quinta-feira, 29 de julho de 2010

INOCÊNCIA

Inocente é aquele em quem não reside o mal,
E que não o comete;
Nele não existe qualquer duplicidade, o seu coração não
Está dividido;
Nele não há sinuosidade: nem no seu comportamento
Nem nas suas palavras.
Só tem um olhar,
O do amor,
Mas do amor que se dá,
E se difunde sem cálculos.

O inocente em quem não reside o mal,
Não o vê no outro,
Confia sempre…
«Não tenho receio de ti, posso aproximar-me de ti sem
Qualquer temor, não tens segundas intenções, nem preconceitos;
Não és manhoso nem matreiro; os teus olhos límpidos
Desmontam as barreiras que ergui em torno do meu coração, barreiras de medo.
A tua inocência seduz-me».



O mundo não pode receber esse inocente.
A sua presença condena.
O brilho dos seus olhos condena,
Não o da criança que pretende captar e seduzir,
Nem o do ignorante ou do ingénuo,
Mas o do homem consciente do alcance
Dos seus actos,
Que sabe que diante dos homens
E da lei
Pode ser tido por louco ou até condenável,
Mas prefere deixar-se guiar por essa outra lei, a lei eterna
Da pessoa e do seu amor, e da sua verdade.

O inocente é o homem livre que se faz escravo de Espírito.
Não se deixa aprisionar num grupo,
Branco ou negro,
Com as suas convenções sociais,
As suas maneiras de agir e os seus costumes.
Esse Espírito dá-lhe um coração universal
Que lhe permite poder encontrar o miserável,
O rico, o pobre,
Com um coração feito amor para o acolher e introduzir
No seu próprio coração,
Com esse sopro eterno.

A inocência verdadeira é a do amor que se difunde
Sem medo,
Porque somos amados e envolvidos
Pelo Amor do Pai.
E essa primeira fonte chama-se JESUS CRISTO.

E tu, inocente
Não tens medo,
Não tens medo do mundo,
Nem medo do mal,
Nem medo dos outros,
Nem medo de ti mesmo e da tua carne.
Tu caminhas pela vida
Sem temor,
Olhando, dando,
Entregando-te em absoluta tranquilidade,
De rosto radiante e límpido.
Mas tu não irradias a tua própria inocência,
É por isso que não tens medo…
Não tens medo de a perder,
Porque sabes que essa inocência vem do Alto,
Ou, antes, de uma nascente mais profunda
Do que tu:
A inocência que jorra de Deus
E que se chama JESUS CRISTO.

Porque és pobre
E porque o sabes
E porque amas a tua pobreza,
É que podes enfrentar a vida, o mundo e os outros,
Sem medo,
Para oferecer a tua inocência,
Para dar a tua paz,
Essa certeza e essa força do Amor.

Tu, inocente,
Podes tocar no mundo, na matéria e no outro,
Não para os tomar para ti,
Arrebatando-os ao outro,
Nem para os possuir só para ti
(contacto impuro e possessivo),
Nem para os destruir, pisar,
Fazer desaparecer, matar
(contacto de ódio e violência),
Mas para lhes transmitir a vida,
A liberdade
Que brota da paz.

O teu contacto, então, é como o de Jesus,
Um contacto feito de doçura,
De ternura
De vida,
Que cura.
«Ó contacto delicado

Que transforma a morte em vida!» (S. João da Cruz)

A inocência,
Miragem imaginária que se esfuma
Mal a procuro,
Porque não se pode procurar.
Ela só existe na medida
Em que te encontro
A ti
E a ti, Jesus Cristo,
A quem amo.

Jean Vanier, em "Novas Perspectivas do Amor"

domingo, 25 de julho de 2010

ABRIR-SE À TERNURA - A HISTÓRIA DE HELENA

A Helena, da comunidade de Punla nas Filipinas, morreu há alguns meses.
Tinha quinze anos quando chegou à comunidade.
Tinha vivido no hospital desde a nascença e era muito pequena.


Era cega, incapaz de andar, de falar, de fazer fosse o que fosse com as mãos; um pobre corpinho ferido e frágil.
Era Keiko, uma jovem japonesa, que se ocupava dela. E quando fui a Manila nesse ano, Keiko disse-me como era difícil conviver com a Helena.

