domingo, 31 de outubro de 2010

A VIDA E A MORTE

O dia acaba,
As sombras da morte adensam-se
No fim do caminho ocidental.
O sol poente, pródigo na despedida,
Reúne com ambas as mãos os seus tesouros.
Na confusão das cores, vejo
O horizonte luminoso da morte,
A grandeza da vida.

A minha respiração terminará
Com estas palavras de despedida:
«Quanto amei!»
O mistério eterno, derramando-se nas margens
Uniu a vida e a morte,
E encheu noite e dia
O meu cálice de dor com néctar.

Viajei solitário
Pelo duro caminho do peregrino da Dor,
Sob o ardente sol de Abril!
Quantos dias
Estive sem companhia!
Quantas noites
Sem uma luz!

E, no entanto, dentro do meu coração
Senti o seu contacto.
A coroa de espinhos da Calúnia
Feriu-me muitas vezes...
E tinha-a adoptado como minha grinalda de casamento.

Os que, encarnados em homens,
Pronunciaram a Palavra -
Divina e inexprimível -
São meus semelhantes.
Quantas vezes jazi derrotado
No medo e na vergonha!
E, no entanto, na minha voz ecoou
A vitória do Infinito.
Embora a minha adoração seja imperfeita,
De vez em quando a minha alma soluçante
Consegue sair abrindo as portas da sua cela.

Nesta vida recebi
O direito ao nascimento do Homem...
Essa é a minha boa sorte.
Para mim é o néctar divino
Que flui através dos tempos
No pensamento, conhecimento e trabalho,
A perfeição,
Cuja imagem resplandece no meu coração
Para que todos participem dela.

Ele, que é excelente para lá de toda a excelência,
Ele perante quem me inclino,
Embora ás vezes me esqueça de pronunciar o Seu nome.
As bênçãos dos ceús silenciosos,
O êxtase do amanhecer,
Tocaram o meu coração.
Neste mundo repleto de maravilhas,
Nesta vida plena de grandezas,
A morte tornar-me-á completo.

Rabindranath Tagore

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

ESPERAR A HORA DE DEUS

«É muito difícil esperar na provação.
Ou somos assaltados pela angústia e tentamos forçar os acontecimentos,
tentamos "fazer coisas", lançamo-nos numa actividade louca e sem real objectivo,
apenas para canalizar essa angústia, evacuar as energias doidas que nos submergem pouco a pouco.
Ou então destruímos tudo, escapamo-nos, fugimos: não podemos mais permanecer quando nada se passa e nada muda.

Na provação, é preciso aprender a esperar, muitas vezes sem nos mexermos,
numa atitude de oração e oferenda.

É preciso pedir a Jesus essa graça de saber esperar, sem compreender sempre o que se passa,
e sem querer ditar a nossa vontade aos acontecimentos, às coisas e às pessoas.
É certo, o ser humano tem vontade de compreender, de saber, de avançar, e é magnífico.
Mas às vezes, também, é preciso aceitar não compreender imediatamente.

Há muitas coisas que não se compreendem e, às vezes, é preciso saber esperar a luz, permanecer, não se mexer, velar, esperar a hora de Deus.»

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

domingo, 24 de outubro de 2010

SÓ O AMOR É CREDÍVEL

«Só o amor é credível, nada mais do que o amor pode e deve ser crido.

O que decididamente atrai a atenção para Cristo não é que Ele seja mais poderoso do que os outros homens (graças a uma ciência ou a uma força de vontade inauditas, ou a outras faculdades psíquicas e parapsíquicas que, por exemplo, explicariam os seus milagres), é que Ele quer ser tão «manso e humilde de coração» (Mt 11, 29) e assim tão «pobre em espírito» (Mt 5, 3) que, mediante esta disposição humana, o amor absoluto pode transparecer perfeitamente e tornar-se nele presente.
Mais ainda, esta disposição amorosa só pode, no fim de contas, ser determinada (inventada e suscitada) por este amor absoluto.»

