sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

DIÁRIO DE ETTY HILLESUM (5ª parte)

Etty Hillesum

«Para mim, as pessoas são muitas vezes como casas com as portas abertas. E eu entro e vou deambulando pelos corredores e pelos quartos, e cada casa tem por sua vez uma decoração um pouco diferente e no entanto todas elas são parecidas. E cada casa deveria transformar-se numa morada sagrada para ti, meu Deus. E prometo-te, prometo-te procurar no maior número de casas possível morada e acolhimento para ti, meu Deus.
É realmente uma imagem engraçada. Meto-me a caminho e vou à procura de abrigo para ti. Há tantas casas vazias por aí, vou trazê-las até ti, o hóspede de honra.
Perdoa-me esta imagem um pouco indelicada. (...)

Em cada lugar deste mundo está-se «em casa», quando uma pessoa traz tudo consigo.
Muitas vezes senti-me, e ainda me sinto, como um navio que recolheu uma carga preciosa a bordo. Os cabos foram cortados e agora o navio navega plenamente livre e por todos os países levando consigo a carga preciosa.
Uma pessoa deve ser a sua própria pátria.(...)

Uma pessoa deve viver consigo própria como se vivesse com uma multidão inteira. E, interiormente, uma pessoa aprende então a conhecer todas as boas e más características da humanidade. E uma pessoa deve aprender a perdoar os seus próprios defeitos, se é que quer perdoar os outros.
Provavelmente para uma pessoa isto é o mais difícil de aprender, verifico isto frequentemente com outras pessoas (antigamente também comigo, agora já não): perdoar a si próprio os erros e deslizes cometidos. Para tal é preciso em primeiro lugar aceitar, aceitar prodigamente, que uma pessoa comete erros e deslizes.

Gostava muito de viver como os lírios do campo. Se as pessoas entendessem esta época, seriam capazes de aprender com ela a viver como os lírios do campo.

Agora, só restamos eu e Deus. Não há mais ninguém que me possa ajudar. (...)
Não me dá nada a sensação de empobrecimento, antes uma sensação de riqueza e tranquilidade: agora só restamos eu e Deus.

Quando eu quero alguma coisa à força, já há uma quebra no ritmo. Eu não devo querer as coisas, devo deixar que as coisas aconteçam comigo. E não é com isso que estou ocupada neste momento.
Não eu quero, mas sim: seja feita a Tua vontade.

Não existe um poeta dentro de mim, há sim um pedaço de Deus em mim que poderia desenvolver-se até se tornar poeta. Num campo assim tem de haver contudo um poeta que experiencie a vida lá, lá também, e que como poeta a possa cantar.

Dá-me um pequeno verso por dia, meu Deus. E se eu nem sempre o puder copiar por não haver papel ou luz, então hei-de declamá-lo baixinho para o teu grande céu, à noite, mas dá-me um pequeno verso de vez em quando.

É preciso lutar diariamente contra elas como se fossem pulgas, as muitas pequenas ralações dos dias que se seguem e que vão triturando as melhores forças criadoras no ser humano. Em pensamento uma pessoa trata de ajustar coisas para os dias seguintes, e as coisas passam-se de modo diferente, totalmente diferente. O dia de amanhã já terá as suas preocupações. As coisas que têm de ser feitas devem fazer-se e de resto uma pessoa não deve deixar-se infectar pelos muitos medinhos e preocupaçõeszinhas que são outras tantas moções de desconfiança contra Deus. (...)

O maior sofrimento do ser humano é o sofrimento que ele teme. E a matéria, sempre e continuamente a matéria, que atrai tudo o que é espírito em vez de vice-versa. (...)

O conceito de sofrimento (que não é realmente «sofrimento», pois sofrer é em si frutuoso e pode tornar a vida em algo precioso) deve ser desfeito. E se uma pessoa desfaz os conceitos, nos quais a vida está como que aprisionada entre grades, então a pessoa liberta a verdadeira vida dentro de si, mais as forças que lá tem dentro e, consequentemente, uma pessoa terá também as forças para arcar com o verdadeiro sofrimento presente na sua prórpria vida e na do resto da humanidade.(...)

