:9-14; Mateus 18:23-35.

Jesus disse que não veio chamar os justos, mas os pecadores.(Mateus 9:13) Quem necessita de médico:os sãos ou os doentes? (Lucas 5:31) Aqueles que eram desprezados, excluídos, oprimidos, rejeitados, discriminados pela sociedade da época, eram perdoados, acolhidos e compreendidos e sarados por Jesus. (João 8:3-11; João 4:6-30; Mateus 8:1-4; Mateus 20:29-34)

Perante tudo isto, creio que é importante ponderar uma série de questões importantes: Será que os cristãos estão a seguir os passos de Cristo no que diz respeito ao modo como tratam o seu semelhante?Não nos disse Jesus para amarmos os nossos inimigos e amarmo-nos uns aos outros como Ele nos amou? Somos fortes e evitamos atitudes de exclusão, discriminação, rejeição; ou pelo contarário, somos fracos e não toleramos aqueles que são diferentes de nós?
Somos compassivos, pacientes, compreensivos e ajudamos aqueles que pecam e precisam do nosso perdão, do nosso acolhimento e encorajamento; ou pelo contrário, mostramos ser juizes frios, implacáveis e insensiveis à dor e sofrimento dos maltrapilhos que nos rodeiam? Com que frequência julgamos e condenamos atitudes e comportamentos que somos incapazes de reconhecer em nós mesmos?
Não disse Jesus que Deus perdoa os nossos pecados na medida em que nós perdoamos os dos outros? Será que Deus nos julga pela aparência, pela grandiosidade das nossas obras ou pelas virtudes exemplares que julgamos possuir? Será que quando pecamos temos de nos sentir permanentemente culpados e indignos da aprovação e do perdão de Deus?Acreditamos verdadeiramente no amor e na graça de Deus?


Tenho meditado imenso sobre estas e outras questões e, de uma coisa estou certo: sou um ser incompleto, pecador, injusto, limitado, imperfeito, frágil... Por isso(e por muito mais razões), tenho necessidade de me voltar para Deus(e o seu Amor incondicional) em oração e pedir-Lhe que me complete, me perdoe os pecados, me fortaleça e me ajude a seguir de perto os passos de Cristo, que nos mostrou o caminho e nos legou um modelo para seguir com humildade, honestidade, fé, alegria, esperança, amor, perseverança e dedicação.

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