sexta-feira, 25 de agosto de 2017

domingo, 20 de agosto de 2017

As velas



"Nas igrejas nada reza excepto as velas. Elas perdem todo o seu sangue. Consomem todo o seu pavio. Não reservam nada para elas, dão tudo o que são, e esse dom passa a ser luz. A imagem mais bela da oração seria esta: o lento desgaste de uma vela numa igreja fria.”

Christian Bobin

sábado, 12 de agosto de 2017

A beleza que salva o mundo

"...Porque o amor, mesmo que em silêncio, está sempre germinando as primaveras. 
Amar é a beleza que salva o mundo." 

[Lucas Lujan]

domingo, 6 de agosto de 2017

Aquele que espera...



"Aquele que espera é como uma árvore com os seus dois pássaros:
solidão e silêncio. 
Ele não controla as suas expectativas. 
Ele move-se ao sabor do vento, 
dócil ao que se aproxima, 
sorrindo ao que se afasta.
Enquanto espera, o início é como o fim, 
a flor é como o fruto, 
o tempo como o eterno."

Christian Bobin

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Não há maior riqueza


«Não há maior riqueza que possamos receber do que termos aprendido a dar-nos...» 

Rui Santiago Cssr

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Aceitação

«No nosso mundo muitos corações recusam, fecham-se, são feridos, congelam. Quanto mais um coração está aberto, mais ele aceita, e mais feliz está. Devíamos escrever a palavra "Aceitação" em letras de ouro no coração. 

Ao fechar-se, o coração petrifica-se. Ao abrir-se, torna-se êxtase. Entre estes dois movimentos, ele tem ímpetos de afeto, até mesmo de adoração, expressões de ternura... Ele é volátil e inconstante, ele abre-se, e ele tem medo da ferida, ele não cessa de ir e vir como um caracol entre a sua casca dura e o seu corpo vulnerável oferecido ao ar nu.»

Christian Bobin

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Céu

«Dizer “no Céu” não é dar o nome a um “lugar” onde está a Recompensa. É dizer o cuidado, o carinho, o amor daquele que me fala e me promete tudo isto, “do Céu”, ou seja, das próprias mãos e Coração de Deus!»

Rui Santiago Cssr

sexta-feira, 14 de julho de 2017

domingo, 9 de julho de 2017

Um Livro de ar

«Os livros de hoje são de papel. Os livros de outrora eram de pele. A Bíblia é o único livro de ar - um dilúvio de tinta e de vento. Um livro insensato, desvairado no seu sentido, tão perdido nas suas páginas como o vento nos parques dos supermercados, nos cabelos das mulheres, nos olhos das crianças. Um livro impossível de ter entre duas mãos tranquilas, para uma leitura serena, longínqua: pôr-se-ia imediatamente em voo, espalharia a areia das suas frases entre os dedos. [...]

Não se aprendem palavras num livro de ar. Recebe-se, de tempos a tempos, a sua frescura. Estremecemos ao sopro de uma palavra: amava-te muito antes de nasceres. Amar-te-ei, muito para lá do fim dos tempos. Amo-te em todas as eternidades. »

Christian Bobin, in "Francisco e o Pequenino"

domingo, 2 de julho de 2017

O Amor me acolheu


O Amor me acolheu, mas minha alma retrocedeu,
culpada de pó e de pecado.
Mas, clarividente, o Amor, vendo-me hesitar
desde o momento em que entrei,
aproximou-se de mim, com doçura, perguntando-me
se precisava de alguma coisa.
“Um convidado” – respondi- “digno de estar aqui”.
O Amor disse: “Tu serás o convidado”.
“Eu? mau, ingrato? Ah! meu amado,
não posso olhar para ti”.
O Amor pegou-me pela mão e, sorrindo, respondeu-me:
“Quem fez esses olhos, senão eu?”.
“É verdade, Senhor, mas eu os manchei;
que a minha vergonha me leve onde mereço”.
“E não sabes” - perguntou o Amor - “Quem tomou todas as culpas sobre si?”.
“Meu Amado, então servirei”.
“Senta-te”, disse o Amor, “e disfruta destes manjares”.
Então sentei-me e comi.

George Hebert (Séc. XVII)

domingo, 25 de junho de 2017


«Cristo é um sol coberto pelas nuvens das nossas ambições e pré-ocupações.»

