quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Deus ama-me exactamente como sou

Henri Caffarel conta uma história passada em Itália em fins do séc. XVIII, num convento em construção na encosta dos Apeninos: o prior do convento chamou o arquitecto e mandou-lhe construir uma cela isolada sem janelas, com frinchas que apenas deixassem entrar alguns raios de sol; nada mais dentro da cela a não ser uma inscrição com estas palavras: «Amo-te exactamente como és». Nessa cela, ia ser proibido qualquer pensamento ou tema de meditação para além deste: «Deus ama-me infinitamente, ternamente, Deus ama-me exactamente como sou». A cela destinava-se a algum monge que andasse triste ou ansioso a perguntar-se «como é que o Senhor pode amar alguém como eu?».

Quem não sabe amar a Deus entre na cela do monge e deixe-se lá ficar; veja a inscrição na parede e não pense em mais nada. «Deus que te ama gratuitamente, te ensinará a amar.»
Luís Rocha e Melo, in"Se tu soubesses o dom de Deus"

sábado, 17 de setembro de 2016

O teu próximo


«O teu próximo não é aquele que tu fazes entrar no horizonte das tuas atenções, mas próximo és tu quando assumes o cuidado de um homem: não quem tu amas, mas quando tu amas."
Ermes Ronchi

terça-feira, 13 de setembro de 2016

"Jesus é a corporização, em tons de urgência, do amor total!
Deixemos que a bondade brilhe. 

Que a paz se instale. 
Que a justiça floresça.
E que o amor vença.


Não foi por tudo isto que Ele deu a vida?"
Pe. João António - Blog http://theosfera.blogs.sapo.pt/

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Perdoar sem medida

"Senhor, quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mt 18, 21).

Pedro e André não foram à escola. E Pedro só conseguiu contar até sete na tentativa de regulamentar o perdão ao fixar um tecto limite. Pedro fez uma tentativa para dissimular a sua limitação de quantificar a misericórdia e, na maior das boas intenções, tinha medo de “exagerar” e se mostrar generoso e excessivo no perdão, pois, talvez, poderia enfraquecer com isto a sua autoridade.

Pedro ainda não compreendera que o perdão não é um prémio, uma imposição, mas uma estupenda possibilidade; não um peso, mas uma libertação. O perdão é uma inacreditável possibilidade que nos é oferecida de fazer o mesmo gesto misericordioso e sem limites do Pai que anula todas as contas e dívidas.

Temos que aniquilar o perdão regulamentado porque ele é sempre de mão única e um perdão de superioridade: de cima para baixo e, portanto, um perdão sem as entranhas da compaixão.


Pedro só descobriu o perdão quando se tornou um devedor insolvente pela negação que fez de Jesus: “Não conheço este homem!” (Lc 22, 57).

O perdão cristão, como a misericórdia do Pai, não entra em nenhuma medida humana e, por isso, por mais que queiramos, será impossível tomar posse dele e reservá-lo para nós.

Que não sejamos nós a perguntar a Cristo: quantas vezes podemos ser generosos como foste connosco?

Adaptado de: http://matersol.blogspot.pt/2011/09/o-caminho-da-beleza-43-xxiv-domingo-do.html

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

«Fé é dar confiança ao amor (...) 
Fé quer dizer crer no amor, na vida que pode vencer a nossa morte. »

[Paolo Scquizzato, in "O Elogio da Imperfeição"]

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Abraçar Deus


«Abraçar Deus não é abraçar o vento ou abraçar uma ideia. 
Abraçar Deus na terra dói: dói no mínimo a dor do outro em nós.»

terça-feira, 30 de agosto de 2016


"Há barreiras em que é preciso ser pequeno para passar...
Há limites em que é preciso pensar menos para vencer...
Há fronteiras em que é preciso ser muito livre para atravessar...
Há regras diante das quais é preciso amar muito para desobedecer...

E até se ouve, vinda do fim, uma voz que nos segreda que só vivemos uma vez... 
Felizes aqueles em cujo íntimo esta voz se torna uma fonte de Sabedoria."

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

«Quem quiser falar sobre Deus, talvez deva olhar primeiro para o seu próprio coração para ver se este contém amor suficiente ou, pelo menos, um anseio de amor, uma disponibilidade para aprender a amar.»
Tomás Halik, in "Quero que tu sejas"

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A Felicidade de Jesus

"Não é difícil desenhar o perfil de uma pessoa feliz na sociedade do tempo de Jesus. Seria o caso de um homem adulto e de boa saúde, casado com uma mulher honesta e fecunda, com filhos homens e terras ricas, observante da religião e respeitado em seu povoado. O que mais se podia pedir?