Na realidade, esta é a nossa única obrigação moral: desbravar dentro de nós grandes planícies de tranquilidade, cada vez mais tranquilidade, para a poder irradiar sobre os outros. E quanto mais tranquilidade houver nas pessoas, mais tranquilidade haverá também neste mundo agitado. (...)»

Fonte: Diário de Etty Hillesum (1941-1943)

Nota: No Brasil, este livro foi editado com o título: "Uma Vida Interrompida - os Diários de Etty Hillesum" . Podem encontrar o livro aqui

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O DIÁRIO DE ETTY HILLESUM (4ª parte)



E continuamos a nossa «perigrinação» pelos preciosos diários de Etty Hillesum.

«Hoje em dia, é uma coisa ou outra: uma pessoa pode pensar «cruelmente» só em si mesma e em salvar a pele, ou deve distanciar-se de todos os seus desejos pessoais e render-se. E para mim a rendição não implica resignação, uma extinção, mas sim, lá onde Deus me puser por acaso, ser um amparo ainda naquilo que é possível, e não estar simplesmente repleta do próprio desgosto e privação.(...)

De minuto a minuto, vão-se despegando de mim mais desejos, anseios e vínculos a outros, estou pronta para tudo, para cada local deste mundo para onde Deus me enviar, e estou pronta a testemunhar sob qualquer circunstância e até à morte que esta vida é bela e prenhe de sentido, que não é culpa de Deus as coisas serem actualmente como são, mas culpa nossa. Foram-nos dadas todas as possibilidades para aceder a todos os paraísos (...)

Existem pessoas, a sério que é verdade, que no último momento põem aspiradores a salvo e garfos e colheres de prata em vez de ti, meu Deus. E há gente que quer salvar o corpinho no qual se acolhem somente mil medos e rancores. E dizem: «A mim não me lançam eles a garra.» E esquecem-se de que ninguém fica nas garras de ninguém, se estiverem nos teus braços.

Esta é a única coisa que podemos preservar nestes tempos, e também a única que importa: uma parte de ti em nós, Deus. E talvez possamos ajudar a pôr-te a descoberto nos corações atormentados de outros.

E, quase a cada batida do coração, torna-se-me isto mais nítido: que tu não nos podes ajudar, que nós devemos ajudar-te e que a morada em nós onde tu resides tem de ser defendida até às últimas.

Vou prometer-te uma coisa, Deus, só uma ninharia: não irei sobrecarregar o dia de hoje com igual número de preocupações em relação ao futuro, mas isso custa um certo exercício. Cada dia já tem a sua conta. Vou ajudar-te, Deus, a não me abandonares, apesar de eu não garantir com antecedência. (...)

Recomeço a ficar um bocadinho mais calma, Deus, por causa desta conversa contigo. Hei-de ter mais conversas contigo no futuro próximo e, deste modo, impedir que me fujas. Também hás-de viver tempos de maior privação em mim, meu Deus, não serás alimentado tão fortemente pela minha confiança, mas acredita que continuarei a trabalhar para ti e a ser-te fiel e não te expulsarei do meu território.

Toda a vida tive esta sensação: quem me dera que houvesse alguém que me pegasse pela mão e se ocupasse de mim; eu pareço forte e faço tudo sozinha, mas gostava tanto de me entregar completamente.»

Fonte: Diário de Etty Hillesum (1941-1943)

Nota: No Brasil, este livro foi editado com o título: "Uma Vida Interrompida - os Diários de Etty Hillesum" . Podem encontrar o livro aqui

domingo, 11 de janeiro de 2009

O DIÁRIO DE ETTY HILLESUM (3ª Parte)



Mais algumas palavras que nos abrem as portas da profunda e riquíssima vivência interior de Etty Hillesum.

