domingo, 28 de fevereiro de 2010

OUSA CONTAR ABERTAMENTE A TUA HISTÓRIA

«Sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.» (Romanos 8, 28)

«Os anos que te antecedem, recheados de conflitos e sofrimento, serão a seu tempo recordados como o caminho que te conduziu à tua nova vida. Mas enquanto essa nova vida não te pertencer completamente, as tuas recordações continuarão a fazer-te sofrer.
Quando revives acontecimentos dolorosos do passado, podes sentir-te vítima deles. Mas existe uma maneira de contares a tua história sem sentir dor e nessa altura também te sentirás menos pressionado a contá-la. Aperceber-te-ás que o teu lugar deixou de ser lá: o passado já era, o sofrimento deixou-te, já não precisas de regressar para o aliviar, já não dependes do teu passado para te identificares.

Há duas maneiras de contar a tua história. Uma consiste em contá-la de forma compulsiva e premente, regressando continuamente a ela por que encaras o teu presente sofrimento como consequência das tuas experiências passadas.

Mas existe outra maneira. Podes contar a tua história de um ponto onde ela já não te domina. Podes falar dela com algum distanciamento e encará-la como caminho para a liberdade de que actualmente gozas.
Verás, então, que desapareceu a compulsão de contar a tua história. De uma perspectiva de vida em que agora te encontras e com o distanciamento que agora possuis, o teu passado já não te ensombra. Perdeu o peso e pode ser recordado como o modo que Deus encontrou para te ajudar a ter compaixão pelo próximo e a compreendê-lo.»

Henri Nouwen, em "A Voz Íntima do Amor"

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

FAZER-SE CRIANÇA



"Se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no reino dos céus.» (Mt. 18: 1-4)
"Permanecer criança é reconhecer o seu próprio nada, esperar tudo de Deus, como um menino espera tudo do seu pai...Ser pequeno significa não atribuir a si mesmo as virtudes que se praticam, acreditando-se capaz de alguma coisa, mas reconhecer que Deus põe esse tesouro da virtude na mão da criança; mas é sempre tesouro de Deus". (Santa Teresa de Lisieux)
"... essa simplicidade de alma, esse terno abandono na majestade divina é a meta da nossa vida, que queremos alcançar, ou voltar a encontrar se alguma vez a conhecemos, pois é dom da infância, que muito amiúde não lhe sobrevive". (G. Bernanos)

"Salvar-se, segundo Jesus, é fazer-se progressivamente criança.
A criança é um ser essencialmente pobre e confiado, confiado porque sabe que à sua debilidade corresponde o poder de alguém; numa palavra, a sua pobreza é riqueza.

Por si, a criança não é forte, nem virtuosa, nem segura. Mas é como o girassol que todas as manhãs se abre para o sol; dele espera tudo, dele recebe tudo: calor, luz, força, vida."

(Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto")

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

REGRESSA SEMPRE AO PONTO SÓLIDO

«Tens que acreditar na resposta afirmativa que te é devolvida quando perguntas «Amas-me?» Deves escolher este sim mesmo quando não o sentes.

Sentes-te esmagado por distracções, fantasias, pelo perturbante desejo de te lançares no mundo do prazer. Mas sabes de antemão que não será aí que vais descobrir uma resposta para a tua dúvida mais profunda. Tal como essa resposta não está em voltar a analisar minuciosamente acontecimentos passados ou na culpa ou recriminação. Tudo isso apenas contribui para te exaurir e fazer abandonar a rocha sobre a qual está construída a tua casa.

Tens de confiar nesse ponto sólido, no local onde podes dizer sim ao amor de Deus mesmo quando não o sentes. Neste momento nada sentes a não ser vazio e falta de força para escolher. Mas continua a repetir «Deus ama-me e o amor de Deus basta».
Tens que escolher uma e outra vez esse local sólido e regressar a ele após cada fracasso.

Henri Nouwen, A Voz Íntima do Amor

domingo, 21 de fevereiro de 2010

SEGUE O TEU CHAMAMENTO MAIS PROFUNDO

«Quando descobrires dentro de ti alguma coisa que é um dom de Deus deves apoderar-te dela e não deixar que te seja retirada. Por vezes as pessoas que não conhecem o teu coração nem se aperceberão da importância de algo que faz parte do teu ser mais profundo, precioso tanto aos teus olhos como aos de Deus. Talvez não te conheçam suficientemente bem para corresponder às tuas carências genuínas. É nesta altura que deves escutar o teu coração e seguir o teu chamamento mais profundo.

Uma parte de ti cede facilmente às exigências alheias. Assim que alguém questiona os teus motivos começas a duvidar de ti próprio. Acabas por concordar com o outro antes de teres consultado o teu próprio coração. Assim vais-te tornando cada vez mais passivo e assumes simplesmente que os outros é que sabem. Neste caso deves escutar com atenção o teu ser mais profundo. «Centrar-te» e «regressares a ti próprio» são expressões que indicam possuíres uma base interior sólida, a partir da qual podes falar e agir - sem desculpas - de forma humilde mas convincente.

