quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Formação Espiritual Cristã

A formação espiritual cristã refere-se basicamente a um processo guiado pelo Espírito, cujo objectivo é formar o mundo interior do eu de tal maneira que ele se torne semelhante ao ser interior de Cristo (...) À medida que a formação espiritual em Cristo obtiver êxito, a vida interior do indivíduo transformar-se-á numa expressão natural ou num fluxo do carácter e dos ensinamentos de Jesus.

A obediência é o resultado essencial da formação espiritual cristã (Jo 13:34-35; 14:21).

A semelhança com o ser interior de Cristo não é uma façanha humana. Ela é, em conclusão, um dom da graça.
Embora, devamos agir, os recursos para a formação espiritual vão muito além do humano. Eles vêm da presença interactiva do Espírito Santo na vida dos que depositam a sua fé em Cristo; também vêm dos tesouros espirituais - pessoas, eventos, tradições, ensinamentos - armazenados no corpo do povo de Cristo na terra, no passado e no presente.

A formação espiritual é, na prática, o caminho de descanso para o cansado e sobrecarregado, do jugo suave e do fardo leve (Mt 11:28-30), da limpeza do interior do copo e do prato (Mt 23:26), da árvore boa que não pode dar fruto ruim (Lc 6:43). E é o caminho ao longo do qual os mandamentos de Deus não são considerados pesados, nem "penosos" (1 Jo 5:3).

A "aprendizagem" básica aqui não é sobre como agir, do mesmo modo que o erro ou o problema básico na vida humana não está no que fazemos. Muitas vezes, o que os seres humanos fazem é tão horrível que podemos, talvez, ser desculpados por acreditar que tudo o que importa é impedi-los. Mas isso trata-se, então, de uma fuga do verdadeiro horror: o coração de onde as acções terríveis procedem. Em ambos os casos, é o que somos - em pensamentos, sentimentos, disposições e escolhas - na vida interior o que conta. A profunda transformação ali é a única coisa que pode definitivamente vencer o mal exterior (...)

É o amor em si - não o comportamento amoroso, ou mesmo o desejo ou intenção de amar - que tem o poder de "sempre proteger, sempre confiar, sempre esperar, suportar qualquer coisa e nunca desistir (1 Co 13:7-8). Simplesmente tentar agir de forma amorosa levará ao desespero e ao fracasso do amor. O que trará a raiva e a desesperança.

Se o povo cristão entrar genuinamente para o Caminho do Coração de Cristo, as pessoas encontrarão um modo seguro de tornar-se o que foram destinadas a ser: completamente boas e religiosas, e purgadas por completo da arrogância, da insensibilidade e da auto-suficiência. As assembleias cristãs voltarão a ser como foram em muitas épocas passadas e que o mundo desesperadamente pede hoje - incomparáveis escolas de vida - vida que é eterna agora em qualidade, bem como eterna em quantidade.

A formação espiritual é algo que os seres humanos podem e devem vivenciar - como indivíduos e em comunhão com outros aprendizes de Jesus. Enquanto ela é simultaneamente uma manifestação profunda da acção graciosa de Deus pela sua Palavra e o seu Espírito, também é algo pelo qual somos responsáveis perante Deus e que podemos procurar alcançar de maneira sensata, sistemática. (os grifos são meus)



Dallas Willard, em "A Renovação do Coração"

domingo, 20 de janeiro de 2008

Confia na voz interior

Desejas realmente converter-te? Estás disposto a modificar-te? Ou continuas agarrado ao teu velho modo de vida com uma mão enquanto com a outra pedes aos outros que te ajudem a mudar?

A conversão não é com certeza algo que possas encontrar por ti mesmo. Não se trata de um exercício da própria vontade. Tens que confiar na voz interior que mostra o caminho. Tu conheces essa voz. Ouve-la com frequência. Mas depois de ouvir com clareza o que ela te pede começas a fazer perguntas, a fabricar objecções e a pedir a opinião de todos. Assim deixas-te enredar por inúmeros pensamentos, sentimentos e ideias muitas vezes contraditórias e perdes contacto com o Deus que habita dentro de ti. E acabas por te tornar dependente de todas as pessoas que reuniste em torno de ti.

Só dando constantemente ouvidos a essa voz interior conseguirás converter-te a uma nova vida de liberdade e alegria.


