quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Disciplina na Vida Espiritual



A vida espiritual é um dom. É o dom do Espírito Santo, que nos introduz no reino do amor de Deus.
Mas dizer que ser introduzido no reino de Deus é um dom divino não quer dizer que esperamos
passivamente até que o dom se nos ofereça. Jesus nos fala para buscar o reino. Buscar alguma coisa envolve não somente aspiracão séria mas também determinacão forte. A vida espíritual requer esforço humano.(...)

A vida espiritual sem disciplina é impossível. Disciplina é o outro lado do discipulado. A prática de uma disciplina espiritual nos torna mais sensíveis à voz tranquila e suave de Deus. O profeta Elias não encontrou Deus no vento forte nem no terremoto e nem no fogo, mas no cicio tranquilo (1 Rs 19:11-13).

Através da prática de uma disciplina espiritual tornamo-nos sensíveís a essa voz tranquila e prontos a responder quando a ouvimos.(...)

(...) Muitas vezes tornamo-nos surdos, incapazes de saber quando Deus nos chama, incapazes de entender em que direcção nos chama. Desta forma nossas vidas se tornam um absurdo. Na palavra absurdo encontramos a palavra latina surdus, que significa "surdo". A vida espiritual requer disciplina porque precisamos aprender a ouvir a Deus que constantemente fala, mas a quem raramente ouvimos. Porém, quando aprendemos a ouvir, nossas vidas se tornam vidas obedientes. A palavra obediente vem da palavra latina obaudire, que significa "ouvir". É necessário ter uma disciplina espiritual se quisermos mudar lentamente de uma vida absurda para uma vida obediente, de uma vida cheia de preocupações agitadas para uma vida em que há espaço livre no nosso interior para ouvir o nosso Deus e seguir a sua orientação. A vida de Jesus foi uma vida de obediência. Estava sempre escutando o Pai, sempre atento à sua voz, sempre alerta ás suas direcções.
Jesus era "todo ouvidos". Isto é a verdadeira oração: ser todo ouvido para Deus. O cerne de toda oração é realmente ouvir, permanecer obedientemente na presença de Deus.

Uma disciplina espiritual, portanto, é um esforço concentrado para criar um pouco de espaço interior e exterior nas nossas vidas, onde esta obediência pode ser praticada. Através de uma disciplina espiritual impedimos que o mundo preencha as nossas vidas de tal forma que não haja mais lugar para ouvir. Uma disciplina espiritual nos liberta para orar, ou melhor dizendo, liberta o Espírito de Deus para orar em nós.

Henri Nouwen

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Um Objectivo Claro


Teremos nós um objectivo claro na vida? Para os atletas cujo objectivo é a obtenção da medalha olímpica tudo o resto é secundário. A maneira de comer, dormir, estudar e treinar, tudo é determinado por esse objectivo claro.

Isto é tão verdade na vida espiritual, como o é na vida dos desportistas de competição. Sem um objectivo definido, estaremos sempre distraídos e gastaremos as nossas energias em coisas secundárias. «Tem os olhos postos no prémio», dizia Martin Luther King ao seu povo. O que é o nosso prémio? É a vida divina, a vida eterna, a vida com e em Deus. Jesus propôs-nos essa meta, esse prémio celeste. Disse a Nicodemos: «... Deus amou de tal modo o mundo que lhe entregou o seu Filho para que quem acreditar Nele não pereça mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16).

Não é fácil manter os olhos fixos na vida eterna, especialmente num mundo que continua a dizer-nos que há coisas mais imediatas e urgentes em que concentrar a atenção. Raramente há um dia que não distraia a nossa atenção da meta e no-la faça parecer vaga e nebulosa. Mas, mesmo assim, sabemos por experiência que, sem um objectivo claro, a nossa vida se fragmenta em muitas tarefas e obrigações que nos esvaziam e nos deixam com uma sensação de exaustão e inutilidade.

Como manter então o objectivo claro, como fixar o nosso olhar no prémio? Através da disciplina da oração; a disciplina que nos ajuda a trazer Deus de volta, para o centro da nossa vida, quantas vezes for preciso. Mesmo assim, continuaremos a cair em distracções, continuaremos constantemente ocupados com muitos assuntos urgentes, mas, quando programamos um pouco de tempo e espaço para voltar para Deus que nos oferece a vida eterna, gradualmente chegamos à conclusão de que as muitas coisas que temos que fazer, dizer ou reflectir já não nos distraem, mas, em vez disso, nos conduzem para mais perto da nossa meta. É importante, no entanto, que a nossa meta seja clara. A oração mantém a meta clara e se, porventura, o objectivo se tornar vago, a oração volta a dar-lhe definição.



Henri Nouwen, em "Aqui e Agora"

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Quem é o meu próximo?


Jesus conta a célebre parábola do "Bom Samaritano" ( Lucas 10:25-37), em resposta a "um certo doutor da lei" que deseja testá-lo com a sua erudição e interpretação da lei.
Dallas Willard escreve: "A ocasião aqui é aquela em que um intérprete da lei está testando a correcção doutrinária de Jesus e acaba caindo na sua própria armadilha. Tendo concordado com Jesus em que para "herdar a vida etena" é preciso amar o próximo como a si mesmo, ele acaba achando essa exigência mais rigorosa do que desejaria. (...)
O "intérprete" então, à maneira dos eruditos, tenta livrar-se da armadilha fazendo uma pergunta capciosa: "Quem é o meu próximo?"(...) Ele estava tentando justificar-se porque certamente sabia que não amava os seus próximos como a si mesmo.(...)

