quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Pai de Jesus e Pai Nosso


Do meio do trigo e do pão, do coração, 
oiço então a voz de Deus, que me dá a mão. 
Agarro-me. 
Sinto sulcos gravados nessa mão. 
Sigo-os com o dedo devagar. 
Percebo que são as letras do meu nome, os traços do meu rosto. 

Foi então por mim que desceste a este chão. 
O amor verdadeiro está lá sempre primeiro.



António Couto

http://derrotarmontanhas.blogspot.pt/2012/11/pai-de-jesus-e-pai-nosso.html

terça-feira, 13 de novembro de 2012

FRANCISCO E CLARA



"Nada há a dizer dela, a não ser que eles se completam como os dois pilares do arco-irís, passando de um ao outro todos os cambiantes de amor, todas as cores do sonho. Nada há a dizer dela senão o seu nome, e o seu nome diz o que ela é, o que ela dá: Clara, Clareira, clarabóia, clarividente, clarão, aclaramento: todos estes nomes estão no seu nome, todas estas luzes vêm dela (...) 

Amam-se do mesmo amor, são feitos para se entenderem, ébrios do mesmo vinho. Ela troca o seu vestido resplandecente por um grosseiro gabão de lã, e ei-los por muitos anos juntos e separados, ele apanhando na armadilha da sua voz as aves do céu, os bichos dos campos e os homens das cidades, ela ajuntando nas malhas de Deus um número cada vez maior de raparigas, cada vez mais bonitas. (...) 

Dois caçadores furtivos. Dois nómadas nas propriedades invisíveis de Deus (...) 

Reunidos pela conversa sem fim das almas, por esse deslumbramento de se ter encontrado o interlocutor privilegiado, aquele e aquela que tudo ouvem, mesmo os silêncios  mesmo o que não se saberia dizer para consigo no silêncio, a irmã, o irmão, sem quem o tempo passado na terra só teria sido tempo - nada mais(...)

Ele morreu antes dela, coisa sem importância, pois o amor, desde o seu advento, desde o seu primeiro frémito, aboliu os velhos decretos do tempo, suprimiu estas distinções do antes e do depois, tendo unicamente mantido o hoje eterno dos vivos, o hoje enamorado do amor.» 

Christian Bobin, em "Um Deus à flor da terra"

domingo, 11 de novembro de 2012

PESCADORES DE HOMENS (2ª parte)


Ao chamá-los, Jesus compromete-se com eles e dá-se a eles de uma maneira incondicional. Jesus não compromete simplesmente pessoas consigo ou com a causa do Reino… Antes disso, e mais importante, Jesus compromete-se com elas! Ao convidá-los a tornarem-se seus discípulos, é ele que assume o compromisso com eles, e não o contrário. A eles pede-lhes que o sigam. Que o descubram e se descubram novos no convívio com ele…

Jesus não os “roubou” do que viviam… Mas tudo fica diferente quando ele entra na vida dos seus. “Imediatamente, deixando as redes, seguiram Jesus.” Deixaram as redes, não o barco nem o seu mundo… Jesus não os rouba do seu mundo; antes, mete-se nele! Ao longo de todo o evangelho encontramos Jesus a percorrer as aldeias piscatórias onde se moviam alguns dos seus discípulos certamente há muito mais tempo que ele, que era de Nazaré, bem longe dali. A sua missão desenrola-se toda à volta do grande lago da Galileia, com as gentes destas povoações. Jesus não lhes pediu que vendessem o barco ou o abandonassem… Pelo contrário, vemo-lo a usá-lo para se dirigir às multidões que se aglomeravam às vezes na margem. Subia ao barco, entrava um pouco no lago, e falava daí.

O Reino acontece do lado de dentro da vida dos discípulos de Jesus, não fora, dentro das situações concretas que viviam, das ocupações que tinham, das pessoas que conheciam, das povoações que percorriam… É a partir daí que o Reino começa a emergir e a difundir-se, pela força de Jesus, cheio do Espírito.


