quinta-feira, 8 de julho de 2010

DENTRO DE NÓS

"Há dentro de nós uma espécie de horror ao vazio, que só o amor e Deus afinal podem preencher. Mas, desgraçadamente, tantas vezes fugimos de Deus e tentamos encher esse vazio. Enganamo-nos, enchemo-nos de coisas, de ruído, de vistas, de programas uns atrás dos outros, de compras. Enchemos os sentidos, enchemo-nos de sensações e perdemos o essencial.

Há uma realidade muito importante que nos pode salvar do vazio e do desespero, é a comunicação com Deus, a oração. É a oração que temos de recuperar, é uma tragédia que as pessoas ao menos não o tentem. Havendo tantos testemunhos de que a oração é o estar ligado por dentro e que nos salva, como é que há tantas pessoas que insistem em não tentar, em orgulhosamente afirmar não precisarem disso? Quando afinal andam a precisar absolutamente do encontro com o transcendente!"

Vasco Pinto de Magalhães em, "Onde há crise, há esperança"

terça-feira, 6 de julho de 2010

DEIXAR-SE AMAR

«O amor gratuito não espera dividendos nas suas actuações e investe o seu capital sem juros...

Qual será o prémio de quem corresponde ao amor gratuito de Deus senão a de ser amado por Ele e a de compartilhar com Ele a vida eterna que Ele dá como herança, de forma condicionada no presente (o cem vezes mais) e de forma plena no futuro?
Na presença do nosso Deus revelado, ninguém tem o direito de dizer: «não posso rezar porque não sei amar». Precisa, sim, de se deixar amar como a criança e pôr-se na escola do amor.


Henri Caffarel conta uma história passada em Itália em fins do séc. XVIII, num convento em construção na encosta dos Apeninos: o prior do convento chamou o arquitecto e mandou-lhe construir uma cela isolada sem janelas, com frinchas que apenas deixassem entrar alguns raios de sol; nada mais dentro da cela a não ser uma inscrição com estas palavras: «Amo-te exactamente como és».
Nessa cela, ia ser proibido qualquer pensamento ou tema de meditação para além deste: «Deus ama-me infinitamente, ternamente, Deus ama-me exactamente como sou». A cela destinava-se a algum monge que andasse triste ou ansioso a perguntar-se «como é que o Senhor pode amar alguém como eu?». (1)

Quem não sabe amar a Deus entre na cela do monge e deixe-se lá ficar; veja a inscrição na parede e não pense em mais nada. «Deus que te ama gratuitamente, te ensinará a amar». -

Luís Rocha e Melo, em "Se tu soubesses o dom de Deus"

(1) Caffarek, H., L´oraison de pauvreté, p. 6-8

domingo, 4 de julho de 2010

DEUS HÁ-DE SABER OUVIR-TE

«Quatro séculos depois de Cristo, Santo Agostinho escrevia estas palavras que permanecem mais actuais do que nunca:

«Existe uma voz do coração e um idioma do coração. Esta voz interior é a nossa oração quando os nosso lábios se fecham e a nossa alma se abre diante de Deus. Calamo-nos, mas o nosso coração fala; não já aos ouvidos humanos, mas a Deus. Não duvides: Deus há-de saber ouvir-te.»

Irmão Roger de Taizé, em "Em tudo a paz do coração"

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O DIÁRIO DE ETTY HILLESUM (3ª parte)




Mais algumas palavras que nos abrem as portas da profunda e riquíssima vivência interior de Etty Hillesum.

«O que importa é escutar o próprio ritmo dentro de ti e tentar viver segundo esse ritmo. Escutar o que emana de ti. Muito daquilo que fazes é simplesmente imitação ou dever imaginário ou falsas ideias acerca do que uma pessoa dever ser.
A única certeza de como viver e o que fazer só pode provir das fontes que brotam lá no fundo de ti. (...)

