terça-feira, 13 de novembro de 2012

FRANCISCO E CLARA



"Nada há a dizer dela, a não ser que eles se completam como os dois pilares do arco-irís, passando de um ao outro todos os cambiantes de amor, todas as cores do sonho. Nada há a dizer dela senão o seu nome, e o seu nome diz o que ela é, o que ela dá: Clara, Clareira, clarabóia, clarividente, clarão, aclaramento: todos estes nomes estão no seu nome, todas estas luzes vêm dela (...) 

Amam-se do mesmo amor, são feitos para se entenderem, ébrios do mesmo vinho. Ela troca o seu vestido resplandecente por um grosseiro gabão de lã, e ei-los por muitos anos juntos e separados, ele apanhando na armadilha da sua voz as aves do céu, os bichos dos campos e os homens das cidades, ela ajuntando nas malhas de Deus um número cada vez maior de raparigas, cada vez mais bonitas. (...) 

Dois caçadores furtivos. Dois nómadas nas propriedades invisíveis de Deus (...) 

Reunidos pela conversa sem fim das almas, por esse deslumbramento de se ter encontrado o interlocutor privilegiado, aquele e aquela que tudo ouvem, mesmo os silêncios  mesmo o que não se saberia dizer para consigo no silêncio, a irmã, o irmão, sem quem o tempo passado na terra só teria sido tempo - nada mais(...)

Ele morreu antes dela, coisa sem importância, pois o amor, desde o seu advento, desde o seu primeiro frémito, aboliu os velhos decretos do tempo, suprimiu estas distinções do antes e do depois, tendo unicamente mantido o hoje eterno dos vivos, o hoje enamorado do amor.» 

Christian Bobin, em "Um Deus à flor da terra"

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Nada é grave...

"Nada é grave, a não ser perder o amor." [Irmão Roger de Taizé]