terça-feira, 29 de novembro de 2011

UM PEDAÇO DE DEUS

«Gosto imenso das pessoas, porque em cada uma amo um pedaço de ti, meu Deus. E procuro-te por toda a parte nas pessoas e, muitas vezes, acho um bocadinho de ti. E tento desenterrar-te nos corações dos outros, meu Deus.(...)

Procuraste Deus por toda a parte, em cada coração humano que para ti se abriu - e muitos foram - e em toda a parte achaste um pedacinho de Deus. Nunca desistias, eras capaz de ser muitíssimo impaciente em relação a pequenas coisas, mas em relação às grandes eras extremamente paciente, tão infinitamente paciente.(...)

Bom, deixai-me ser um bocadinho da vossa alma. Deixai-me ser a barraca de acolhimento do que de melhor há em vós, que com certeza há-de existir. Não preciso de fazer muita coisa, quero só estar presente. Deixai-me ser simplesmente a alma deste corpo. E em cada uma das pessoas achei por vezes um gesto ou um olhar, que os transcendia em muito, e do qual provavelmente quase não se tinham apercebido. E eu sentia-me a sua guardiã.» 


Etty Hillesum

domingo, 27 de novembro de 2011

DENTRO DE MIM

«Dentro de mim há um poço muito fundo. E lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalho no poço, e aí Deus está soterrado. Então é preciso desenterrá-lo.

Imagino que há pessoas que rezam com os olhos apontados ao céu. Essas procuram Deus fora de si. Há igualmente pessoas que curvam profundamente a cabeça e a escondem nas maõs, penso que essas procuram Deus dentro de si. (...)» Etty Hillesum

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

AMOR PRESENTEADO

«Na sua forma mais simples e mais íntima, a fé mais não é do que aquele ponto no amor em que reconhecemos que também precisamos de ser presenteados. Assim, a fé é aquele ponto no amor que o identifica realmente como amor; ela consiste em vencer a presunção e a auto-satisfação dos que se acham suficientes e afirmam; já fiz tudo, já não preciso de qualquer ajuda. Só uma «fé» assim põe fim ao egoísmo, a verdadeira antítese do amor. Desta forma, a fé está presente no amor verdadeiro; ela é, simplesmente, aquele momento do amor que o conduz verdadeiramente para si próprio: a franqueza daqueles que não insistem na sua própria capacidade, mas que sabem ser presenteados e necessitados. (...)

Ele não nos ama por sermos especialmente bons, especialmente virtuosos, especialmente merecedores, por lhe sermos úteis ou, mesmo, necessários: Ele não nos ama por nós sermos bons, mas porque Ele é bom. Ele ama-nos apesar de nada termos para Lhe oferecer; Ele ama-nos, inclusive, nas roupas andrajosas do filho perdido, que já nada tem em si que seja digno de amor. (...)»

Joseph Ratzinger, em "Do sentido de ser cristão"

terça-feira, 22 de novembro de 2011

«SEJA FEITA A VOSSA VONTADE»

«Qual é a vontade de Deus? A vontade de Deus é o Amor. O nosso único dever é o Amor. E, quando a gente diz «Seja feita a vossa vontade», sabe de antemão que isso significa «Seja cumprido, atualizado, redesenhado o Amor...»

Quando a nossa vontade se abre à vontade de Deus, o amor torna-se a sinfonia silenciosa da vida, a sua exalação humilde e profusa, o seu perfume. Mesmo sabendo que o amor verdadeiro é crucificante. Amando, não vamos amontoar, certamente ficaremos mais pobres, ficaremos velhos mais cedo, gastamo-nos e perdemo-nos. A medida do amor é dar-se sem medida. É um contrassenso pensar que o amor tem um horário, um turno, um guiché. Quem ama vive na atenção solícita, tem antenas, sensores, olhos que não se habituam nem conformam ao desamor. » 
José Tolentino Mendonça

domingo, 20 de novembro de 2011

CAMINHOS INESPERADOS

«Que eu não me tranque por dentro, num confortável reservatório de certezas, mas olhe com frescura os caminhos, esperados e inesperados, que Tu me apontas...

