sexta-feira, 21 de julho de 2017

Céu

«Dizer “no Céu” não é dar o nome a um “lugar” onde está a Recompensa. É dizer o cuidado, o carinho, o amor daquele que me fala e me promete tudo isto, “do Céu”, ou seja, das próprias mãos e Coração de Deus!»

Rui Santiago Cssr

sexta-feira, 14 de julho de 2017

«As pessoas são milagres que se ignoram.» 

[Christian Bobin]

domingo, 9 de julho de 2017

Um Livro de ar

«Os livros de hoje são de papel. Os livros de outrora eram de pele. A Bíblia é o único livro de ar - um dilúvio de tinta e de vento. Um livro insensato, desvairado no seu sentido, tão perdido nas suas páginas como o vento nos parques dos supermercados, nos cabelos das mulheres, nos olhos das crianças. Um livro impossível de ter entre duas mãos tranquilas, para uma leitura serena, longínqua: pôr-se-ia imediatamente em voo, espalharia a areia das suas frases entre os dedos. [...]

Não se aprendem palavras num livro de ar. Recebe-se, de tempos a tempos, a sua frescura. Estremecemos ao sopro de uma palavra: amava-te muito antes de nasceres. Amar-te-ei, muito para lá do fim dos tempos. Amo-te em todas as eternidades. »

Christian Bobin, in "Francisco e o Pequenino"

domingo, 2 de julho de 2017

O Amor me acolheu


O Amor me acolheu, mas minha alma retrocedeu,
culpada de pó e de pecado.
Mas, clarividente, o Amor, vendo-me hesitar
desde o momento em que entrei,
aproximou-se de mim, com doçura, perguntando-me
se precisava de alguma coisa.
“Um convidado” – respondi- “digno de estar aqui”.
O Amor disse: “Tu serás o convidado”.
“Eu? mau, ingrato? Ah! meu amado,
não posso olhar para ti”.
O Amor pegou-me pela mão e, sorrindo, respondeu-me:
“Quem fez esses olhos, senão eu?”.
“É verdade, Senhor, mas eu os manchei;
que a minha vergonha me leve onde mereço”.
“E não sabes” - perguntou o Amor - “Quem tomou todas as culpas sobre si?”.
“Meu Amado, então servirei”.
“Senta-te”, disse o Amor, “e disfruta destes manjares”.
Então sentei-me e comi.

George Hebert (Séc. XVII)

domingo, 25 de junho de 2017


«Cristo é um sol coberto pelas nuvens das nossas ambições e pré-ocupações.»

[Christian Bobin]

terça-feira, 20 de junho de 2017

O Silêncio




«O silêncio coloca cada ser humano perante a sua verdade.» 

[Anselm Grun]

quinta-feira, 15 de junho de 2017

O coração de quem amamos


"Não habitamos regiões. 
Nem sequer habitamos a terra. 
O coração de quem amamos é a nossa verdadeira morada."

[Christian Bobin]

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Milagres


«Nós passamos cegos pelos milagres, sem ver que a menor explosão de uma flor é feita de milhares de galáxias, que os galhos de um ninho abandonado ou as estrelas de um céu nocturno falam da mesma ausência adorável.»

[Christian Bobin]

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Tesouros vivos



“Eles respondem ao teu aperto de mão, sorrindo fragilmente: mesmo no inferno a vida pode ressurgir por um segundo, vinda não sabemos de onde, intacta. Basta um pequeno gesto. […] Estas pessoas cuja alma e a carne são feridos têm uma grandeza que jamais terão aqueles que carregam as suas vidas em triunfo. É através dos olhos que eles dizem as coisas, e aquilo que eu li, ilumina-me melhor que os livros.” [Christian Bobin, in “La Présence pure"]

«O mundo está inundado de santos, quero dizer de mártires, porque não distingo estas duas palavras. Multiplicam-se, cada dia são mais numerosos. Chamam-lhes doentes de Alzheimer.

Devemos vê-los como tesouros vivos. Com frequência preguntam-me o caminho, perdidos num mundo mediocremente iluminado por tristes divertimentos. Buscam com mãos trémulas a mão de um anjo, porque sabem que os anjos existem. Ás vezes falam com os seus mortos. Eles que se esquecem de tudo, não se esquecem daqueles que os deslumbraram no passado. 