Rui Santiago

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

PESCADORES DE HOMENS (1ª parte)


Jesus nunca procurou rodear-se de letrados na Lei, nem fariseus, nem gente piedosa de Jerusalém, que gravitavam à volta do Templo e do seu deus sempre insatisfeito. Queria gente calejada da vida, que conhecesse os meandros das experiências humanas mais profundas e reais, ainda que não as soubessem dizer com palavras bonitas, gente que soubesse comungar com as dores das pessoas que encontrassem no caminho, ainda que não fossem capazes de ler uma leitura na sinagoga aos sábados nem fazer um comentário à volta das minúcias desta ou daquela profecia…

Jesus entrava na vida destes homens e abria-lhes uma esperança, tocava dentro deles num ponto qualquer misterioso que os fazia sentirem-se desejosos de experimentar a aventura do Reino tal como ele a propunha, como um caminho de libertação das pessoas, de compromisso vital com elas no mais concreto, aí onde a vida acontece, onde a vida dói e morre às vezes, mas também se cura e re-suscita: “Pescadores de Homens”! Tudo parecia possível…. Com ele, sim! Inundava-os de uma esperança capaz de abandonar os barcos, as redes ou a mesa de cambista…


Quando os chama a serem seus companheiros e discípulos, não os chama em função de si mesmo, nem em função do que eles têm que “fazer”. Não lhes propõe que se voluntariem em função de uma causa “fora” deles… É mais profundo! Jesus compromete-se com eles: “Eu farei de vós…” “Eu farei de vós pescadores de homens”, diz-lhes Jesus. Não é um novo ofício que lhes está a dar, uma nova ocupação em regime de voluntariado solidário… É uma nova vida que lhes promete e com a qual se compromete ele mesmo: “Eu farei de vós...”Promete-lhes que ele mesmo fará dos seus outra coisa, fará neles coisas novas, lhes dará um futuro que sozinhos não constroem.


Rui Santiago

terça-feira, 6 de novembro de 2012

SÓ DEUS CONHECE NOSSOS CORAÇÕES


Apresentaram-lhe um paralítico, deitado num catre. Vendo Jesus a fé deles, disse ao paralítico: «Filho, tem confiança, os teus pecados estão perdoados.» Alguns doutores da Lei disseram consigo: «Este homem blasfema.» Jesus, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: «Porque alimentais esses maus pensamentos nos vossos corações? (Mateus 9, 2-5)

Há mais de um século, Abraham Lincoln fez uma observação que se tornou famosa: “Pode-se enganar a todos durante certo tempo e a alguns todo o tempo, mas não se pode enganar a todos todo o tempo”. Ainda assim, continua a haver muitos políticos que continuam a tentar!

Para nós, um importante corolário desta frase é que nunca se pode enganar Deus, nem mesmo por um instante! Mas parece que a nossa persistência não tem limites...
Nesta passagem bíblica, Jesus mostra uma vez mais a sua capacidade de ler o coração dos seus interlocutores. Esta aptidão foi, aliás, a causa de uma das maiores tristezas que o acompanhou permanentemente pois Ele podia ver a inveja e o ódio que tantas pessoas dirigiam contra ele.

O que é que Jesus vê quando lê os nossos corações? Sem dúvida que vê a nossa bondade – que nós próprios, tantas vezes, não conseguimos enxergar – e vê o nosso desejo de sermos verdadeiros e de realizar atos de amor. Mas há outra parte de nós que ele também vê: os nossos pecados e faltas, naturalmente, e também aqueles quartos fechados cujas portas nem sequer ousamos abrir.
Se Deus vê o que há dentro de nós e não nos rejeita, porque haveremos de ter medo desses quartos escuros e de olhar para aquelas dimensões da nossa vida que nos fazem estremecer só de pensar em as encarar? Não deveríamos ter esses receios porque não há nada que, com Deus, não seja possível enfrentar.
Lembremo-nos disto, confiemos nEle e abramos essas portas agora!

domingo, 4 de novembro de 2012

A ALEGRIA


«A alegria é um pássaro que só vem quando quer. Ela é livre. O máximo que podemos fazer é quebrar todas as gaiolas e cantar uma canção de amor, na esperança de que ela nos ouça. Oração é o nome que se dá a esta canção para invocar a alegria.» 