«O que importa é escutar o próprio ritmo dentro de ti e tentar viver segundo esse ritmo. Escutar o que emana de ti. Muito daquilo que fazes é simplesmente imitação ou dever imaginário ou falsas ideias acerca do que uma pessoa dever ser.

A única certeza de como viver e o que fazer só pode provir das fontes que brotam lá no fundo de ti. (...)

E agora eu digo muito humilde e grata, e é a sério, embora eu saiba que mais uma vez hei-de rebelar-me e tornar-me irritável:

«Meu Deus, agradeço-te por me teres criado como eu sou. Agradeço-te por às vezes poder estar cheia de vastidão, essa vastidão não é senão o estar repleta de ti. Prometo-te que toda a minha vida há-de ser uma luta para atingir a bela harmonia e também humildade e amor verdadeiro de que me sinto ser capaz nos meus melhores momentos.(...)

Eu uso a oração como um escuro muro protector, na oração retiro-me como se estivesse na cela de um convento e, depois, saio cá para fora, mais «una» e fortalecida e mais completa.

Recolher-me na cela fechada da oração torna-se para mim uma realidade cada vez maior e também uma necessidade. Esta concentação interior ergue muros altos em meu redor, dentro dos quais novamente me reencontro, formo um todo, fora do alcance de todas as dispersões. E consigo imaginar que pode vir uma época em que me encontrarei ajoelhada dias a fio, até finalmente sentir que surgiram muros protectores à minha volta, dentro dos quais não me posso dispersar, nem perder-me, nem arrasar-me.(...)

«Uma pessoa deve arrancar e exterminar muita coisa dentro de si, a fim de criar um espaço amplo e contínuo para os grandes sentimentos e ligações na sua totalidade, sem que eles sejam cruzados por pequenas reacções de um nível mais baixo (...)

Tantos pedacinhos pequenos do próprio eu, que impedem o caminho para áreas mais amplas. Aquele eu restrito, com os seus desejos, somente orientados para a satisfação do altamente limitado eu, há que eliminá-lo e apagá-lo. (...)

Às vezes, é como se dentro de mim existisse uma grande oficina onde se trabalha no duro, se martela, e sei mais lá o quê. E, às vezes, parece-me que sou feita de granito, um pedaço de rocha, e nessa rocha batem constantemente torrentes que a vão furando. Uma gruta de granito que vai sendo cada vez mais escavada e onde são cinzelados contornos e formas. E pode ser que um certo dia as formas fiquem prontas para uso, com contornos nítidos em mim, e que eu só precise reproduzir o que encontro cá dentro.»

Fonte: Diário de Etty Hillesum (1941-1943)

Nota: No Brasil, este livro foi editado com o título: "Uma Vida Interrompida - os Diários de Etty Hillesum" . Podem encontrar o livro aqui

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O DIÁRIO DE ETTY HILLESUM 1941-1943 (continuação)

Acho deveras impressionante a força interior com que Etty enfrentava as dificuldades, o sofrimento, o extermínio iminente. Ela encontrou Deus dentro de si, através do sofrimento, do silêncio e da oração; e fora de si, nos outros, ela procurava um bocadinho de Deus e tentava despertá-Lo.

