terça-feira, 30 de março de 2010

PERDER PARA GANHAR

«Acção de graças, trabalho, comunidade. Tudo isto implica uma morte.
A acção de graças é a morte do meu instinto de propriedade.
O trabalho é a morte à minha preguiça.
A comunidade é a morte do meu individualismo.
A morte está absolutamente em tudo. Mas creio que ela é, ao mesmo tempo, ressurreição.
A ressurreição não se dá depois da morte; já está presente na própria morte.
Morrendo ao meu individualismo, à minha preguiça, ao meu instinto de propriedade, passo para Cristo, torno-me mais Cristo, até me tornar totalmente Ele, depois dessa morte que é a morte final.»

François Varillon, em "Viver o Evangelho"

domingo, 28 de março de 2010

MORRER PARA DAR FRUTO

«Na Páscoa fala-se de ressurreição e de novidade.
Mas a ressurreição que Cristo veio revelar
não é voltar a este mundo pesado e conflituoso.
É a certeza de passar para outro, de beleza e paz,
cujas sementes estão já neste.
Só que a semente não vê ainda o fruto.
E tem que morrer para dar fruto.»

Vasco Pinto de Magalhães, em "Não há soluções. Há caminhos"

quinta-feira, 25 de março de 2010

O VERDADEIRO PECADO

É muito importante compreender o que é o pecado.
O pecado não é, em primeiro lugar, transgressão da lei.
É isso mas não em primeiro lugar.
Toda a Sagrada Escritura, e em especial os Evangelhos e as epístolas de São Paulo
dizem-no muito claramente.

Pecar é virar as costas a Jesus, deixar de ter confiança n´Ele,
não acreditar nas suas promessas e na sua palavra,
duvidar da sua aliança
e não continuar a alimentar-se da sua presença.
Pecar é desligarmo-nos da vida de Jesus,
deixar de viver em comunhão com Ele,
recusar o seu corpo e o seu sangue,
rejeitar a sua palavra.

É evidente que se vai então transgredir a lei,
transgredir todas as leis."

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

terça-feira, 23 de março de 2010

TONAR-SE «O AMADO» (2ª PARTE)

«Tornar-se amado significa deixar que a verdade do «ser amado» incarne em tudo o que pensamos, dizemos ou fazemos.

Ora, isso comporta um longo e penoso processo de apropriação ou, melhor ainda, de incarnação. Enquanto o «ser amado» pouco mais for que um belo pensamento ou uma ideia sublime a pairar suspensa na minha vida e que se limita a evitar que eu caia na depressão, nada muda realmente. O que é necessário é tornar-me amado nos lugares comuns da minha existência diária e, pouco a pouco, colmatar o vazio que existe entre o que sei que sou e as inumeráveis realidades específicas da minha vida quotidiana.

Tornar-se «amado» significa aplicar esta mesma realidade, que me é revelado do alto, à ordinariedade do que sou e, por conseguinte, do que penso, digo e faço hora a hora. (...)

Estou totalmente convencido de que a origem e a finalidade da nossa existência tem tudo a ver com a maneira como pensamos, falamos e actuamos na vida de todos os dias.
Se a nossa mais profunda convicção for a de que somos «os amados» e se a nossa maior alegria e paz consistirem em reivindicar essa verdade, a consequência lógica é que isso tem que se tornar visível e palpável na forma como comemos e bebemos, falamos e amamos, nos distraímos e trabalhamos.

Quando as mais profundas correntes da nossa vida já não têm repercussão à superfície das ondas, então a nossa vitalidade acabará eventualmente por se esgotar e nós acabaremos por fraquejar e por nos aborrecermos, mesmo quando estamos ocupados.»

Henri Nouwen, em "Viver é ser amado"

domingo, 21 de março de 2010

TORNAR-SE «O AMADO»

«Caro amigo, o «ser amado» é a origem e a plenitude da vida do Espírito. Digo isto porque, logo que conseguimos algum vislumbre desta verdade, iniciamos uma viagem na procura da sua plenitude e não descansamos senão nessa mesma verdade.
A partir do momento em que assumimos a verdade de que somos «amados», somos logos confrontados com uma chamada interior a tornarmo-nos naquilo que já somos.

Tornar-se «o amado»: é essa a viagem espiritual que temos a fazer.
As palavras de Agostinho: «A minha alma não descansa enquanto não repousar em Ti, ó Deus» caracteriza bem esta viagem.