Henri Nouwen, em "A Voz Íntima do Amor"



«Meu primeiro contato com a obra de Henri Nouwen foi através de seu livro "A Volta do Filho Pródigo". Diante da proposta do livro -- tecer uma teia entre o famoso texto do Evangelho de Lucas e a pintura magistral de Rembrandt inspirada no tema --, não foi difícil concluir que se tratava de alguém especial, não tanto por suas conquistas acadêmicas (holandês de origem, experiência nos Estados Unidos como professor em Yale e Harvard), mas por sua profundidade espiritual e visão sensível e honesta da trajetória humana. Com Nouwen, entre muitas lições, tenho aprendido a conviver com minhas fraquezas e fragilidades, com meus medos e incapacidades, com minha imensa sede de Deus, semelhante àquela descrita por Agostinho na oração que abre a sua autobiografia (aliás, a primeira autobiografia de que se tem notícia na história da literatura mundial), Confissões: "O nosso coração não encontra descanso até que descanse em ti". O descanso divino para Nouwen não veio por meio de suas conquistas profissionais. Ele terminou seus dias trabalhando em um lar para pessoas com deficiências físicas e mentais extremas. Vivendo nessa comunidade pequena e frágil, aprendeu a encontrar sentido e propósito para a sua existência. Seus muitos livros atestam que ele encontrou o caminho rumo ao que procurava. Revelam sensibilidade, honestidade, profundidade, espiritualidade, valores que nos são tão caros e ao mesmo tempo se mostram cada dia mais raros. Mas parece ser esse mesmo o caminho: para baixo. "Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz!" (Fp 2.5-8). Na sociedade da conquista e da escalada social, na rota para cima, o discurso de Nouwen parece se perder no vazio. A força de sua autenticidade, no entanto, faz com que sua mensagem se torne cada dia mais necessária e relevante. Impossível não lembrar o termo cunhado por Eugene Peterson que define o caminho da sanidade nos círculos religiosos cristãos, ultimamente tão adoentados -- "espiritualidade subversiva". Só algo que seja concebido nas catacumbas romanas de nossa sociedade extremamente consumista e desesperada, e que de maneira sutil brota com indescritível força interior, paradoxalmente demonstrada por meio da fraqueza, será capaz de, como clama Caetano Veloso em sua canção "Podres Poderes", "nos salvar destas trevas e nada mais".» - Jorge Camargo, mestre em ciências da religião, é intérprete, compositor, músico, poeta e tradutor. (os grifos são meus)

sábado, 19 de janeiro de 2008

Dá de graça


O teu amor, na medida em que provém de Deus, é permanente. Podes assumir a permanência do teu amor como uma graça de Deus. Podes dar esse amor permanente aos outros. Quando deixam de te amar, não precisas deixar de amar. A nível humano, as mudanças talvez sejam necessárias, mas nível divino podes manter-te fiel ao teu amor.

Um dia sentir-te-ás livre para dar amor gratuito, um amor que não pede nada em troca. Um dia também te sentirás livre para receber amor gratuito. O amor é-te oferecido muitas vezes, mas não o reconheces. Ignora-lo, porque estás determinado a recebê-lo da mesma pessoa a quem o deste.

O grande paradoxo do amor é que precisamente quando te reconheces como filho bem-amado de Deus, quando estabeleceste fronteiras para o teu amor e foste, por conseguinte, capaz de dominar as tuas carências, começas a crescer na liberdade de dar de graça.





Henri nouwen, em "A voz Íntima do Amor"

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Regressa sempre ao caminho para a liberdade



Quando pareces perder repentinamente tudo o que pensavas ter conquistado não desesperes. A tua cura não é linear. Deves contar com reveses e retrocessos. Não digas a ti mesmo: "está tudo perdido. Tenho que recomeçar do princípio". Não é verdade. Não se perde o que já se conquistou.


Há por vezes pequenas coisas que avolumam e te fazem sentir perdido por momentos. A fadiga, um comentário aparentemente frio, a incapacidade de alguém para te escutar, um esquecimento inocente, que se assemelha a desprezo - quando tudo acontece ao mesmo tempo podes sentir que voltaste ao princípio. Mas tenta pensar nesses acontecimentos como num desvio temporário da tua caminhada. Quando regressares ao caminho regressarás ao ponto onde o abandonaste, não ao princípio.


