sábado, 12 de agosto de 2017

A beleza que salva o mundo

"...Porque o amor, mesmo que em silêncio, está sempre germinando as primaveras. 
Amar é a beleza que salva o mundo." 

[Lucas Lujan]

domingo, 6 de agosto de 2017

Aquele que espera...



"Aquele que espera é como uma árvore com os seus dois pássaros:
solidão e silêncio. 
Ele não controla as suas expectativas. 
Ele move-se ao sabor do vento, 
dócil ao que se aproxima, 
sorrindo ao que se afasta.
Enquanto espera, o início é como o fim, 
a flor é como o fruto, 
o tempo como o eterno."

Christian Bobin

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Não há maior riqueza


«Não há maior riqueza que possamos receber do que termos aprendido a dar-nos...» 

Rui Santiago Cssr

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Aceitação

«No nosso mundo muitos corações recusam, fecham-se, são feridos, congelam. Quanto mais um coração está aberto, mais ele aceita, e mais feliz está. Devíamos escrever a palavra "Aceitação" em letras de ouro no coração. 

Ao fechar-se, o coração petrifica-se. Ao abrir-se, torna-se êxtase. Entre estes dois movimentos, ele tem ímpetos de afeto, até mesmo de adoração, expressões de ternura... Ele é volátil e inconstante, ele abre-se, e ele tem medo da ferida, ele não cessa de ir e vir como um caracol entre a sua casca dura e o seu corpo vulnerável oferecido ao ar nu.»

Christian Bobin

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Céu

«Dizer “no Céu” não é dar o nome a um “lugar” onde está a Recompensa. É dizer o cuidado, o carinho, o amor daquele que me fala e me promete tudo isto, “do Céu”, ou seja, das próprias mãos e Coração de Deus!»

Rui Santiago Cssr

sexta-feira, 14 de julho de 2017

domingo, 9 de julho de 2017

Um Livro de ar

«Os livros de hoje são de papel. Os livros de outrora eram de pele. A Bíblia é o único livro de ar - um dilúvio de tinta e de vento. Um livro insensato, desvairado no seu sentido, tão perdido nas suas páginas como o vento nos parques dos supermercados, nos cabelos das mulheres, nos olhos das crianças. Um livro impossível de ter entre duas mãos tranquilas, para uma leitura serena, longínqua: pôr-se-ia imediatamente em voo, espalharia a areia das suas frases entre os dedos. [...]

Não se aprendem palavras num livro de ar. Recebe-se, de tempos a tempos, a sua frescura. Estremecemos ao sopro de uma palavra: amava-te muito antes de nasceres. Amar-te-ei, muito para lá do fim dos tempos. Amo-te em todas as eternidades. »

Christian Bobin, in "Francisco e o Pequenino"

domingo, 2 de julho de 2017

O Amor me acolheu


O Amor me acolheu, mas minha alma retrocedeu,
culpada de pó e de pecado.
Mas, clarividente, o Amor, vendo-me hesitar
desde o momento em que entrei,
aproximou-se de mim, com doçura, perguntando-me
se precisava de alguma coisa.
“Um convidado” – respondi- “digno de estar aqui”.
O Amor disse: “Tu serás o convidado”.
“Eu? mau, ingrato? Ah! meu amado,
não posso olhar para ti”.
O Amor pegou-me pela mão e, sorrindo, respondeu-me:
“Quem fez esses olhos, senão eu?”.
“É verdade, Senhor, mas eu os manchei;
que a minha vergonha me leve onde mereço”.
“E não sabes” - perguntou o Amor - “Quem tomou todas as culpas sobre si?”.
“Meu Amado, então servirei”.
“Senta-te”, disse o Amor, “e disfruta destes manjares”.
Então sentei-me e comi.

George Hebert (Séc. XVII)

domingo, 25 de junho de 2017


«Cristo é um sol coberto pelas nuvens das nossas ambições e pré-ocupações.»

[Christian Bobin]

terça-feira, 20 de junho de 2017

quinta-feira, 15 de junho de 2017

O coração de quem amamos


"Não habitamos regiões. 
Nem sequer habitamos a terra. 
O coração de quem amamos é a nossa verdadeira morada."

[Christian Bobin]

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Milagres


«Nós passamos cegos pelos milagres, sem ver que a menor explosão de uma flor é feita de milhares de galáxias, que os galhos de um ninho abandonado ou as estrelas de um céu nocturno falam da mesma ausência adorável.»

