quarta-feira, 19 de março de 2008

Passagem para a vida divina

O que é o Mistério Pascal, o Mistério da Morte e Ressurreição do Senhor? A Páscoa é o centro de tudo.(...) É uma palavra que quer dizer passagem. Passagem para a vida divina. (...) A Páscoa é o centro da vida cristã. Mas a Páscoa é muito mais; é, numa palavra, a própria vida cristã. (...)

Jesus que sobe o Calvário a caminho da morte, na realidade vai a caminho da verdadeira vida, a caminho da liberdade.(...)

Tenho de compreender que cada uma das minhas decisões tem uma estrutura pascal. (...) A nossa vida é um tecido de decisões; é através das minhas decisões que me construo, que me torno homem e homem livre. As minhas decisões têm uma estrutura pascal, são uma passagem pela morte.(...)
Toda a decisão é uma passagem pela morte, para sair da escravatura a caminho da liberdade. A minha decisão arranca-me à escravatura do meu egoísmo, porque sou sempre escravo do meu egoísmo. As minhas decisões arrancam-me à escravatura e fazem-me entrar no Amor. Mas o arrancar-me à escravatura é, evidentemente, uma morte. É uma morte parcial, deixar o travesseiro, quando está frio e a névoa é densa, mas é a passagem para a liberdade e para uma liberdade verdadeiramente divina, uma vez que Cristo diviniza o que nós humanizamos.
Toda a decisão deve ser humanizante de certa forma, tornar-me mais homem, tornando os homens e o mundo mais humanos.(...)

O essencial da nossa fé, esta morte parcial, a morte que a minha decisão implica, é uma passagem à vida de Cristo. É uma ressurreição, uma passagem à liberdade, quer dizer, ao triunfo sobre todas as formas de egoísmo. (...)

Portanto, sou transformado, a pouco e pouco, pelo conjunto das decisões que tomo livremente e que fazem morrer a minha escravidão.

François Varillon, em "Viver o Evangelho"

Perder para Ganhar

«Acção de graças, trabalho, comunidade. Tudo isto implica uma morte. A acção de graças é a morte do meu instinto de propriedade. O trabalho é a morte à minha preguiça. A comunidade é a morte do meu individualismo. A morte está absolutamente em tudo. Mas creio que ela é, ao mesmo tempo, ressurreição. A ressurreição não se dá depois da morte; já está presente na própria morte. Morrendo ao meu individualismo, à minha preguiça, ao meu instinto de propriedade, passo para Cristo, torno-me mais Cristo, até me tornar totalmente Ele, depois dessa morte que é a morte final.»


François Varillon, em "Viver o Evangelho"

domingo, 16 de março de 2008

Sobre a Salvação

François Varillon, descreve no livro "Viver o Evangelho" , uma discussão sobre a salvação com um marxista eminente, Gilbert Mury, que o ajudou a compreender o que é a salvação. Segundo esse marxista a salvação levanta quatro questões, ás quais responde como marxista:

1. Quem é salvo? - O homem.
2. De quê? - Da alienação.
3. Quem salva? - O proletariado organizado em partido.
4. Para chegar a quê? - A sociedade sem classes.

O marxista diz: «É a sua vez, padre». Para François Varillon as coisas eram muito simples:

Quem é salvo? - O homem.
Quem salva? - Jesus Cristo.
De quê? - Da finitude acrescida pelo pecado.
Para chegar a quê? - A viver a própria vida de Deus.

François Varillon, em "Viver o Evangelho"

sexta-feira, 14 de março de 2008

Liberdade

«Deus que me criou livre, liberta a minha liberdade e a minha vontade de todas as suas insuficiências, das suas limitações e dá à minha liberdade a faculdade plena de se exercer. Ele não aniquila a minha liberdade. Ele não quer em meu lugar. Mas dá-me a possibilidade de querer como Ele quer. Torna-me capaz de querer como Ele quer e, agarrando esta capacidade na plena liberdade do meu ser, eu quero como Deus quer. A minha vontade transformou-se na sua.
E se é assim, já nada é contrário a Deus na minha vontade livre. Tudo é puro e recto naquilo que me leva a agir como Deus quer que eu aja.»