O meu pai viveu um ano numa dessas casas que deveriam fazer parte do património da humanidade. O seu rosto jamais se desvaneceu. Não acredito no que me dizem: ”Eles não nos reconhecem mais”. Reconhecer é amar, e amar é selvagem, indizível. Quando o meu pai já não sabia nada sobre mim, ainda sabia que eu estava presente, eu sentia-o, pude comprovar isso, e o que comprovas é maior que tudo aquilo que a ciência nos diz. Quando não se lembrava dos nomes, valia-se de artifícios. Quando lhe perguntava algo sobre mim, respondia: “Tu és aquele que nós não esquecemos” e sobre a minha mãe dizia: ”É a melhor”. Estes seres esquecidos, não esquecem nada do essencial. Isto é o que os distingue de nós. 

Acabaremos todos feitos migalhas. Vagueei pelo campo de batalha, vi almas desfiguradas. Escutei sobretudo o silêncio, um toque de alarme de silêncio. O que vi era sublime, banal e terrível. Os rostos fechados. As palavras ausentes. São cerca de quinze velhos. Trazem-lhes comida num carrinho. As pessoas encontram-se à mesa duas vezes por dia. Não se escolheram. Desde a infância que caminham para este reencontro. Caíram os biombos, os biombos da juventude, da beleza e do lugar adquirido. 

Pobres, pobres chamas trémulas, estrelas balbuciantes. O que têm estas pessoas de adorável, é que estão vivos apesar de tudo, apesar delas, e os mais devastados são os mais resplandecentes. Eu tenho visto um tesouro no nada, rostos que são joias atiradas à lama. Acabaremos todos feitos migalhas, mas essas migalhas são de ouro, e um anjo, quando chegar a hora, trabalhará com elas e fará um pão novo.»

Extratos do livro "L’Homme-joie" de Christian Bobin


Nota: Os trechos citados no início desta postagem são do livro "La Présence pure", no qual Christian Bobin conta a experiência de acompanhamento do seu pai doente de Alzheimer. A tradução dos trechos dos dois livros citados é da minha autoria, com base numa tradução em espanhol, e também do original em francês. Não sou tradutor, pelo que a tradução certamente terá as suas imperfeições. Contudo, estou certo que dei o meu melhor para poder cumprir o desejo de dar a conhecer este delicado e sublime testemunho de um escritor que admiro profundamente e que, lamentavelmente, é pouco (re)conhecido em Portugal, tendo apenas dois livros traduzidos em português. 

Texto em espanhol com extratos do livro "L'Homme-joie":

sexta-feira, 26 de maio de 2017

O campo das mullheres, o riso de Deus


«Os homens têm medo das mulheres. É um medo que lhes vem de tão longe como a vida. É um medo do primeiro dia, que não é apenas do corpo, do rosto e do coração da mulher, mas que é também medo da vida e medo de Deus. Porque estas três realidades aproximam-se: a mulher, a vida e Deus. Que é uma mulher? Ninguém sabe responder a esta pergunta, nem mesmo Deus que, no entanto, as conhece por ter sido gerado por elas, alimentado por elas, velado e consolado por elas. As mulheres não são Deus. As mulheres não são completamente Deus. Pouco lhes falta para o ser. Falta-lhes muito menos que ao homem.

As mulheres são a vida, na medida em que a vida está mais próxima do riso de Deus. As mulheres têm a custódia da vida, durante a ausência de Deus, têm a seu cargo o sentimento límpido da vida efémera, a sensação de base da vida eterna. E os homens, não podendo superar o seu medo das mulheres, crendo superá-las em seduções, guerras ou trabalhos, mas jamais as ultrapassando realmente, os homens, tendo um medo eterno das mulheres, condenam-se eternamente a não conhecer quase nada delas, a não saber quase nada da vida e de Deus. Porque são os homens a fazer as igrejas, é inevitável que as igrejas desconfiem das mulheres, como, aliás, desconfiam de Deus, procurando domesticá-las a elas e domesticá-lo a Ele, procurando conter a vida plena no leito muito ponderado dos preceitos e dos ritos. [...]

É sempre possível ao homem juntar-se ao campo das mulheres, ao riso do Deus. Basta um movimento, um simples movimento igual ao que fazem as crianças quando se atiram para a frente, com todas as forças, sem medo de cair ou morrer, esquecendo o peso do mundo. Um homem que sai de si mesmo, do seu medo, ignorando este peso do passado, tal homem torna-se como aquele que já não ocupa um posto, que já não acredita nas fatalidades ditadas pelo sexo, nas hierarquias impostas pela lei ou pelo costume: uma criança ou um santo, na proximidade risonha de Deus - e das mulheres.