[Christian Bobin]

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Tesouros vivos



“Eles respondem ao teu aperto de mão, sorrindo fragilmente: mesmo no inferno a vida pode ressurgir por um segundo, vinda não sabemos de onde, intacta. Basta um pequeno gesto. […] Estas pessoas cuja alma e a carne são feridos têm uma grandeza que jamais terão aqueles que carregam as suas vidas em triunfo. É através dos olhos que eles dizem as coisas, e aquilo que eu li, ilumina-me melhor que os livros.” [Christian Bobin, in “La Présence pure"]

«O mundo está inundado de santos, quero dizer de mártires, porque não distingo estas duas palavras. Multiplicam-se, cada dia são mais numerosos. Chamam-lhes doentes de Alzheimer.

Devemos vê-los como tesouros vivos. Com frequência preguntam-me o caminho, perdidos num mundo mediocremente iluminado por tristes divertimentos. Buscam com mãos trémulas a mão de um anjo, porque sabem que os anjos existem. Ás vezes falam com os seus mortos. Eles que se esquecem de tudo, não se esquecem daqueles que os deslumbraram no passado. 

O meu pai viveu um ano numa dessas casas que deveriam fazer parte do património da humanidade. O seu rosto jamais se desvaneceu. Não acredito no que me dizem: ”Eles não nos reconhecem mais”. Reconhecer é amar, e amar é selvagem, indizível. Quando o meu pai já não sabia nada sobre mim, ainda sabia que eu estava presente, eu sentia-o, pude comprovar isso, e o que comprovas é maior que tudo aquilo que a ciência nos diz. Quando não se lembrava dos nomes, valia-se de artifícios. Quando lhe perguntava algo sobre mim, respondia: “Tu és aquele que nós não esquecemos” e sobre a minha mãe dizia: ”É a melhor”. Estes seres esquecidos, não esquecem nada do essencial. Isto é o que os distingue de nós. 

Acabaremos todos feitos migalhas. Vagueei pelo campo de batalha, vi almas desfiguradas. Escutei sobretudo o silêncio, um toque de alarme de silêncio. O que vi era sublime, banal e terrível. Os rostos fechados. As palavras ausentes. São cerca de quinze velhos. Trazem-lhes comida num carrinho. As pessoas encontram-se à mesa duas vezes por dia. Não se escolheram. Desde a infância que caminham para este reencontro. Caíram os biombos, os biombos da juventude, da beleza e do lugar adquirido. 

Pobres, pobres chamas trémulas, estrelas balbuciantes. O que têm estas pessoas de adorável, é que estão vivos apesar de tudo, apesar delas, e os mais devastados são os mais resplandecentes. Eu tenho visto um tesouro no nada, rostos que são joias atiradas à lama. Acabaremos todos feitos migalhas, mas essas migalhas são de ouro, e um anjo, quando chegar a hora, trabalhará com elas e fará um pão novo.»

Extratos do livro "L’Homme-joie" de Christian Bobin


Nota: Os trechos citados no início desta postagem são do livro "La Présence pure", no qual Christian Bobin conta a experiência de acompanhamento do seu pai doente de Alzheimer. A tradução dos trechos dos dois livros citados é da minha autoria, com base numa tradução em espanhol, e também do original em francês. Não sou tradutor, pelo que a tradução certamente terá as suas imperfeições. Contudo, estou certo que dei o meu melhor para poder cumprir o desejo de dar a conhecer este delicado e sublime testemunho de um escritor que admiro profundamente e que, lamentavelmente, é pouco (re)conhecido em Portugal, tendo apenas dois livros traduzidos em português. 

Texto em espanhol com extratos do livro "L'Homme-joie":

sexta-feira, 26 de maio de 2017

O campo das mullheres, o riso de Deus


«Os homens têm medo das mulheres. É um medo que lhes vem de tão longe como a vida. É um medo do primeiro dia, que não é apenas do corpo, do rosto e do coração da mulher, mas que é também medo da vida e medo de Deus. Porque estas três realidades aproximam-se: a mulher, a vida e Deus. Que é uma mulher? Ninguém sabe responder a esta pergunta, nem mesmo Deus que, no entanto, as conhece por ter sido gerado por elas, alimentado por elas, velado e consolado por elas. As mulheres não são Deus. As mulheres não são completamente Deus. Pouco lhes falta para o ser. Falta-lhes muito menos que ao homem.

As mulheres são a vida, na medida em que a vida está mais próxima do riso de Deus. As mulheres têm a custódia da vida, durante a ausência de Deus, têm a seu cargo o sentimento límpido da vida efémera, a sensação de base da vida eterna. E os homens, não podendo superar o seu medo das mulheres, crendo superá-las em seduções, guerras ou trabalhos, mas jamais as ultrapassando realmente, os homens, tendo um medo eterno das mulheres, condenam-se eternamente a não conhecer quase nada delas, a não saber quase nada da vida e de Deus. Porque são os homens a fazer as igrejas, é inevitável que as igrejas desconfiem das mulheres, como, aliás, desconfiam de Deus, procurando domesticá-las a elas e domesticá-lo a Ele, procurando conter a vida plena no leito muito ponderado dos preceitos e dos ritos. [...]

