sábado, 28 de maio de 2016

Quem é que tem medo da verdade?


Aproximou-se um homem habituado

ao uso inveterado do silêncio
o seu olhar varrendo toda a fraude
das palavras
Aproximou-se firme e impoluto
Esquadrinhou as faces oxidadas
da mentira
Olhou depois o chão como quem abre
um sepulcro
e lentamente desenhou
o puro rosto da verdade
sobre a areia.


Levantou depois os olhos azulados
À sua frente havia apenas céu
Para onde tinham ido os impostores? 
Quem é que tem medo da verdade? 
Baixou de novo os olhos 
e guardou na areia seca do deserto dois loiros grãos de trigo 
dois pedaços de azul
duas lágrimas
duas palavras interditas.

António Couto

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Deus é simples

«Deus é simples; nós é que O fazemos complicado.
Está próximo, nós é que O vemos à distância.

Faz parte da realidade e de tudo o que está ao nosso redor, nós é que O buscamos em sonhos e utopias.
O verdadeiro segredo para entrar em contacto com Deus é a humildade, simplicidade do coração é a agudeza do espírito; coisas essas que são infelizmente, apagadas em nós pelo orgulho, pela ganância e pela malícia.
Jesus já dizia: «Se não tiverdes um coração de criança, não entrareis no reino do céu»; e não adianta tentar enganar.»

Carlos Carreto

domingo, 22 de maio de 2016

A oração de Deus


"Sim, Deus também reza, e é de misericórdia o tom apaixonado da sua oração. Se escutardes com o coração, com o coração nas mãos, ouvireis em primeiro lugar, para espanto e encanto vosso, a oração de Deus. E Deus reza assim: «Que a minha vontade seja que a minha misericórdia possa vencer a minha ira, e que a minha misericórdia possa prevalecer sobre os meus outros atributos, de modo que eu trate os meus filhos com o atributo da misericórdia, e que, no meu relacionamento com eles, pare sempre no limiar da execução da justiça».

E, se continuardes a escutar com o coração, é quase certo que ouvireis o vosso nome, dito por Deus. Assim: Maria, Ana, Joana, Isabel, Marta, Madalena, António, Rui, Paulo, João, José, Pedro, Manuel, Ismael, minha filha, meu filho, bendiz-me! E vós direis então lá do fundo do vosso coração: «Que a Tua vontade seja que a Tua misericórdia possa vencer a Tua ira, e que a Tua misericórdia possa prevalecer sobre os Teus outros atributos, de modo que possas tratar os teus filhos de acordo com o atributo da misericórdia, e possas, no teu relacionamento com eles, parar antes da execução da justiça. E Ele acenar-vos-á que sim com a cabeça». Ele é Aquele que com a cabeça te acena sempre que sim com a cabeça. Ele é o Sim, Ele é a Porta, Ele é a Misericórdia sempre ali, sempre aqui, à tua espera, à nossa espera."

quinta-feira, 19 de maio de 2016

"Assim como Deus me fez, também eu te faço a ti"

«Se quisermos que o nosso mundo seja curado, já não nos podemos apoiar na lógica de "assim como tu me fizeste, também eu te faço a ti". Devemos aprender a lógica de "assim como Deus me fez, também eu te faço a ti" - o caminho do perdão e da reconciliação.»

[Tomás Halik, in "A Noite do Confessor"]


"O preceito mais radical de Jesus é talvez: «Sede misericordiosos como também o vosso Pai é misericordioso»(Lucas 6, 36).

Jesus descreve a misericórdia de Deus não só para me mostrar o que Deus sente por mim, ou para me perdoar os pecados e oferecer-me uma vida nova e muita felicidade, mas para me convidar a ser como Deus, a ser tão misericordioso para com os outros como Ele é para comigo. Se o único sentido da história fosse: toda a gente peca, mas Deus perdoa, muito facilmente começaria a pensar nos meus pecados como sendo uma bela ocasião para Deus me dar o seu perdão. Vistas assim as coisas, nem sequer haveria lugar para um autêntico desafio. Resignar-me-ia a ser fraco e ficaria à espera de que Deus acabasse por fechar os olhos aos meus pecados e me deixasse entrar em casa, fosse o que fosse que tivesse feito. Tal mensagem, porém, tão sentimental e romântica, não é a mensagem do Evangelho.