Pe. Constant Tonnelier, em "Quinze dias com São João da Cruz"

quarta-feira, 12 de março de 2008

O Teu Olhar de Amor


Este texto foi adaptado por mim com base na obra "Quinze dias com São João da Cruz" do Pe. Constant Tonnelier.

«O Olhar de Deus é o seu amor. Quando fixa o seu olhar em alguém, ama. (cf. Mc 10,21)

O teu olhar, Senhor, está sempre em primeiro lugar.
Um olhar de amor que me faz existir e me faz crescer no amor.
Pois só me podes olhar, amando-me. (...)
Amas-me na gratuidade do amor. (...)
Gravas em mim uma parte de Ti mesmo,
O que eu sou capaz de acolher.
Tornas-me capaz de ler em Ti e, portanto,
De poder adorar o que em Ti os meus olhos vêem e descobrem.(...)

É o Deus de amor que me olha ao chamar-me a amar.
O Deus com coração de mãe, cheio de misericórdia,
O Deus que Se inclina com misericórdia para a alma,
O Deus que imprime e derrama nela o seu amor e a sua graça.(...)

Revestes-me com o teu próprio esplendor.
Transfiguras o meu ser pelo dom da tua graça,
Ajustando-o a ti,
Fazendo dele um reflexo do que és.
Mas um amor está sempre em crescimento
Ou já não é amor.
Quanto mais crescer em mim o amor por Ti,
Tanto mais todo o meu ser se reveste da Tua beleza,
Cresce em beleza e Te encanta.


Pe. Constant Tonnelier, em "Quinze dias com São João da Cruz"

O que é o sacrifício?

[Em primeiro lugar], reparemos que «sacrifício» não quer dizer «privação»; portanto, não quer dizer «mortificação». (...)

O que é o sacrifício? Vejamos a sua realidade positiva. A sua realidade positiva é o amor, dar-me a mim mesmo aquele a quem amo. O sacrifício é o dom, o dom total de si mesmo. Santo Agostinho escreve-o com todas as letras: o sacrifício não é senão amor. Ora, obediência é o verdadeiro nome do amor pelos homens. É preciso termos coragem de o dizer, mas sem nos deixarmos equivocar sobre o sentido da verdadeira obediência. Quando se trata do amor da criatura para com Deus, não é um amor de igual para igual. É uma amor que se exprime assim: «Quero fazer a tua vontade».(...) [O amor] é a «descentração» de si mesmo. Deixamos de nos considerar como centro de nós mesmos. O homem pode então dizer à mulher que ama: «Agora és tu o meu centro. O meu centro já não está em mim, mas em ti». (...) A essência do amor é fazer a vontade daquele ou daquela a quem se ama. Claro que isto não significa fazer tudo o que apetece ao outro ou satisfazer todos os seus caprichos. (...) Aderir ao amor é aderir ao sacrifício, inevitavelmente. (...)

Deus não é senão amor. Pela obediência, obedeço àquele que amo, respondo ao seu desejo. O sacrifício é uma atitude interior de amor obediente. [E qual é o desejo de Deus?] O desejo de Deus é que sejamos totalmente d`Ele. Estamos a dizer que é impossível. É aqui que intervém Cristo.

Em primeiro lugar, Cristo é um ser sem pecado. Não há n´Ele o menor sinal de egoísmo. É o ser totalmente sem retorno sobre Si mesmo. Podíamos definir Cristo, dizendo que é alguém para-os-outros; Cristo é para os outros. Não é alguém que primeiramente existe e depois dá-se aos outros. A sua própria existência é ser para os outros. Ele só quer o que o Pai quer: «O meu alimento é a fazer a vontade do Pai» (cfr. Jo 4, 34 e 6, 38). Toda a vida de Cristo, todo o Evangelho, é um ímpeto de amor obediente, e obediente até à morte(...).



François Varillon, em "Viver o Evangelho"

terça-feira, 11 de março de 2008

ALPINISMO OU ACOLHIMENTO?