«Nova certeza: que querem o nosso extermínio. Também isso eu aceito. Sei-o agora. Não vou incomodar outros com os meus medos, não vou ficar amargurada se outras pessoas não entenderem do que se trata, para nós, judeus. Esta certeza não vai ser corroída ou invalidada pela outra. Trabalho e vivo com a mesma convicção e acho a vida prenhe de sentido, cheia de sentido apesar de tudo, embora já não me atreva a dizer uma coisa dessas em grupo.
O viver e o morrer, o sofrimento e a alegria, as bolhas nos meus pés gastos e o jasmim atrás do quintal, as perseguições, as incontáveis violências gratuitas, tudo e tudo em mim é como se fosse uma forte unidade, e eu aceito tudo como uma unidade e começo a entender cada vez melhor, espontaneamente para mim, sem que ainda o consiga explicar a alguém, como é que as coisas são, gostava de viver longamente para no fim, mais tarde, conseguir explicar, e se isso não me for dado, pois bem, nesse caso uma outra pessoa irá fazê-lo e então um outro continuará a viver a minha vida, ali onde a minha foi interrompida, e por isso tenho de viver a minha vida tão bem e tão completa e convincentemente quanto possível até ao meu derradeiro suspiro, para que o que vem a seguir a mim não precise de começar de novo nem tenha as mesmas dificuldades. (...)

«Dentro de mim há um poço muito fundo. E lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalho no poço, e aí Deus está soterrado. Então é preciso desenterrá-lo.
Imagino que há pessoas que rezam com os olhos apontados ao céu. Essas procuram Deus fora de si. Há igualmente pessoas que curvam profundamente a cabeça e a escondem nas maõs, penso que essas procuram Deus dentro de si. (...)


Gosto imenso das pessoas, porque em cada uma amo um pedaço de ti, meu Deus. E procuro-te por toda a parte nas pessoas e, muitas vezes, acho um bocadinho de ti. E tento desenterrar-te nos corações dos outros, meu Deus.(...)

Procuraste Deus por toda a parte, em cada coração humano que para ti se abriu - e muitos foram - e em toda a parte achaste um pedacinho de Deus. Nunca desistias, eras capaz de ser muitíssimo impaciente em relação a pequenas coisas, mas em relação às grandes eras extremamente paciente, tão infinitamente paciente.(...)

Bom, deixai-me ser um bocadinho da vossa alma. Deixai-me ser a barraca de acolhimento do que de melhor há em vós, que com certeza há-de existir. Não preciso de fazer muita coisa, quero só estar presente. Deixai-me ser simplesmente a alma deste corpo. E em cada uma das pessoas achei por vezes um gesto ou um olhar, que os transcendia em muito, e do qual provavelmente quase não se tinham apercebido. E eu sentia-me a sua guardiã.»

Fonte: Diário de Etty Hillesum (1941-1943)

Nota: No Brasil, este livro foi editado com o título: "Uma Vida Interrompida - os Diários de Etty Hillesum" . Podem encontrar o livro aqui

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O DIÁRIO DE ETTY HILLESUM 1941-1943


(cliquem sobre a imagem)

Iniciei há poucos dias a leitura de um Diário (cliquem aqui) fascinante, cativante, que nos revela a riqueza interior de uma vida, infelizmente, breve, mas intensa, profunda... É fascinante acompanhar o "trabalho interior" que Etty desenvolve com a ajuda de Deus; a forma como ela O vai descobrindo dentro de si e se abre a um Amor mais puro, abrangente, vasto, universal...

Em pleno ambiente de perseguição e extermínio judeu, a 9 de Março de 1941, quando Esther (Etty) Hillesum, de origem judaica, começou a escrever, no primeiro dos oito cadernos de papel quadriculado, o texto que viria a ser o seu Diário, estava-se longe de pensar que começava aí uma das aventuras literárias e espirituais mais significativas do século. Ela tinha vinte e sete anos de idade e morreria sem ter feito trinta.

A partir de hoje, vou partilhar convosco alguns trechos desse magnífico Diário.

«O sofrimento exigiu sempre o seu lugar e os seus direitos, e tem sinceramente alguma importância a forma que ele toma? O que interessa é o modo como as pessoas o carregam e se uma pessoa lhe sabe dar espaço, continuando porém a aceitar a vida.(...)

Soa quase paradoxal: por causa de excluírem a morte da vida, as pessoas não vivem uma vida completa, e ao acolher a morte dentro da vida, ela fica mais rica e mais ampla...

