terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A MISSÃO DO CRISTÃO

«O mistério do amor de Deus consiste em que os nossos corações ardentes e os nossos ouvidos e olhos receptivos possam descobrir que Aquele que encontrámos na intimidade do nosso ser continue a revelar-se a nós entre os pobres, os doentes, os famintos, os prisioneiros, os refugiados e todas as pessoas que vivem no medo.

Assim percebemos finalmente que a nossa missão não consiste apenas em ir falar do Senhor ressuscitado aos outros, mas também em receber esse testemunho daqueles a quem somos enviados.
Muitas vezes, a missão é vista exclusivamente em termos de dar, mas a verdadeira missão também é receber. Se é verdade que o Espírito de Jesus sopra onde quer, não há ninguém que não possa transmitir esse mesmo Espírito. A longo prazo, a missão só é possível na medida em que for tanto receber como dar, tanto ser amado como amar. Nós somos enviados aos doentes, aos moribundos, aos deficientes, aos prisioneiros e aos refugiados para lhes levar a boa nova da ressurreição do Senhor.
Em breve, porém, ficaremos queimados, se não conseguirmos receber o Espírito do Senhor daqueles a quem somos enviados.

Esse Espírito, o Espírito de amor, está escondido na sua pobreza, fragilidade e dor. Foi por isso que Jesus disse: «Bem aventurados os pobres, os perseguidos, os que choram.» De cada vez que lhes estendermos a mão, eles, por sua vez – quer tenham consciência disso quer não – abençoar-nos-ão com o Espírito de Jesus, tornando-se assim nossos ministros.

Sem esta troca mútua de dar e receber, missão e ministério tornam-se facilmente manipuladores ou violentos. Quando só um é que dá e o outro recebe, quem dá, em breve, torna-se opressor e quem recebe torna-se vítima. No entanto, quando o que dá recebe e o que recebe dá, o círculo de amor, iniciado na comunidade dos discípulos, pode crescer até abarcar o mundo.»

(Henri Nouwen, em “Não nos ardia o coração?”)

domingo, 13 de dezembro de 2009

VIVER E PENSAR COMO JESUS


«Quando os olhos de Jesus observavam as ruas e ladeiras, ele sentia compaixão porque as pessoas estavam desorientadas. Ele lamentou por Jerusalém. Suas palavras não vinham carregadas de repreensão e humilhação, castigo e moralismo, acusação e condenação, ridicularização e depreciação, ameaça e chantagem, avaliação e rotulagem.
Sua mente era constantemente habitada pelo perdão de Deus. Ele tomou a iniciativa de procurar os pecadores e justificou sua incrível facilidade e familiaridade com eles por meio de parábolas de misericórdia divina. (...)

Ele era impiedoso somente com aqueles que mostravam desprezo pela dignidade humana, e não tinha compaixão dos que punham intoleráveis fardos nas costas de outros, eles próprios se recusando a carregá-los. Jesus desmascarou as ilusões e boas intenções superficiais dos fariseus pelo que eles eram, chamando-os hipócritas: "Raça de víboras" (Mt 12:34). Ele não compactuava com os que não mostravam misericórdia ou compaixão.
Viver e pensar como Jesus é descobrir a sinceridade, a bondade e a verdade muitas vezes ocultas por trás do grosso e áspero exterior de nossos semelhantes. É ver nos outros o bem que eles próprios não vêem e afirmá-lo em face de poderosas evidências em contrário. (...)

Brennan Manning, em "Convite à loucura"

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

DEUS É AMOR


«Ao escolher a pobreza, a humildade, a fraqueza e a dor, Deus não Se apropriou de qualidades que não possuía para Se tornar mais atraente!
Procurou valores humanos que, de algum modo, correspondessem a valores divinos.

Quando Ele se define Amor e se declara vulnerável não está a qualificar assim a Sua natureza humana mas a revelar algo da Sua natureza divina.»