Fonte da imagem:http://emanuel-cartoon.blogspot.com/2007/11/eu-disse-o-reino-de-deus-de-quem-o.html
"Muitas pessoas julgam que a religião consiste naquilo que fazem por Deus: aquelas pobres, tristes e débeis coisas que porventura fazem por Deus. Deste modo, toda a religião lhes parece pobre, triste, débil. Vão subindo sem alegria, à custa de «sacrifícios» enfadonhos, para se aproximarem um pouco (não demasiado!) daquele Ser que imaginam Supremo e sem inquietações.

Mas a religião consiste no que Deus faz por nós: as grandes e estupendas coisas que Deus inventa para nós. Deus é de tal modo Bom que é Ele que se aproxima. Tudo quanto nos pede é que nos maravilhemos com Ele. Não temos mais do que admirar e aquietar-nos. Seremos religiosos na medida do nosso deslumbramento. «O Senhor fez por mim maravilhas».

Deus não é aquele que recebe e muito menos aquele que arrebata: é Aquele que dá, que perdoa e cujos benefícios cantaremos por toda a eternidade.

Religião fácil? Desenganai-vos. É penoso para nós sermos amados gratuitamente, pois aceitar tal amor é admitir que não valemos nada, que não valeríamos nada sem este amor que nos cria. E é também aceitar sermos criados... à Sua imagem. Aceitar entrar neste jogo terrível de um amor que nada calcula, nada avalia, tudo espera. Se temos tanto medo, é porque sabemos perfeitamente que tal amor é um apelo irresistível a amarmos daquela maneira. Sem condições.»
Louis Evely, em "Tu és esse homem"

domingo, 9 de março de 2008

Confissões

Dedico este post ao Pe. Sandro Rogério

«Deixa-me dizer-te, meu caro, pode bem acontecer que vás através da vida sem saber que debaixo do teu nariz existe um livro no qual a tua vida é descrita em todo o detalhe. Aquilo do qual nunca te deste conta antes, vais relembrando aos poucos, assim que comeces a ler esse livro, e encontras e descobres... alguns livros tu lês e lês e não lhe consegues encontrar qualquer sentido ou lógica, por mais que tentes. São tão "espertos" que não consegues perceber uma palavra daquilo que dizem... Mas esse livro que talvez esteja logo debaixo do teu nariz, tu lês e sentes-te como se tivesses sido tu próprio a escrevê-lo, tal como - como é que hei-de dizer ? - tal como tivesses tomado posse do teu próprio coração - qualquer que este possa ser - e o tivesse virado do avesso de forma que as pessoas o consigam ver, e descrito com todos os detalhes(...)» - Fiodor Dostoievski, in "Pobre Gente"

«Não há no mundo livros que se devam ler, mas somente livros que uma pessoa deve ler em certo momento, em certo lugar, dentro de certas circunstâncias e num certo período da sua vida»- Lin Yutang




"Nada tinha para te responder quando me dizias: Levanta-te, tu que dormes, e ergue-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará (1) ; e a ti, que mostravas de todos os lados que dizias a verdade, não havia absolutamente nada que eu te pudesse responder, convencido da verdade, a não ser apenas umas palavras arrastadas e sonolentas: «Já vou, vou já, só mais um bocadinho.» Mas o «já vou» e o «vou já» não tinham fim, e o «só mais um bocadinho» prolongava-se em muito. Em vão me deleitava na tua Lei, segundo o homem interior, uma vez que outra lei lutava nos meus membros contra a lei do meu espírito e me levava cativo na lei do pecado, que estava nos meus membros (2). Pois é lei do pecado a violência do hábito, que arrasta e prende o espírito mesmo contra a sua vontade, sendo isso merecido, porque é voluntariamente que nele cai. (...)"

(1) Efésios 5:14
(2) Romanos 7: 22-23

"... Tu estavas junto de mim, eu suspirava e tu ouvias, flutuava e tu seguravas o leme, caminhava pela via larga do mundo e não me abandonavas."

"... quanto mais aguda era a preocupação, que roía o meu íntimo, sobre a verdade a que me devia agarrar, tanto mais me envergonhava de ter sido iludido e enganado durante tanto tempo com a promessa de certezas e de, com pueril erro e entusiamo, ter tagarelado tantas incertezas como se certezas fossem. Mais tarde tornou-se-me evidente que eram falsidades."

"Eu caminhava nas trevas e em terreno resvaladiço, buscava-te fora de mim e não te encontrava, Deus do meu coração; chegara ao profundo do mar, e desanimava, e desesperava de encontrar a verdade."