Jesus narra a história de forma tão magistral que o samaritano só entra já perto do final, antes que as portas da mente se possam fechar. O samaritano personifica perfeitamente a resposta à pergunta capciosa do intérprete - quem é o meu próximo? - e ao mesmo tempo destrói as suposições gerais a respeito de quem "logicamente" herda a vida eterna(...)

Quando Jesus afinal faz a pergunta decisiva - "Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu na mão dos salteadores?" -, qualquer pessoa decente só tem uma resposta a dar(...) Assim, o intérprete teológico responde: "O que usou de misericórdia para com ele". Para ele seria demais dizer apenas: "o samaritano".
Mas nós precisamos dizê-lo, e precisamos compreender o que isso significa.

Significa que as suposições gerais dos ouvintes de Jesus sobre quem tem vida eterna precisam ser revistas à luz da condição dos corações das pessoas. O relato não ensina que podemos ter vida eterna apena por amar o nosso próximo. Também não podemos nos safar com esse belo legalismo. A questão da nossa postura diante de Deus ainda precisa ser levada em conta. Mas na ordem de Deus nada pode substituir o amor pelas pessoas. E definimos quem é o nosso próximo pelo nosso amor. Fazemos de alguém o nosso próximo cuidando dele.

Não definimos uma classe de pessoas que serão os nossos próximos para depois elegê-los objectos exclusivos do nosso amor - deixando os outros estirados na estrada. Jesus habilmente rejeita a pergunta - "Quem é o meu próximo?" -e a substitui pela única pergunta realmente relevante aqui:" De quem serei eu o próximo?". E Ele sabe que só podemos responder a essa pergunta caso a caso no nosso dia-a-dia. De manhã ainda não sabemos quem será o nosso próximo naquele dia. A condição do nosso coração irá determinar quem é que, ao longo do caminho, será o nosso próximo, e principalmente a nossa fé em Deus é que determinará se teremos força bastante para fazer desta ou daquela pessoa o nosso próximo.

No relato do bom samaritano, Jesus não só nos ensina a ajudar os necessitados; num nível mais profundo, Ele nos ensina que não podemos identificar quem "tem a vida eterna", quem "está com Deus", quem é "bem-aventurado" só por olhar as aparências. Pois esta é uma questão do coração. Só ali o reino dos céus e os reinos humanos, grandes e pequenos, estão entrelaçados. Estabeleça as fronteiras culturais e sociais que quiser, e Deus dará um jeito de atravessá-las.

"O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração" (1Sm 16:7). E "Aquilo que é elevado entre os homens é abominação diante de Deus" (Lc 16:15).

Dallas Willard, em "A Conspiração Divina"

domingo, 27 de janeiro de 2008

Cinco dimensões ou estágios da vida eterna

1. Confiança e fé em Jesus, o "Filho do homem", aquele que foi ungido para nos salvar(...) Essa confiança é uma realidade, e é ela mesma uma verdadeira manifestação da vida "das alturas", não das capacidades humanas normais. É, como diz Hb 11:1, "a convicção de factos que não se vêem". Qualquer um que verdadeiramente possui essa confiança tem absoluta certeza de estar "lá dentro" .

2. Mas essa confiança na pessoa de Jesus leva naturalmente ao desejo de ser seu aprendiz na vida do reino de Deus. (...) A condição de aprendiz de Jesus significa viver no seu mundo, ou seja, colocar em prática os seus ensinamentos(Jo 8:31). E isso gradualmente integra toda a nossa existência no glorioso mundo da vida eterna. Tornamo-nos "verdadeiramente [...] livres" (Jo 8:36).

3. A abundância de vida que se alcança quando se é discípulo de Jesus, "permanecendo na sua palavra", naturalmente conduz à obediência. O ensinamento que recebemos e a experiência de vivê-lo leva-nos a amar Jesus e ao seu Pai com a plenitude do nosso ser: o coração, a alma, o entendimento e a força (corporal). E assim aprendemos a amar essa obediência a ele, mesmo quando não compreendemos ou até mesmo quando não "gostamos" do que ele exige.
"Se me amais" , disse Jesus, "guardareis os meus mandamentos" (Jo 14:15) (...)

4. A obediência, com a vida de disciplina que exige, conduz à completa transformação interior do coração e da alma. E, num processo circular, essa mesma transformação sustenta a obediência. A condição permanente do discípulo passa então a ser a de "amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio" (Gl 5:22-23; comparar com 2Pe 1:2-11). E é amor autêntico até ao nosso âmago mais profundo. Essas virtudes são chamadas de "frutos do Espírito", pois não são consequências directas do nosso esforço, mas são-nos incutidas à medida que passamos a admirar e imitar Jesus, fazendo todo o necessário para aprender a obedecer-lhe.

5. Por fim, vem o poder para fazer as obras do reino. Uma das declarações mais chocantes de Jesus (...) foi esta: "Aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará" (Jo 14:12). É normal que nos sintamos assombrados e incapazes diante desta afirmação. Mas tenhamos em mente que o mundo em que vivemos precisa desesperadamente que essas obras sejam feitas(...) [Mas] grande poder exige grande carácter para que seja uma bênção, não uma maldição, e esse carácter é algo que precisamos adquirir gradualmente.