Podem tornar-nos as coisas algo complicadas, podem roubar-nos alguns bens materiais, alguma aparente liberdade de movimentos, mas somos nós que cometemos o maior roubo a nós próprios, roubamo-nos as nossas melhores forças através da nossa mentalidade errada. Através de nos sentirmos perseguidos, humilhados e oprimidos. Através do nosso ódio. Através de fanfarronice que esconde o medo. Bem, podemos às vezes sentir-nos tristes e abatidos por causa daquilo que nos fazem, isso é humano e compreensível. Porém, o maior roubo que nos é feito somos nós mesmos que o fazemos. Eu acho a vida bela e sinto-me livre. Os céus dentro de mim são tão vastos como os que estão por cima de mim...

Não sinto que esteja nas garras de ninguém, só sinto estar nos braços de Deus - para dizer isto de um modo muito bonito - e, seja aqui à beira desta secretária que me é muitíssimo querida e familiar ou daqui a um mês num quarto despojado no bairro judeu, ou talvez num campo à guarda das SS, acho que irei sentir-me sempre nos braços de Deus. E pode ser que consigam arrasar-me fisicamente, mas mais do que isso não. E talvez caia em desespero e sofra privações que nem nas minhas fantasias mais delirantes eu consiga imaginar. E contudo tudo isto é muito relativo comparado com a vastidão incomensurável da confiança em Deus e da capacidade de vivência interior.»

Fonte: Diário de Etty Hillesum 1941-1943

Nota: No Brasil, este livro foi editado com o título: "Uma Vida Interrompida - os Diários de Etty Hillesum" . Podem encontrar o livro aqui

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O Teu Amor - minha Vida e Liberdade


“…Creio - aprendi-o de Ti - que o Amor é o único bem pelo qual vale a pena dar a vida e a única lição que interessa aprender.
Só cá estamos para aprender a amar.
A maior dívida que tenho na Terra é para com quem me amou e se deixou amar por mim.
É uma dívida infinita, que só no Céu poderei saldar.

No entanto, todo este amor não tem comparação com aquele que tenho recebido de Ti e que - como nenhum outro - me tem estimulado a ser livre e a seguir o meu próprio caminho.

Gostaria de saber transmitir a quem não tem fé que a verdadeira fé de um crente é a fé que Deus tem nele. E que isto chega para transfigurar a vida de uma pessoa.”

(Excerto de “ O Príncipe e a Lavadeira” de Nuno Tovar de Lemos, s.j.)

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

NA PROFUNDEZA DO NOSSO DESEJO

«Nunca tu me procurarias, se me não tivesses já encontrado» (Blaise Pascal)
«Felipe achou a Natanael, e disse-lhe: Acabamos de achar aquele de quem escreveram Moisés na lei, e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José.

Perguntou-lhe Natanael: Pode haver coisa bem vinda de Nazaré?

Disse-lhe Felipe: Vem e vê.

Jesus, vendo Natanael aproximar-se dele, disse a seu respeito: Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!

Perguntou-lhe Natanael: Donde me conheces?

Respondeu-lhe Jesus: Antes que Felipe te chamasse, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira.» (João 1: 45-48)

"É de notar que Jesus se revelou a Natanael como alguém quue não lhe é estranho nem desconhecido, mas como quem já o conhecia duma forma pessoal e íntima. E, sobretudo, que o aprecia e o estima.

«Nunca tu me procurarias se me não tivesses já encontrado» - é uma frase que Pascal põe na boca de Cristo. Mas talvez fosse mais apropriado dizer: «Nunca tu me procurarias, se eu não te tivesse já encontrado», se eu te não tivesse descoberto no mais íntimo de ti mesmo.

Deus é sempre o primeiro a amar. Qualquer movimento de aproximação do homem a Deus é sempre precedido do movimento de Deus em direcção ao homem. Deus já se encontra presente no mais íntimo do desejo humano.