O facto de estar sempre numa constante procura de Deus, sempre numa tensão contínua para descobrir a plenitude do Amor, sempre com o desejo ardente de chegar à verdade completa, diz-me que já me foi dado saborear alguma coisa de Deus, do Amor e da Verdade.
E, com efeito, de alguma forma, só posso procurar alguma coisa quando já a tiver encontrado. Como poderia procurar a beleza e a verdade a não ser que essa mesma beleza e verdade já fossem conhecidas no mais profundo do meu coração? (...)

Na profundidade dos meandros da mente e do coração está escondido o tesouro que procuramos. Conhecemos o seu valor e sabemos que contém o dom que mais desejamos: uma vida mais forte do que a morte.»

Henri Nouwen, em "Viver é ser amado"

quinta-feira, 18 de março de 2010

AMA E VIVERÁS

Já percebeste que para seres feliz e andares alegre só tens um caminho: amar?

Já entendeste até ao mais íntimo de ti próprio que a felicidade está mais em dar do que em receber?

Já assumiste com Cristo que o «mandamento novo» é que liberta e faz feliz?

Ama e viverás.
Ama e serás feliz.
Ama e serás santo.

Entra nesse mistério de dar sem esperar recompensa,
de amar sem ser amado,
de saíres de ti na entrega total e generosa.
Faz, age, concretiza o amor.

Esquece-te de ti,
não te centres no teu eu,
no teu problema, na tua doença, na tua «tragédia em copo de água».
Abre-te aos outros.
Abre-te ao amor.
Sê homem ou mulher de coração aberto.

Sentirás cansaço, porventura repugnância,
sentirás medo,
sentirás às vezes quase revolta quando os outros
não sentem o teu dom,
não agradecem, não retribuem.
É aí que tu és cristão ou cristã a sério.
Não desanimes.
Só o amor é caminho de santidade, de felicidade.
E não desistas nunca de amar,
mesmo quando não sentes o fruto concreto desse amor.

Que a tua única resposta,
a tua «vingança» seja amar mais, amar melhor,
lançar-te ainda mais a um amor mais forte.

Dário Pedroso, s.j., em "Sinfonias do amor"

terça-feira, 16 de março de 2010

A ARMADILHA DA AUTO-REJEIÇÃO (2ª PARTE)

A auto-rejeição é o pior inimigo da vida espiritual, porque contradiz a voz sagrada que nos chama pelo nome de «amados».
Ser amado exprime a verdade central da nossa existência.
(...)

O que conta realmente é que somos os «amados».
Fomos intimamente amados muito antes de os nossos pais, professores, cônjugues, filhos e amigos nos terem amado ou ofendido. Esta é a verdade da nossa vida. (...)

Sempre que escutares com atenção a voz que te chama «amado», descobrirás no mais íntimo de ti o desejo de tornar a ouvir essa voz ainda por mais tempo e com maior profundidade.
É como descobrir uma fonte de água no deserto: logo que se encontra terra húmida, dá vontade de cavar ainda mais fundo.

Tenho vindo a «escavar» bastante nos últimos tempos e sei que ainda só comecei a ver correr um pequeno riacho que serpenteia pela areia árida. Mas há que continuar a escavar, porque esse pequeno riacho provém dum enorme reservatório sob o deserto da minha vida. A palavra «escavar» talvez não seja a melhor, pois sugere trabalho duro e penoso, mas sei que é uma operação que me leva finalmente ao lugar onde posso matar a sede.

O que é preciso é, talvez, remover a areia árida que cobre a fonte de água. Talvez haja uma quantidade bastante grande de areia árida na nossa vida, mas Aquele que tanto deseja matar-nos a sede, ajudar-nos-á a remover essa areia. O que precisamos é de um grande desejo de encontrar água e de beber.

(Henri Nouwen, em "Viver é ser amado")

domingo, 14 de março de 2010

A ARMADILHA DA AUTO-REJEIÇÃO (1ª PARTE)

Quando todo o povo fora batizado, tendo sido Jesus também batizado, e estando ele a orar, o céu se abriu; e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como uma pomba; e ouviu-se do céu esta voz: «Tu és o meu Filho amado; em ti me comprazo.» (Lucas 3, 21-22)

As palavras «Tu és o meu amado» revelam a mais profunda verdade sobre todos os seres humanos, pertençam ou não a uma determinada tradição particular.