É importante não te demorares nos pequenos momentos em que não progrides. Tenta regressar a casa imediatamente, a esse ponto sólido dentro de ti. Caso contrário esses momentos começam a ligar-se a momentos semelhantes e juntos tornam-se suficientemente poderosos para te afastarem para muito longe do teu caminho. Tenta manter-te atento a distracções aparentemente inócuas. É mais fácil regressar ao caminho quando se está à beira da estrada do que quando se é arrastado para um pântano vizinho.


Em tudo continua a confiar em que Deus está contigo, em que Deus te deu companheiros de caminhada. Regressa uma e outra vez ao caminho para a liberdade.


Henri Nouwen, em "A Voz Íntima do Amor"

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Reconhece-te verdadeiramente amado



Algumas pessoas viveram vidas tão oprimidas que os seus verdadeiros eus se lhes tornaram inacessíveis. Precisam de ajuda para quebrarem essa opressão. O poder para se libertarem tem que ser pelo menos tão forte como poder que as oprime. Por vezes precisam de autorização para explodirem: para deixar vir à tona as suas emoções mais profundas e para se libertarem de forças estranhas. Gemer, gritar, chorar e até mesmo a luta física podem ser expressões de libertação.

Tu não pareces, no entanto, precisar de tais explosões. Para ti o problema não está em retirar qualquer coisa do teu sistema mas sim em incluir algo que aprofunde e fortaleça a tua sensação de virtude e permita que a tua angústia seja abraçada pelo amor.

Descobrirás que quanto mais amor integrares e a ele te agarrares, tanto menos receoso serás. Falarás com mais simplicidade, mais directamente, sem receio das reacções alheias. Usarás também menos palavras, confiante de que comunicas o teu verdadeiro eu mesmo quando não falas muito.

Os discípulos de Jesus tinham uma sensação real da sua presença amorosa qaundo saíam a pregar. Tinham-no visto, comido com Ele e conversado com Ele após a sua ressurreição. Já viviam em profunda relação com Ele e dela retiravam a força para proclamar com simplicidade e sem rodeios, sem receio de serem mal entendidos ou desprezados.

Quando melhor te conheceres - espírito, mente e corpo - como verdadeiramente amado, mais livre te sentirás para proclamar a Boa Nova. Esta é a liberdade dos filhos de Deus.



Henri Nouwen, em " A Voz Íntima do Amor"

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Aceita a tua identidade de filho de Deus



Em especial para o João Eduardo


Ser filho de Deus é a tua verdadeira identidade, que deves aceitar. Quando a tiveres assumido e integrado em ti, poderás viver num mundo que te oferece muito mais alegria, bem como mais sofrimento. Podes receber o elogio e a censura que vêm ao teu encontro como uma oportunidade para fortalecer a tua identidade básica, porque a identidade que te torna livre enraíza para além de todo o elogio ou censura humanas. Pertences a Deus e é como filho de Deus que és enviado ao mundo.

Precisas de direcção espiritual; precisas de pessoas que te mantenham ancorado à tua verdadeira identidade. A tentação de te desligares desse ponto profundo onde Deus habita e te deixares abafar pelo louvor ou pela censura do mundo está sempre presente.

Uma vez que desconheceste durante muito tempo esse local da tua identidade de filho de Deus, os que são capazes de te tocar nesse ponto tiveram um poder repentino e esmagador sobre ti. Tornaram-se parte da tua identidade. Já não eras capaz de viver sem eles. Mas eles não podiam desempenhar esse papel divino, por isso deixaram-te e sentiste-te abandonado. Mas foi precisamente essa experiência de abandono que te fez realizar de novo a tua verdadeira identidade de filho de Deus.

Só Deus pode habitar esse lugar profundo e dar-te uma sensação de segurança. Mas o perigo permanece, se deixares outros roubarem-te o teu cento sagrado, o que te mergulhará na angústia.

Talvez seja preciso muito tempo e disciplina para reconheceres inteiramente o teu ser profundo e escondido e o teu ser público, que é reconhecido, amado e aceite, mas igualmente criticado pelo mundo. Contudo, começarás a sentir-te gradualmente mais ligado e capacitar-te-ás mais cabalmente de quem verdadeiramente és - um filho de Deus. Aí reside a tua verdadeira liberdade.