Louis Evely, em "Sofrimento"

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

VIVER PELA GRAÇA DIVINA


«O que resta de autêntico na minha vida?» é a pergunta que de vez em quando ouço, depois de a pessoa ter feito uma lista dos seus motivos escondidos, descobertos em situações e acções em que fora particularmente fiel...

O que sobre de autêntico na nossa vida é o que vem de Deus e não de nós mesmos; da sua graça e não dos nossos próprios méritos.»

Paul Tournier, em "Culpa e Graça"

domingo, 6 de dezembro de 2009

VISLUMBRES DA GRAÇA DIVINA


«A graça não pode ser armazenada; nós só temos vislumbres dela...

Mas esses momentos têm sabor suficiente para nos fazer entrever o verdadeiro relacionamento humano e nos fazer desejá-lo ardentemente.» Paul Tournier, em "Culpa e Graça"

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O «OURO» OU OS «LADRÕES»?

Um antigo mestre cristão disse uma vez ao seu discípulo: «Estás carregado de ouro; cuidado com os ladrões». Nós, da mesma forma que esse discípulo, também estamos carregados de ouro porque temos Jesus.
Mas devemos estar alerta; ter cuidado com os ladrões porque estão sempre à espreita.
Podemos encontrá-los dentro da sociedade que nos quer arrastar para um estilo de vida em muitas ocasiões não muito próximo do Evangelho. Mas também os podemos encontrar dentro de nós mesmos. E têm nomes: preguiça, passividade, egoísmo, falta de relação com Deus...
Nós estamos carregados de ouro porque Jesus é o nosso grande tesouro.
Mas, embora queira habitar em todos os corações, embora se dê gratuitamente, temos de ter os meios para O reconhecer, O experimentar e viver.

Quem não se preocupa com a sua vida, jamais estará próximo de Deus, apesar de Deus estar perto d`Ele. Quem não se preocupa com a sua vida, começará a perder este enorme tesouro que é Jesus. Quem não se preocupa com a sua vida, deixará de ter medo aos ladrões, porque deixará de estar carregado de ouro. Quem não se preocupa com a sua vida perderá o melhor que tem: ele mesmo.

Na nossa vida estão presentes o «ouro» e os «ladrões». Por qual dos dois queremos apostar?»

Pedro Muñoz Peñas, em "Orar com Deus"

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

UM DEUS VIVO

«Tomemos cuidado para não despojar Deus da sua humanidade, sob o pretexto de libertarmo-nos de um antromorfismo ingénuo, pois então não teríamos mais que um Deus glacial, remoto, imutável, na eternidade, estranho à vida, estranho à hsitória, estranho à nossa própria vida, um Deus de filósofos e não o Deus vivo da Bíblia. Um Deus sem sentimentos seria, se ouso dizer, um Deus sem alma, morto, mais morto ainda que o deus de Nietzsche.

O Deus da Bíblia é o Deus que entra na história, que age, fala e combate. Ele trava uma dura luta com o homem, para arrancá-lo de sua desgraça, oferecendo-lhe sua salvação final.
A Bíblia descreve a relação entre Deus e o homem como um combate, um conflito, onde Deus age tanto mais forte quanto mais o homem se endurece, para arrancá-lo deste endurecimento nefasto.»

Paul Tournier, em "Culpa e Graça"

domingo, 29 de novembro de 2009

SÓ EXISTE UM INFERNO

«Só existe um inferno e talvez já o tenhas conhecido: é o lugar onde nada se espera, onde não se ama absolutamente ninguém e de ninguém se atende absolutamente nada, onde não se tem confiança em ninguém...
Isto é a tentação. A nossa tentação. De todos. É o pecado infernal que nos assediará até ao fim dos nossos dias: a instalação definitiva no canto (onde nos deixarão em paz, onde acabaremos por não sofrer mais, por não escutar mais nenhum apelo, onde a dilacerante comunicação será, por fim, cortada. Extinta). Isto é Inferno. Ter perdido o gosto de amar - para não sofrer mais.»