Helena não tinha qualquer reacção. Era completamente amorfa, não reagindo a nada, não reclamando nada, capaz apenas de mamar o biberão que lhe metiam na boca. Era muito duro não saber nada do que ela podia sentir e não ter qualquer comunicação com ela.


Encorajei Keiko a falar-lhe com muita doçura, a tocá-la com muita ternura, a segurá-la com muito amor. E disse-lhe. "Se Deus quiser, um dia ela sorrirá. E, nesse dia, Keiko, mandar-me-ás um postal".


Alguns meses depois, recebi um postal de Manila:
"A Helena hoje sorriu", escrevia Keiko.
Helena tinha recuperado a vida: algo de emparedado nela, no fundo dela, se tinha libertado, uma pequena nascente havia surgido, tinha recuperado a confiança.


É assim, nós somos seres de comunhão, e quando a comunhão não é possível, fechamo-nos em nós próprios, tornando-nos incapazes de comunicar, de agir, de entrar nessa circulação vital do mundo e dos seres; é como se tivéssemos deixado de ser irrigados.
A criança que está abandonada, deixada a si própria desde a nascença, fecha-se num mundo de tristeza e de depressão e torna-se incapaz de reagir. (...)


Tudo o que a criança pode viver é a comunhão, esse vaivém de amor em que se dá e se recebe.
Ás vezes oiço os psicólogos dizerem que a criança não ama, que o amor é algo que se desenvolve, algo que é da ordem do dom e do altruísmo.

É verdade que há no amor essa dimensão oblativa que é necessário indubitavelmente adquirir pouco a pouco, mas é falso dizer que a criança não ama.
Pelo contrário, a criança não é senão amor.
Mas vive uma forma de amor que nós perdemos e de que temos muito medo: o amor de confiança.
Há um amor de generosidade de que sem dúvida o pequenino não é capaz.
Um bebé não é generoso! Mas é extraordinariamente confiante e a confiança é já um dom de si.

Nós crescemos talvez em generosidade, mas perdemos a confiança: a confiança em Deus, a confiança nos outros. Temos tanto medo de ser enganados, manipulados, traídos, de depositar mal a nossa confiança que desenvolvemos todo um sistema de defesa, ao abrigo do qual procuramos provar a nossa independência, a nossa autonomia.


A criança não pode ser autónoma. É tão pequena quando nasce que nada pode fazer por si própria, nem sequer puxar os cobertores se tem frio de noite!
Está dependente em tudo e só pode gritar.
Mas o que é extraordinário é que o seu grito é também um sinal de confiança: "Tenho confiança em ti, sei que me amas, sei que queres o meu bem, que queres que eu seja feliz. Sei que responderás ao meu grito", diz ela.
E a mãe responde ao grito da criança, interpreta o seu grito: "Tem fome, tem sede, sente-se triste, tem medo do escuro..."
Gosto muito de ouvir uma mãe interpretar o grito do seu bebé, compreendê-lo, porque o ama e o conhece. (...)


A criança precisa de ser amada, com esse amor que lhe revela que é bela, que estamos felizes de estar com ela, felizes que ela exista, felizes de nos ocuparmos dela, de tocá-la, de a banhar, de a beijar ou de brincar com ela.
Ela sente-o através da forma como a tocamos, como lhe falamos, pois não contam apenas as palavras, mas também, e mais ainda, o tom de voz.
Quando uma criança é pequena demais para compreender as palavras, compreende no entanto muito bem o tom de voz. (...)


Não conhecemos a história da Helena, não sabemos exactamente o que a feriu, mas sabemos que ela estava horrivelmente ferida.
Deve ter chamado e chamado para receber amor, ternura, para que alguém se ocupasse dela com doçura, para que lhe fizessem sentir que ela era importante, que ela contava para alguém.


E se ninguém respondeu - e ninguém deve ter respondido- um dia deixou de chamar, fechou-se em si própria, retirou-se o mais que pôde do mundo. (...)


Como sairá Helena da sua prisão de medo e de desespero?
Como se abrirá de novo à comunicação?
Encontrando alguém em quem possa ter confiança, alguém que não a julgue nem a condene.
Porque se Helena se abre um pouco e logo a seguir é julgada ou condenada, se a acham "má", ela fechar-se-á definitivamente.


Como tocar a Helena para lhe devolver confiança, para que não se sinta julgada?
Helena grita pela comunhão e não-condenação, mas o seu grito está encerrado nela.
É como uma pedra e não reage a nada. (...)


