sábado, 26 de maio de 2007

O Regresso do Filho Pródigo II


Confissões de um Sacerdote


Já partilhei alguns trechos do livro de Henri Nouwen - "O Regresso do Filho Pródigo" num post recente. Nessa altura, ainda estava a iniciar a leitura do livro. Agora, que eu estou praticamente no fim, estou plenamente convicto que é um dos melhores livros que li até hoje.

Vou continuar a partilhar alguns trechos desta obra inspirada nas observações/contemplações de um quadro famoso do pintor holandês - Rembrandt.



Na cadeira de Moisés se assentam os escribas e fariseus. Portanto, tudo o que vos disserem, isso fazei e observai; mas não façais conforme as suas obras; porque dizem e não praticam. Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; mas eles mesmos nem com o dedo querem movê-los. Todas as suas obras eles fazem a fim de serem vistos pelos homens; pois alargam os seus filactérios, e aumentam as franjas dos seus mantos; gostam do primeiro lugar nos banquetes, das primeiras cadeiras nas sinagogas, das saudações nas praças, e de serem chamados pelos homens: Rabi. - Mateus 23, 2-7


Os escribas e os fariseus criticavam frequentemente Jesus por se associar com pessoas que eles consideravam pecadoras. Numa dessas ocasiões, em que esses pecadores se reuniram para escutar Jesus, e os escribas e fariseus estavam presentes, Jesus conta uma série de parábolas, entre as quais a do Filho Pródigo, na qual os escribas e fariseus se encontram representados pelo filho mais velho.


Ora, o seu filho mais velho estava no campo; e quando voltava, ao aproximar-se de casa, ouviu a música e as danças; e chegando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo. Respondeu-lhe este: Chegou o teu irmão; e o teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo. Mas ele se indignou e não queria entrar. Saiu então o pai e instava com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: Eis que há tantos anos te sirvo, e nunca transgredi um mandamento teu; contudo nunca me deste um cabrito para eu me regozijar com meus amigos;vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado. Replicou-lhe o pai: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu;era justo, porém, regozijarmo-nos e alegramo-nos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado. - Lucas 15, 25-32


Henri Nouwen escreveu:" Para mim, pessoalmente, é de crucial importância a possível conversão do filho mais velho. Dentro de mim há muito de comum com o grupo frente ao qual Jesus é tão crítico: os fariseus e os escribas. Estudei os livros, conheço as leis, e com frequência apresento-me como tendo autoridade em matéria de religião. As pessoas testemunham-me muito respeito e até me tratam por «reverendo». Tenho tido compensações em cumprimentos e louvores, dinheiro, prémios e aplausos. Fui muito crítico para com alguns comportamentos e emiti muitas vezes juízos contra outros.

Assim, quando Jesus conta a parábola do filho pródigo, devo escutá-la consciente de estar mais próximo daqueles que, ao ouvi-lo, comentavam: «Este acolhe os pecadores e come com eles». Resta-me alguma possibilidade de voltar para o Pai e de me sentir acolhido em sua casa? Ou estou tão enredado nas minhas queixas farisaicas que estou condenado, contra vontade, a ficar fora de casa, revolvendo-me na ira e no ressentimento?

Jesus diz: «Felizes os pobres... felizes os que agora tendes fome... felizes os que agora chorais...»(Lucas 6, 20-21); mas eu não sou pobre, nem tenho fome, nem choro. Jesus diz: «Bendigo-Te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes» (Lucas 10,21). E é precisamente a este grupo - o dos sábios e entendidos - que eu pertenço.

Jesus mostra preferência pelos marginais da sociedade - os pobres, doentes, os pecadores- e eu não sou, por certo, nenhum marginal. A dolorosa pergunta que me ocorre, baseada no Evangelho, é esta: «Terei já recebido a minha recompensa?». Jesus é muito crítico para com os que rezam « de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens» (Mateus 6, 5); e diz acerca deles: «Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa». Considerando tudo quanto escrevi e disse sobre a oração e quão conhecido sou, sinto-me na obrigação de perguntar se estas palavras me são dirigidas.

De facto, estão no Evangelho. Mas a história do filho mais velho lança uma nova luz sobre todas essas perguntas; mostra que Deus não ama o filho mais novo mais do que o mais velho. Na história, o pai sai a receber o filho mais velho como fez ao mais novo, anima-o a entrar e diz-lhe: «Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu».

É a estas palavras que devo prestar atenção, deixando-as penetrar até ao centro de mim mesmo."


Henri Nouwen, O regresso do filho pródigo

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Nada é grave...

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