(...) É intenção de Deus que no seu reino tenhamos todo o poder que pudermos colocar a serviço do bem. Na verdade, o seu objectivo final no desenvolvimento do carácter humano é dar-nos o poder de fazer o que queremos. E, quando estivermos plenamente desenvolvidos à imagem de Jesus, quando tivermos plenamente em nós o "sentimento" de Cristo, é justamente isso que irá acontecer - para grande alegria e alívio do próprio Deus, sem dúvida.

Deus passa a agir connosco sempre que nos nossos actos confiamos Nele. Isso explica porque Jesus disse que o menor no reino dos céus é maior do que João Baptista - não, logicamente, maior em si mesmo, mas porque um poder maior age com ele. O maior não é inerente, dependente da nossa essência, mas relacional. Por isso, C. S. Lewis escreve que a nossa fé não é uma questão de ouvir aquilo que Cristo disse há tanto tempo e "tentar realizá-lo". Antes "o verdadeiro Filho de Deus está do seu lado. Ele está começando a transformar você no mesmo tipo de coisa que Ele é. Está começando, por assim dizer, a «injectar» a Sua vida e o Seu pensamento, em você; começando a transformar o soldado de chumbo num homem vivo. A parte que você não gosta disso é aquela que ainda é chumbo. (os grifos são meus)


Dallas Willard, em "A Conspiração Divina"

sábado, 26 de janeiro de 2008

O SEGREDO DO JUGO SUAVE


«Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve.» - Mateus 11:29-30


O Segredo do Jugo Suave

Erramos ao pensar que seguir a Jesus consiste em amar nossos inimigos, andar" a segunda milha", dar a outra face, sofrer com paciência e esperança - enquanto vivemos o resto das nossas vidas como todas as outras pessoas ao nosso redor. (...)

Essa falsa percepção do que significa seguir a Cristo tem consequências em toda a vida humana. (...) Nós acreditamos de todo o coração que basta o poder do esforço-no-momento-da-acção para realizar o que queremos e que podemos ignorar completamente a necessidade de mudança de carácter na vida como um todo. O fracasso humano consiste em desejar o que é certo e importante, sem se dedicar ao tipo de vida que produz a acção que sabemos ser correta e a condição que queremos experimentar. E este aspecto do carácter humano que explica a razão da "estrada para o inferno ser pavimentada de boas intenções". Intentamos fazer o que é certo, mas evitamos a vida que tornaria isso uma realidade.

Portanto, temos de ser totalmente claros a respeito de uma coisa: Jesus jamais esperou que déssemos automaticamente a outra face, andássemos a segunda milha, abençoássemos aqueles que nos perseguem, abríssemos a mão a quem pedisse, e assim por diante. Estas respostas, em geral consideradas corretamente como características da semelhança com Cristo, foram ,apresentadas por Ele como ilustrações do que seria esperado de um novo tipo de pessoa – aquela que, com inteligência e firmeza, busca, acima de tudo viver sob o governo de Deus e ser possuído pelo tipo de justiça que o próprio Deus possui conforme Mateus 6.33.

Na verdade, Jesus convidou pessoas para segui-lo num modo de vida a partir do qual comportamentos como amar os inimigos parecerá a única coisa sensível e feliz a ser feita. Para uma pessoa que vive desta forma, a coisa mais difícil a fazer seria odiar os inimigos, virar as costas aos necessitados ou amaldiçoar quem a amaldiçoa, assim como seria difícil para Cristo. O verdadeiro discipulado cristão conduz ao ponto onde difícil é não reagir da mesma forma que Jesus o faria.

Oswald Chambers observa: "O Sermão do Monte não é um conjunto de princípios a serem obedecidos, separados da identificação com Jesus Cristo. O Sermão do Monte é uma apresentação da vida que vivemos quando o Espírito Santo habita em nós."

Na verdade, o segredo do jugo suave é simples. É a decisão inteligente, esclarecida e incondicional de viver como Jesus viveu em todos os aspectos da vida; não somente nos momentos de escolhas ou acções específicas.

(...) Se desejarmos seguir a Cristo - e caminhar no jugo suave com Ele -, teremos de aceitar totalmente o seu modo de vida como o nosso modo de vida. Então, e só então, poderemos experimentar como o jugo é suave e como o fardo é leve!


Dallas Willard, em "O Espírito das Disciplinas"

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Obediência e Abundância

Em Mateus 5:20-48, Jesus, nas palavras de Dallas Willard," [faz] a exposição da "bondade que excede" , que anda lado a lado com a bem-aventurança da vida eterna(...)

Jesus exorta-nos a amar os inimigos e a exprimir esse amor pelo mais sublime acto de amor, a oração. "Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e vir chuvas sobre justos e injustos" (Mt 5:44-45). (...)

Ao concluir com o amor-caridade (agapé) que caracteriza o Pai, ele foi além dos actos e exemplos específicos da bondade do reino. O amor não exemplifica, mas simplesmente é a bondade que excede a dos escribas e fariseus. Todos os exemplos que Ele deu nas várias situações apresentadas em Mt 5:20-48 são ilustrações desse amor-caridade.

