sábado, 13 de julho de 2013

"VENHA A NÓS O VOSSO REINO, LIBERDADE!"

Conheço pessoas que vivem no inferno. Não tenho melhores palavra para dizer isto. Umas que pagam a renda diligentemente, de tal maneira já se habituaram, outras que foram para lá atiradas violentamente e desesperam por sair. Mas de uma ou outra maneira, sofrem muito.

Inferno vem do latim "inferos", o mais inferior, o mais baixo, o sub-humano. No porão da existência é onde o sofrimento mais dói. Nos calabouços da terra da Alegria e da Paz, nos recônditos subterrâneos da Felicidade, a luz entra por nesgas pouco abundantes. E eu há muito que deixei de acreditar naquele inferno do castigo eterno, o tal que andava em boca de pregadores como ameaça divina para levar à conversão. Obrigado Dante pela Divina Comédia, mas não vou por aí. E que me perdoem os Pastorinhos, com as suas visões de crianças atormentadas pela patologia religiosa do tempo. 

O inferno como condenação eterna nunca poderia ser uma escolha de Deus. Triste caricatura... A vida de Deus é que ficaria um inferno se Ele perdesse eternamente algum dos Seus filhos! Deus não ameaça para nos chamar à atenção, o inferno não é um argumento mais nas nossas conversas sobre salvação... a não ser que seja uma paródia, como a de Dante, cheia de seriedade. Porque, sem paródia e lá onde dói, o inferno vive-se mesmo no submundo desta terra, nos porões escuros e húmidos do dia-a-dia de muita gente. 

Outros infernos não me apoquentam nada! Mas o inferno da existência é causa de sofrimento que se espalha. Acredito que é nesses infernos que Jesus continua a entrar, continua a descer, para nos deitar a mão, para salvar, resgatar, libertar. Se Deus existe, o inferno não é para onde pode mandar-nos, sobrevoando lá do alto da sua moral, mas é de onde quer tirar-nos, enterrado até ao pescoço, com o empenho não-desistente do Seu Amor! Porque o inferno é onde Deus sofre por causa dos Seus filhos em sofrimento. E Deus quer ver-se livre do inferno! Deus quer sair do inferno que é sofrer com a dor dos Seus filhos tristes.

Fico surpreendido com a facilidade com que complicamos a vida e nos magoamos uns aos outros por falta de autodomínio e liberdade de coração. E, porque nos levamos tão a sério, cada um considera a sua maleita a maior dor do mundo! E é, claro. É a sua maior. Mas há vezes é terapêutica a visão do destamanho destas coisas. Porque o mundo é ainda tão maior... que quando nos viramos para o lado tocamos no céu com uma mão, junto à cama de um doente terminal a ser mimado com todo o carinho e paz, e tocamos no inferno com a outra, latejando nas lágrimas e nas palavras engasgadas de quem está debaixo dos escombros da sua própria vida.

Rui Santiago - http://derrotarmontanhas.blogspot.pt/2013/07/venha-nos-o-vosso-reino-liberdade.html

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Nada é grave...

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