E agora eu digo muito humilde e grata, e é a sério, embora eu saiba que mais uma vez hei-de rebelar-me e tornar-me irritável: «Meu Deus, agradeço-te por me teres criado como eu sou. Agradeço-te por às vezes poder estar cheia de vastidão, essa vastidão não é senão o estar repleta de ti. Prometo-te que toda a minha vida há-de ser uma luta para atingir a bela harmonia e também humildade e amor verdadeiro de que me sinto ser capaz nos meus melhores momentos.(...)
Eu uso a oração como um escuro muro protector, na oração retiro-me como se estivesse na cela de um convento e, depois, saio cá para fora, mais «una» e fortalecida e mais completa.
Recolher-me na cela fechada da oração torna-se para mim uma realidade cada vez maior e também uma necessidade. Esta concentação interior ergue muros altos em meu redor, dentro dos quais novamente me reencontro, formo um todo, fora do alcance de todas as dispersões. E consigo imaginar que pode vir uma época em que me encontrarei ajoelhada dias a fio, até finalmente sentir que surgiram muros protectores à minha volta, dentro dos quais não me posso dispersar, nem perder-me, nem arrasar-me.(...)
«Uma pessoa deve arrancar e exterminar muita coisa dentro de si, a fim de criar um espaço amplo e contínuo para os grandes sentimentos e ligações na sua totalidade, sem que eles sejam cruzados por pequenas reacções de um nível mais baixo (...)
Tantos pedacinhos pequenos do próprio eu, que impedem o caminho para áreas mais amplas. Aquele eu restrito, com os seus desejos, somente orientados para a satisfação do altamente limitado eu, há que eliminá-lo e apagá-lo. (...)
Às vezes, é como se dentro de mim existisse uma grande oficina onde se trabalha no duro, se martela, e sei mais lá o quê. E, às vezes, parece-me que sou feita de granito, um pedaço de rocha, e nessa rocha batem constantemente torrentes que a vão furando. Uma gruta de granito que vai sendo cada vez mais escavada e onde são cinzelados contornos e formas. E pode ser que um certo dia as formas fiquem prontas para uso, com contornos nítidos em mim, e que eu só precise reproduzir o que encontro cá dentro.»
Fonte: Diário de Etty Hillesum (1941-1943)
Nota: No Brasil, este livro foi editado com o título: "Uma Vida Interrompida - os Diários de Etty Hillesum" . Podem encontrar o livro aqui

terça-feira, 29 de junho de 2010

O DIÁRIO DE ETTY HILLESUM (continuação)

Acho deveras impressionante a força interior com que Etty enfrentava as dificuldades, o sofrimento, o extermínio iminente. Ela encontrou Deus dentro de si, através do sofrimento, do silêncio e da oração; e fora de si, nos outros, ela procurava um bocadinho de Deus e tentava despertá-Lo.

«Nova certeza: que querem o nosso extermínio. Também isso eu aceito. Sei-o agora. Não vou incomodar outros com os meus medos, não vou ficar amargurada se outras pessoas não entenderem do que se trata, para nós, judeus. Esta certeza não vai ser corroída ou invalidada pela outra. Trabalho e vivo com a mesma convicção e acho a vida prenhe de sentido, cheia de sentido apesar de tudo, embora já não me atreva a dizer uma coisa dessas em grupo.

O viver e o morrer, o sofrimento e a alegria, as bolhas nos meus pés gastos e o jasmim atrás do quintal, as perseguições, as incontáveis violências gratuitas, tudo e tudo em mim é como se fosse uma forte unidade, e eu aceito tudo como uma unidade e começo a entender cada vez melhor, espontaneamente para mim, sem que ainda o consiga explicar a alguém, como é que as coisas são, gostava de viver longamente para no fim, mais tarde, conseguir explicar, e se isso não me for dado, pois bem, nesse caso uma outra pessoa irá fazê-lo e então um outro continuará a viver a minha vida, ali onde a minha foi interrompida, e por isso tenho de viver a minha vida tão bem e tão completa e convincentemente quanto possível até ao meu derradeiro suspiro, para que o que vem a seguir a mim não precise de começar de novo nem tenha as mesmas dificuldades. (...)

«Dentro de mim há um poço muito fundo. E lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalho no poço, e aí Deus está soterrado. Então é preciso desenterrá-lo.
Imagino que há pessoas que rezam com os olhos apontados ao céu. Essas procuram Deus fora de si. Há igualmente pessoas que curvam profundamente a cabeça e a escondem nas maõs, penso que essas procuram Deus dentro de si.
(...)

Gosto imenso das pessoas, porque em cada uma amo um pedaço de ti, meu Deus. E procuro-te por toda a parte nas pessoas e, muitas vezes, acho um bocadinho de ti. E tento desenterrar-te nos corações dos outros, meu Deus.(...)