"E onde estava eu quando te procurava? E tu estavas diante de mim, mas eu afastara-me de mim e não me encontrava: e muito menos a ti!"

"Ó minha alegria que tardaste em chegar! Calavas-te então, e eu continuava a afastar-me de ti atrás de várias e várias estéreis sementes de dor, com um orgulhoso abatimento e um desassosegado cansaço..."

"(...) tu estavas junto de mim, eu suspirava e tu ouvias, flutuava e tu seguravas o leme, caminhava pela via larga do mundo e não me abandonavas..."

Santo Agostinho, em "Confissões"

sábado, 8 de março de 2008

Teologia

«O teste crucial de qualquer teologia é este: é o Deus apresentado um Deus que se possa amar, e amar de todo o coração, alma, entendimento e força? Se a resposta ponderada e sincera é "não", então é necessário procurar em outro lugar ou com maior profundidade. Pouco importa a sofisticação intelectual ou doutrinária da abordagem teológica. Se ela não apresenta às pessoas um Deus que se possa amar - um ser radiante, feliz, amigável, acessível e absolutamente capaz -, então está errada. Não devemos continuar na mesma direcção, mas buscar um outro caminho.»


Dallas Willard, em "Conspiração Divina"

quinta-feira, 6 de março de 2008

A Pureza Absoluta do Amor

Compreendamos que somos pecadores, não em relação a regras de moral, nem mesmo em relação a uma espiritualidade. Somos pecadores em relação à pureza absoluta do amor. Esta pureza do amor é necessária para que a minha vocação se realize, uma vez que se trata de entrar em Deus e de viver a sua vida. Isso só será possível quando já não houver em mim a mais pequena réstia de egoísmo, e para falar de S. Bernardo, o menor retorno de mim sobre mim; quando já não houver a menor preocupação comigo mesmo e a menor tentação de me olhar ao espelho. Só nesse momento é que posso entrar na glória de Deus, mas não antes.

Estamos a falar da pureza absoluta do amor, isto é, de um amor absolutamente purificado de todo o egoísmo. Não nos enganemos com esta palavra "pureza". Habituámo-nos a chamar pureza apenas ao que diz respeito à carne, à luxúria, ao sexto mandamento. Não é disso que se trata aqui, mas sim de um amor sem mistura de egoísmo.

É em relação a isso que eu sou pecador; por outras palavras, a minha vocação é a pureza absoluta do amor, e tenho de reconhecer que o meu ponto de partida é impuro. Na glória de Deus, amarei como Deus ama, sem o menor retorno sobre mim mesmo.



François Varillon, em "Viver o Evangelho"

terça-feira, 4 de março de 2008

Salvação

A salvação (...) é o esvaziamento, a desapropriação de nós mesmos!(...)

O Pai só é para o Filho, o Filho só é para o Pai, o Espírito Santo é a energia do amor que faz com que Eles sejam um para o outro. Fizemos da salvação algo que se pode possuir, quase que em sentido físico. Seria uma espécie de «sucesso desportivo ideal», e os santos os únicos que o teriam alcançado. Se considerarmos que o fim da nossa vida, dos nosso esforços, é a nossa salvação pessoal, desconhecemos por completo o projecto de Deus e estamos à margem do espírito de Cristo.(...)

Em pleno Sermão da Montanha, Jesus diz-nos: «Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 48). É preciso que compreendamos bem o que isto quer dizer: «Sede Pai com Ele!» Isto é: «Tende a preocupação permanente de toda a comunidade». A perfeição do Pai é a de estar todo dado aos seus filhos. Não façamos do amor ao próximo um meio de salvação ou uma condição para a salvação. Seria subordinar os outros a nós próprios, ou seja, seria não os amar. Dar-me aos outros pelo facto do dom de mim mesmo ser condição para a salvação seria precisamente não me dar. O dom de si mesmo, isto é, o amor do próximo, é constitutivo da salvação. Não é um meio para a salvação, não é uma condição para a salvação. É a própria salvação.