Nele alcançamos a vívida união com o reino dos céus, nele entramos plenamente no reino.(...) Nessa união descobrimos o amor como força vital que se exprime das muitas maneiras mencionadas por Paulo em 1 Coríntios 13. Mas essa bela passagem de Paulo é comumente compreendida de modo equivocado, exactamente do mesmo ângulo legalista pelo qual se interpreta o Sermão do Monte de Jesus. (...)
As pessoas geralmente lêem essa passagem, e são ensinadas a fazê-lo como uma lei que impõe que elas sejam pacientes, benignas, livres de ciúmes e assim por diante - assim como crêem que o Sermão de Jesus ordena que não chamem os outros de tolos, não olhem para uma mulher com luxúria, não jurem, andem a segunda milha, etc.

Mas Paulo está claramente dizendo - observem as palavras dele - que é o amor que faz essas coisas, não nós, e que o que devemos fazer é " seguir o amor" (1Co 14:1). Quando "agarramos" o amor, descobrimos que afinal já estamos fazendo todas essas coisas. Essas coisas, essas atitudes e actos piedosos, são consequência de viver no amor. Nós nos tornamos então pessoas pacientes, benignas, livres de ciúmes, etc. A mensagem de Paulo é exactamente a mesma de Jesus. E não é de admirar que, como Paulo sempre foi o primeiro a admitir, ele tenha aprendido o que ensinava com Jesus (Gl 1:12).


Será difícil fazer as coisas com que Jesus ilustra a essência do amor do reino? Ou as coisas que, segundo Paulo, faz o amor? É de facto muito difícil se você ainda não se tranformou essencialmente no âmago do seu ser, nas complexidades dos seus pensamentos, sentimentos, convicções e disposições, a ponto de estar totalmente impregnado de amor. Uma vez que isso aconteça, deixa de ser difícil. Então, na verdade, seria difícil agir como você agia antes.

Quando Jesus orou na cruz - "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" -, isso não foi difícil para Ele. Difícil teria sido amaldiçoar os seus inimigos(...)

[Jesus] chama-nos para si a fim de se doar a nós. Ele não nos convoca a fazer o que Ele fez, mas a ser como Ele foi, impregnado de amor. Então fazer o que Ele fez e disse para a ser a expressão natural de quem somos Nele.


Dallas Willard, em "A Conspiração Divina"

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

A Visão da vida no reino

Se nos preocupamos com a nossa formação espiritual ou a de outros, a visão do reino é o lugar por onde devemos começar. Lembre-se: foi por onde Jesus começou. Foi o evangelho que pregou. Ele veio anunciando, manifestando e ensinando a acessibilidade e a natureza do reino dos céus. "Porque para isso fui enviado" (Lc 4:43). (...)

O reino de Deus é o âmbito da vontade efectiva de Deus, onde o que Ele deseja que seja feito, é feito. (...) O planeta Terra e as suas imediações parecem ser o único lugar na criação onde Deus permite que a Sua vontade não seja feita. Por isso oramos: "Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu", e esperamos pelo tempo em que o reino será completamente cumprido aqui na terra (Lc 21:31; 22:18) - onde de facto já está presente (Lc 17:21; Jo 18:36-37) e acessível a todos que o buscam de todo o seu coração (Mt 6:13; 11:12; Lc 16:16). (...)

A visão que alicerça a transformação espiritual na semelhança com Cristo é, então, a da vida agora e para sempre no âmbito da vontade efectiva de Deus - isto é, compartilhar a natureza divina (2Pe 1:4; 1 Jo 3:1-2) por meio de um nascimento "do alto" e participar, com as nossas acções, do que Deus está a fazer hoje na nossa vida terrena. Desse modo, "tudo o que fizermos, seja em palavras seja em acções, façamos em nome do Senhor Jesus, dando por seu intermédio graças a Deus Pai" (Cl 3:17). (...)

A visão da vida no reino, pela fé em Jesus, possibilita-nos desenvolver a intenção de morar no reino com Ele. Podemos de facto decidir fazê-lo. Naturalmente, isso significa em primeiro lugar crer em Jesus, confiar Nele e contar com Ele, como o Ungido, o Cristo. É por obra de nosso Senhor que a revelação e o dom do reino nos chegam de modo individual. Se não contarmos com Ele como "o Único", não teremos uma visão adequada do reino ou da sua vida, nem um modo de lá entrar. Ele é "a porta"; Ele é "o caminho". Encontre outro jeito quem puder.

A Intenção de ser uma pessoa do reino

Desejamos de modo concreto morar no reino de Deus pela intenção de seguir o exemplo e os ensinamentos precisos de Jesus. Essa é a forma que a em Jesus assume na realidade. Não se trata de apenas acreditar nas coisas a seu respeito, por mais verdadeiras que sejam. Realmente, ninguém pode de facto crer na verdade sobre Jesus sem crer Nele, sem intencionar obedecer-Lhe.(...)

(...) Saber as "respostas certas" - ser capaz de indentificá-las - não significa que acreditamos nelas. Acreditar nelas, como acreditar em qualquer outra coisa, significa que estamos prontos para agir como se elas (as respostas certas) fossem verdadeiras e que assim o faremos nas circunstâncias necessárias.(...)