«Tu és o meu amado, em Ti pus a minha complacência».
Claro que não é fácil ouvir essa voz num mundo cheio de vozes que gritam: «Tu não és bom, és feio, não vales nada, és desprezível, não és ninguém... a não ser que consigas demonstrar o contrário».
Estas vozes negativas são tão fortes e persistentes que é fácil acabarmos por acreditar nelas. É essa a grande armadilha. É a armadilha da auto-rejeição.
Com os anos, cheguei à conclusão de que a maior cilada da nossa vida não é o sucesso, a popularidade ou o poder, mas a auto-rejeição.

O sucesso, a popularidade e o poder são, como é evidente, uma grande tentação, mas a sua força de sedução deriva frequentemente da forma como tudo isso faz parte duma maior tentação, que é a auto-rejeição.
Se acreditarmos nestas vozes, que nos tratam como gente que não vale nada e que é indigna de amor, então sim, o sucesso, a popularidade e o poder são facilmente percebidos como solução alternativa e atraente. Mas a verdadeira cilada é a auto-rejeição.»

(Henri Nouwen, em "Viver é ser amado")

quinta-feira, 11 de março de 2010

OS PASSOS DO SENHOR

Oiço os teus passos, Senhor, na praia da minha vida;

No solitário silêncio, no ar do Verão, os planetas e as estrelas do céu

fitam com fixo olhar.

A corrente do pensamento flui gentilmente, gentilmente no meu coração.

Os meus olhos estão vigilantes como passáros sedentos.

Abri os ouvidos

nas profundezas do meu coração.

Em que abençoada manhã desfalecerás no tabernáculo da minha alma?

Esquecerei toda a alegria e toda a dor, mergulhado nas águas da felicidade.

Rabindranath Tagore

terça-feira, 9 de março de 2010

MOBILIDADE DESCENDENTE

«A vida de compaixão é a vida da mobilidade descendente!
Numa sociedade em que a mobilidade ascendente é a norma, a mobilidade descendente não só não é encorajada como inclusivamente é considerada imprudente, pouco saudável, senão mesmo completamente estúpida.
Quem será que escolhe livremente um emprego mal pago quando lhe é oferecido um outro bem pago? Quem será que escolhe a pobreza quando a riqueza está ao seu alcance? Quem será que escolhe um lugar escondido quando há um lugar na ribalta da vida? Quem será que opta por viver por uma única pessoa com graves carências quando poderia ajudar muitos ao mesmo tempo? Quem será que escolhe retirar-se para um lugar de solidão e oração quando há tantas exigências urgentes em toda a parte?

Toda a minha vida, fui encorajado por gente bem intencionada a «subir na escala» e o argumento mais comum era: «Nessa posição, pode fazer tanto bem a tanta gente!»
Mas essas vozes chamando-me à mobilidade ascendente estão completamente ausentes do Evangelho. Jesus diz: «Quem ama a sua vida, perdê-la-á e quem odiar a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna» (João 12, 25). E diz mais: «Se não vos fizerdes como crianças nunca entrareis no reino dos céus» (Mateus 18, 3). E finalmente diz: «Vós sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Ao contrário, quem quiser fazer-se grande entre vós, seja o vosso servo; e quem quiser ser o primeiro no meio de vós, seja vosso escravo. Assim fez o Filho do Homem que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida pelo resgate de muitos» (Mateus 20, 25-28).

Esta é a via da mobilidade descendente, a via descendente de Jesus. É a via que leva aos pobres, aos que sofrem, aos marginalizados, aos prisioneiros, aos refugiados, aos que estão sós, aos esfomeados, aos moribundos, aos torturados, aos sem-tecto - a todos os que pedem compaixão. O que é que eles têm a oferecer em troca? Nem sucesso, nem popularidade, nem poder, mas a alegria e a paz dos filhos de Deus.

Henri Nouwen, Aqui e Agora

domingo, 7 de março de 2010

VIDA ESPIRITUAL

«A vida espiritual é uma vida guiada pelo mesmo Espírito que guiou Jesus Cristo. O Espírito é o sonho de Cristo em nós, o poder divino de Cristo em nós, a fonte misteriosa de nova vitalidade pela qual tomamos consciência de que não somos nós que vivemos, mas é Cristo que vive em nós (cf. Gl 2, 20).

De facto, levar uma vida espiritual significa tornarmo-nos Cristos vivos. Não é suficiente envidar todos os esforços para imitar Cristo; não é suficiente recordar Jesus aos outros; nem sequer sentirmo-nos inspirados pelas palavras e acções de Jesus Cristo.
Não, a vida espiritual apresenta-nos uma exigência muito mais radical: ser Cristos vivos aqui e agora, no tempo e na história. (...)