François Varillon, em "Viver o Evangelho"

segunda-feira, 3 de março de 2008

Deus não é senão amor

Escrevi este texto em verso inspirado no livro "Viver o Evangelho" de François Varillon. Um livro que me tem encantado e aberto novos horizontes de fé.

Deus não é senão amor;
Amor que recria, ilumina, unifica,
cura, transforma, diviniza...

É preciso amar mais,
sempre mais,
até ao fim,
até à morte.
Sim, dar a vida pelos amigos,
se for preciso.

Só amando assim
seremos homens e mulheres verdadeiramente livres;
Porque o homem é homem quando ama;
quando se torna semelhante a Deus.
Somos livres quando não há egoísmo
misturado com o nosso amor.

Amar até doer.
Amar até alcançarmos
a pureza absoluta do amor;
sem mácula de egoísmo,
sem retorno sobre si mesmo.

Amor é dom e acolhimento;
dom de si mesmo,
movimento para o outro,
preferência do outro
e não de nós mesmos.

Que significa a cruz?
É o despojamento do amor próprio,
da vontade própria
e do interesse próprio.

Deus não é senão amor;
Amor que exprime a sua plena profundidade
no perdão...
"Deus não só esquece a falta,
mas esquece o próprio perdão".
O Perdão é a graça das graças;
é o dom perfeito.
Por isso, temos de perdoar sempre;
"Porque aquele que não perdoa,
volta as costas a Deus,
ao que há de mais profundo em Deus".

Só experimentamos a paternidade de Deus no perdão.

Deus tem profunda alegria em perdoar.
Se quero que a minha alegria
seja semelhante à de Deus,
que é a alegria de perdoar,
é preciso que a minha alegria seja a de ser perdoado,
e que seja a minha suprema alegria.

Texto baseado em "Viver o Evangelho" , de François Varillon

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Dominique Voillaume - Viver para Deus (2ª parte)

Certa manhã Dominique deixou de aparecer no seu banco no parque. Os homens ficaram preocupados. Poucas horas depois ele foi encontrado morto na sua modesta habitação. Morreu na obscuridade de um cortiço parisiense.

Dominique Voillaume nunca tentou impressionar ninguém, nunca se perguntou se a sua vida era útil ou o seu testemunho significativo. Nunca sentiu que tinha de fazer algo grande para Deus.
O que ele de facto fez foi manter um diário. Foi encontrado pouco depois da sua morte na mesa-de-cabeceira junto da sua cama.
A sua última entrada é uma das coisas mais espantosas que já li:

«Tudo o que não é amor de Deus não tem sentido para mim. Posso honestamente dizer que não tenho interesse em coisa alguma que não seja o amor de Deus que está em Cristo Jesus. Se Deus quiser, a minha vida será inútil pela minha palavra e o meu testemunho. Se Ele quiser, a minha vida dará fruto através das minhas orações e sacrifícios. Mas a utilidade da minha vida é preocupação dEle, não minha. Seria indecente da minha parte preocupar-me com isso.»

Em Dominique Voillaume vi a realidade da vida vivida integralmente para Deus e para os outros. Depois de uma noite inteira de vigília de oração por parte dos seus amigos, ele foi enterrado numa caixa de pinho sem nenhum adorno no quintal da casa dos Irmãozinhos em Saint-Remy. Mais de sete mil pessoas de toda a Europa juntaram-se para presenciar o seu funeral.



Brennan Manning, em "O Evangelho Maltrapilho"

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Dominique Voillaume - Viver para Deus(1ª parte)


Dominique Voillaume é para a maioria de nós um completo desconhecido, um ser anónimo, um nome estranho. Para mim, também o era, até conhecer um pouco da sua história de vida através das palavras de Brennan Manning.

Brennan Manning conviveu muito de perto com Dominque, viveu e partilhou existência comunitária com ele. A forma como ele descreve o modo de vida, a maneira de ser, a capacidade de amar e doar-se de Dominique não nos pode deixar indiferentes perante o seu exemplo de serviço a Deus e ao próximo; o seu testemunho simples de fidelidade ao amor de Deus.

Eu não podia deixar de partilhar esta história real com todos vós, caros leitores, amigos, irmaõs...
Estou certo que todos os que lerem esta história serão enriquecidos e receberão motivação especial e forte encorajamento para prosseguir no Caminho.