É sempre possível ao homem juntar-se ao campo das mulheres, ao riso do Deus. Basta um movimento, um simples movimento igual ao que fazem as crianças quando se atiram para a frente, com todas as forças, sem medo de cair ou morrer, esquecendo o peso do mundo. Um homem que sai de si mesmo, do seu medo, ignorando este peso do passado, tal homem torna-se como aquele que já não ocupa um posto, que já não acredita nas fatalidades ditadas pelo sexo, nas hierarquias impostas pela lei ou pelo costume: uma criança ou um santo, na proximidade risonha de Deus - e das mulheres.

Ninguém mais que Cristo voltou o seu rosto para as mulheres, como se volta o olhar para as folhas de uma árvore, como nos debruçamos sobre a água de um rio, a fim de daí extrair força e gosto para prosseguir o caminho.

As mulheres, na Bíblia, são quase tão numerosas como os pássaros. Estão lá, no início, e estão lá, no fim. Elas dão Deus à luz, vêem-no crescer, brincar e morrer; depois, ressuscitam-no com os gestos simples do amor louco, os mesmos gestos desde o começo do mundo, nas cavernas da pré-história, como nos quartos super-aquecidos das maternidades.»

Christian Bobin, in "Francisco e o Pequenino"

domingo, 21 de maio de 2017

Clara e Francisco


"Nada há a dizer dela, a não ser que se completam como os dois pilares do arco-íris, todos os cambiantes de amor passando de um para o outro, todas as cores do sonho. Nada há a dizer dela a não ser o seu nome, e o seu nome diz o que ela é, o que ela dá: Clara, Clareira, clarabóia, clarividente, clarão, esclarecida: todos estes nomes estão no seu nome, todas estas luzes vêm dela, rapariga de dezasseis anos, que os pais querem dar em casamento, rapariga como as que encontramos nas antigas canções francesas, pássaro rebelde ao canto que lhe querem ensinar, pardal que gosta mais de saltitar nos caminhos batidos pela chuva do que refugiar-se debaixo das sombras duma única árvore – mesmo que fosse de alta linhagem. Que queres fazer mais tarde – pergunta-se à criança que não sabe o que quer dizer «mais tarde», que conhece apenas o presente e, no presente, a maravilhosa presença de tudo. […]
Como nas velhas canções, a rapariga vai-se embora, de noite, da casa de seus pais, passa por uma porta secreta, obstruída por uma grande pilha de lenha, retira as achas, uma a uma, com as suas mãos, raspa-se, na noite estrelada, para aquele que cogitou o rapto, o rei dos corações, o príncipe da fuga, Francisco de Assis. 

Amam com o mesmo amor, são feitos para se entenderem, ébrios do mesmo vinho. Ela troca o seu vestido resplandecente por um grosseiro gabão de lã, e ei-los, durante anos, juntos e separados, ele que apanha, com a armadilha da sua voz, as aves do céu, os animais dos campos e os homens das cidades, ela que abate, nas redes de Deus, donzelas cada vez mais numerosas, cada vez mais belas. 

Dois caçadores furtivos. Dois nómadas sobre as propriedades invisíveis de Deus. […] 

Reunidos no colóquio incessante das suas almas, neste êxtase de terem encontrado o interlocutor privilegiado, aquele e aquela que compreende tudo, mesmo os silêncios, mesmo aquilo que não se saberia dizer a si mesmo no silêncio, a irmã, o irmão, sem quem o tempo passado na terra não teria sido senão tempo - nada mais.

A lenda que diz a verdade – não a que está na morte das provas mas a que está no sangue das almas, a lenda diz que, um dia em que Francisco fazia visita a Clara e às suas irmãs no seu convento, deflagrou um incêndio, notado a várias léguas de distância. As pessoas de Assis que acorreram, a fim de o apagar, não viram qualquer chama, fogo nenhum, somente Francisco de Assis e Clara, à volta duma magra refeição, e uma grande luz entre eles, uma claridade impossível de diminuir. 

Ele morrerá antes dela, mas isso não é importante, uma vez que o amor, desde a sua vinda, desde o seu primeiro frémito, abolira os velhos decretos do tempo, suprimira essas distinções do antes e do depois, conservando unicamente o hoje eterno dos vivos, o hoje enamorado do amor.» 

Christian Bobin, in “Francisco e o Pequenino”

A beleza que salva o mundo

"...Porque o amor, mesmo que em silêncio, está sempre germinando as primaveras.  Amar é a beleza que salva o mundo."  [Lu...