[Christian Bobin]

terça-feira, 20 de junho de 2017

quinta-feira, 15 de junho de 2017

O coração de quem amamos


"Não habitamos regiões. 
Nem sequer habitamos a terra. 
O coração de quem amamos é a nossa verdadeira morada."

[Christian Bobin]

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Milagres


«Nós passamos cegos pelos milagres, sem ver que a menor explosão de uma flor é feita de milhares de galáxias, que os galhos de um ninho abandonado ou as estrelas de um céu nocturno falam da mesma ausência adorável.»

[Christian Bobin]

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Tesouros vivos



“Eles respondem ao teu aperto de mão, sorrindo fragilmente: mesmo no inferno a vida pode ressurgir por um segundo, vinda não sabemos de onde, intacta. Basta um pequeno gesto. […] Estas pessoas cuja alma e a carne são feridos têm uma grandeza que jamais terão aqueles que carregam as suas vidas em triunfo. É através dos olhos que eles dizem as coisas, e aquilo que eu li, ilumina-me melhor que os livros.” [Christian Bobin, in “La Présence pure"]

«O mundo está inundado de santos, quero dizer de mártires, porque não distingo estas duas palavras. Multiplicam-se, cada dia são mais numerosos. Chamam-lhes doentes de Alzheimer.

Devemos vê-los como tesouros vivos. Com frequência preguntam-me o caminho, perdidos num mundo mediocremente iluminado por tristes divertimentos. Buscam com mãos trémulas a mão de um anjo, porque sabem que os anjos existem. Ás vezes falam com os seus mortos. Eles que se esquecem de tudo, não se esquecem daqueles que os deslumbraram no passado. 

O meu pai viveu um ano numa dessas casas que deveriam fazer parte do património da humanidade. O seu rosto jamais se desvaneceu. Não acredito no que me dizem: ”Eles não nos reconhecem mais”. Reconhecer é amar, e amar é selvagem, indizível. Quando o meu pai já não sabia nada sobre mim, ainda sabia que eu estava presente, eu sentia-o, pude comprovar isso, e o que comprovas é maior que tudo aquilo que a ciência nos diz. Quando não se lembrava dos nomes, valia-se de artifícios. Quando lhe perguntava algo sobre mim, respondia: “Tu és aquele que nós não esquecemos” e sobre a minha mãe dizia: ”É a melhor”. Estes seres esquecidos, não esquecem nada do essencial. Isto é o que os distingue de nós. 

Acabaremos todos feitos migalhas. Vagueei pelo campo de batalha, vi almas desfiguradas. Escutei sobretudo o silêncio, um toque de alarme de silêncio. O que vi era sublime, banal e terrível. Os rostos fechados. As palavras ausentes. São cerca de quinze velhos. Trazem-lhes comida num carrinho. As pessoas encontram-se à mesa duas vezes por dia. Não se escolheram. Desde a infância que caminham para este reencontro. Caíram os biombos, os biombos da juventude, da beleza e do lugar adquirido. 

Pobres, pobres chamas trémulas, estrelas balbuciantes. O que têm estas pessoas de adorável, é que estão vivos apesar de tudo, apesar delas, e os mais devastados são os mais resplandecentes. Eu tenho visto um tesouro no nada, rostos que são joias atiradas à lama. Acabaremos todos feitos migalhas, mas essas migalhas são de ouro, e um anjo, quando chegar a hora, trabalhará com elas e fará um pão novo.»

Extratos do livro "L’Homme-joie" de Christian Bobin


Nota: Os trechos citados no início desta postagem são do livro "La Présence pure", no qual Christian Bobin conta a experiência de acompanhamento do seu pai doente de Alzheimer. A tradução dos trechos dos dois livros citados é da minha autoria, com base numa tradução em espanhol, e também do original em francês. Não sou tradutor, pelo que a tradução certamente terá as suas imperfeições. Contudo, estou certo que dei o meu melhor para poder cumprir o desejo de dar a conhecer este delicado e sublime testemunho de um escritor que admiro profundamente e que, lamentavelmente, é pouco (re)conhecido em Portugal, tendo apenas dois livros traduzidos em português. 

Texto em espanhol com extratos do livro "L'Homme-joie":

Nada é grave...

"Nada é grave, a não ser perder o amor." [Irmão Roger de Taizé]