Este encontro de Jesus com Natanael está carregado de sentido. Jesus manifesta-se como alguém com quem já estamos relacionados no mais recôndito de nós mesmos, ainda antes de O conhecermos. Na profundeza do nosso desejo

(Eloi Leclerc, em "Vida em Plenitude")

domingo, 28 de dezembro de 2008

A VERDADEIRA FIDELIDADE

«Importa esperar contra toda a esperança, é preciso crer que o fracasso é só aparente, que não é senão o sinal, proposto à nossa fé, das misteriosas vitórias do amor de Deus. A resignação não é a fé. Nunca...

A verdadeira fidelidade não consiste em dizer: parece que tudo fracassou, mas em afirmar: é um êxito. Parece que não vai acontecer... mas acontece doutro modo, doutra maneira. Não compreendo como, não compreendo porquê, não me foi dado compreender. Mas eu creio naquilo que o Senhor afirmou...

A exigência de Deus é tremenda, no que diz respeito à fé, à esperança e à confiança.
Os santos são pessoas que aceitaram acreditar sem compreender.»

(Louis Evely, em "Tu és esse homem")

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

UM SANTO NATAL


Um Santo e abençoado Natal para todos vós, caros amigos, leitores, irmãos.

Sintam-se abraçados fraternalmente.


"Ouvi contar esta história.
Uma criança com toda a naturalidade, voltou-se para Deus e perguntou-lhe:
"E tu, o que é que queres ser quando fores grande?"
"Pequeno", respondeu-lhe Deus, também com toda a naturalidade.
Os homens querem ser grandes, mas a grandeza de Deus está em tornar-se pequeno, em dar a vida, em desaparecer pelo bem do outro."

(Vasco Pinto de Magalhães, s.j. in "Não há soluções, há caminhos")

«Já não sabendo como fazer para ser compreendido, o próprio Deus veio à Terra, pobre e humilde: se Jesus Cristo não tivesse vivido no meio de nós, Deus permaneceria longínquo, inatingível. Pela sua vida, Jesus concede-nos a graça de ver Deus de forma transparente

(Irmão Roger, de Taizé, em "Viver em tudo a paz do coração")

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

COMO MARIA


Senhor, dá-me um coração enamorado
como o coração de Maria;
um coração generoso
como o coração de Maria;
um coração aberto à tua Palavra
como o coração de Maria.

Faz com que descubra cada vez mais
a riqueza insondável que és Tu,
e que ninguém conhece, como a Tua Mãe;
que descubra que só com um coração desprendido,
chegarei a pôr a minha confiança em ti,
como a pôs a tua Mãe.

Faz enfim, Senhor,
Que como para Maria,
Tu sejas a minha única riqueza, o meu único tesouro,
a minha única seiva, a minha única vida;
o meu sustento e alimento;
meu bem e minha alegria.

(Pedro Muñoz Peñas, em "Orar com Deus")

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A LUZ DA LIBERDADE

«O amor quer que o outro seja e que seja verdadeiramente outro. Não um reflexo de si, não um satélite, mas uma outra liberdade. Deus quer - é o seu próprio ser, o seu acto simples, eterno - que o outro seja, que os outros sejam. E este querer é eficaz, como todo o querer divino.

Aquele que é a luz, quer que a luz resplandeça nos olhos do ser amado. Se te amo, não posso querer que os teus olhos sejam baços. Se te amo, quero que haja luz nos teus olhos e desejo estar junto de ti como um contágio de luz, uma transmissão de existência luminosa.

Um olhar de amor ou amizade, é um olhar de ambição para o outro. Amo-te quer dizer: sou ambicioso em relação a ti, sobretudo não quero dominar-te nem abafar a tua liberdade, desejo despertar-te. Quero que a minha liberdade comungue com a tua, o que não é possível se a tua não existir.(...)

Deus é suscitador de pessoas livres. Ele não pode amar-nos se não vir nos nossos olhos a luz da liberdade

(François Varillon, em "Alegria de Crer e Viver")

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

«VÓS TAMBÉM QUEREIS ABANDONAR-ME?»