Procuraste Deus por toda a parte, em cada coração humano que para ti se abriu - e muitos foram - e em toda a parte achaste um pedacinho de Deus. Nunca desistias, eras capaz de ser muitíssimo impaciente em relação a pequenas coisas, mas em relação às grandes eras extremamente paciente, tão infinitamente paciente.(...)

Bom, deixai-me ser um bocadinho da vossa alma. Deixai-me ser a barraca de acolhimento do que de melhor há em vós, que com certeza há-de existir. Não preciso de fazer muita coisa, quero só estar presente. Deixai-me ser simplesmente a alma deste corpo. E em cada uma das pessoas achei por vezes um gesto ou um olhar, que os transcendia em muito, e do qual provavelmente quase não se tinham apercebido. E eu sentia-me a sua guardiã.»

Fonte: Diário de Etty Hillesum (1941-1943)

Nota: No Brasil, este livro foi editado com o título: "Uma Vida Interrompida - os Diários de Etty Hillesum" .

domingo, 27 de junho de 2010

O DIÁRIO DE ETTY HILLESUM




Há algum tempo atrás tive o prazer da leitura de um Diário fascinante, cativante, que nos revela a riqueza interior de uma vida, infelizmente, breve, mas intensa, profunda... É fascinante acompanhar o "trabalho interior" que Etty desenvolve com a ajuda de Deus; a forma como ela O vai descobrindo dentro de si e se abre a um Amor mais puro, abrangente, vasto, universal...

Em pleno ambiente de perseguição e extermínio judeu, a 9 de Março de 1941, quando Esther (Etty) Hillesum, de origem judaica, começou a escrever, no primeiro dos oito cadernos de papel quadriculado, o texto que viria a ser o seu Diário, estava-se longe de pensar que começava aí uma das aventuras literárias e espirituais mais significativas do século. Ela tinha vinte e sete anos de idade e morreria sem ter feito trinta.

A partir de hoje, vou partilhar convosco alguns trechos desse magnífico Diário.

«O sofrimento exigiu sempre o seu lugar e os seus direitos, e tem sinceramente alguma importância a forma que ele toma? O que interessa é o modo como as pessoas o carregam e se uma pessoa lhe sabe dar espaço, continuando porém a aceitar a vida.(...)
Soa quase paradoxal: por causa de excluírem a morte da vida, as pessoas não vivem uma vida completa, e ao acolher a morte dentro da vida, ela fica mais rica e mais ampla... Podem tornar-nos as coisas algo complicadas, podem roubar-nos alguns bens materiais, alguma aparente liberdade de movimentos, mas somos nós que cometemos o maior roubo a nós próprios, roubamo-nos as nossas melhores forças através da nossa mentalidade errada. Através de nos sentirmos perseguidos, humilhados e oprimidos. Através do nosso ódio. Através de fanfarronice que esconde o medo.
Bem, podemos às vezes sentir-nos tristes e abatidos por causa daquilo que nos fazem, isso é humano e compreensível. Porém, o maior roubo que nos é feito somos nós mesmos que o fazemos.
Eu acho a vida bela e sinto-me livre. Os céus dentro de mim são tão vastos como os que estão por cima de mim... Não sinto que esteja nas garras de ninguém, só sinto estar nos braços de Deus - para dizer isto de um modo muito bonito - e, seja aqui à beira desta secretária que me é muitíssimo querida e familiar ou daqui a um mês num quarto despojado no bairro judeu, ou talvez num campo à guarda das SS, acho que irei sentir-me sempre nos braços de Deus. E pode ser que consigam arrasar-me fisicamente, mas mais do que isso não. E talvez caia em desespero e sofra privações que nem nas minhas fantasias mais delirantes eu consiga imaginar.
E contudo tudo isto é muito relativo comparado com a vastidão incomensurável da confiança em Deus e da capacidade de vivência interior

Fonte: Diário de Etty Hillesum 1941-1943


Nota: No Brasil, este livro foi editado com o título: "Uma Vida Interrompida - os Diários de Etty Hillesum" .

quinta-feira, 24 de junho de 2010

VIDA ETERNA

«Se a minha meta é a vida eterna, então essa vida deve ser atingível já agora, onde eu estou, porque a vida eterna é a vida em e com Deus, e Deus está onde eu estou, aqui e agora.
O grande mistério da vida espiritual – a vida em Deus – é que não temos de esperar por ela como algo que acontecerá depois. Jesus diz: «Estai em Mim como Eu estou em vós.»
É a presença activa de Deus no centro do meu viver – o movimento do Espírito de Deus dentro de nós – que nos dá a vida eterna.