Ninguém mais que Cristo voltou o seu rosto para as mulheres, como se volta o olhar para as folhas de uma árvore, como nos debruçamos sobre a água de um rio, a fim de daí extrair força e gosto para prosseguir o caminho.

As mulheres, na Bíblia, são quase tão numerosas como os pássaros. Estão lá, no início, e estão lá, no fim. Elas dão Deus à luz, vêem-no crescer, brincar e morrer; depois, ressuscitam-no com os gestos simples do amor louco, os mesmos gestos desde o começo do mundo, nas cavernas da pré-história, como nos quartos super-aquecidos das maternidades.»

Christian Bobin, in "Francisco e o Pequenino"

domingo, 21 de maio de 2017

Clara e Francisco


"Nada há a dizer dela, a não ser que se completam como os dois pilares do arco-íris, todos os cambiantes de amor passando de um para o outro, todas as cores do sonho. Nada há a dizer dela a não ser o seu nome, e o seu nome diz o que ela é, o que ela dá: Clara, Clareira, clarabóia, clarividente, clarão, esclarecida: todos estes nomes estão no seu nome, todas estas luzes vêm dela, rapariga de dezasseis anos, que os pais querem dar em casamento, rapariga como as que encontramos nas antigas canções francesas, pássaro rebelde ao canto que lhe querem ensinar, pardal que gosta mais de saltitar nos caminhos batidos pela chuva do que refugiar-se debaixo das sombras duma única árvore – mesmo que fosse de alta linhagem. Que queres fazer mais tarde – pergunta-se à criança que não sabe o que quer dizer «mais tarde», que conhece apenas o presente e, no presente, a maravilhosa presença de tudo. […]
Como nas velhas canções, a rapariga vai-se embora, de noite, da casa de seus pais, passa por uma porta secreta, obstruída por uma grande pilha de lenha, retira as achas, uma a uma, com as suas mãos, raspa-se, na noite estrelada, para aquele que cogitou o rapto, o rei dos corações, o príncipe da fuga, Francisco de Assis. 

Amam com o mesmo amor, são feitos para se entenderem, ébrios do mesmo vinho. Ela troca o seu vestido resplandecente por um grosseiro gabão de lã, e ei-los, durante anos, juntos e separados, ele que apanha, com a armadilha da sua voz, as aves do céu, os animais dos campos e os homens das cidades, ela que abate, nas redes de Deus, donzelas cada vez mais numerosas, cada vez mais belas. 

Dois caçadores furtivos. Dois nómadas sobre as propriedades invisíveis de Deus. […] 

Reunidos no colóquio incessante das suas almas, neste êxtase de terem encontrado o interlocutor privilegiado, aquele e aquela que compreende tudo, mesmo os silêncios, mesmo aquilo que não se saberia dizer a si mesmo no silêncio, a irmã, o irmão, sem quem o tempo passado na terra não teria sido senão tempo - nada mais.

A lenda que diz a verdade – não a que está na morte das provas mas a que está no sangue das almas, a lenda diz que, um dia em que Francisco fazia visita a Clara e às suas irmãs no seu convento, deflagrou um incêndio, notado a várias léguas de distância. As pessoas de Assis que acorreram, a fim de o apagar, não viram qualquer chama, fogo nenhum, somente Francisco de Assis e Clara, à volta duma magra refeição, e uma grande luz entre eles, uma claridade impossível de diminuir. 

Ele morrerá antes dela, mas isso não é importante, uma vez que o amor, desde a sua vinda, desde o seu primeiro frémito, abolira os velhos decretos do tempo, suprimira essas distinções do antes e do depois, conservando unicamente o hoje eterno dos vivos, o hoje enamorado do amor.» 

Christian Bobin, in “Francisco e o Pequenino”

sexta-feira, 14 de abril de 2017

ERA UMA VEZ O AMOR...



«Na cruz, Cristo encontra-se no ápice do poder... exactamente porque Ele se encontra no auge do amor! Ele mostra, então, que o verdadeiro poder é o amor e que nada é possível contra o amor.

Não é possível impedir Cristo de amar: "Perdoai-lhes porque eles não sabem o que fazem..." Até ao último instante, Ele é o mais forte. E Ele é o mais forte, na extrema fraqueza!»