Para viver, uma Helena precisa imensamente de ternura, precisa de sentir que está em comunhão com os outros.
E se recebe essa comunhão, deixará cair as suas barreiras de defesa, abrir-se-á pouco a pouco. E, um dia, sorrirá.


A história de Helena na comunidade foi muito curta.

Foi Jing que, um dia, a resumiu assim: "A Helena veio, sorriu, foi baptizada e, depois, morreu".
A sua morte foi muito dolorosa: teve uma crise de epilepsia, mas não conseguiu recuperar a respiração e sufocou.
Agora, é o anjo da guarda da comunidade, aquela que no coração de Jesus vela sobre a comunidade. É misterioso que tenha ficado tão pouco tempo connosco, cerca de uma ano.
Talvez não tenha vindo senão para sorrir e nos ensinar o segredo da comunhão.


Helena não vivia senão de comunhão.
Teve tempo de a recuperar e de nos ensinar quanto medo também nós temos, e quantos defesas; talvez não a imobilidade como ela - muitas vezes preferimos a hiperactividade - mas a hiperactividade é igualmente eficaz para nos fecharmos e nos escondermos dos outros.
Para nos aproximarmos de uma Helena, é preciso que nós também nos abramos, que cessemos de querer fazer coisas, que também estejamos dispostos a viver em comunhão, para que não tenhamos mais medo da nossa doçura e da nossa própria ternura.


A Helena precisava que nós descobríssemos a nossa própria ternura e nossa doçura.
Viveu profundamente a primeira bem-aventurança - era tão pobre - e tinha imensa necessidade da terceira bem-aventurança: "Bem-aventurados os mansos..."


Para nos aproximarmos de uma Helena, é preciso ter muita mansidão, isto é, muita doçura;
para a tocar sem a ferir, é preciso uma imensa ternura e se, no nosso íntimo, há violência, não poderemos tocá-la.
Quanto mais alguém está ferido, mais doçura é necessária. Para lavar o corpo de alguém que vai morrer, é precisa uma doçura extrema.

Helena ensinou-nos a viver a terceira bem-aventurança.


Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

quinta-feira, 22 de julho de 2010

DEUS NUNCA SE DECEPCIONA

«Somos moldados por todas as graças que recebemos, por todas as graças que recusámos,
por todos os gestos de amor e todos os gestos de ódio ou de indiferença,
pelos nossos fracassos e os nossos êxitos;
tudo, literalmente tudo se inscreve na nossa carne.

Assim, a experiência do amor de Deus por nós,
experiência que fazemos um dia (...),
não muda a nossa história nem o que nos moldou,
mas muda-nos porque nos revela que Deus nos ama,
tal como somos,
não tais como gostaríamos de ser,
não tais como a sociedade ou os nosso pais gostariam que fôssemos,
mas tais como somos hoje, com as nossas fragilidades, as nossas feridas,
os nosso medos, as nossas qualidades e os nosso defeitos.

Tais como somos hoje, somos amados por Deus.

E, se temos a impressão de que constantemente decepcionamos os outros,
que somos incapazes de corresponder às suas expectativas,
à sua confiança, às esperanças que depositaram em nós;
se temos o sentimento de que há uma distância
entre o que parecemos ser e o que somos na realidade,
entre aquilo que os outros pensam que somos capazes de fazer e o que podemos fazer de facto, então é preciso que saibamos que a Ele, o nosso Deus, jamais O decepcionaremos.

Ele conhece-nos exactamente.
Conhece o estranho mundo de trevas e luz que nos habita,
conhece melhor que nós esta mistura misteriosa que somos,
sabe aquilo de que somos capazes.
Os outros podem ser decepcionados por nós porque formam sonhos a nosso respeito
e nos projectam no ideal;
Deus nunca Se decepciona, porque aquele que ama, é aquele que eu sou hoje;
Deus não vive no futuro nem no passado mas sim no presente.
Ele "é" o presente e vê-me na minha realidade presente.
»

Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas"

terça-feira, 20 de julho de 2010

CONTINUA A PREFERIR DEUS

Enfrentas escolhas permanentes. O problema está em saber se preferes Deus ou o teu eu duvidoso. Sabes qual é a escolha certa, mas as tuas emoções, paixões e sentimentos continuam a sugerir-te escolher o caminho da auto-exclusão.