Henri Nouwen, em "A voz Íntima do Amor"

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Deixa-te ser inteiramente recebido


Em especial para o Pe. Sandro Rogério

Dar-te aos outros sem esperar nada em troca só é possível quando fores inteiramente recebido. Sempre que descobres esperar alguma coisa em troca do que deste ou ficas desiludido quando nada obténs em troca, é um alerta a que compreendas que tu próprio ainda não te sentes inteiramente recebido. Só quando te reconheces incondicionalmente amado - ou seja, inteiramente recebido - por Deus serás capaz de dar de graça. Dar sem pedir nada em troca é confiar em que as tuas necessidades serão satisfeitas por aquele que te ama incondicionalmente.
É confortável saber que não precisas de proteger a tua própria segurança, mas que te podes entregar completamente ao serviço do próximo.

A fé consiste precisamente em confiar que aquele que dá de graça receberá de graça, mas não necessariamente da pessoa a quem deu. O perigo está em te esgotares no serviço ao próximo, na esperança de que eles te recebam inteiramente. Em breve sentirás que os outros levam consigo partes de ti mesmo. Não te podes dar aos outros se não pertences a ti mesmo, e só podes possuir-te verdadeiramente quando fores inteiramente recebido num amor incondicional.

Muito do acto de dar e receber possui uma qualidade violenta, porque os que dão e recebem agem mais por necessidade do que por confiança. O que aparenta ser generosidade é realmente manipulação e o que parece amor é realmente um pedido aflitivo de afecto e amparo. Quando te reconheces como inteiramente amado, serás capaz de dar de acordo com a capacidade alheia de receber, e serás capaz de receber de acordo com a capacidade alheia de dar. Sentir-te-ás grato pelo que te foi dado sem te apegares a isso, e alegre com o que podes dar sem te gabares por isso. Serás uma pessoa livre, livre para amar. (os grifos são meus)


Henri Nouwen, em " Voz Íntima do Amor"

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Autonegação

"Sendo a obediência a si mesmo a fonte mais segura de destruição para os homens, assim o único porto seguro é não ter outra vontade, outra sabedoria, senão seguir o Senhor aonde quer que nos conduza. Permitamos que esse, então, seja o primeiro passo, abandonar a nós mesmos, e aplicar toda a energia mental ao serviço de Deus." - João Calvino

Calvino baptizou de "autonegação" a transformação global da personalidade, termo que usou para sintetizar toda a vida cristã. Jamais deve ser confundida com auto-rejeição, nem deve ser pensada como acto doloroso e trabalhoso, repetido de tempos em tempos em razão de grande resistência interna. Trata-se de uma condição global, organizada, da vida no reino de Deus, mais bem descrita como "morte do eu".(...)

(...) O que é a "autonegação" ("morte do eu"), que anda de mãos dadas com a restauração da alma e, logo, com o todo da pessoa? No início, parece algo terrivelmente negativo, cujo objectivo é aniquilar-nos. Sendo franco, da perspectiva da alma arruinada, a autonegação é e sempre será tão brutal quanto parece à maioria das pessoas à primeira vista. A vida arruinada não será complementada, mas substituída. Precisamos simplesmente perder a vida, a arruinada, sobre a qual a maioria das pessoas, de qualquer modo, tanto se queixa.

Qualquer um que quiser salvar a sua vida perde-la-á, mas qualquer um que perder a sua vida por minha causa, encontra-la-á. Pois, de que adianta você conquistar o mundo inteiro se no processo perder a sua vida (alma) - perder a si mesmo. Ou o que o homem poderá dar em troca da sua alma? Mateus16-25-26; Mc 8:35-36: Lc 9:24-25

Quando Jesus diz que devemos perder a vida se quisermos encontrá-la, está a ensinar-nos, pelo lado negativo, que não devemos fazer de nós e da nossa "sobrevivência" o principal ponto de referência do nosso mundo - ou seja, não devemos tratar de nós como Deus deveria ser tratado, ou tratar-nos como Deus.(...)
(...) Tornar os meus desejos supremos é o que Paulo descreveu como ter "mente carnal" ou "mente da carne", que é um estado de morte (Rm 8:6).
(...) Quando Jesus diz que os homens que encontram a sua vida, ou alma, perde-la-ão, ele está mostrando que os que acreditam estar a controlar a sua vida - «Eu sou o mestre do meu destino: eu sou o capitão da minha alma», como disse o poeta William Ernest Henley - descobrirão em definitivo que não estão no controle: estão totalmente à mercê de forças além deles, e até mesmo dentro deles.(...)