A ideia de que se pode confiar em Cristo e não ter intenção de obedecer-Lhe é uma ilusão gerada pela prevalência de uma "cultura cristã" descrente. (...)

(...) Onde não existe vontade (intenções firmes baseadas numa visão clara) não existe caminho. As pessoas que não intencionam ser transformadas no interior, de forma que a obediência a Cristo "venha naturalmente", não o serão - não importa que meios elas pensam estar empregando.(...)
(...) o problema da transformação espiritual (a sua frequente falta) entre os que se identificam como cristãos nos dias de hoje não se encontra na sua impossiblidade, ou em que os meios efectivos para a sua realização não estejam disponíveis. O problema é que ela não é intencionada. As pessoas não vêem, não percebem o valor, nem decidem realizá-la. Elas não decidem fazer as coisas que Jesus fez e disse.

Os Meios

(...) Se eu pretendo obedecer a Jesus Crsito, além da intenção devo tomar a decisão de me tornar o tipo de pessoa que lhe obedeceria. Quer dizer, devo encontrar os meios para mudar meu ser interior até que fique substancialmente como de Cristo, caracterizado de modo completo pelos seus pensamentos, sentimentos, hábitos e pela sua relação com o Pai.

Os meios para tal fim não estão todos directamente sob o meu controle, pois alguns são acções de Deus em mim. Mas outros estão.

Eu posso(...) treinar o meu pensamento por meio do estudo e da meditação sobre Jesus e sobre os ensinamentos da Bíblia a respeito de Deus, do seu mundo e da minha vida - sobretudo sobre os ensinos de Jesus nos evangelhos, enriquecidos ainda pela compreensão do restante da Bíblia.(...)
Posso aprender sobre a vida de conhecidos "santos" e meditar sobre elas, sobre os homens que praticaram de maneira contínua, na vida real, o modo de Jesus em relação aos seus adversários e aos necessitados.(...)
Eu posso honesta e repetidamente orar para que Deus opere no meu ser interno, a fim de mudar as coisas ali, tornando-as capazes de me fazer obedecer ao seu Filho.


Dallas Willard, em "A Renovação do Coração"





Formação Espiritual Cristã

A formação espiritual cristã refere-se basicamente a um processo guiado pelo Espírito, cujo objectivo é formar o mundo interior do eu de tal maneira que ele se torne semelhante ao ser interior de Cristo (...) À medida que a formação espiritual em Cristo obtiver êxito, a vida interior do indivíduo transformar-se-á numa expressão natural ou num fluxo do carácter e dos ensinamentos de Jesus.

A obediência é o resultado essencial da formação espiritual cristã (Jo 13:34-35; 14:21).

A semelhança com o ser interior de Cristo não é uma façanha humana. Ela é, em conclusão, um dom da graça.
Embora, devamos agir, os recursos para a formação espiritual vão muito além do humano. Eles vêm da presença interactiva do Espírito Santo na vida dos que depositam a sua fé em Cristo; também vêm dos tesouros espirituais - pessoas, eventos, tradições, ensinamentos - armazenados no corpo do povo de Cristo na terra, no passado e no presente.

A formação espiritual é, na prática, o caminho de descanso para o cansado e sobrecarregado, do jugo suave e do fardo leve (Mt 11:28-30), da limpeza do interior do copo e do prato (Mt 23:26), da árvore boa que não pode dar fruto ruim (Lc 6:43). E é o caminho ao longo do qual os mandamentos de Deus não são considerados pesados, nem "penosos" (1 Jo 5:3).

A "aprendizagem" básica aqui não é sobre como agir, do mesmo modo que o erro ou o problema básico na vida humana não está no que fazemos. Muitas vezes, o que os seres humanos fazem é tão horrível que podemos, talvez, ser desculpados por acreditar que tudo o que importa é impedi-los. Mas isso trata-se, então, de uma fuga do verdadeiro horror: o coração de onde as acções terríveis procedem. Em ambos os casos, é o que somos - em pensamentos, sentimentos, disposições e escolhas - na vida interior o que conta. A profunda transformação ali é a única coisa que pode definitivamente vencer o mal exterior (...)

É o amor em si - não o comportamento amoroso, ou mesmo o desejo ou intenção de amar - que tem o poder de "sempre proteger, sempre confiar, sempre esperar, suportar qualquer coisa e nunca desistir (1 Co 13:7-8). Simplesmente tentar agir de forma amorosa levará ao desespero e ao fracasso do amor. O que trará a raiva e a desesperança.

Se o povo cristão entrar genuinamente para o Caminho do Coração de Cristo, as pessoas encontrarão um modo seguro de tornar-se o que foram destinadas a ser: completamente boas e religiosas, e purgadas por completo da arrogância, da insensibilidade e da auto-suficiência. As assembleias cristãs voltarão a ser como foram em muitas épocas passadas e que o mundo desesperadamente pede hoje - incomparáveis escolas de vida - vida que é eterna agora em qualidade, bem como eterna em quantidade.

A formação espiritual é algo que os seres humanos podem e devem vivenciar - como indivíduos e em comunhão com outros aprendizes de Jesus. Enquanto ela é simultaneamente uma manifestação profunda da acção graciosa de Deus pela sua Palavra e o seu Espírito, também é algo pelo qual somos responsáveis perante Deus e que podemos procurar alcançar de maneira sensata, sistemática. (os grifos são meus)



Dallas Willard, em "A Renovação do Coração"

domingo, 20 de janeiro de 2008

Confia na voz interior

Desejas realmente converter-te? Estás disposto a modificar-te? Ou continuas agarrado ao teu velho modo de vida com uma mão enquanto com a outra pedes aos outros que te ajudem a mudar?