Certamente não era este o ideal ao qual Jesus aspirava. Sem esposa nem filhos, sem terras nem bens, percorrendo a Galileia como um ambulante, sua vida não correspondia a nenhum tipo de felicidade convencional. Sua maneira de viver era provocativa. Se era feliz, o era de maneira contracultural, ao revés do estabelecido.

Na verdade, Ele não pensava muito em sua felicidade. Sua vida girava muito mais em torno de um projeto que o entusiasmava e o fazia viver intensamente. Esse projeto se chamava “Reino de Deus”. Parece que só era feliz quando podia fazer felizes os outros. Sentia-se bem devolvendo às pessoas a saúde e a dignidade que lhes foram arrebatadas injustamente.

Não buscava seu próprio interesse, mas vivia criando novas condições de felicidade para todos. Não sabia ser feliz sem incluir os outros. Propunha a todos critérios novos, mais livres e radicais, para construir um mundo mais digno e feliz.

Acreditava num “Deus feliz”, o Deus Criador que olha com amor entranhável todas as suas criaturas, o Deus amigo da vida e não da morte, mais atento ao sofrimento das pessoas do que a seus pecados.

A partir da fé nesse Deus, rompia os esquemas religiosos e sociais. Não pregava “Felizes os justos e piedosos, porque receberão o prêmio de Deus': Não dizia “Felizes os ricos e poderosos, porque contam com a bênção de Deus”. Seu clamor era desconcertante para todos: “Felizes os pobres, porque Deus será sua felicidade”.

O convite de Jesus vem a dizer isto: “Não busqueis a felicidade na satisfação de vossos interesses, nem na prática interessada de vossa religião. Sede felizes trabalhando de maneira fiel e paciente por um mundo mais feliz para todos".

 José Antonio Pagola, in “O Caminho Aberto por Jesus”

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Com olhos novos


«O homem novo vê o mundo com olhos novos. 
O homem renascido na misericórdia de Deus vê o mundo à luz dessa mesma misericórdia». 
[Carlos Maria Antunes]

"Quem olha para o próximo com olhos humanos, reconhece-o, a maior parte das vezes, indigno, abominável, soberbo, fastidioso, inoportuno, perturbado, inquieto, hostil, perseguidor e malfeitor. O coração humano inclina-se a rejeitá-lo, os olhos humanos a desdenhá-lo, a língua humana a difamá-lo, a mente humana a desprezá-lo e, por vezes, as mãos humanas apressam-se a magoá-lo.
Mas quando a alma se reanima na fé e, com os olhos da fé, volta a olhar o próximo, este parece-lhe outro, muito diferente de antes. Descobre-o digno de ser estimado, socorrido, compadecido, amado, como a si mesmo, seja uma pessoa comum, em qualquer estado ou condição em que se encontre, independentemente dos seus modos, aparências e costumes. Embora seja amargo e desolador e a razão humana retrate o próximo tal como é na sua natureza; a razão da fé apresenta-o como ele é em Deus."

Gennaro Maria Sarnelli Cssr (Nápoles, 12 de Setembro de 1702 - Nápoles, 30 de Junho de 1744).

segunda-feira, 20 de junho de 2016

"Qual é o teu tormento?"



«Não é apenas o amor a Deus que tem por substância a atenção. O amor ao próximo, que sabemos ser o mesmo amor, é feito da mesma substância. Os infelizes não precisam de outra coisa neste mundo que de homens capazes de lhes prestarem atenção. A capacidade de prestar atenção a um infeliz é uma coisa muito rara, muito difícil; é quase um milagre, é um milagre. (...)

A plenitude do amor ao próximo é simplesmente ser capaz de lhe perguntar: “Qual é o teu tormento?” É saber que o infeliz existe, não como unidade numa colecção, não como um exemplar da categoria social etiquetada “infelizes”, mas enquanto homem exactamente semelhante a nós, que foi um dia atingido e marcado com uma marca inimitável pela infelicidade. Para isso é suficiente, mas indispensável, saber pousar sobre ele um certo olhar.

Este olhar é em primeiro lugar um olhar atento, em que a alma se esvazia de todo o conteúdo próprio para receber nela mesma o ser que olha tal como ele é, em toda a sua verdade. Disto só é capaz aquele que é capaz de atenção.»


Simone Weil

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O dom da compaixão




«Ter compaixão é algo mais do que ter dó. Ter dó sugere distância, e até uma certa condescendência. Com frequência, eu atuo por dó. Dou algum dinheiro de esmola a algum pedinte numa avenida, mas não olho para ele – olhos nos olhos; não me sento ao seu lado nem falo com ele. Estou demasiado ocupado para prestar realmente atenção à pessoa que me estende a mão. O meu dinheiro substitui a minha atenção pessoal e representa uma desculpa para continuar o meu caminho. 