A escolha radical está em confiar sempre em que Deus está contigo e te dará o que mais precisas. As tuas emoções de auto-exclusão talvez digam assim «Isto não vai dar em nada. Continuo a sentir-me tão angustiado como há seis meses. O mais provável é continuar a agir e a reagir do mesmo modo depressivo. De facto não mudei nada». Etc, etc. É difícil não dar ouvidos a estas vozes. Contudo, sabes que esta não é a voz de Deus.
Deus diz-te: «Eu amo-te, estou contigo, quero que te aproximes de mim e experimentes a alegria e a paz da minha presença. Quero dar-te um coração e um espírito novos. Quero que fales com a minha boca, vejas com os meus olhos, oiças com os meus ouvidos, toques com as minhas mãos. Tudo o que é meu é teu. Limita-te a confiar em mim e deixa-me ser o teu Deus.»

Esta é a voz que deves escutar. E essa escuta exige uma escolha real, não apenas de vez em quando, mas a cada momento de cada dia e de cada noite. És tu quem decide o que pensar, dizer e fazer. Podes optar pela depressão, podes convencer-te a ser pobre em segurança e agir de modo a censuraras-te permanentemente. Mas tens sempre a oportunidade de escolher pensar, falar e agir em nome de Deus e assim caminhares para a Luz, a Verdade e a Vida.

À medida que vais concluindo este período de renovação espiritual confrontas-te uma vez mais com a escolha. Podes optar por recordar este tempo como uma tentativa falhada de renascimento total ou podes igualmente escolher recordar-te dele como do tempo precioso em que Deus iniciou em ti coisas novas que precisam de ser levadas à plenitude. O teu futuro depende de como decidires recordar o teu passado. Escolhe dentro da verdade que conheces. Não permitas que as tuas emoções ainda ansiosas te distraiam. Enquanto continuares a preferir Deus as tuas emoções deixarão gradualmente a sua rebeldia e converter-se-ão à Verdade que habita em ti.

Enfrentas uma verdadeira batalha espiritual. Mas não tenhas medo. Não estás só. Os que te guiaram durante este período não te vão abandonar. As suas orações e apoio estarão contigo onde quer que vás. Mantém-nos junto do teu coração para que eles te possam conduzir enquanto fazes as tuas escolhas.

Lembra-te, estás em segurança. És amado. Estás protegido. Estás em comunhão com Deus e com os que Deus te enviou. O que é de Deus permanecerá. Pertence à vida eterna. Escolhe-a e ela será tua.


Henri Nouwen, A voz íntima do amor

domingo, 18 de julho de 2010

O DOM DA UNIDADE

«A unidade entre as pessoas não é consequência do esforço humano mas sim um dom divino.
A unidade entre as pessoas é um reflexo da unidade de Deus.

Quando Jesus reza pela unidade (João 17, 21), Ele pede ao Pai que aqueles que crêem nele, que está em perfeita comunhão com o Pai, façam parte dessa unidade. Continuo a ver em mim próprio e nos outros como nos esforçamos por ser unidos, focando toda a nossa atenção uns nos outros e tentando descobrir o ponto onde nos possamos sentir unidos. Mas ficamos muitas vezes desiludidos, quando vemos que nenhum ser humano é capaz de nos oferecer o que mais desejamos. Esta desilusão pode tornar-nos facilmente amargos, cínicos, exigentes e até mesmo violentos.

Jesus chama-nos a procurar a nossa unidade com e através dele. Quando dirigimos primeiramente a nossa atenção interior não para os outros mas para Deus, a quem pertencemos, então sim, descobriremos que em Deus também pertencemos uns aos outros.
A amizade mais profunda é a que tem Deus como mediador; os mais fortes laços matrimoniais são os mediados por Deus.»

Henri Nouwen, em "A Caminho de Daybreak"

quinta-feira, 15 de julho de 2010

VIVER O ESPÍRITO DE JESUS


«A humildade é o lado oculto do amor... (1)

Todas as bem-aventuranças são a lei nova do amor ou a pedagogia dele - o seu lado oculto - e supõem uma espiritualidade pascal de morte e ressurreição.
Amar é sair de si; para sair de si é preciso esquecer-se de si... (2)

O espírito de Jesus que está na base de todas as bem-aventuranças é o espírito da humildade...
As bem-aventuranças são sete, oito ou nove situações (podem ser muitas) - situações humanas concretas que implicam um comportamento moral - em que o espírito de Jesus se vive, em estreita relação com o amor do Pai derramado nos corações. Sem elas, o amor não é verdadeiro.