(...) A autonegação em Mateus 16:24 e em outras passagens dos evangelhos refere-se sempre à rendição de um eu menor, morto, para um eu maior, eterno - a pessoa planeada por Deus quando a criou (...) Jesus não nos nega uma realização pessoal, mas mostra-nos o único caminho verdadeiro para alcançá-lo. No Mestre "encontramos a nossa vida". (...)

(...)Estar morto para o eu é a condição em que a mera circunstância de não conseguir o que quero já não me surpreende ou me ofende, e não tem nenhum controle sobre mim.(...)
Quem está morto para o eu não perceberá certas coisas que outros vêem - por exemplo: desprezo social, comentários mordazes, insinuações ou desconfortos físicos. No entanto, outras rejeições ao "querido eu", conforme o filósofo Kant o chamou, ainda serão percebidas, ás vezes de forma muito clara. Porém, se estivermos mortos para o eu num grau significativo, essas rejeições não nos controlarão, nem mesmo a ponto de perturbar os nossos sentimentos ou a nossa paz de espírito. Vamos ainda, como disse Francisco de Assis, "usar o mundo como uma roupa folgada, que nos toca em poucos lugares e só levemente".
Isso significa que alguém morto para o eu não tem sentimentos? Cristo estaria recomendando a "apatia" do estóico ou a eliminação do desejo, como Buda? Não. A questão não é só sentir ou desejar, mas sentir ou desejar da forma correcta, ou não ser controlado por sentimentos e desejos.

Dallas Willard, em "A Renovação do Coração"

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Negar-se a si mesmo (2ªparte)


O que significa para um homem "negar-se a si mesmo" totalmente?

Primeiro, isto significa a completa repudiação da sua própria bondade. Significa cessar de descansar sobre quaisquer obras nossas, para nos recomendar a Deus. Significa uma aceitação sem reservas do veredicto de Deus que “todas as nossas justiças (nossas melhores performances), são como trapo de imundícia” (Isaías 64:6). Foi neste ponto que Israel falhou: “Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus” (Romanos 10:3). Agora, contraste com a declaração de Paulo: “E seja achado nEle, não tendo como minha justiça a que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé..." (Filipenses 3:9).

Para um homem "negar-se a si mesmo" totalmente, deverá renunciar completamente à sua própria sabedoria. Ninguém pode entrar no reino dos céus, a menos que se torne “como criança” (Mateus 18:3). “Ai dos que são sábios aos seus próprios olhos e prudentes em seu próprio conceito!” (Isaías 5:21). “Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos” (Romanos 1:22). Quando o Espírito Santo aplica o Evangelho em poder numa alma, é para “destruir os conselhos e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” (2 Coríntios 10:5). Um mote sábio para todo o cristão adoptar é “não te estribes no teu próprio entendimento” (Provérbios 3:5).

Para um homem "negar-se a si mesmo" totalmente, deverá renunciar completamente à sua própria força. É “não confiar na carne” (Filipenses 3:3). É o coração curvando-se à declaração positiva de Cristo: “Sem mim, nada podeis fazer” (João 15:5). Este é o ponto no qual Pedro falhou: (Mateus 26:33). “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda” (Provérbios 16:18). Quão necessário é, então, que prestemos atenção à 1 Coríntios 10:12: “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe que não caia”! O segredo da força espiritual reside em reconhecer a nossa fraqueza pessoal: (veja Isaías 40:29; 2 Crônicas 12:9). Então, “fortifiquemo-nos na graça que há em Cristo Jesus” (2 Timóteo 2:1).

Para um homem "negar-se a si mesmo" totalmente, deverá renunciar completamente à sua própria vontade. A linguagem do não-salvo é, “Não queremos que este Homem reine sobre nós” (Lucas 19:14). A atitude do cristão é, “Para mim, o viver é Cristo” (Filipenses 1:21) — honrá-Lo, agradá-Lo, servi-Lo. Renunciar à sua própria vontade significa atender à exortação de Filipenses 2:5, “Que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”, o qual é definido nos versos que imediatamente se seguem como de abnegação. É o reconhecimento prático de que “não sois de vós mesmos, porque fostes comprados por bom preço” (1 Coríntios 6:19,20). É dizer com Cristo, “Não seja, porém, o que eu quero, mas o que tu queres” (Marcos 14:36).