Jean-Yves Leloup, in "Amar... apesar de tudo" 

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«Salvou os outros e não conseguiu salvar-Se a Si mesmo», comentava-se junto Daquele crucificado, sem perceber nada da sua história. Na verdade, a história mais simples do mundo, mas por vezes complicamos tanto a simplicidade do mundo! Comprometemos a transparência da vida com o nosso excesso de razões! No entanto, aquela história, a de Jesus, conta-se assim: «Era uma vez o Amor...». 

O amor, essa entrega de nós para lá do cálculo e da retenção, a ponto de não conseguirmos viver para nós próprios. 

O amor, essa descoberta de que ou nos salvamos com os outros (porque aceitamos o risco de viver para os outros) ou gastamos inutilmente o nosso tesouro. 

O que se comentava junto da cruz, naquele dia, não era um insulto, mas o maior dos elogios feitos a Jesus. Compreender isso é, de alguma maneira, acolher o sentido verdadeiro da Páscoa.»


José Tolentino Mendonça

quinta-feira, 30 de março de 2017

A verdadeira oração

"A verdadeira oração nasce quando nós compreendemos isto: eu sou uma oração, a nossa vida é uma oração..." [José Tolentino Mendonça]

domingo, 26 de março de 2017

A ÚNICA COISA NECESSÁRIA

"Se tivermos a coragem de abrir mão de quase tudo, provavelmente conseguiremos reter o único necessário – seja ele qual for. Se formos por demais ávidos de ter tudo, quase com certeza perderemos até a única coisa que necessitamos.


A felicidade consiste em descobrir precisamente o que pode ser essa ‘única coisa necessária’ em nossas vidas e renunciar alegremente a todo o resto. Pois então, por um divino paradoxo, constatamos que tudo o mais nos é dado junto com a coisa única de que precisamos.»


Thomas Merton, in "Homem algum é uma ilha"

terça-feira, 21 de março de 2017

A misericórdia deve ser feita

«Sabemos como a imagem de um Deus intransigente e castigador lançou gerações numa paralisante angústia. E como subsiste ainda um mau entendimento do que é a justiça de Deus, com tantos fantasmas e medos a ela associados.


É necessário anunciar que a justiça de Deus não é uma justiça punitiva, mas sim uma justiça iluminada (evangelicamente poderíamos dizer, revolucionada) pela misericórdia. E a misericórdia é reencontro, gratuidade, arte de curar e de reconstruir, rasgar de horizontes, experiência de perdão, desfatalização da história, surpreendente expressão da ternura de Deus, excesso de dom.

A misericórdia não é apenas uma emoção diante do sofrimento alheio. É verdade que ela emerge do impacto irrecusável da dor do outro em nós, mas depressa se transforma em práxis e em ética. A misericórdia deve ser feita»

José Tolentino Mendonça

quinta-feira, 16 de março de 2017

PEQUENOS



"Só são grandes diante de Deus aqueles que se têm por pequenos”.

[S. Francisco de Borja]

sábado, 11 de março de 2017

Oração



- Você reza a Deus, menino? 

- Sim, toda a noite. 
- E o que lhe pede?
- Nada. Só lhe pergunto se posso ajudar em alguma coisa.

 [Pedro Bloch]

segunda-feira, 6 de março de 2017

SOBRE DEUS


«De Deus sabe mais quem mais O deixa transparecer.

Deus resplandece em todo aquele que acolhe, que se supera, que não se resigna à mediania.

Deus reluz nas vidas que não se contentam com o programado, com o previsível.

Deus flui nas surpresas e brilha nas esperanças de quem não desiste nas horas de obscuridade.

Deus «passeia-Se» na brisa que palpita em corações que acreditam no amanhã. E que, por isso, continuam a dar tudo no hoje de cada dia.

Sobre Deus, o decisivo não é dizê-Lo; é transparecê-Lo. 

Deus não cabe em nenhum conceito. 
Mas sentimos que vai passando em muitas vidas. 
Nas vidas daqueles que O respiram, amando.»

sábado, 4 de março de 2017

O RISO


"O riso é a coisa mais próxima da graça de Deus." 

[Karl Barth]

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017


«Apenas vivemos e existimos verdadeiramente quando nos assumirmos como fragilidade amada, acreditada, perdoada.» [António Valério, s.j.]