Ter compaixão significa aproximar-se de quem sofre. Mas só podemos aproximar-nos de uma outra pessoa quando estamos dispostos a tornar-nos vulneráveis. Uma pessoa compassiva diz: “Eu sou teu irmão; eu sou tua irmã; eu sou humano, frágil e mortal; precisamente como tu. Não me escandalizo com as tuas lágrimas nem tenho medo da tua dor. Também eu já chorei”. Só podemos estar com o outro quando o outro deixa de ser “outro” para se tornar como nós. (…)



Quando reflito sobre a minha própria vida, compreendo que os momentos de maior conforto e consolação foram os momentos em que alguém disse: “Eu não posso tirar-te o sofrimento, não posso oferecer uma solução ao teu problema, mas posso prometer-te que não te deixarei  sozinho e estarei ao teu lado tanto tempo e tão bem quanto me for possível”. Há muita angústia e sofrimento na nossa vida, mas que bênção quando não temos que viver a nossa angústia e sofrimento sozinhos! Esse é o dom da compaixão.»

Henri Nouwen, in “Aqui e Agora”

sábado, 11 de junho de 2016

O olhar de Jesus


Imagem: "A negação de Pedro" - Michael D. O'Brien


No evangelho de Lucas( 22; 60-62) lemos a seguinte passagem:

«Mas Pedro disse: Homem, não sei o que dizes.
Imediatamente, enquanto ele ainda falava, o galo cantou e o Senhor, voltando-Se, fixou o olhar em Pedro... E Pedro, saindo, chorou amargamente.»

«Eu tinha um relacionamento bastante bom com o Senhor. Conversava com Ele, pedia-Lhe coisas, louvava-O, agradecia-Lhe. Mas tinha sempre um sentimento ou sensação inesquecível de que Ele queria que eu olhasse bem no fundo dos Seus olhos... E isto eu não queria. Conversava muito, mas desviava os olhos, cada vez que percebia que Ele estava a olhar para mim. Sim, olhava sempre para outro lado. E eu sabia porquê! Tinha medo. Receava encontrar uma acusação nos olhos d´Ele: algum pecado não arrependido. Mas pensava também poder encontrar, naquele olhar, algum pedido: algo que Ele quisesse de mim. 
Um dia, finalmente, juntei toda a minha coragem e olhei! Não havia acusação alguma. Nem exigência ou pedido. Aqueles olhos diziam-me, simplesmente: «Eu amo-te!». Nessa altura eu olhei-os ainda mais no fundo com a persistência de quem procura algo. Nada encontrei, apenas a mensagem de sempre: «Eu amo-te!». Como Pedro, também eu saí... e chorei.»


Anthony de Mello, in "O canto do pássaro"

domingo, 5 de junho de 2016

Um poder infinito de perdão


"O mais profundo que podemos dizer de Deus é que Ele é um poder infinito de perdão" [François Varillon s.j., in "Alegria de Crer e de Viver"]

«Só percebe a necessidade do perdão quem experimenta a força extraordinária do Amor. Quem descobre como Deus esteve sempre a seu lado, como Deus o abraçou quando esteve caído, como Deus o vai conduzindo a uma maior fortaleza, a um maior compromisso de Amor. (...)

Perante as marcas do desamor em nós, os arranhões da ofensa, as ruturas do sofrimento, só o excesso de amor (e o perdão é isso, um excesso de amor) pode restabelecer a unidade da imagem e semelhança de Deus em nós. Só o excesso de Amor permite compreender o perdão. Este perdão imprevisível, este perdão sem condições nem medida, este perdão capaz de nos fazer levantar.»

José Tolentino Mendonça, in "Pai-nosso que estais na terra"

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Deus da fragilidade


«Não quero um Deus que se erga na justiça absoluta, no poder ilimitado, na perfeita inteligência. Seria um Deus que não sente a necessidade de se inclinar numa carícia, quando se eleva um gemido de dor.
Pelo contrário, o meu Deus é Jesus: que conhece a pressão do medo, a dor da recusa, a paixão do abraço, o calafrio pela carícia dos cabelos embebidos em nardo da mulher pecadora e amorosa.

Um Deus que me concede o direito de ser débil, «cana rachada», frágil como um homem e não hirto como um herói. E não me condena se sou mecha fumegante, mas pega neste meu fio de fumo, presságio de fogo possível, trabalha-o e protege-o, até dele fazer irromper de novo a chama. Não acaba por quebrar a cana rachada que eu sou, mas enfaixa-a como se fosse um coração ferido. Deus da fragilidade.»
[Ermes Ronchi, in «Tu és Beleza»]

INDAGAÇÕES SOBRE O CARPINTEIRO

“A árvore é força vertical da natureza, da terra em direcção ao céu. Tem a postura da espécie humana. Por isso o cego que Jesus curou em Bet...