Se Deus perdoa aos pecadores, então aqueles que têm fé deveriam fazer o mesmo. Se Deus recebe os pecadores em casa, então aqueles que confiam em Deus também deveriam fazê-lo. Se Deus é misericordioso, então os que amam a Deus deveriam ser misericordiosos. O Deus que Jesus anuncia e em nome de quem actua, é o Deus da misericórdia, o Deus que se propõe como exemplo e modelo do comportamento humano."

Henri Nouwen, in "O Regresso do Filho Pródigo"

segunda-feira, 16 de maio de 2016

QUE SIGNIFICA AMAR?


«Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. (...)

Dia após dia, tocados pela sua compaixão, podemos também nós tornar-nos compassivos para com todos.»

Papa Francisco, in “Misericordiae Vultus” (“O rosto da Misericórdia”) - Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia


«Que significa amar?

Amar um ser é esperar nele para sempre.

Amar um ser é não o julgar; julgar um ser é identificá-lo com aquilo que dele se conhece. «Agora, conheço-te. Agora julgo-te. Sei aquilo que vales»... Isto representa matar um ser.

Amar um ser é esperar sempre dele algo de novo, algo de melhor.

Pensai, por exemplo, em Maria Madalena: Cristo esperava dela algo que ninguém tinha conseguido descobrir e amou-a tanto, perdoou-lhe tão generosamente que dela obteve o amor mais puro e mais fiel e, admirados, todos à sua volta comentavam: «Será possível que ela seja assim?! Tínhamo-la julgado, pensávamos conhecê-la, haviamo-la condenado e tudo porque nunca fora convenientemente amada...»
Cristo amou-a com tal perfeição que a tornou aquilo que os outros, pobres e desconfiados, demasiado avarentos de amor, não tinham sido capazes de suscitar nela.

Cristo aguardava, esperava tudo de toda a gente. Fazia surgir, ao Seu redor, vocações, amizades e generosidades; e todos os que supunham conhecer de longa data aqueles personagens, ficavam perplexos: «Como? Zaqueu tornou-se generoso? Maria Madalena tornou-se pura e fiel? Tomé tornou-se crente? Mateus, o publicano, feito Apóstolo? E todos esses pobres, todos esses pecadores se transformaram em apóstolos e santos?... Como é possível?»

Alguém os tinha amado, tinha acreditado neles.

Louis Evely, in "Fraternidade e Evangelho"

sábado, 14 de maio de 2016

«Vede como eles se amam!»

O que é um cristão? Como se reconhece um cristão?
“Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 35)
“Dou-vos um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13, 34)


Tertuliano, considerado um dos pais da igreja, testemunhou o espanto dos que não eram cristãos quando olhavam para o comportamento dos cristãos:
«Vede como eles se amam!»
Os primeiros cristãos levavam as palavras e ensinamentos de Jesus tão a sério que os pagãos exclamavam, admirados:
«Vede como eles se amam!»
No fundo, eles apercebiam-se de como a palavra dos seus lábios se repercutia na palavra da sua vida.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

UM DIA...

Um dia, vamos conhecer os verdadeiros santos de todas as religiões, credos, culturas, e de todos os ateísmos: os que viveram amando, no anonimato, sem nada esperar.

domingo, 8 de maio de 2016

Aceitas o convite para a Festa?

O Pai que perdoa, Frank Wesley, 1998.

Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos.
O filho disse-lhe: 'Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho.'
Mas o pai disse aos seus servos: 'Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado.' 

E a festa principiou.

Ora, o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se de casa ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. 
Disse-lhe ele: 'O teu irmão voltou e o teu pai matou o vitelo gordo, porque chegou são e salvo.' 
Encolerizado, não queria entrar; mas o seu pai, saindo, suplicava-lhe que entrasse. 
Respondendo ao pai, disse-lhe: 'Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos; e agora, ao chegar esse teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo.'