Seja como for, o que será a vida depois da morte? Quando vivemos em comunhão com Deus, pertencemos à própria casa de Deus, onde não há mais nenhum «antes» ou «depois». A morte deixa de ser a linha divisória. A morte perde o seu poder sobre aqueles que pertencem a Deus, porque Deus é o Deus dos vivos e não dos mortos. Logo que tenhamos provado a alegria e a paz que vem do facto de sermos abraçados pelo amor de Deus, sabemos que tudo está bem e estará bem. «Não tenhais medo», disse Jesus, «Eu venci as forças da morte… vinde morar comigo e ficai a saber que, onde Eu estou, aí está Deus».
Se a vida eterna é a nossa meta, então não é uma meta longínqua. É uma meta que se pode alcançar no momento presente. Quando o nosso coração compreende esta verdade divina, estamos a viver a vida eterna. »


Henri Nouwen, em “Aqui e Agora”

terça-feira, 22 de junho de 2010

A SALVAÇÃO

«A salvação (...) é o esvaziamento, a desapropriação de nós mesmos!(...)

O Pai só é para o Filho, o Filho só é para o Pai, o Espírito Santo é a energia do amor que faz com que Eles sejam um para o outro. Fizemos da salvação algo que se pode possuir, quase que em sentido físico. Seria uma espécie de «sucesso desportivo ideal», e os santos os únicos que o teriam alcançado. Se considerarmos que o fim da nossa vida, dos nosso esforços, é a nossa salvação pessoal, desconhecemos por completo o projecto de Deus e estamos à margem do espírito de Cristo.(...)

Em pleno Sermão da Montanha, Jesus diz-nos: «Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 48). É preciso que compreendamos bem o que isto quer dizer: «Sede Pai com Ele!» Isto é: «Tende a preocupação permanente de toda a comunidade».

A perfeição do Pai é a de estar todo dado aos seus filhos. Não façamos do amor ao próximo um meio de salvação ou uma condição para a salvação. Seria subordinar os outros a nós próprios, ou seja, seria não os amar. Dar-me aos outros pelo facto do dom de mim mesmo ser condição para a salvação seria precisamente não me dar.
O dom de si mesmo, isto é, o amor do próximo, é constitutivo da salvação. Não é um meio para a salvação, não é uma condição para a salvação. É a própria salvação.

François Varillon, em "Viver o Evangelho"

domingo, 20 de junho de 2010

A PUREZA ABSOLUTA DO AMOR

«Compreendamos que somos pecadores, não em relação a regras de moral, nem mesmo em relação a uma espiritualidade. Somos pecadores em relação à pureza absoluta do amor.

Esta pureza do amor é necessária para que a minha vocação se realize, uma vez que se trata de entrar em Deus e de viver a sua vida. Isso só será possível quando já não houver em mim a mais pequena réstia de egoísmo, e para falar de S. Bernardo, o menor retorno de mim sobre mim; quando já não houver a menor preocupação comigo mesmo e a menor tentação de me olhar ao espelho. Só nesse momento é que posso entrar na glória de Deus, mas não antes.

Estamos a falar da pureza absoluta do amor, isto é, de um amor absolutamente purificado de todo o egoísmo. Não nos enganemos com esta palavra "pureza". Habituámo-nos a chamar pureza apenas ao que diz respeito à carne, à luxúria, ao sexto mandamento. Não é disso que se trata aqui, mas sim de um amor sem mistura de egoísmo.

É em relação a isso que eu sou pecador; por outras palavras, a minha vocação é a pureza absoluta do amor, e tenho de reconhecer que o meu ponto de partida é impuro.
Na glória de Deus, amarei como Deus ama, sem o menor retorno sobre mim mesmo.