O texto é extenso, por isso dividi-o em duas partes. Se Deus quiser, a 2ª parte será postada amanhã.

Brennan Manning diz: "Dominique Voillaume influenciou a minha vida como poucas pessoas fizeram...". Apesar de não conhecer pessoalmente Dominique, posso afirmar que o pouco que conheço do seu testemunho de vida influenciou profundamente a minha maneira de olhar e compreender o mundo, as pessoas, o perdão, o amor, o Evangelho...

Eis uma forma verdadeira, autêntica, simples, despojada, desinteressada e honesta de viver o Evangelho, de obedecer ao mandamento essencial que o Mestre Jesus nos deixou: «O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.» (João 15:12)

«Dominique Voillaume influenciou a minha vida como poucas pessoas fizeram. Certa manhã de ano novo em Saint-Remy, na França, sete de nós na comunidade dos Irmãozinhos de Jesus estávamos sentados ao redor de uma mesa numa antiga casa de pedra. Estávamos vivendo uma vida contemplativa e sem clausura entre os pobres, tendo os dias devotados ao trabalho manual e as noites envolvidas em silêncio e oração.
A mesa do café da manhã ganhou ânimo quando a nossa conversa direccionou-se para o nosso ofício diário. Um irmão alemão observou que o nosso salário estava abaixo do mínimo (sessenta centavos por hora). Comentei que os nossos empregadores nunca eram vistos na igreja da paróquia no domingo de manhã. Um irmão francês sugeriu que isso demonstrava hipocrisia. Um irmão espanhol disse que eles eram grosseiros e gananciosos. A tonalidade foi tornando-se mais cáustica e as salvas mais inclementes. Concluímos que os nossos patrões avarentos eram cretinos, mesquinhos e egocêntricos, que dormiam o domingo inteiro e jamais alçavam a mente em acção de graças a Deus.

Dominique estava sentado na ponta da mesa. Ao longo de toda a nossa discussão ele não havia aberto a boca. Olhei de relance para a ponta da mesa e vi lágrimas rolando ao longo das suas faces.
- Qual é o problema, Dominique? - perguntei.
A sua voz era quase inaudível. Tudo o que ele disse foi:
- Ils ne comprennent pas.
Eles não entendem.

Quantas vezes desde aquela manhã de ano novo essa única frase foi capaz de transformar o meu ressentimento em compaixão?
Quantas vezes tenho relido a história de paixão de Jesus nos evangelhos através dos olhos de Dominique Voillaume, visto Jesus nos espasmos da agonia da morte, espancado e intimidado, flagelado e cuspido, dizendo: "Pai, perdoa-os, ils ne comprennent pas".

No ano seguinte, Dominique, um sujeito esguio e musculoso de um metro e noventa de altura, sempre usando uma boina azul-marinho, descobriu aos 54 anos que estava a morrer de um cancro inoperável. Com a permissão da comunidade ele mudou-se para uma vizinhança pobre de Paris e começou a trabalhar como guarda nocturno numa fábrica. Voltando para casa todas as manhãs às oito ele ia directamente para um parquezinho no lado oposto da rua em que vivia e sentava-se num banco de madeira. Vadiando pelo parque havia marginais - vagabundos, bêbados e fracassados, velhos sujos que olhavam provocativamente as mulheres que passavam.
Dominique nunca os criticava, censurava ou repreendia. Ele ria, contava histórias, dividia os doces que trazia, aceitava-os como eram. Por viver tanto tempo do seu santuário interior ele transmitia uma paz, um sereno senso de autodomínio e hospitalidade de coração que levava os jovens cínicos e velhos derrotados a gravitarem ao redor dele como ovos ao redor do bacon. O seu testemunho simples consistia em aceitar os outros como eram sem fazer perguntas e permitindo que eles se sentissem em casa no seu coração. Dominique foi a pessoa menos incriminatória que jamais conheci. Ele amava com o coração de Jesus Cristo». (continua)


Brennan Manning, em "A assinatura de Jesus"

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Qualidades do serviço a Deus

Primeiramente deve ser sincero. Reparemos nesta pequena frase de S. Paulo, na segunda carta aos Coríntios (6, 6): «caritate non ficta, uma caridade não fingida». Aprofundemos isto, começando por perguntar-nos se a nossa caridade não será por encomenda. Tenhamos a preocupação de prestar um serviço sincero, para que possamos dizer como Cristo: «O meu alimento é fazer a vontade de meu Pai» (cfr. Jo 4, 34). O meu alimento, quer dizer, aquilo que eu tomo todos os dias, que é absolutamente necessário à minha vida. (...)