O pai respondeu-lhe: 'Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado.' 

(Lucas 15, 20-32 )

«O evangelho desvela o verdadeiro rosto do Pai – um rosto materno – e a sua incurável debilidade diante do filho “pecador” arrependido. 

O filho mais velho, ainda que não tivesse deixado a casa paterna, está distante da ternura do Pai. Sua fidelidade é puramente formal; sua obediência está privada de alegria e de amor; o seu coração é mesquinho e ele recusa-se a abandonar os seus esquemas rígidos.

A verdadeira traição é a daquele que permanece sem dar o passo decisivo: ultrapassar a soleira da porta e penetrar no centro da casa onde está o coração do Pai. Este coração, que recupera o filho por meio da nostalgia, do desejo, da espera vigilante: “Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos”. 

Somos convidados a participar da festa final, caso contrário, faremos como o filho mais velho que com o seu coração ressequido interrompe a festa, os bailes, a música e o banquete. Como um diligente executor de ordens, não suporta a alegria e azeda a vida de todos os que estão disponíveis para a alegria e a ternura. Ele desafina a partitura paterna da sinfonia da misericórdia com uma nota que tem o poder de estragar a sua harmonia e suspender a sua execução. A música só voltará a tocar se ele, o distante, passar pela soleira da porta e entrar na festa.

Será que terá esta magnanimidade?»

Comunidade dos Manos da Terna Solidão
Pe. Paulo Botas, mts 
Pe. Eduardo Spiller, mts 
Adaptado de: http://matersol.blogspot.pt/2013/09/o-caminho-da-beleza-43-xxiv-domingo-do.html

terça-feira, 3 de maio de 2016

UM FÉ À JESUS

«A única Fé decente e digna é a que humaniza as pessoas, as liberta dos medos e as cura dos egoísmos. Uma Fé à Jesus é capaz destes milagres.»

sábado, 30 de abril de 2016

EM SINTONIA COM JESUS

«Quando estiverem afinadas, Mestre,
todas as cordas da minha vida,
cada vez que as toques, cantarão de amor.»

[Rabindranath Tagore]
Afinar a nossa vida pela vida de Jesus.
Sintonizar o nosso coração com o coração do Mestre.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Uma pergunta pertinente de José Tolentino Mendonça:
«O que é que estamos a perder quando nos falta o desprendimento?»
Perante esta pergunta, ecoam em mim as palavras de Jesus ao jovem rico "Ainda te falta uma coisa...." (Mc 10:17-22). Assim como as que Jesus dirigiu a Marta, irmã de Maria: "Andas preocupada com tantas coisas, quando uma só é necessária" (Lc 10:38-42).

sábado, 23 de abril de 2016

DEIXAR-SE LEVAR


«Há um passo importante no nosso itinerário para Deus: deixar-se levar. As experiências que acompanham a maturidade na fé reconduzem-nos sempre à infância. Quanto mais nos aproximamos de Deus, mais captamos o sentido dos gestos simples que brotavam espontaneamente em nós quando éramos crianças. Por exemplo: dar a mão e deixar-se levar. (...)

Aprendemos a caminhar pela vida, assim, de mão dada, levados por outro, sem medo, com a alegria de ser amado.»

Carlos Maria Antunes, in "Só o Pobre se faz Pão"

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Amar é também saber dizer não

São Francisco abraçando um leproso, Julie Lonneman, 2014


«Jó define a lepra como a "primogénita da morte" (Jó 18, 13). De facto, os leprosos eram considerados como mortos e a sua cura eventual suscitaria o mesmo efeito de uma ressurreição da morte. O corpo do leproso é intocável não só por uma questão de higiene, mas pela simples razão de que ele é um cadáver e tocá-lo desencadearia uma impureza que impediria a participação nos actos religiosos da comunidade. 
No evangelho (Mc 1:40-45), o leproso desafia todas as normas, transgride a lei, aproximando-se de Jesus, mas coloca-se de joelhos à sua frente. Jesus é movido pela compaixão até às entranhas e transborda de ternura. Jesus toca o leproso e reafirma a transgressão iniciada por ele. Ele quer limpar o mundo dos estigmas e das exclusões que atentam contra a compaixão do seu Pai. E paga caro por esta atitude: "não pode entrar mais abertamente nas cidades, é forçado a ficar nos lugares desertos" (Mc 1, 45). (...)