François Varillon, em "Viver o Evangelho"

quinta-feira, 17 de junho de 2010

AMA-ME COMO ÉS

«Eu, teu Deus, conheço a tua miséria,
os combates e as tribulações da tua alma,
a fraqueza e as enfermidades do teu corpo;
conheço a tua frouxidão, os teus pecados, as tuas falhas;
mesmo assim, eu te digo:
"Dá-me o teu coração, ama-me como és".Se esperas ser um anjo para te entregares ao amor,
nunca me amarás.
Embora tornes a cair muitas vezes nessas faltas
que desejarias nunca conhecer,
embora sejas indolente na prática da virtude,
não te permito que não ames.
Ama-me como és.
Em cada instante e em qualquer situação em que te encontrares,
no fervor ou na aridez,
na fidelidade ou na infidelidade,
ama-me tal como és.
Quero o amor do teu coração indigente.
Se, para me amares, esperas ser perfeito, nunca me amarás.
Meu filho, deixa-me amar-te, eu quero o teu coração.»

Luís Rocha e Melo S.J. , em "Se tu soubesses o dom de Deus"

terça-feira, 15 de junho de 2010

A PROFUNDIDADE DA LIBERDADE HUMANA

«Consideremos o Discurso da Montanha:

Primeiro ponto: a exigência é radical;
Segundo ponto: sois livres quanto à maneira de viver este radicalismo da exigência.

É esta a razão pela qual muitos homens têm medo da liberdade e reclamam instruções formais que Jesus não dá e se recusa a dar. Jesus mostra simplesmente a profundidade da liberdade do homem.(...)

Poderíamos dizer que não é Ele, Jesus, quem é exigente: somos nós quem o somos sem o sabermos. Somos nós que dissimulamos a nós mesmos as nossas próprias exigências, porque temos medo delas e tememos ter de ser homens, Jesus não faz mais do que nos revelar a nós mesmos. Ele descobre-nos a grandeza da nossa liberdade, arranca as máscaras que nos fabricámos com as nossas mãos, por medo e por egoísmo.

Ele diz-nos: tu vales mais do que pensas, a tua grandeza ultrapassa a consciência que tens dela. Vive de acordo com essa grandeza; quanta mais experiência fizeres dessa vida, mais darás conta de que és grande e de que essa grandeza é uma exigência. Descobrirás até onde pode conduzir-te a tua liberdade se recusares as máscaras.

A Lei nova, o cristianismo, não pode ser uma lista de instruções. Trata-se, com a ajuda de exemplos típicos, da revelação dos horizontes sem limites da grandeza humana. (...) É uma grandeza sem limites vivida na existência mais humilde e mais quotidiana. Horizonte sem limites no coração dos horizontes mais familiares: o lar, a vizinhança, o bairro, a profissão...
Jesus diz-nos tudo de que o homem é capaz na vida mais simples, com a condição de que seja o filho dum Deus que é Pai."

François Varillon, em "Alegria de Crer e Viver"

domingo, 13 de junho de 2010

SEGUE O CAMINHO DA HUMILDADE

«É na humildade que se encontra a maior liberdade.(...)

É só quando deixamos de prestar atenção aos nossos feitos, à nossa fama e à nossa superioridade, que estamos finalmente livres para servir Deus perfeitamente e por Ele só.

A pessoa que não está despojada, pobre e despida no íntimo da sua alma tenderá insconscientemente a realizar em seu proveito as obras que tem a fazer, mais do que para a glória de Deus. Será virtuosa não porque ame a vontade de Deus, mas porque deseja admirar as suas virtudes pessoais. Mas cada momento do dia irá trazer-lhe alguma frustração que a tornará ríspida e impaciente, e será descoberta na sua impaciência.

Planeou executar actos espectaculares. Não pode imaginar-se sem uma auréola. E, quando os acontecimentos da sua vida diária lhe vão recordando a sua insignificância e mediocridade, fica envergonhado e o orgulho impede-o de engolir uma verdade que não surpreenderia qualquer pessoa sensata.»

Thomas Merton, em "Novas sementes de contemplação"

terça-feira, 8 de junho de 2010

COM OS OUTROS

Uma das descobertas que fazemos na oração é que, quanto mais nos aproximamos de Deus, mais perto ficamos de todos os nossos irmãos e irmãs da família humana.
Deus não é um Deus privado. O Deus que mora no nosso santuário íntimo é também o Deus que mora no santuário íntimo de cada ser humano. Reconhecendo a presença de Deus no nosso próprio coração, podemos também reconhecer essa presença no coração dos outros, porque o Deus que nos escolheu a nós como lugar de habitação também nos dá a capacidade de ver o Deus que habita nos outros.
Se virmos só demónios dentro de nós mesmos, também só veremos demónios nos outros. Mas, quando vemos Deus dentro de nós, também podemos ver Deus nos outros.
Tudo isto poderá parecer sobremaneira teórico, mas, se orarmos, experimentaremos cada vez mais que somos parte da família humana, infinitamente atraída por Deus que a todos nos criou para partilhar da sua luz divina.