Hans Urs von Balthasar, em "Só o Amor é Digno de Fé"


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A HORA DE FALAR ACABOU

"Não percas de vista o final da vida. Não esqueças o teu propósito e destino como criatura de Deus. O que tu és à vista Dele é o que tu és, e nada mais. Lembra-te que quando deixares esta terra não poderás levar contigo nada que recebeste - sinais efémeros de honra, paramentos do poder -, mas apenas o que te foi dado: um coração pleno enriquecido por honesto serviço, amor, sacrifício e coragem." - Francisco de Assis

Para Francisco, o discipulado - seguir a Cristo - não era apenas a coisa mais importante da vida - era a única coisa. Era literalmente uma questão de vida ou morte: sou o que sou aos olhos de Deus e nada mais. O discipulado exige que coloquemos de lado os acessórios, paremos de fazer jogos de palavras e cheguemos á essência das coisas.
Para o seguidor de Jesus a essência está em viver pela fé e não pela religião. Viver pela fé consiste em constantemente redefinir e reafirmar a nossa identidade com Jesus, medindo-nos a partir do padrão que é Ele - não medindo a Ele a partir dos nossos dogmas eclesiásticos e heróis locais.
Jesus é a luz do mundo. Na sua luz descobrimos que não é mera retórica o que Jesus exige, mas renovação pessoal, fidelidade à Palavra e conduta criativa. Como disse Emile Leger quando deixou a sua mansão em Montreal para viver numa colónia de leprosos em África: "A hora de falar acabou."


Brennan Manning, em "A assinatura de Jesus"

domingo, 17 de outubro de 2010

EVITA TODAS AS FORMAS DE AUTOCENSURA

«Deves evitar não só culpar os outros mas também a ti mesmo. Tens tendência a recriminar-te pelas dificuldades que sentes nos relacionamentos que entabulas. Mas a auto-recriminação não é uma forma de humildade. É uma forma de autocensura, na qual ignoras ou negas a tua própria virtude e beleza.

Quando uma amizade não floresce, quando uma palavra não é acolhida, quando um gesto de amor não é apreciado, não te censures a ti mesmo, porque isso é falso e doloroso. Sempre que te rejeitas idealizas os outros. Queres estar com os que consideras melhores, mais fortes, mais inteligentes e mais dotados do que tu. Assim, tornas-te emocionalmente dependente, levando os outros a sentirem-se incapazes de satisfazerem as tuas expectativas e a afastarem-se de ti. O que faz com que te censures ainda mais e entres numa espiral perigosa de auto-rejeição e carência.

Evita todas as formas de autocensura. Reconhece as tuas limitações, mas assume as tuas virtudes únicas e começa a viver como um igual entre iguais. Assim libertar-te-ás das tuas necessidades obsessivas e possessivas e darás a ti próprio a oportunidade de dar e receber afecto e amizade verdadeiros.


Henri Nouwen, em "A voz íntima do amor"

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

PASSAR POR CIMA DAS NOSSAS FERIDAS

«Os humanos sofrem imenso. Muito, para não dizer a maior parte, do nosso sofrimento tem origem na relação com aqueles que nos amam. Estou constantemente ciente de que a minha agonia profunda provém, não dos terríveis eventos que leio nos jornais ou vejo na televisão, mas da relação com as pessoas com quem partilho a minha vida diária. São precisamente os homens e mulheres, que me amam e que estão muito perto de mim, os que me ferem.

À medida que ficamos mais velhos, geralmente vamos descobrindo que nem sempre fomos bem amados. Com frequência, os que nos amaram também nos usaram. Os que se interessaram por nós foram, por vezes, também invejosos. Os que nos deram muito, por vezes, exigiram também muito em troca. os que nos protegeram quiseram também possuir-nos nos momentos críticos. Habitualmente, sentimos a necessidade de esclarecer como e porque é que estamos feridos; e, com frequência, chegamos à alarmante descoberta de que o amor que recebemos não foi tão puro e simples como tínhamos julgado. É importante esclarecer estas coisas, especialmente quando nos sentimos paralizados por medos, preocupações e anseios obscuros que não compreendemos.

Mas compreender as nossas feridas não basta. Ao fim e ao cabo, temos que encontrar a liberdade para passar por cima das nossas feridas e a coragem para perdoar aos que nos feriram. O verdadeiro perigo está em ficarmos paralizados pela raiva e pelo ressentimento. Então começaremos a viver com o complexo do "ferido", queixando-nos sempre de que a vida não é "justa".

Jesus veio livrar-nos destas queixas auto-destrutivas. Diz Ele. "Põe de lado as tuas queixas, perdoa aos que te amaram mal, passa por cima da sensação que tens de seres rejeitado e ganha coragem para acreditar que não cairás no abismo do nada mas no abraço seguro de Deus cujo amor curará todas as tuas feridas."