Às vezes assalta-me o receio de que estejamos a construir um cristianismo demasiado cristalizado, com as coisas muito arrumadas, um organigrama impecável, uma máquina bem oleada, mas sem horizonte, como se fôssemos (e perdoem a analogia) um departamento de mapas e guias de viagem e não uma associação de exploradores, de alpinistas, marinheiros e viajantes.»

José Tolentino Mendonça, em "Pai-Nosso que estais na Terra"

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

SABER ESPERAR

«É muito difícil esperar na provação.
Ou somos assaltados pela angústia e tentamos forçar os acontecimentos,
tentamos "fazer coisas", lançamo-nos numa atividade louca e sem real objetivo,
apenas para canalizar essa angústia, evacuar as energias doidas que nos submergem pouco a pouco.
Ou então destruímos tudo, escapamo-nos, fugimos: não podemos mais permanecer quando nada se passa e nada muda.

Na provação, é preciso aprender a esperar, muitas vezes sem nos mexermos,
numa atitude de oração e oferenda.

É preciso pedir a Jesus essa graça de saber esperar, sem compreender sempre o que se passa,
e sem querer ditar a nossa vontade aos acontecimentos, às coisas e às pessoas.
É certo, o ser humano tem vontade de compreender, de saber, de avançar, e é magnífico.
Mas às vezes, também, é preciso aceitar não compreender imediatamente.

Há muitas coisas que não se compreendem e, às vezes, é preciso saber esperar a luz, permanecer, não se mexer, velar, esperar a hora de Deus.»

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A GRAÇA DE DEUS

«Podem fazer entrar tudo nos seus cálculos excepto a graça, e é por isso que estes são vãos.» Christian Bobin, em "Ressuscitar"


"A graça divina é totalmente estranha à psicologia humana. Queremos primeiro deixar nossa casa em ordem para então permitir que Deus nos ame e nos aceite. A psicologia da ética do trabalho e a da auto-avaliação são fundamentais para a psique humana e totalmente estranhas à graça divina.

O que faz sua graça ser extraordinária é o fato de que somente ela nos pode libertar dos nossos medos e nos tornar verdadeiramente completos e livres. 

A entrega total ao amor de Deus nos oferece a possibilidade de nos libertar dos nossos sentimentos de culpa e dos esforços que fazemos para cair nas boas graças de Deus e de sermos livres para amá-Lo verdadeiramente e ao próximo do mesmo modo que somos amados pelo Pai."

David G. Benner, em "A Entrega Total ao Amor"

domingo, 13 de novembro de 2011

SOBRE O SOFRIMENTO

Uma história de S. Francisco de Sales contada por François Varillon, s.j. :


"Um cirurgião vê-se obrigado a operar a sua própria filha. Em geral, os médicos não gostam de operar as pessoas da sua família, como os obstretas também não gostam de cuidar do parto de suas mulheres.

Naquele tempo não havia calmantes nem anestesias. O cirurgião teve de cortar com o bisturi a carne da filha, a quem seguravam os braços e as pernas. Ela grita. Mas de repente os seus olhos encontram os olhos do pai, e vê que nesses olhos só há amor.

S. Francisco de Sales acrescenta: a filha já não pode desprender os olhos de seu pai: e enquanto assim fizer, suporta a situação. Não diz que ela deixa de sofrer. O sofrimento é sempre sofrimento. Mas basta-lhe ver toda a ternura, todo o amor que há nos olhos do pai, para poder aguentar."

François Varillon s.j. , em "Viver o Evangelho"

terça-feira, 8 de novembro de 2011

ALPINISMO OU ACOLHIMENTO?


"Muitas pessoas julgam que a religião consiste naquilo que fazem por Deus: aquelas pobres, tristes e débeis coisas que porventura fazem por Deus. Deste modo, toda a religião lhes parece pobre, triste, débil. Vão subindo sem alegria, à custa de «sacrifícios» enfadonhos, para se aproximarem um pouco (não demasiado!) daquele Ser que imaginam Supremo e sem inquietações.

Mas a religião consiste no que Deus faz por nós: as grandes e estupendas coisas que Deus inventa para nós. Deus é de tal modo Bom que é Ele que se aproxima. Tudo quanto nos pede é que nos maravilhemos com Ele. Não temos mais do que admirar e aquietar-nos. Seremos religiosos na medida do nosso deslumbramento. «O Senhor fez por mim maravilhas».