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

JESUS

«Jesus não é um ideologia que acrescentamos à vida; é a nossa própria vida em transfiguração.» [Carlos Maria Antunes]

domingo, 19 de fevereiro de 2017

DIANTE DA LUZ


"É importante que, na nossa oração, nos ponhamos diante da luz, do amor, e não perante um conjunto de leis". [Paolo Scquizzato]

domingo, 12 de fevereiro de 2017

A CASA DE DEUS

A casa de Deus está assente no chão

Os seus alicerces mergulham na terra
A casa de Deus está na terra onde os homens estão
Sujeita como os homens à lei da gravidade
Porém como a alma dos homens trespassada
Pelo mistério e a palavra da leveza

Os homens a constroem com materiais
Que vão buscar à terra
Pedra vidro metal cimento cal
Com suas mãos e pensamento a constroem
Mãos certeiras de pedreiro
Mãos hábeis de carpinteiro
Mão exacta do pintor
Cálculo do engenheiro
Desenho e cálculo do arquitecto
Com matéria e luz e espaço a constroem
Com atenção e engenho e esforço e paixão a constroem

Esta casa é feita de matéria para habitação do espírito
Como o corpo do homem é feito de matéria e manifesta o espírito

A casa é construída no tempo
Mas aqui os homens se reúnem em nome do Eterno
Em nome da promessa antiquíssima feita por Deus a Abraão
A Moisés a David e a todos os profetas
Em nome da vida que dada por nós nos é dada

É uma casa que se situa na imanência
Atenta à beleza e à diversidade da imanência
Erguida no mundo que nos foi dado
Para nossa habitação nossa invenção nosso conhecimento
Os homens constroem na terra

Situada no tempo
Para habitação da eternidade

Aqui procuramos pensar reconhecer
Sem máscara ilusão ou disfarce
E procuramos manter nosso espírito atento
Liso como a página em branco

Aqui para além da morte da lacuna da perca e do desastre
Celebramos a Páscoa

Aqui celebramos a claridade
Porque Deus nos criou para a alegria



Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O amor é o lugar ao qual pertencemos


Em tempo de férias, é usual dizermos que "vamos à terra", "fui à terra", "vim da terra". "Ir à terra" é uma expressão castiça. (...)

"Ir à terra" não é mais do que tornar presente de onde vimos, deixar o coração apaziguar e impregnar-se de futuro. "Ir à terra" é voltar a tudo aquilo que nos constitui, nos integra, nos regenera, nos reforça (...)

Na verdade, "ir à terra" é ir ao amor. Porque o amor é um lugar. O amor não é um sentimento, uma sensação, um momento. O amor é um lugar. Ou melhor: é 'o' lugar ao qual pertencemos. É terra, é chão, é pedra onde nos apoiamos e onde os nossos passos ganham firmeza. E a vida, fecundidade. Por isso é que, quando deixamos de ir à "terra", ou andamos de terra em terra demasiado tempo, à procura do nosso lugar, podemos ficar doentes. E quando finalmente o encontramos e nos demoramos por lá, voltamos diferentes - mais iguais a nós mesmos.
E um dia, quando vier a nossa hora de partir desta terra, não estranharemos a outra, onde chegaremos. Antes pelo contrário, será tão familiar quanto cada um dos gestos de amor e entrega que tenhamos realizado ou recebido. Se durante a nossa vida terrena visitámos amiúde essa terra do amor, então o que poderemos sentir ao partir, senão que regressamos finalmente a casa? Por isso é que convém ir à terra sempre que pudermos, porque um dia lá ficaremos. Para sempre. E descobriremos que a terra é, afinal, um face-a-face com o amor pleno.

Graças a "Ver para além de olhar" - https://www.facebook.com/verparaalemdoolhar/…

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

DEUS LIBERTA-NOS


"Não, não temos que estar sempre bem e ter a vida toda moralmente ou regradamente direitinha para que Deus nos visite. Nem tudo na vida é bem sucedido e nós experimentamos os seus fracassos na pele. Sonhos que nunca se realizaram, dores causadas por tantas circunstâncias, sofrimento que causámos e que desejaríamos nunca o ter feito ou poder voltar atrás. Ou feridas que nos infligiram e que ainda ardem. Pedidos de desculpa que ainda não conseguimos verbalizar ou perdão que ainda não conseguimos conceder. Relações que eram para a vida e que, afinal, se desfizeram. Perdas que doem de saudade. E a nossa fragilidade e o nosso egoísmo que teimam tantas vezes em gritar mais alto do que o nosso desejo de bem.

Somos frágeis. Por isso Deus se fez frágil, para que o possamos acolher na nossa debilidade. Quem é só forte e bom não precisa de ninguém. Quem é rico de si e não se reconhece pequeno, não encontra lugar para Deus. Aquele que soma sucesso atrás de sucesso e não se permite experimentar a falha, é aplaudido no palco do mundo.