Rubem Alves

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

SEM OLHAR PARA TRÁS



«Seguir Cristo com um coração determinado não significa atear fogos de artifício, que produzem fortes clarões mas rapidamente se extinguem. 
Segui-lo é entrar e perseverar num caminho de confiança, que pode durar toda uma vida.

O Evangelho sugere que não olhemos para trás (Lucas 9,62), que não nos detenhamos nos nossos fracassos.»

Irmão Roger, de Taizé

quarta-feira, 31 de outubro de 2012


Jesus Cristo. Amor de todo o amor, 
estavas sempre comigo sem eu o saber. 
Estavas comigo e eu esquecia-Te. 
Eras o coração do meu coração e eu procurava-Te noutro lugar. 
Mesmo quando eu me afastava de Ti, Tu esperavas por mim. 
Agora chegou o dia em que posso dizer: 
Tu, o Ressuscitado, és a minha vida, estou em Cristo, sou de Cristo.

Irmão Roger, de Taizé

domingo, 28 de outubro de 2012

NO PRINCÍPIO, ERA O AMOR...


«Deus diz: "Antes de nasceres, já te tinha sonhado". Quando compreendermos que Deus nos amou primeiro, mesmo antes de nós O amarmos, nos enchemos de assombro. A contemplação não é mais do que esta disposição em que a pessoa é agarrada toda inteira na surpresa do amor.

Todos nós temos feridas, mas há sobretudo, em cada um, o mistério da presença de Deus.» 

Madre Teresa de Calcutá

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

SOBRE AMAR OS INIMIGOS


«A grande novidade do Evangelho não é tanto o facto de que Deus é Fonte de bondade, mas que os homens podem e devem agir à imagem do seu Criador: «Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso!» (Lucas 6,36). 
Através da vinda do seu Filho até nós, esta Fonte de bondade está agora acessível. Tornamo-nos, por nosso lado, «filhos do Altíssimo» (Lucas 6,35), seres capazes de responder ao mal com o bem, ao ódio com amor. Vivendo uma compaixão universal, perdoando aos que nos fazem mal, damos testemunho de que o Deus de misericórdia está no coração de um mundo marcado pela recusa do outro, pelo desprezo em relação àquele que é diferente.

As palavras de Jesus indicam duas maneiras de viver. A primeira é a dos «pecadores», dito de outra forma, dos que se comportam sem referência a Deus e à sua Palavra. Esses agem em relação aos outros em função da maneira como eles os tratam, a sua reacção é de facto uma reacção. Dividem o mundo em dois grupos, os amigos e os que o não são, e fazem prova de bondade só em relação aos que são bons para eles. A outra forma de viver não põe em primeiro lugar um grupo de homens, mas sim o próprio Deus. Deus, por seu lado, não reage de acordo com a maneira como o tratam; pelo contrário, «Ele é bom até para os ingratos e os maus» (Lucas 6,35).

Jesus chama assim a atenção para a característica essencial do Deus da Bíblia. Fonte transbordante de bondade, Deus não se deixa condicionar pela maldade de quem está à sua frente. Mesmo esquecido, mesmo injuriado, Deus continua fiel a si próprio, só pode amar

Impossível para os humanos entregues às suas próprias forças, o amor pelos inimigos testemunha a actividade do próprio Deus no meio de nós. Nenhuma ordem exterior o torna possível. Só a presença, nos nossos corações, do amor divino em pessoa, o Espírito Santo, permite amar assim.»

http://www.taize.fr/pt_article594.html

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O JEITO DE AMAR


«A identidade espiritual da pessoa, isto é, o seu jeito de amar é a veste nupcial com a qual vai tomar parte no banquete da Comunhão Universal. A vida pessoal e espiritual não se situa ao nível do físico, isto é, não se pesa ao quilo, não se avalia pelo volume, não se mede ao metro, nem se analisa pelo cálculo das superfícies. Para conhecer a qualidade e a grandeza da vida espiritual de uma pessoa basta analisar o seu jeito de amar.