Henri Nouwen, in "Aqui e Agora"

sábado, 9 de outubro de 2010

PERMANECER EM JESUS

«Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o viticultor (...)
Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim.
Eu sou a videira; vós sois as varas. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer (...)
Como o Pai me amou, assim também eu vos amei; permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor.»
(Jo 15; 1-10)

"A tarefa mais importante do discípulo é permanecer em Jesus. A permanência é a condição para poder dar fruto. O ramo só pode dar frutos se permanecer preso à videira. Permanecer em Jesus significa ficar imbuído do espírito e do amor de Jesus. Assim como o ramo recebe a seiva da videira, assim flui dentro de nós o amor de Jesus manifestado na sua morte de cruz.

Trata-se de um permanecer mútuo. Nós devemos permanecer em Jesus. E então também Ele permanecerá em nós impregnando-nos com o Seu amor. E esse amor nos faz dar frutos. O verdadeiro fruto não consiste em grandes feitos exteriores, ele se mostra, isso sim, no amor que passamos a irradiar. Tudo o que fazemos só será fecundo se levar a marca do amor."

Anselm Grün, em "JESUS - Porta para a Vida"

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

SER

«As pessoas não necessitam de reflectir tanto sobre o que deveriam fazer; elas deveriam, pelo contrário, reflectir sobre aquilo que elas são. Ora, se as pessoas e os seus modos fossem bons, então as suas obras poderiam refulgir limpidamente.

Se tu fores justo, então as tuas obras também serão justas. Não se pode pensar a santidade com fundamento numa acção; deve-se, pelo contrário, fundamentar a santidade em um ser, pois as obras não nos santificam, senão que nós devemos santificar as obras. (...)

O fundamento para que a essência e o fundamento do ser do homem, de onde as obras humanas recebem a sua benignidade, seja inteiramente bom, é o seguinte: que o carácter do homem esteja totalmente virado para Deus.
Coloca todos os teus esforços em que Deus seja grandioso para ti e que toda a tua ambição e devoção se dirijam para Ele em todo o teu actuar. Em verdade, quanto mais assim fizeres, tanto melhores serão as tuas obras, não importa de que género elas sejam.

Mestre Eckhart, em "Tratados e Sermões"

domingo, 3 de outubro de 2010

ACOLHER JESUS

«Quando se aproximaram da aldeia para onde iam, fez menção de seguir para diante. Eles, porém, insistiam com Ele, dizendo: Fica connosco; porque é tarde, e já declinou o dia. E entrou para ficar com eles.» (Lc 24, 28-29)

«Estamos mais inclinados a pensar que é Jesus quem nos convida a partilhar a sua casa, a sua mesa, a sua refeição. Jesus, porém, quer ser convidado. Se não o for, prosseguirá viagem, em busca de outros lugares. É muito importante percebermos que Jesus nunca nos força a aceitar a sua presença. A menos que nós o convidemos, continuará a ser um estranho, possivelmente um estranho muito atraente e inteligente, com quem podemos ter entabulado um diálogo interessante, mas que não deixa de ser um estranho...Sem um convite, que é expressão do desejo de uma relação perdurável, a boa notícia que ouvimos não poderá dar frutos duradouros...Só mediante um convite a «fica comigo» um encontro interessante se pode transformar numa relação transformadora.

Jesus é uma pessoa muito interessante; as suas palavras são cheias de sabedoria. A Sua presença aquece o coração. A sua bondade e doçura tocam-nos profundamente. A Sua mensagem constitui um forte desafio. Mas será que nós O convidamos para nossa casa? Porventura queremos que Ele venha conhecer-nos entre as paredes da nossa vida mais íntima? Porventura queremos apresentá-Lo a todas as pessoas com quem vivemos? Porventura queremos que Ele nos veja na nossa vida quotidiana? Queremos que Ele nos toque nos pontos em que somos mais vulneráveis? Porventura queremos que Ele entre na arrecadação de nossa casa, nessas divisões que nós próprios preferimos manter seguramente fechadas à chave? Desejamos verdadeiramente que Ele fique connosco quando vai caindo a noite e o dia já está no ocaso?»

Henri Nouwen, em "Não nos ardia o coração"

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

«Deus não nos ama por causa das nossas virtudes. Ama-nos apesar de nós!»