Louis Evely, em "Sofrimento"

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O SOFRIMENTO E A VERDADE

«O sofrimento não nos aproxima necessariamente da virtude, mas aproxima-nos sempre da verdade.(...)

«O que, para a maioria das criaturas nem o amor nem a oração nem a poesia nem a arte puderam conseguir, só a morte e o sofrimento serão capazes de o alcançar. Mas talvez ainda venha um dia em que o amor, a arte e a oração exerçam tal poder sobre nós que possamos ser dispensados de sofrer e de morrer.»

Louis Evely, em "Sofrimento"

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O NOSSO PODER SOBRE DEUS

«Amar um ser representa, inevitavelmente, depender dele; dar-lhe poder sobre vós.
Deus amou-nos livremente, Deus deu-nos poder sobre Ele. Deus quis ter necessidade de nós.

A Paixão é a revelação do nosso terrível poder sobre Deus. Ele entregou-se a nós, tivemo-Lo à nossa disposição, fizemos dele o que quisemos.

Na Normandia, lê-se. sobre os pratos, esta frase cruel: "Aquele que menos ama é sempre o mais forte!" É sempre o menos enamorado que obriga o outro a andar, que conserva a cabeça fresca e o domínio da situação. Deus, em relação a nós, será sempre o mais fraco porque nos ama.

Podemos renegar, esquecer Deus;
Deus não pode renegar-nos nem esquecer-nos.
Nós poderemos estar sem Deus; Deus não pode estar sem os homens.
Nós podemos deixar de ser filhos; Ele não pode cessar de ser Pai.

«O homem revoltado contra Deus é o pássaro que, na tempestade, se lança contra a falésia. Mas Deus, na Sua piedade, fez-se carne para que a violência do choque fosse suportada por Ele e não por nós.»

Assim, Deus será sempre o mais fraco contra nós, porque nos ama.»

Louis Evely, em "Sofrimento"

domingo, 22 de novembro de 2009

UMA DESINTEGRAÇÃO ATÓMICA

«Deus é um risco total. Abrir-se a Deus é dar um salto mortal.

O amor descentra e liberta. Mas é preciso começar por mergulhar. Por saltar da cama tépida e confortável. Quem perde a sua vida, salva-a. Mas importa, primeiramente, aceitar «perder». É indispensável passar por este despojamento doloroso.

Passar do egoísmo para o amor é quase tão violento como uma desintegração atómica. Coisa parecida.

O que constitui a integridade do átomo é ele ser um sistema fechado onde os electrões giram, continuamente, em redor do seu núcleo.
Tudo salta, tudo estremece, tudo se anima, quando um electrão, por virtude dum inaudito dinamismo, se desprende desta ronda infernal, se interessa por um centro que não é o seu e ingressa no circuito de um outro.

Quando nos pomos a amar, quer dizer a preferir à nossa vontade a vontade de alguém que não somos nós, opera-se uma reviravolta psicológica da mesma ordem.

Mas é este o preço da vida eterna. Porque a vida eterna é amor.»

Louis Evely, em "Sofrimento"

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A EDUCAÇÃO CRISTÃ

«A educação cristã é, primariamente, educação para a Paternidade de Deus e não para o Sacrifício; para o amor de Deus por nós e não para o nosso amor por Deus; para aquilo que Deus fez por nós e não para o que nós fazemos por Deus.» Louis Evely, em "Sofrimento"

terça-feira, 17 de novembro de 2009

SÓ DEUS SALVA

«A maior parte das pessoas lê a Bíblia como se ela fosse um código moral revestido de autoridade sagrada, um conjunto de prescrições cuja estrita observância deveria nos assegurar uma existência isenta de culpa. Bela utopia, na verdade! Mas como a Bíblia não pode ser obediência em todos os seus detalhes, nasce um desespero, uma angústia neurótica de cometer algum sacrilégio, uma culpa que não encontra solução. (...)