Os pobres, os mansos, os misericordiosos, os que têm fome e sede de justiça são homens modestos que não fazem alarido, que pensam pouco em si e que, por isso mesmo, não têm medo de dar a cara. A humildade é neles energia de aceitação de si que lhes dá capacidade de integração de todas as coisas, define a sua personalidade de homens e os prepara para serem perseguidos por causa da justiça. São homens unificados que não esperam nada de nada e podem olhar o mundo pelo prisma de Deus com olhos de misericórdia, de justiça, de pureza...
Homens que vivem o espírito de Jesus, vão reproduzindo neles a sua imagem». -

Luís Rocha e Melo, em "Se tu soubesses o dom de Deus"

(1) Caridade - cfr. 1 Cor 13: 4-7.
(2) «Negar-se a si mesmo» - Mt 16, 24; «perder a vida para ganhá-la» - Mt 16, 25.

terça-feira, 13 de julho de 2010

A SEMENTE

"Os olhos de quem vai de começo em começo, numa vida de comunhão com Jesus Cristo, não se fixam nos seus próprios progressos ou retrocessos.
A semente do Evangelho, depositada nas profundezas do ser, germina e cresce dia e noite."

Irmão Roger, de Taizé, em "Viver em tudo a Paz do Coração"

domingo, 11 de julho de 2010

AMAR E ORAR

"... O ponto de partida para entrar em oração é o de exercitar na fé a consciência de ser amado por Deus. Ser amado significa imensas coisas, mas baste-nos isto para já: é ser desejado, querido, acolhido e escolhido, aceite e respeitado, cada um como é com todas as suas qualidades e com todos os seus defeitos.

Deus acolhe cada um assim mesmo como é e não como deveria ser, pois o que cada um devia ser mas não é nem sequer existe. Deus não ama o que não existe. Se Deus amasse esse ser ideal, perfeito, criava-o porque amar e criar são acções simultâneas em Deus. Só existe de facto a realidade do que cada um é no presente com suas grandezas e misérias.
É a esse homem real que Deus ama, respeita, acolhe e escolhe, com predilecções que a nossa inteligência não pode sequer entender.
A consciência de ser amado por Deus vai ganhando corpo quando se insiste na oração e na contemplação silenciosa da vida de Jesus Cristo." -

Luís Rocha e Melo S. J. , em "Se tu soubesses dom de Deus"

quinta-feira, 8 de julho de 2010

DENTRO DE NÓS

"Há dentro de nós uma espécie de horror ao vazio, que só o amor e Deus afinal podem preencher. Mas, desgraçadamente, tantas vezes fugimos de Deus e tentamos encher esse vazio. Enganamo-nos, enchemo-nos de coisas, de ruído, de vistas, de programas uns atrás dos outros, de compras. Enchemos os sentidos, enchemo-nos de sensações e perdemos o essencial.

Há uma realidade muito importante que nos pode salvar do vazio e do desespero, é a comunicação com Deus, a oração. É a oração que temos de recuperar, é uma tragédia que as pessoas ao menos não o tentem. Havendo tantos testemunhos de que a oração é o estar ligado por dentro e que nos salva, como é que há tantas pessoas que insistem em não tentar, em orgulhosamente afirmar não precisarem disso? Quando afinal andam a precisar absolutamente do encontro com o transcendente!"

Vasco Pinto de Magalhães em, "Onde há crise, há esperança"

terça-feira, 6 de julho de 2010

DEIXAR-SE AMAR

«O amor gratuito não espera dividendos nas suas actuações e investe o seu capital sem juros...

Qual será o prémio de quem corresponde ao amor gratuito de Deus senão a de ser amado por Ele e a de compartilhar com Ele a vida eterna que Ele dá como herança, de forma condicionada no presente (o cem vezes mais) e de forma plena no futuro?
Na presença do nosso Deus revelado, ninguém tem o direito de dizer: «não posso rezar porque não sei amar». Precisa, sim, de se deixar amar como a criança e pôr-se na escola do amor.