Em segundo lugar, esse serviço tem que ser muito real. Não podemos ficar em palavras. «Não são aqueles que dizem: "Senhor, Senhor" , que entrarão no Reino, mas aqueles que fazem [sempre o verbo fazer] a vontade do meu Pai» (Mt 7, 21). «Meus filhinhos, não amemos em palavras e com a língua, mas em actos e em verdade» ( 1 Jo 3, 18). (...)

Em terceiro lugar, o nosso serviço deve procurar ser perfeito - nunca o será, claro - porque se trata de Deus e a caridade fraterna é uma virtude teologal (...) . As virtudes teologais são as que nos ligam directamente a Deus. Tenhamos presente a grande cena do juízo final, em Mateus 25. O infeliz que alimentaste, o mendigo que vestiste, o prisioneiro que visitaste, o desgraçado a quem ninguém amava e que olhaste com amizade, era eu. Jesus está no mendigo, na religiosa marginalizada na sua comunidade por não ter um feitio fácil. E Jesus, é rigorosamente Jesus. É preciso respeitar Deus em todo e qualquer serviço humano. Isto exclui, à partida, a negligência voluntária.

Em quarto lugar, o serviço deve ser desinteressado. (...) A recompensa é amar como Deus ama. Não há outra. A recompensa do nosso desinteresse medíocre será um desinteresse absoluto. A nossa recompensa será a de nos apagarmos completamente e ficarmos felizes por não dizer «eu» durante toda a eternidade, de tal maneira seremos movimento puro para o outro e para os outros.(...)

Façamos a pergunta a nós mesmos: verdadeiramente, desejamos outra recompensa além dessa? Servimos os irmãos para assegurar a salvação? Espero que não. Servimos os irmãos porque somos amados. Qual é de facto a pureza do nosso serviço? É precisamente porque somos amados que não podemos deixar de querer amar sempre mais. (...) Tenho desinteresse porque sou amado. E o que Deus me dá em recompensa é um desinteresse ainda maior. Jesus diz para nos considerarmos «servos inúteis» (Lc 17, 10).

É evidente que servir a Deus não é prestar-Lhe um serviço. Que serviço poderíamos prestar a Deus? Servir a Deus é assemelharmos-nos a Ele. É ser verdadeira e plenamente homem. É sermos filhos dignos do nosso Pai. Creio que Deus não nos tratará como servos inúteis. Segundo o Evangelho, somos nós que devemos dizê-lo: «Quando tiverdes feito tudo o que tendes a fazer, dizei a vós mesmos: Somos servos inúteis». Mas não há o perigo que Deus nos diga isso. O que Ele quer é chamar-nos seus amigos. Nós é que entendemos que somos servos. Mas os serviços que prestamos são serviços de amigos de Jesus, mesmo que seja a mais ingrata das tarefas humanas, a mais monótona, a que mais vazia nos parece de toda a amizade humana.

E finalmente - mas nunca chegaríamos ao fim - o nosso serviço deve ser fiel, quer dizer, sem desistências, sem desânimos. Não há nada como os pequenos trabalhos humildes e monótonos para revelarem a verdadeira fidelidade do coração. É preciso muito mais amor para dar a vida gota a gota, de manhã à noite, dia após dia, sem afrouxar e sem desanimar, numa vida difícil de comunidade, do que para dar a vida toda de uma só vez. Não há nada mais difícil do que uma comunidade humana. Bonhoeffer dizia: «Não pode deixar de ser um dom de Deus». Creio que não há comunidade sem o Espírito Santo; fora dele é pura ilusão.

François Varillon S. J. , em "Viver o Evangelho"

INDAGAÇÕES SOBRE O CARPINTEIRO

“A árvore é força vertical da natureza, da terra em direcção ao céu. Tem a postura da espécie humana. Por isso o cego que Jesus curou em Bet...