O sentido do Sermão do Monte não será o de uma receita para se libertar da culpa por uma conduta meritória. Muito pelo contrário. É a palavra que abala, que sacode, que convence de morte aquele que não perjurou; de adultério aquele que não o cometeu; de ódio aquele que vangloriou de amor, e de hipocrisia aquele que era conhecido por sua piedade. Como se vê, é totalmente o contrário de um código moral; pode-se muito mais compará-lo com um diálogo socrático sobre a impotência do homem em atender à virtude autêntica e assim se justificar por sua conduta impecável.»

Paul Tournier, em "Culpa e Graça"

domingo, 15 de novembro de 2009

A LINGUAGEM DE DEUS

«Deus fala-nos em todo o tempo. Fala-nos desde sempre na Sua linguagem, nesta severa e simples linguagem da nossa existência quotidiana.
E nós não O ouvimos porque preferíamos que Ele falasse na nossa linguagem, na linguagem da felicidade como nós a sonhamos, através de pobres e estúpidas satisfações de sentimento, de amor-próprio ou de conforto, únicas mensagens que estamos decididos a reconhecer como suas.

Mas Deus fala-nos na Sua linguagem, com perseverança. Deus fala-nos nessa língua, para nós desconhecida e que temos repugnância em aprender, da aceitação, do sacrifício, da renúncia, do plano prodigiosamente vasto, inimaginavelmente audacioso, duma generosidade inconcebível, pelo qual Ele nos quer salvar, a nós e o mundo.

Deus fala-nos sem cessar através dos acontecimentos da nossa vida, através da obstinação com que Ele contraria os nossos mesquinhos arranjos humanos, pela regularidade com que decepciona os nossos projectos e as nossas tentativas de evasão, pelo fracasso perpétuo de todos os nossos cálculos para nos dispensarmos d`Ele.
E pouco a pouco, Ele nos educa e nos familiariza. E um dia, quando estamos cravados numa cama, humilhados por um fracasso, isolados por uma desgraça, esmagados pela sensação da nossa impotência; um dia, Ele consegue resignar-nos a escutar a Sua linguagem, a admitir a Sua presença e a reconhecer a Sua Vontade.

E percebemos então que Ele nos falava a toda a hora.»

Louis Evely, em "Sofrimento"

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

TRANSFORMADOS EM AMOR

«Não podemos crer que Deus nos ama, sem acreditar que tal amor nos confere um valor. (...)

O amor de Deus não nos impele somente a fazer o que não teríamos feito mas permite-nos vir a ser o que não seríamos: um ser infinitamente mais aberto, mais ágil, mais abandonado, mais alegre, mais irradiante, mais calmo do que aquele que teríamos forjado e cuja desoladora imagem nos obstinamos, em conservar. Um ser mais amável, em suma.

«Simão, tenho uma coisa a dizer-te... Aquele a quem se perdoa pouco, ama pouco. Aquele a quem se perdoa muito, muito ama».

Só Deus sabe amar. E somente os que sabem ser assim amados, perdoados são capazes de por sua vez amar. Aquele que ama nasceu de Deus (I João 4, 7). E conhece Deus. Só aqueles que responderam a este amor, retribuindo-o, comunicando-o, serão convidados a entrar mais profundamente nele.
«As minhas ovelhas conhecem a minha voz. E seguem-me». Não descansarão enquanto não fizerem pelos outros o que Deus fez por eles. Este novo ser que Deus neles acordou, aquele rosto que lhes apresentou e no qual puderam finalmente reconhecer-se e aceitar-se, irão eles agora, com igual amor e a mesma paciência, ajudar os outros a descobri-lo em si. Vão auxiliar outros a descobrirem-se capazes daquela fidelidade, daquela gratidão, daquela ternura cuja revelação receberam.

Porque o mandamento de Jesus não é: Amai-vos uns aos outros, mas: Amai-vos uns aos outros como eu vos amei (Jo 15, 12).

Louis Evely, em "Tu és esse homem"

INDAGAÇÕES SOBRE O CARPINTEIRO

“A árvore é força vertical da natureza, da terra em direcção ao céu. Tem a postura da espécie humana. Por isso o cego que Jesus curou em Bet...