É por esta razão que no Reino de Deus as pessoas são evidentes umas para as outras, pois a sua identidade consiste no seu jeito de amar. Por outras palavras, cada pessoa está presente na festa da Família de Deus com o jeito de amar que adquiriu enquanto viveu na História.

O amor é, portanto, o critério definitivo. O ser humano está a caminhar para a plena reciprocidade onde cada pessoa se possui na medida em que se dá. Isto significa que a pessoa, ao dar-se, não se perde e que será eternamente mais divino quem mais crescer na capacidade de amar...»

Para ler na íntegra: http://derrotarmontanhas.blogspot.pt/2012/06/imagem-de-deus-no-amor.html

domingo, 21 de outubro de 2012

SEM MIM...


«Sem mim, nada podeis fazer.» João 15,5


«Não tenho milagres para te dar. Mas tenho milagres para te propor.
Não tenho milagres para te fazer. Mas há milagres que podem acontecer entre nós.
Às vezes gostava que tivesses menos crenças acerca de mim e mais Fé em ti mesmo e do que nós podemos fazer juntos!
Assentas os pés na Esperança que te proponho, e em verdade em verdade te digo que estarás a condenar à morte os medos que te habitam. O medo é a noite da alma, a cegueira dos sentidos.
Conheço-te tanto quanto te amo e vejo-te tão bem quanto te quero. 
És maior que todos os teus pecados. Nada nem ninguém te poderá separar do meu amor. Não está ao teu alcance a possibilidade de eu deixar de te amar!

Há-de haver um dia para cada um de nós que levamos o belo nome de "cristãos" - quer dizer, os "crísticos", os que têm a pinta do Cristo Galileu - em que perceberemos que a Fé em/de Jesus é um estilo de vida, é uma vida com estilo, um certo estilo, um estilo certo...»

Rui Santiago 

http://derrotarmontanhas.blogspot.pt/2012/07/recado.html


sábado, 20 de outubro de 2012

A BELEZA DE DEUS



«Deus não nos seduz com a sua eternidade, mas com a beleza dos gestos de amor de Jesus Cristo, com os sulcos traçados na consciência pelos encantos do mundo que existe.» 

Autor desconhecido

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

É BELO PERTENCER A CRISTO



«A sua vida era ditosa, feliz: era um rabino que tinha a alegria de viver, que gostava dos banquetes e das flores do campo, que sabia apreciar as belas pedras do templo e o perfume vertido sobre ele, o abraço das crianças e a carícia dos cabelos imbuídos de nardo da amiga.
Que significa obter a fé? É adquirir a beleza do viver, descobrir que é belo viver; é belo amar, criar, gerar, pôr a vida nas mãos de quem põe a sua vida nas tuas. É belo pertencer a Cristo e ao Evangelho, porque tudo tem um sentido positivo, tudo se encaminha para a vida e não para a morte, para um desfecho luminoso aqui e na eternidade. Para uma vida boa, bela e venturosa.»

Ermes Ronchi, "Tu és Beleza"

domingo, 14 de outubro de 2012

DEUS DA FRAGILIDADE


«Não quero um Deus que se erga na justiça absoluta, no poder ilimitado, na perfeita inteligência. Seria um Deus que não sente a necessidade de se inclinar numa carícia, quando se eleva um gemido de dor. 
Pelo contrário, o meu Deus é Jesus: que conhece a pressão do medo, a dor da recusa, a paixão do abraço, o calafrio pela carícia dos cabelos embebidos em nardo da mulher pecadora e amorosa.
Um Deus que me concede o direito de ser débil, «cana rachada», frágil como um homem e não hirto como um herói. E não me condena se sou mecha fumegante, mas pega neste meu fio de fumo, presságio de fogo possível, trabalha-o e protege-o, até dele fazer irromper de novo a chama. Não acaba por quebrar a cana rachada que eu sou, mas enfaixa-a como se fosse um coração ferido. Deus da fragilidade.»

Ermes Ronchi,em  «Tu és Beleza»

INDAGAÇÕES SOBRE O CARPINTEIRO

“A árvore é força vertical da natureza, da terra em direcção ao céu. Tem a postura da espécie humana. Por isso o cego que Jesus curou em Bet...