A conversão não é com certeza algo que possas encontrar por ti mesmo. Não se trata de um exercício da própria vontade. Tens que confiar na voz interior que mostra o caminho. Tu conheces essa voz. Ouve-la com frequência. Mas depois de ouvir com clareza o que ela te pede começas a fazer perguntas, a fabricar objecções e a pedir a opinião de todos. Assim deixas-te enredar por inúmeros pensamentos, sentimentos e ideias muitas vezes contraditórias e perdes contacto com o Deus que habita dentro de ti. E acabas por te tornar dependente de todas as pessoas que reuniste em torno de ti.

Só dando constantemente ouvidos a essa voz interior conseguirás converter-te a uma nova vida de liberdade e alegria.


Henri Nouwen, em "A Voz Íntima do Amor"



«Meu primeiro contato com a obra de Henri Nouwen foi através de seu livro "A Volta do Filho Pródigo". Diante da proposta do livro -- tecer uma teia entre o famoso texto do Evangelho de Lucas e a pintura magistral de Rembrandt inspirada no tema --, não foi difícil concluir que se tratava de alguém especial, não tanto por suas conquistas acadêmicas (holandês de origem, experiência nos Estados Unidos como professor em Yale e Harvard), mas por sua profundidade espiritual e visão sensível e honesta da trajetória humana. Com Nouwen, entre muitas lições, tenho aprendido a conviver com minhas fraquezas e fragilidades, com meus medos e incapacidades, com minha imensa sede de Deus, semelhante àquela descrita por Agostinho na oração que abre a sua autobiografia (aliás, a primeira autobiografia de que se tem notícia na história da literatura mundial), Confissões: "O nosso coração não encontra descanso até que descanse em ti". O descanso divino para Nouwen não veio por meio de suas conquistas profissionais. Ele terminou seus dias trabalhando em um lar para pessoas com deficiências físicas e mentais extremas. Vivendo nessa comunidade pequena e frágil, aprendeu a encontrar sentido e propósito para a sua existência. Seus muitos livros atestam que ele encontrou o caminho rumo ao que procurava. Revelam sensibilidade, honestidade, profundidade, espiritualidade, valores que nos são tão caros e ao mesmo tempo se mostram cada dia mais raros. Mas parece ser esse mesmo o caminho: para baixo. "Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz!" (Fp 2.5-8). Na sociedade da conquista e da escalada social, na rota para cima, o discurso de Nouwen parece se perder no vazio. A força de sua autenticidade, no entanto, faz com que sua mensagem se torne cada dia mais necessária e relevante. Impossível não lembrar o termo cunhado por Eugene Peterson que define o caminho da sanidade nos círculos religiosos cristãos, ultimamente tão adoentados -- "espiritualidade subversiva". Só algo que seja concebido nas catacumbas romanas de nossa sociedade extremamente consumista e desesperada, e que de maneira sutil brota com indescritível força interior, paradoxalmente demonstrada por meio da fraqueza, será capaz de, como clama Caetano Veloso em sua canção "Podres Poderes", "nos salvar destas trevas e nada mais".» - Jorge Camargo, mestre em ciências da religião, é intérprete, compositor, músico, poeta e tradutor. (os grifos são meus)

sábado, 19 de janeiro de 2008

Dá de graça


O teu amor, na medida em que provém de Deus, é permanente. Podes assumir a permanência do teu amor como uma graça de Deus. Podes dar esse amor permanente aos outros. Quando deixam de te amar, não precisas deixar de amar. A nível humano, as mudanças talvez sejam necessárias, mas nível divino podes manter-te fiel ao teu amor.

Um dia sentir-te-ás livre para dar amor gratuito, um amor que não pede nada em troca. Um dia também te sentirás livre para receber amor gratuito. O amor é-te oferecido muitas vezes, mas não o reconheces. Ignora-lo, porque estás determinado a recebê-lo da mesma pessoa a quem o deste.

O grande paradoxo do amor é que precisamente quando te reconheces como filho bem-amado de Deus, quando estabeleceste fronteiras para o teu amor e foste, por conseguinte, capaz de dominar as tuas carências, começas a crescer na liberdade de dar de graça.





Henri nouwen, em "A voz Íntima do Amor"

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Regressa sempre ao caminho para a liberdade



Quando pareces perder repentinamente tudo o que pensavas ter conquistado não desesperes. A tua cura não é linear. Deves contar com reveses e retrocessos. Não digas a ti mesmo: "está tudo perdido. Tenho que recomeçar do princípio". Não é verdade. Não se perde o que já se conquistou.


Há por vezes pequenas coisas que avolumam e te fazem sentir perdido por momentos. A fadiga, um comentário aparentemente frio, a incapacidade de alguém para te escutar, um esquecimento inocente, que se assemelha a desprezo - quando tudo acontece ao mesmo tempo podes sentir que voltaste ao princípio. Mas tenta pensar nesses acontecimentos como num desvio temporário da tua caminhada. Quando regressares ao caminho regressarás ao ponto onde o abandonaste, não ao princípio.