«Diante de Jesus cada qual se sentia colocado perante uma exigência absoluta, uma escolha rigorosa e decisiva. Ficava-se, acto contínuo, despojado de todos os refúgios. Perdia-se segurança, vacilava-se estonteado com as alturas para que Ele impelia.

Então, uns refechavam-se rancorosamente, recusando-se logo, para maior segurança, não descansando enquanto não alcançavam medrosamente os seus covis. «Ele exagera... Impossível! Com que direito exige tudo isto?». E para futuro evitavam encontrá-l`O, ouvi-l`O e pensar no caso.

Sempre foi muito fácil fugir de Deus. Deus não força ninguém. Deus espera. Deus chama com infinita paciência. Mas nada pode contra aqueles que recusam expor-se ao Seu olhar e à Sua voz, aqueles que fingem prudentemente não O terem reconhecido.

«Vós também quereis abandonar-me?»

Porém, outros, ainda que também amedrontados, agitados e aturdidos, continuavam a escutar. E à medida que Ele falava sentiam e compreendiam haverem desde sempre esperado que Alguém lhes exigisse aquelas coisas inauditas, haverem sempre esperado Alguém, para crerem n`Ele, que ousasse exigir-lhes tudo aquilo. Só uma exigência assim total podia corresponder à sua imensa esperança.

Era como que um orvalho que despertasse, de súbito, a parcela mais profunda de nós mesmos: sentia-se que a verdadeira religião não poderia ser senão aquela; que Aquele que exigia a renúncia a tantas coisas era também Aquele que nos podia dispensar delas; que somente Aquele que exigia tudo isto, podia infundir a coragem de nos conformarmos.

O maior sacrifício era a maior libertação. Pois estamos obrigados a confiar absolutamente naquele que de tudo nos despojou...»

(Louis Evely, em "Tu és esse homem")

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

AS BEM-AVENTURANÇAS

«As Bem-aventuranças são uma primeira confrontação com o Deus vivo: revelação d`Ele e de nós. No mesmo relance, vemos como nos não parecemos com elas e principiamos a ver ao que Deus Se assemelha.
O Evangelho é o «Revelador» que faz aparecer na chapa sensível o desenho antes invisível para os nossos olhos.

Deus propõe-Se a nós, manifesta-Se -nos, Deus mostra-nos, enfim, um Rosto - e pede para nós o reflectirmos. Deus mostra-nos o Seu caminho e convida-nos amistosamente a acompanhá-l`O.

Qual tem sido a nossa resposta?
Que teríamos feito, que fizeram aqueles que rodeavam Jesus na montanha?»

(Louis Evely, em "Tu és esse homem")

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

DÁ-NOS O TEU OLHAR


Nunca homem algum respeitou os outros homens como este homem. Para Ele, o outro é sempre mais e melhor do que aparenta ser. Vê sempre, naquele a quem encontra, uma esperança, uma promessa viva, uma possibilidade maior, apesar dos seus limites, dos seus pecados e até dos seus crimes. Enfim, alguém chamado a um novo porvir.

Jesus não disse: «Esta mulher é frívola, néscia, com a cabeça cheia de pássaros, está marcada pelo atavismo moral e religioso do seu ambiente», Ele disse: «É uma mulher!» Ele pediu-lhe um copo de água e iniciou com ela uma conversão (Jo 4, 1-42).