Com frequência, perguntamo-nos o que é que podemos fazer pelos outros, especialmente por aqueles que mais necessidades sentem. Não é nenhum sinal de fraqueza dizermos: «Devemos rezar uns pelos outros.»
Rezar uns pelos outros é, antes de mais, reconhecer, na presença de Deus, que pertencemos uns aos outros como filhos do mesmo Deus. Sem este reconhecimento de solidariedade humana, o que fizermos uns pelos outros não nascerá do que realmente somos.Somos irmãos e irmãs, e não competidores ou rivais. Somos filhos de Deus, não seguidores de diferentes deuses.

Orar, isto é, escutar a voz daquele que nos trata como «muito amados», é aprender que essa voz não exclui ninguém. Onde eu moro, Deus mora comigo e onde Deus mora comigo encontro todos os meus irmãos e irmãs. E assim, a intimidade com Deus e a solidariedade com toda a gente são dois aspectos inseparáveis do mesmo viver, no momento presente.

Henri Nouwen, em "Aqui e Agora"

domingo, 6 de junho de 2010

O PESO DO JULGAMENTO

Imaginemos que não temos nenhuma necessidade de julgar ninguém. Imaginemos que não temos nenhuma vontade de decidir se alguém é boa ou má pessoa. Imaginemos que somos completamente livres de sentir e ajuizar sobre o tipo de comportamento, seja de quem for. Imaginemos-nos com a capacidade para dizer: «Não vou julgar ninguém!»

Imaginemos - não seria isto uma autêntica liberdade interior? Os Padres do deserto do século IV diziam: «Julgar os outros é um fardo pesado.» Eu tive alguns momentos na vida em que me senti livre da necessidade de fazer qualquer juízo de valor acerca dos outros. Senti que me tinha sido tirado um peso dos ombros. Nesses momentos, experimentei um amor imenso por todos os que encontrei, por todos aqueles de quem ouvi algumas coisas e, sobretudo, por aqueles dos quais li algumas coisas. Uma solidariedade profunda com todos os povos e um profundo desejo de os amar desceram as paredes do meu íntimo e tornaram o meu coração grande como o universo.

Um desses momentos ocorreu depois duma passagem de sete meses por um mosteiro de Trapistas. Vivia tão inundado da bondade de Deus que via essa bondade onde quer que fosse, mesmo atrás das fachadas de violência, destruição e crime. Tive que me coibir de abraçar as mulheres e homens que me venderam géneros alimentícios, flores e um fato novo. É que todos me pareciam santos!

Todos podemos desfrutar destes momentos se estivermos atentos ao movimento do Espírito de Deus dentro de nós. São como amostras do céu, de beleza e de paz. É fácil descartar estes momentos como produto dos nosso sonhos ou da nossa imaginação poética. Mas, quando optamos por pedi-los como uma forma de Deus nos dar umas pancadinhas no ombro e de nos mostrar a verdade mais profunda da existência, gradualmente somos capazes de ultrapassar a necessidade de julgar os outros e a inclinação para ajuizar acerca de tudo e de todos. Então poderemos crescer rumo a uma verdadeira liberdade interior e a uma verdadeira santidade.

Mas, só poderemos pôr de lado o fardo pesado de julgar os outros quando não nos importamos de suportar o ligeiro peso de ser julgados!»

Henri Nouwen, em "Aqui e Agora"

quinta-feira, 3 de junho de 2010

SER CRISTÃO

«É necessário dizê-lo e repeti-lo: ser cristão não é ser fiel às leis, mas antes de mais é ser fiel a Jesus Cristo. Ora, esta fidelidade quase nunca se inscreve na rigidez das regras, mas antes, passo a passo, numa humilde procura dos desejos do Pai na caminhada diária. »

Michel Quoist, em "Deus, sentido único"

INDAGAÇÕES SOBRE O CARPINTEIRO

“A árvore é força vertical da natureza, da terra em direcção ao céu. Tem a postura da espécie humana. Por isso o cego que Jesus curou em Bet...