É importante não te demorares nos pequenos momentos em que não progrides. Tenta regressar a casa imediatamente, a esse ponto sólido dentro de ti. Caso contrário esses momentos começam a ligar-se a momentos semelhantes e juntos tornam-se suficientemente poderosos para te afastarem para muito longe do teu caminho. Tenta manter-te atento a distracções aparentemente inócuas. É mais fácil regressar ao caminho quando se está à beira da estrada do que quando se é arrastado para um pântano vizinho.


Em tudo continua a confiar em que Deus está contigo, em que Deus te deu companheiros de caminhada. Regressa uma e outra vez ao caminho para a liberdade.


Henri Nouwen, em "A Voz Íntima do Amor"

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Reconhece-te verdadeiramente amado



Algumas pessoas viveram vidas tão oprimidas que os seus verdadeiros eus se lhes tornaram inacessíveis. Precisam de ajuda para quebrarem essa opressão. O poder para se libertarem tem que ser pelo menos tão forte como poder que as oprime. Por vezes precisam de autorização para explodirem: para deixar vir à tona as suas emoções mais profundas e para se libertarem de forças estranhas. Gemer, gritar, chorar e até mesmo a luta física podem ser expressões de libertação.

Tu não pareces, no entanto, precisar de tais explosões. Para ti o problema não está em retirar qualquer coisa do teu sistema mas sim em incluir algo que aprofunde e fortaleça a tua sensação de virtude e permita que a tua angústia seja abraçada pelo amor.

Descobrirás que quanto mais amor integrares e a ele te agarrares, tanto menos receoso serás. Falarás com mais simplicidade, mais directamente, sem receio das reacções alheias. Usarás também menos palavras, confiante de que comunicas o teu verdadeiro eu mesmo quando não falas muito.

Os discípulos de Jesus tinham uma sensação real da sua presença amorosa qaundo saíam a pregar. Tinham-no visto, comido com Ele e conversado com Ele após a sua ressurreição. Já viviam em profunda relação com Ele e dela retiravam a força para proclamar com simplicidade e sem rodeios, sem receio de serem mal entendidos ou desprezados.

Quando melhor te conheceres - espírito, mente e corpo - como verdadeiramente amado, mais livre te sentirás para proclamar a Boa Nova. Esta é a liberdade dos filhos de Deus.



Henri Nouwen, em " A Voz Íntima do Amor"

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Aceita a tua identidade de filho de Deus



Em especial para o João Eduardo


Ser filho de Deus é a tua verdadeira identidade, que deves aceitar. Quando a tiveres assumido e integrado em ti, poderás viver num mundo que te oferece muito mais alegria, bem como mais sofrimento. Podes receber o elogio e a censura que vêm ao teu encontro como uma oportunidade para fortalecer a tua identidade básica, porque a identidade que te torna livre enraíza para além de todo o elogio ou censura humanas. Pertences a Deus e é como filho de Deus que és enviado ao mundo.

Precisas de direcção espiritual; precisas de pessoas que te mantenham ancorado à tua verdadeira identidade. A tentação de te desligares desse ponto profundo onde Deus habita e te deixares abafar pelo louvor ou pela censura do mundo está sempre presente.

Uma vez que desconheceste durante muito tempo esse local da tua identidade de filho de Deus, os que são capazes de te tocar nesse ponto tiveram um poder repentino e esmagador sobre ti. Tornaram-se parte da tua identidade. Já não eras capaz de viver sem eles. Mas eles não podiam desempenhar esse papel divino, por isso deixaram-te e sentiste-te abandonado. Mas foi precisamente essa experiência de abandono que te fez realizar de novo a tua verdadeira identidade de filho de Deus.

Só Deus pode habitar esse lugar profundo e dar-te uma sensação de segurança. Mas o perigo permanece, se deixares outros roubarem-te o teu cento sagrado, o que te mergulhará na angústia.

Talvez seja preciso muito tempo e disciplina para reconheceres inteiramente o teu ser profundo e escondido e o teu ser público, que é reconhecido, amado e aceite, mas igualmente criticado pelo mundo. Contudo, começarás a sentir-te gradualmente mais ligado e capacitar-te-ás mais cabalmente de quem verdadeiramente és - um filho de Deus. Aí reside a tua verdadeira liberdade.

Henri Nouwen, em "A voz Íntima do Amor"

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Deixa-te ser inteiramente recebido


Em especial para o Pe. Sandro Rogério

Dar-te aos outros sem esperar nada em troca só é possível quando fores inteiramente recebido. Sempre que descobres esperar alguma coisa em troca do que deste ou ficas desiludido quando nada obténs em troca, é um alerta a que compreendas que tu próprio ainda não te sentes inteiramente recebido. Só quando te reconheces incondicionalmente amado - ou seja, inteiramente recebido - por Deus serás capaz de dar de graça. Dar sem pedir nada em troca é confiar em que as tuas necessidades serão satisfeitas por aquele que te ama incondicionalmente.
É confortável saber que não precisas de proteger a tua própria segurança, mas que te podes entregar completamente ao serviço do próximo.