Para um homem "negar-se a si mesmo" totalmente, deverá renunciar completamente às suas luxúrias ou desejos carnais. “O ego do homem é um feixe de ídolos” (Thomas Manton, Puritano), e estes ídolos devem ser repudiados. Os não-cristãos são “amantes de si mesmos” (2 Timóteo 3:1); mas aquele que foi regenerado pelo Espírito diz com Jó, “Eis que sou vil” (40:4), “Eu me abomino” (42:6). Dos não-cristãos está escrito, “todos buscam o que é seu e não o que é de Cristo Jesus” (Filipenses 2:21); mas dos santos de Deus está registado,“eles não amaram a sua vida até à morte” (Apocalipse 12:11). A graça de Deus está “ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente século sóbria, justa e piamente” (Tito 2:12).

Arthur W. Pink - Monergismo

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Negar-se a si mesmo

Em especial para o Daniel


«Negar-se a si mesmo é. . . voltar-se da idolatria da centralidade do eu»

«O que somos (nosso ego ou identidade pessoal) é, em parte, re­sultado da criação (a imagem de Deus) e, em parte, resultado da Queda (a imagem estragada). O ego que devemos negar, rejeitar e crucificar é o caído, tudo o que dentro de nós for incompatível com Jesus Cristo (daí os seus mandamentos: "negue-se a si mesmo" e então "siga-me"). O ego que devemos afirmar e valorizar é o criado, tudo o que em nós for compatível com Jesus Cristo (daí a sua afir­mativa de que se perdermos a nossa vida mediante a negação própria a encontraremos). A verdadeira autonegação (a negação de nosso ego falso e caído) não é a estrada para a autodestruição, mas o caminho da autodescoberta.» - John Stott


"Para sermos perfeitamente o que Deus quer que sejamos, é-nos preciso ser com toda a verdade nós mesmos. Mas, para sermos nós mesmos, de verdade, temos que encontrarmo-nos em Cristo - o que só pode acontecer se nos perdermos Nele. É esta nossa grande vocação...

Num sacrifício puro, o que realmente importa é a preferência do amor de Deus a tudo mais e o gesto mais efetivo é aquele que de modo mais claro e completo exprime essa preferência" -Thomas Merton

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

A Renovação do Coração

A nossa vida e a nossa percepção do mundo agora e no futuro são quase totalmente um simples resultado do que nos tornamos na profundeza do ser (espírito, vontade ou coração). De lá vemos o mundo e interpretamos a realidade, fazemos escolhas, partimos para a acção, tentamos mudar o mundo (...)
A maior necessidade da humanidade - incluindo você e eu - é a renovação do coração. O lugar espiritual no nosso interior, de onde vêm as nossas perspectivas, escolhas e acções, foi formado por um mundo distanciado de Deus. Agora, ele precisa ser transformado (...)

A revolução de Jesus é primeira e permanentemente uma revolução do coração ou espírito (...) O propósito de Jesus é uma revolução do carácter, que se processa pela mudança das pessoas a partir do seu interior, por uma contínua relação pessoal com Deus em Cristo e com os outros. É uma revolução que muda ideias, crenças, sentimentos e hábitos de escolha, assim como tendências corporais e relações sociais (...)

O caminho do Mestre é verdadeiramente o do coração (ou espírito). Se andarmos como Ele, devemos andar por esse nível interior. Aliás, bem poucos não compreendem essa verdade sobre Jesus. Ele salva-nos pela verdadeira restauração do coração para Deus e, então, habita ali com o seu Pai, por meio do notável Espírito divino. O coração assim renovado e habitado é a única verdadeira esperança da humanidade. (os grifos são meus)

Dallas Willard, em "A Renovação do Coração"

domingo, 6 de janeiro de 2008

Deixa que Jesus te transforme

Andas à procura de Jesus. Tentas encontrá-lo não apenas na tua mente mas também no teu corpo. Buscas o seu afecto e sabes que esse afecto envolve tanto o seu corpo como o teu. Ele encarnou para ti, para que o pudesses encontrar na carne e receber o seu amor na carne. Mas permanece em ti algo que impede este encontro. Continua a haver uma grande quantidade de vergonha e de culpa enraizada no teu corpo bloqueando a presença de Jesus. Não te sentes completamente à vontade no teu corpo; olhas para ele como se não fosse um lugar suficientemente bom, bonito ou puro para encontrar Jesus.