Henri Caffarel conta uma história passada em Itália em fins do séc. XVIII, num convento em construção na encosta dos Apeninos: o prior do convento chamou o arquitecto e mandou-lhe construir uma cela isolada sem janelas, com frinchas que apenas deixassem entrar alguns raios de sol; nada mais dentro da cela a não ser uma inscrição com estas palavras: «Amo-te exactamente como és».
Nessa cela, ia ser proibido qualquer pensamento ou tema de meditação para além deste: «Deus ama-me infinitamente, ternamente, Deus ama-me exactamente como sou». A cela destinava-se a algum monge que andasse triste ou ansioso a perguntar-se «como é que o Senhor pode amar alguém como eu?». (1)

Quem não sabe amar a Deus entre na cela do monge e deixe-se lá ficar; veja a inscrição na parede e não pense em mais nada. «Deus que te ama gratuitamente, te ensinará a amar». -

Luís Rocha e Melo, em "Se tu soubesses o dom de Deus"

(1) Caffarek, H., L´oraison de pauvreté, p. 6-8

domingo, 4 de julho de 2010

DEUS HÁ-DE SABER OUVIR-TE

«Quatro séculos depois de Cristo, Santo Agostinho escrevia estas palavras que permanecem mais actuais do que nunca:

«Existe uma voz do coração e um idioma do coração. Esta voz interior é a nossa oração quando os nosso lábios se fecham e a nossa alma se abre diante de Deus. Calamo-nos, mas o nosso coração fala; não já aos ouvidos humanos, mas a Deus. Não duvides: Deus há-de saber ouvir-te.»

Irmão Roger de Taizé, em "Em tudo a paz do coração"

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O DIÁRIO DE ETTY HILLESUM (3ª parte)




Mais algumas palavras que nos abrem as portas da profunda e riquíssima vivência interior de Etty Hillesum.

«O que importa é escutar o próprio ritmo dentro de ti e tentar viver segundo esse ritmo. Escutar o que emana de ti. Muito daquilo que fazes é simplesmente imitação ou dever imaginário ou falsas ideias acerca do que uma pessoa dever ser.
A única certeza de como viver e o que fazer só pode provir das fontes que brotam lá no fundo de ti. (...)

E agora eu digo muito humilde e grata, e é a sério, embora eu saiba que mais uma vez hei-de rebelar-me e tornar-me irritável: «Meu Deus, agradeço-te por me teres criado como eu sou. Agradeço-te por às vezes poder estar cheia de vastidão, essa vastidão não é senão o estar repleta de ti. Prometo-te que toda a minha vida há-de ser uma luta para atingir a bela harmonia e também humildade e amor verdadeiro de que me sinto ser capaz nos meus melhores momentos.(...)
Eu uso a oração como um escuro muro protector, na oração retiro-me como se estivesse na cela de um convento e, depois, saio cá para fora, mais «una» e fortalecida e mais completa.
Recolher-me na cela fechada da oração torna-se para mim uma realidade cada vez maior e também uma necessidade. Esta concentação interior ergue muros altos em meu redor, dentro dos quais novamente me reencontro, formo um todo, fora do alcance de todas as dispersões. E consigo imaginar que pode vir uma época em que me encontrarei ajoelhada dias a fio, até finalmente sentir que surgiram muros protectores à minha volta, dentro dos quais não me posso dispersar, nem perder-me, nem arrasar-me.(...)
«Uma pessoa deve arrancar e exterminar muita coisa dentro de si, a fim de criar um espaço amplo e contínuo para os grandes sentimentos e ligações na sua totalidade, sem que eles sejam cruzados por pequenas reacções de um nível mais baixo (...)
Tantos pedacinhos pequenos do próprio eu, que impedem o caminho para áreas mais amplas. Aquele eu restrito, com os seus desejos, somente orientados para a satisfação do altamente limitado eu, há que eliminá-lo e apagá-lo. (...)
Às vezes, é como se dentro de mim existisse uma grande oficina onde se trabalha no duro, se martela, e sei mais lá o quê. E, às vezes, parece-me que sou feita de granito, um pedaço de rocha, e nessa rocha batem constantemente torrentes que a vão furando. Uma gruta de granito que vai sendo cada vez mais escavada e onde são cinzelados contornos e formas. E pode ser que um certo dia as formas fiquem prontas para uso, com contornos nítidos em mim, e que eu só precise reproduzir o que encontro cá dentro.»
Fonte: Diário de Etty Hillesum (1941-1943)
Nota: No Brasil, este livro foi editado com o título: "Uma Vida Interrompida - os Diários de Etty Hillesum" . Podem encontrar o livro aqui