Deus não é aquele que recebe e muito menos aquele que arrebata: é Aquele que dá, que perdoa e cujos benefícios cantaremos por toda a eternidade.
Religião fácil? Desenganai-vos. É penoso para nós sermos amados gratuitamente, pois aceitar tal amor é admitir que não valemos nada, que não valeríamos nada sem este amor que nos cria. E é também aceitar sermos criados... à Sua imagem. Aceitar entrar neste jogo terrível de um amor que nada calcula, nada avalia, tudo espera. Se temos tanto medo, é porque sabemos perfeitamente que tal amor é um apelo irresistível a amarmos daquela maneira. Sem condições.» Louis Evely, em "Tu és esse homem"

domingo, 6 de novembro de 2011

O CÉU COMEÇA AQUI

«O mundo terrestre tem acesso ao mundo celeste todas as vezes que há amor, dom, comunhão.
Daí que «ganhar o céu» vem a ser uma expressão não apenas falsa mas absurda; e a acusação de que o cristão é «mercenário» cai pela base. Não ganhamos o céu mas familiarizamo-nos com ele, habituamo-nos e aclimatamo-nos a ele. Preparamo-nos para ele. E construimo-lo. Todos juntos...

Eu estou convencido de que o céu consistirá em reviver, numa plenitude de luz, os maravilhosos instantes da nossa existência terrena. A cada passo nos deteremos confundidos com a generosidade do nosso Deus e confusos pela nossa inconsciência passada. Reviver um só momento nos lançará em transportes de júbilo e de reconhecimento. Como era belo o mundo e quanto nós grosseiros ao caminhar assim, enjoados e desiludidos, a meio de todas as suas maravilhas!
Deus não soubera que mais inventar para nos alegrar a cada hora, em cada minuto. Procedera como o pai que para fazer sorrir o filho exibe tesouros diante dele e só obtém do tiranozinho insaciável esta resposta:
«Quero mais. Dá-me outras coisas».

A mais espantosa das surpresas que por nós espera no céu será a de não encontramos lá nada de novo.»

(Louis Evely, em "Tu és esse homem")

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

DEIXA QUE EU TE MOLDE (4ª FOLHA)



"Não te posso Eu moldar a ti, como o oleiro molda o seu barro?" (Jer 18, 5)


«A gravura da quarta folha não tinha um único rosto. Viam-se nela duas mãos sujas de barro e, seguro entre as mãos, um pote a ser moldado sobre um torno de oleiro. Em letras grandes um letreiro dizia: "DEIXA QUE EU TE MOLDE" Era uma referência ao capítulo 18 do profeta Jeremias.


Pareceu-me ser esta a página mais importante do Manual de Conversão, ao imaginar que – mais eficaz que todos os nossos esforços – o que nos muda é o fato de Deus, secretamente, no torno da vida, nos tomar nas Suas mãos e nos moldar.
Fazemos esforços por sermos melhores: tentamos rezar mais, tentamos ter mais caridade, ou mais humildade, ou interiormente mais liberdade. Pedimos a Deus que nos ajude. E por vezes, atravessando-se no caminho de todos estes nossos esforços, aparece a vida: a relação íntima que nos deixa desconcertados, um comentário que alguém nos faz, uma humilhação, uma fase onde tudo se baralha. "Logo agora que eu estava conseguir ser um pouco melhor, lá vem a vida com as suas coisas..." 


Pois é... E se a vida fosse precisamente a resposta de Deus aos nossos pedidos e aos nossos esforços? E se tudo aquilo que nos acontece fossem apenas oportunidades de crescimento e de liberdade queridas por Deus ou, pelo menos, por Ele consentidas?
Barro sempre seguro nas mãos firmes de um oleiro por entre as voltas da vida. Umas vezes sentimo-nos acariciados, outras apertados; umas vezes vemo-nos quase prontos, outras amassados e sem forma; em certas alturas a obra toda faz sentido, noutras torna-se bastante incompreensível.» 


Nuno Tovar de Lemos, s.j., em "O Princípe e a Lavadeira"