Jesus não disse: «Aqui tendes uma pecadora pública, uma protistuta enlameada para sempre no vício.» Ele disse: «Tem mais oportunidades de entrar no Reino de Deus do que aqueles que confiam na sua riqueza e se atêm à sua riqueza e saber» (Lc 7, 36-49)

Jesus não disse: «É uma adúltera.» Ele disse: «Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não voltes a pecar» (Jo 8, 9-10)

Jesus não disse: «Esta que quer tocar a minha túnica é uma histérica». Ele escutou-a, falou-lhe e curou-a. (Lc 8, 43-48)

Jesus não disse: «Esta velha que deita uns tostões no tesouro do templo é uma supersticiosa.» Ele disse que aquela velhinha era formidável e que o seu desinteresse merecia ser imitado (Mc 12, 41-44)

Jesus não disse: «Estas crianças não fazem senão parvoíces.» Ele disse: «Deixai que se aproximem de Mim e procurai parecer-vos com elas» (Mt 19, 13-15).

Jesus não disse: «Este homem é um funcionário corrupto, que enriquece adulando os ricos e oprimindo os pobres.» Ele convidou-se para a sua mesa e deixou claro que com Ele tinha entrado naquela casa a salvação.» (Lc 19, 1-10).

Jesus não disse: «Este centurião pertence às forças da ocupação.» Ele disse: «Nunca vi tanta fé em Israel» (Lc 7, 1-10).

Jesus não disse: «Este sábio não tem os pés na terra». Ele abriu-lhe o caminho para que voltasse a nascer do Espírito. (Jo 3, 1-21).

Jesus não disse: «Este indivíduo viveu sempre fora da lei.» Ele disse-lhe: «Hoje estarás comigo no paraíso.» (Lc 23, 39-43).

Jesus não disse: «Judas, traíste-me.» Ele viu-o e disse-lhe: «Amigo, vendes-me com um beijo?» (Mt 26, 50)

Jesus não disse: «Este impostor negou-me.» Ele disse-lhe: «Pedro, amas-me?» (Jo 21, 15-17)

Jesus não disse; «Os sumo-sacerdotes são uns juízes injustos; este rei é um títere, o procurador romano é um cobarde, esta multidão que vocifera contra mim é um populacho, estes soldados que me maltratam são uma podridão.» Ele disse: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.» (Lc 23, 34)

Dom Albert Decoutray (bispo de Dijon, França)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

UM ACTO DE AMOR MÚTUO

«O Pai gera Jesus no Espírito que é amor. Ele o gera amando-o. Ora, as relações de amor se estabelecem na liberdade, e Jesus devia se deixar gerar.
Face ao Pai, a quem pertence a iniciativa, Ele devia desempenhar um papel, o papel da receptividade filial. Pois não se pode doar a quem não quer receber...

Jesus era o homem livre por excelência, descompromissado com as tradições dos escribas e dos fariseus, contrário à imagem que eles faziam de Deus, crítico dos chefes dos sacerdotes, porque abusavam do seu poder religioso, livre até de si mesmo em sua renúncia pessoal total. Mas, perante Deus, Ele viveu em submissão absoluta...

Sua submissão a Deus é expressa por meio de actos de liberdade...

Os sofrimentos encaminharam Jesus para um consentimento eterno. Um cristão que vive suas provações com espírito de fé e caridade torna-se disponível para com Deus, num grau de profundidade nunca antes experimentado. E assim foi com Cristo: "Embora fosse Filho, aprendeu, contudo, a obediência pelo sofrimento; e, levado à perfeição, tornou-se princípio de salvação para todos" (Hb 5, 8).
A paixão de Jesus nada teve de um castigo infligido a um Inocente, que Deus teria escolhido para sofrer em lugar dos pecadores.

O ancestral desobediente cede lugar ao novo Adão (Rm 5, 12-18) "feito obediente até à morte". A redenção é uma obra de obediência, por meio de amor mútuo: "Por isto o Pai me ama, porque dou minha vida para retomá-la... esse é o preceito que recebi do Pai" (Jo 10, 17s.)» (Pe. François-Xavier Durrwell, em "Cristo Nossa Páscoa")

INDAGAÇÕES SOBRE O CARPINTEIRO

“A árvore é força vertical da natureza, da terra em direcção ao céu. Tem a postura da espécie humana. Por isso o cego que Jesus curou em Bet...