Jesus se revela como a própria presença de Deus que destrói toda a falsa barreira legalista. É Aquele que rompe as fronteiras, derruba os muros seculares da separação, ultrapassa os preconceitos e aniquila as discriminações sociais e religiosas. A dor é o campo dramático em que se arrisca a fé: ou ela se cumpre ou se nega. Jesus está sempre presente nesta linha de fronteira da existência humana, nesta situação-limite em que a compaixão deve falar mais alto. Ele não conhece a hesitação dos puritanos nem o egoísmo dos bem situados e bem pensantes. Ele nos faz saber que onde está a dor devem estar presentes, sobretudo, os que O seguem. 

Nós, os cristãos, tantas vezes criamos “os leprosos”: os que não se comportam como as nossas ideias, os que nos incomodam e se tornam inoportunos. Quantos “leprosos” excluídos, escorraçados, ignorados, condenados ao isolamento no cenário teatral das nossas famílias, religiões e igrejas.(...)

A compaixão pode exigir-nos uma atitude de transgressão, pois o amor é maior do que tudo e leva-nos a confrontar todas as limitações, as imposições e, muitas vezes, a dizer um não a elas. Amar é também saber dizer não

Comunidade dos Manos da Terna Solidão
Pe. Paulo Botas, mts
Pe. Eduardo Spiller, mts

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A EXPERIÊNCIA MAIS AUTÊNTICA DE DEUS

«A experiência mais autêntica de Deus é darmo-nos conta de que Ele está completa e incondicionalmente a favor do homem, que se colocou do nosso lado até ao extremo de assumir a nossa fragilidade, o nosso medo, a nossa noite.»
Pedro Miguel Lamet, s.j., in "As Palavras Vivas - confidências de João, o discípulo predilecto"

domingo, 10 de abril de 2016

A Santa Lei do Amor



Imagem: Yongsung Kim, "Forgive"

«O Senhor revela-nos que a fé não é algo que se possui, mas que somos possuídos e alcançados por Alguém. 

O Evangelho revela esta novidade por meio da contraposição entre as exigências implacáveis da Lei e a estratégia de misericórdia traçada por Jesus. Os acusadores negam à mulher a possibilidade de um novo começo e querem, com pedras, não só sepultar o passado desta pecadora, mas ela própria. 

Cristo, com o seu perdão, liquida definitivamente o passado e entrega à mulher um futuro imaculado a ser construído por ela mesma. O castigo dos carrascos tornou-se estéril, pois a não condenação por Cristo reinventa a vida. 

As frias exigências gravam-se sobre a pedra, mas a misericórdia não está escrita sobre nenhuma matéria dura. A nova lei – a do amor – inscreve-se no terreno maleável do coração, sobre a tenra e terna carne da terra. Resta apenas matar a nossa curiosidade de saber o que escrevia Jesus, com o dedo, no chão do Templo. Jesus escrevia a condenação aos escribas e fariseus e continua até hoje escrevendo em silêncio aos moralistas de plantão que se evadem e se esquivam da barbárie do mundo degenerado que construíram: "Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus." (Mt 21, 31).»

Graças a: 
Comunidade dos Manos da Terna Solidão
Pe. Paulo Botas, mts 
Pe. Eduardo Spiller, mts

INDAGAÇÕES SOBRE O CARPINTEIRO

“A árvore é força vertical da natureza, da terra em direcção ao céu. Tem a postura da espécie humana. Por isso o cego que Jesus curou em Bet...