Pelo Espírito de Cristo e através dele, tornamo-nos Cristos para os outros, vivendo em todos os lugares e em todos os tempos. Pelo Espírito de Cristo e através dele, chegamos a conhecer tudo aquilo que Jesus conhecia, e somos capazes de fazer tudo o que Ele fez.»

Henri Nouwen, em "O esvaziamento de Cristo"

quinta-feira, 4 de março de 2010

PASSAGEM PARA A VIDA DIVINA

«O que é o Mistério Pascal, o Mistério da Morte e Ressurreição do Senhor?

A Páscoa é o centro de tudo.(...) É uma palavra que quer dizer passagem. Passagem para a vida divina. (...) A Páscoa é o centro da vida cristã. Mas a Páscoa é muito mais; é, numa palavra, a própria vida cristã. (...)

Jesus que sobe o Calvário a caminho da morte, na realidade vai a caminho da verdadeira vida, a caminho da liberdade.(...)

Tenho de compreender que cada uma das minhas decisões tem uma estrutura pascal. (...)


A nossa vida é um tecido de decisões; é através das minhas decisões que me construo, que me torno homem e homem livre. As minhas decisões têm uma estrutura pascal, são uma passagem pela morte.(...)
Toda a decisão é uma passagem pela morte, para sair da escravatura a caminho da liberdade. A minha decisão arranca-me à escravatura do meu egoísmo, porque sou sempre escravo do meu egoísmo. As minhas decisões arrancam-me à escravatura e fazem-me entrar no Amor.

Mas o arrancar-me à escravatura é, evidentemente, uma morte. É uma morte parcial, deixar o travesseiro, quando está frio e a névoa é densa, mas é a passagem para a liberdade e para uma liberdade verdadeiramente divina, uma vez que Cristo diviniza o que nós humanizamos.
Toda a decisão deve ser humanizante de certa forma, tornar-me mais homem, tornando os homens e o mundo mais humanos.(...)

O essencial da nossa fé, esta morte parcial, a morte que a minha decisão implica, é uma passagem à vida de Cristo. É uma ressurreição, uma passagem à liberdade, quer dizer, ao triunfo sobre todas as formas de egoísmo. (...)

Portanto, sou transformado, a pouco e pouco, pelo conjunto das decisões que tomo livremente e que fazem morrer a minha escravidão.»

François Varillon, em "Viver o Evangelho"

terça-feira, 2 de março de 2010

DEIXA-TE SER INTEIRAMENTE RECEBIDO

«Dar-te aos outros sem esperar nada em troca só é possível quando fores inteiramente recebido.
Sempre que descobres esperar alguma coisa em troca do que deste ou ficas desiludido quando nada obténs em troca, é um alerta a que compreendas que tu próprio ainda não te sentes inteiramente recebido.
Só quando te reconheces incondicionalmente amado - ou seja, inteiramente recebido por Deus - serás capaz de dar de graça. Dar sem pedir nada em troca é confiar em que as tuas necessidades serão satisfeitas por aquele que te ama incondicionalmente.
É confortável saber que não precisas de proteger a tua própria segurança, mas que te podes entregar completamente ao serviço do próximo.

A fé consiste precisamente em confiar que aquele que dá de graça receberá de graça, mas não necessariamente da pessoa a quem deu. O perigo está em te esgotares no serviço ao próximo, na esperança de que eles te recebam inteiramente. Em breve sentirás que os outros levam consigo partes de ti mesmo.

Não te podes dar aos outros se não pertences a ti mesmo, e só podes possuir-te verdadeiramente quando fores inteiramente recebido num amor incondicional.

Muito do acto de dar e receber possui uma qualidade violenta, porque os que dão e recebem agem mais por necessidade do que por confiança. O que aparenta ser generosidade é realmente manipulação e o que parece amor é realmente um pedido aflitivo de afecto e amparo.

Quando te reconheces como inteiramente amado, serás capaz de dar de acordo com a capacidade alheia de receber, e serás capaz de receber de acordo com a capacidade alheia de dar. Sentir-te-ás grato pelo que te foi dado sem te apegares a isso, e alegre com o que podes dar sem te gabares por isso. Serás uma pessoa livre, livre para amar.»

Henri Nouwen, em " Voz Íntima do Amor"

Nada é grave...

"Nada é grave, a não ser perder o amor." [Irmão Roger de Taizé]