A fé consiste precisamente em confiar que aquele que dá de graça receberá de graça, mas não necessariamente da pessoa a quem deu. O perigo está em te esgotares no serviço ao próximo, na esperança de que eles te recebam inteiramente. Em breve sentirás que os outros levam consigo partes de ti mesmo. Não te podes dar aos outros se não pertences a ti mesmo, e só podes possuir-te verdadeiramente quando fores inteiramente recebido num amor incondicional.

Muito do acto de dar e receber possui uma qualidade violenta, porque os que dão e recebem agem mais por necessidade do que por confiança. O que aparenta ser generosidade é realmente manipulação e o que parece amor é realmente um pedido aflitivo de afecto e amparo. Quando te reconheces como inteiramente amado, serás capaz de dar de acordo com a capacidade alheia de receber, e serás capaz de receber de acordo com a capacidade alheia de dar. Sentir-te-ás grato pelo que te foi dado sem te apegares a isso, e alegre com o que podes dar sem te gabares por isso. Serás uma pessoa livre, livre para amar. (os grifos são meus)


Henri Nouwen, em " Voz Íntima do Amor"

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Autonegação

"Sendo a obediência a si mesmo a fonte mais segura de destruição para os homens, assim o único porto seguro é não ter outra vontade, outra sabedoria, senão seguir o Senhor aonde quer que nos conduza. Permitamos que esse, então, seja o primeiro passo, abandonar a nós mesmos, e aplicar toda a energia mental ao serviço de Deus." - João Calvino

Calvino baptizou de "autonegação" a transformação global da personalidade, termo que usou para sintetizar toda a vida cristã. Jamais deve ser confundida com auto-rejeição, nem deve ser pensada como acto doloroso e trabalhoso, repetido de tempos em tempos em razão de grande resistência interna. Trata-se de uma condição global, organizada, da vida no reino de Deus, mais bem descrita como "morte do eu".(...)

(...) O que é a "autonegação" ("morte do eu"), que anda de mãos dadas com a restauração da alma e, logo, com o todo da pessoa? No início, parece algo terrivelmente negativo, cujo objectivo é aniquilar-nos. Sendo franco, da perspectiva da alma arruinada, a autonegação é e sempre será tão brutal quanto parece à maioria das pessoas à primeira vista. A vida arruinada não será complementada, mas substituída. Precisamos simplesmente perder a vida, a arruinada, sobre a qual a maioria das pessoas, de qualquer modo, tanto se queixa.

Qualquer um que quiser salvar a sua vida perde-la-á, mas qualquer um que perder a sua vida por minha causa, encontra-la-á. Pois, de que adianta você conquistar o mundo inteiro se no processo perder a sua vida (alma) - perder a si mesmo. Ou o que o homem poderá dar em troca da sua alma? Mateus16-25-26; Mc 8:35-36: Lc 9:24-25

Quando Jesus diz que devemos perder a vida se quisermos encontrá-la, está a ensinar-nos, pelo lado negativo, que não devemos fazer de nós e da nossa "sobrevivência" o principal ponto de referência do nosso mundo - ou seja, não devemos tratar de nós como Deus deveria ser tratado, ou tratar-nos como Deus.(...)
(...) Tornar os meus desejos supremos é o que Paulo descreveu como ter "mente carnal" ou "mente da carne", que é um estado de morte (Rm 8:6).
(...) Quando Jesus diz que os homens que encontram a sua vida, ou alma, perde-la-ão, ele está mostrando que os que acreditam estar a controlar a sua vida - «Eu sou o mestre do meu destino: eu sou o capitão da minha alma», como disse o poeta William Ernest Henley - descobrirão em definitivo que não estão no controle: estão totalmente à mercê de forças além deles, e até mesmo dentro deles.(...)

(...) A autonegação em Mateus 16:24 e em outras passagens dos evangelhos refere-se sempre à rendição de um eu menor, morto, para um eu maior, eterno - a pessoa planeada por Deus quando a criou (...) Jesus não nos nega uma realização pessoal, mas mostra-nos o único caminho verdadeiro para alcançá-lo. No Mestre "encontramos a nossa vida". (...)

(...)Estar morto para o eu é a condição em que a mera circunstância de não conseguir o que quero já não me surpreende ou me ofende, e não tem nenhum controle sobre mim.(...)
Quem está morto para o eu não perceberá certas coisas que outros vêem - por exemplo: desprezo social, comentários mordazes, insinuações ou desconfortos físicos. No entanto, outras rejeições ao "querido eu", conforme o filósofo Kant o chamou, ainda serão percebidas, ás vezes de forma muito clara. Porém, se estivermos mortos para o eu num grau significativo, essas rejeições não nos controlarão, nem mesmo a ponto de perturbar os nossos sentimentos ou a nossa paz de espírito. Vamos ainda, como disse Francisco de Assis, "usar o mundo como uma roupa folgada, que nos toca em poucos lugares e só levemente".
Isso significa que alguém morto para o eu não tem sentimentos? Cristo estaria recomendando a "apatia" do estóico ou a eliminação do desejo, como Buda? Não. A questão não é só sentir ou desejar, mas sentir ou desejar da forma correcta, ou não ser controlado por sentimentos e desejos.

Dallas Willard, em "A Renovação do Coração"

INDAGAÇÕES SOBRE O CARPINTEIRO

“A árvore é força vertical da natureza, da terra em direcção ao céu. Tem a postura da espécie humana. Por isso o cego que Jesus curou em Bet...