Quando olhas para a tua vida com mais atenção verás como ela tem estado recheada de medos, principalmente de medo daqueles que detêm autoridade: os teus pais, professores, bispos, guias espirituais e até mesmo amigos. Nunca te sentiste igual a eles e humilhaste-te sempre diante deles. Durante a maior parte da tua vida sentiste que precisavas da autorização deles para seres tu próprio.
Pensa em Jesus. Ele que foi inteiramente livre perante as autoridades do seu tempo. Ele que disse às pessoas para não se submeterem ao comportamento dos Escribas e Fariseus. Jesus viveu entre nós como igual, como um irmão. Ele quebrou as relações piramidais entre Deus e as pessoas humanas, bem como entre as próprias pessoas, e apresentou um novo modelo: o círculo, onde Deus vive em perfeita solidariedade com as pessoas e as pessoas umas com as outras. Não serás capaz de encontrar Jesus no teu corpo enquanto o teu corpo se mantiver cheio de dúvidas e receios. Jesus veio para te libertar desses nós e para criar dentro de ti um espaço onde te possas encontrar com Ele. Ele deseja que tu vivas a liberdade dos filhos de Deus.

Não desesperes, pensando que não és capaz de te modificar após estes anos todos. Penetra simplesmente na presença de Jesus como és e pede-lhe que te dê um coração intrépido, onde Ele possa estar contigo. Jesus veio para te dar um coração novo, um espírito novo, uma mente nova e um corpo novo. Deixa-o transformar-te através do seu amor, permitindo-te, por conseguinte, receber o seu afecto com todo o teu ser.(os grifos são meus)

Henri Nouwen, em A Voz Íntima do Amor

sábado, 5 de janeiro de 2008

Para ser livre...


Preciso ser Homem livre, por isso hoje medito sobre a indiferença.
Sou livre quando o egoísmo não se mistura com o amor.
Parece fácil, mas enquanto o meu amor estiver misturado com o egoísmo, nunca alcançarei o amor.

Faz parte da mesma realidade, o amor e a liberdade. Não duvido. Por vezes sinto a necessidade de uma purificação. Sinto que só posso entrar em comunhão com o meu Deus, quando em mim já não houver o mais pequeno sinal de egoísmo e de preocupação comigo mesmo.

Tenho a certeza e acredito que o meu Deus é Família de Amor, e que é somente um constante movimento para o outro. No meu Deus não há o mínimo de sinal de egoísmo. Sinto que tudo o que ainda me pertence, necessita de uma verdadeira purificação.

Suspiro e anseio pelo dia em que eu possa perguntar:
- Será que já sou capaz de amar verdadeiramente?

Suponho que a vida eterna é o amor e a alegria de amar. Suponho ainda que a alegria de amar é a mesma alegria de finalmente sair de mim mesmo e ser, como as três Pessoas da Trindade, puro movimento em direcção aos outros. Deus Amor, peço-te que me ajudes a ser cada vez mais.(os grifos são meus)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Serei Cristão?

«Só o meu Deus sabe se sou Cristão, eu não faço a mínima ideia…Acredito que ser Cristão é perceber-me inserido no projecto de Deus, o seu projecto único, e inspirar nele toda a minha vida, todas as minhas acções. Acredito que ser cristão será trabalhar para construir a Igreja, porque a Igreja é a comunidade dos Homens que reconhecem Deus como Família de Amor.Por outras palavras posso dizer que ser Cristão é trabalhar para construir a comunidade humana, trabalhar para congregar a grande família dos filhos de Deus.»


Fonte: Uma Verdadeira Fraternidade

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

"Quem sou eu?"

Viver com a percepção de quanto somos amados é o eixo em torno do qual gira a vida cristã. Ser amados é a nossa identidade, o âmago da nossa existência. Não se trata apenas de um pensamento que reflecte o nosso senso de grandeza. É o nome pelo qual Deus nos conhece, e o meio de Ele se relacionar connosco (Ap 2:17).

Quando preciso buscar uma identidade externa a mim, sou então atraído pelo acúmulo de riquezas, poder e honra. Posso também encontrar o meu centro gravitacional nos relacionamentos. Quando extraio vida e significado de qualquer outra fonte que não o facto de eu ser amado, estou espiritualmente morto. (...)

"Quem sou eu?", perguntou Thomas Merton, ao que ele mesmo respondeu: "Sou alguém amado por Cristo"


Brennan Manning, em "O Obstinado amor de Deus"

INDAGAÇÕES SOBRE O CARPINTEIRO

“A árvore é força vertical da natureza, da terra em direcção ao céu. Tem a postura da espécie humana. Por isso o cego que Jesus curou em Bet...