Deus vem, em Jesus, ao encontro do mais ínfimo lugar da história e da vida pessoal de cada um para que cada um possa ser encontrado onde e como está. Ao contrário dos outros encontros, em que tantas vezes temos que provar o que valemos ou esconder quem realmente somos, o encontro pessoal com Deus liberta-nos."


Pe. Miguel Almeida, s.j.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

QUANDO EU FOR GRANDE...


"Quando eu for grande, Pai, quero ser Bom como Tu.

Quando eu for grande, Pai, quero ter entranhas de misericórdia que se comovam, revolvam e resolvam diante do sofrimento dos outros. 
Quero saber o Nome de muita gente, sobretudo daqueles que não têm Nome, 
que perderam a cara ou a deixaram colada a alguma máscara antiga, 
que deixaram a dignidade escondida numa cova qualquer 
à espera do dia em que possam voltar a buscá-la. 
Quero ter histórias para contar com gente que não conta para ninguém! (...) 

Quando eu for grande, Pai, é porque finalmente perdi a mania das grandezas. 
Vou amar o que é pequeno e encantar-me com a fragilidade, 
entusiasmar-me com a dádiva e emocionar-me com a debilidade, 
vou amar a carência e entregar-me inteiramente sem esperar recompensa."

Rui Santiago Cssr, in "Ora Vê"

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

FELIZ...

«Feliz aquele que, diante da taça cheia e inebriante que é a vida de Jesus, não cai na tentação de juntar água ao vinho.
Feliz aquele que não vai, nas costas de Cristo, compor as bancas que ele quebrou e restaurar os estragos que ele fez.
Feliz aquele que não se escandalizar com Jesus até ao ponto de o “domar”.»

Rui Santiago Cssr

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

CONVITE


«Vamos ressuscitados, colher flores!
Flores de giesta e tojo, oiro sem preço…
Vamos àquele cabeço

Engrinaldar a esperança!
Temos a Primavera na lembrança;
Temos calor no corpo entorpecido;
Vamos! Depressa!
A vida recomeça!
A seiva acorda, nada está perdido!»


Miguel Torga

domingo, 8 de janeiro de 2017

"É importante que, na nossa oração, nos ponhamos diante da luz, do amor, e não perante um conjunto de leis". 

[Paolo Scquizzato]

sábado, 7 de janeiro de 2017

A felicidade de Jesus

Não é difícil desenhar o perfil de uma pessoa feliz na sociedade do tempo de Jesus. Seria o caso de um homem adulto e de boa saúde, casado com uma mulher honesta e fecunda, com filhos homens e terras ricas, observante da religião e respeitado em seu povoado. O que mais se podia pedir?

Certamente não era este o ideal ao qual Jesus aspirava. Sem esposa nem filhos, sem terras nem bens, percorrendo a Galileia como um ambulante, sua vida não correspondia a nenhum tipo de felicidade convencional. Sua maneira de viver era provocativa. Se era feliz, o era de maneira contracultural, ao revés do estabelecido.

Na verdade, Ele não pensava muito em sua felicidade. Sua vida girava muito mais em torno de um projeto que o entusiasmava e o fazia viver intensamente. Esse projeto se chamava “Reino de Deus”. Parece que só era feliz quando podia fazer felizes os outros. Sentia-se bem devolvendo às pessoas a saúde e a dignidade que lhes foram arrebatadas injustamente.

Não buscava seu próprio interesse, mas vivia criando novas condições de felicidade para todos. Não sabia ser feliz sem incluir os outros. Propunha a todos critérios novos, mais livres e radicais, para construir um mundo mais digno e feliz.

Acreditava num “Deus feliz”, o Deus Criador que olha com amor entranhável todas as suas criaturas, o Deus amigo da vida e não da morte, mais atento ao sofrimento das pessoas do que a seus pecados.

A partir da fé nesse Deus, rompia os esquemas religiosos e sociais. Não pregava “Felizes os justos e piedosos, porque receberão o prêmio de Deus': Não dizia “Felizes os ricos e poderosos, porque contam com a bênção de Deus”. Seu clamor era desconcertante para todos: “Felizes os pobres, porque Deus será sua felicidade”.

O convite de Jesus vem a dizer isto: “Não busqueis a felicidade na satisfação de vossos interesses, nem na prática interessada de vossa religião. Sede felizes trabalhando de maneira fiel e paciente por um mundo mais feliz para todos”.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.

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