Henri Nouwen, a voz íntima do amor

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

PERMANECER EM JESUS


"Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o viticultor (...)
Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim.
Eu sou a videira; vós sois as varas. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer (...)
Como o Pai me amou, assim também eu vos amei; permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor." (Jo 15; 1-10)


"A tarefa mais importante do discípulo é permanecer em Jesus. A permanência é a condição para poder dar fruto. O ramo só pode dar frutos se permanecer preso à videira. Permanecer em Jesus significa ficar imbuído do espírito e do amor de Jesus.
Assim como o ramo recebe a seiva da videira, assim flui dentro de nós o amor de Jesus manifestado na sua morte de cruz.
Trata-se de um permanecer mútuo. Nós devemos permanecer em Jesus. E então também Ele permanecerá em nós impregnando-nos com o Seu amor. E esse amor nos faz dar frutos. O verdadeiro fruto não consiste em grandes feitos exteriores, ele se mostra, isso sim, no amor que passamos a irradiar.
Tudo o que fazemos só será fecundo se levar a marca do amor."

Anselm Grün, em "JESUS - Porta para a Vida"

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A POBREZA DOS RICOS

«O Murray é banqueiro em Nova Iorque e conhece pessoalmente inúmeras pessoas de quem eu só ouvi falar na televisão ou nos jornais. Leu muitos dos meus livros e acha que o seu mundo precisa tanto da Palavra de Deus como o meu. Foi uma experiência de grande humildade ouvir um homem que conhece «este mundo e o outro» dizer:

- Dê-nos uma palavra de Deus, fale-nos de Jesus... não se afaste dos ricos que são tão pobres.
Jesus ama os pobres - mas a pobreza reveste-se de muitas formas. Esqueço-me desse facto com imensa facilidade, deixando os poderosos, os famosos e os bem sucedidos na vida, sem o alimento espiritual de que carecem. Mas, para oferecer esse alimento, tenho que ser eu próprio muito pobre - não curioso, não ambicioso, não pretencioso, não orgulhoso. É tão difícil deixarmo-nos deslumbrar pelo brilho mundano, seduzidos pelo seu aparente esplendor. E, contudo, o único lugar onde devo estar é o da pobreza, o ponto onde há solidão, raiva, confusão, depressão e sofrimento. Preciso de lá ir em nome de Jesus, mantendo-me junto do seu nome e oferecendo o seu amor.

Ó Senhor, ajuda-me a não me deixar dispersar pelo poder e pela riqueza;
ajuda-me a não me deixar impressionar com as estrelas e heróis deste mundo.
Abre os meus olhos aos corações sofredores do teu povo,
sejam quem forem,
e põe na minha boca a Palavra curativa e consoladora.
Ámen.»


Henri Nouwen, em "A Caminho de Daybreak"

domingo, 14 de fevereiro de 2010

DAR DA SUA POBREZA

«Jesus, levantando os olhos, viu os ricos deitarem as suas ofertas no cofre; viu também uma pobre viúva lançar ali dois leptos; e disse: Em verdade vos digo que esta pobre viúva deu mais do que todos; porque todos aqueles deram daquilo que lhes sobrava; mas esta, da sua pobreza, deu tudo o que tinha para o seu sustento.» (Lucas 21:1-4)

«Dar, não da minha riqueza mas da minha pobreza, como a viúva de Jerusalém que deu a sua última moeda, esse é o grande desafio do Evangelho. Quando avalio criticamente a minha vida descubro que a minha generosidade surge sempre num contexto de abastança. Dou algum do meu dinheiro, algum do meu tempo, parte da minha energia e alguns dos meus pensamentos sobre Deus aos outros, mas guardo sempre para mim dinheiro, tempo, energia e pensamentos suficientes para a minha própria segurança. Assim nunca dou verdadeiramente a Deus a possibilidade de me demonstrar o Seu Amor sem limites.»

Henri Nouwen, em "A Caminho de Daybreak"

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O DESERTO

"Na simbologia bíblica, o deserto é uma etapa no caminho para Deus que todos os que são chamados à fé devem atravessar.

O deserto não é uma pátria, mas somente um percurso, um caminho que conduz ao conhecimento do Amor misericordioso de Deus. Todos aqueles que procuram Deus devem passar por ele, pois a experiência do deserto está estreitamente ligada ao aprofundamento da nossa fé na Sua Misericórdia.
O deserto, por excelência, são os dificeis estados espirituais de aridez e secura, quando Deus pareça ter-te abandonado, quando não sintas a Sua presença e te seja mais difícil crer nela.

A situação do deserto põe a descoberto aquilo que no homem se encontra mais profundamente escondido. (...) É no deserto que o homem se dá conta de que coisas é capaz, da sua fraqueza, da sua condição de pecador, da sua dureza de coração. Aí o homem encontra-se face a face com a aterradora verdade daquilo que é sem a ajuda de Deus.

Normalmente o homem vive de uma maneira superficial, como se vivesse apenas à flor da pele. Só as situações difíceis, as situações de deserto, o constrangem a tomar decisões, revelando, ao mesmo tempo, as camadas mais profundas do bem ou do mal.

O deserto, porém, não só revela a verdade acerca de ti, mas transforma-te interiormente, polarizando as tuas atitudes. O dom do deserto permite-te vencer a tibieza, porque te obriga a fazer opções.

Enquanto fores um cristão tíbio, para quem a vida corre sem problemas e tudo vai bem, a tua situação, vista à luz da fé, é dramática, porque pensas que és tu que solucionas tudo e Deus deixa, assim, de te ser necessário: estás, desse modo, numa condição de ateísmo prático.

A finalidade do deserto é de formar o homem, fortalecer a sua fé, eliminar a sua mediocridade, formar verdadeiros discípulos de Cristo.

No deserto é que vais dar conta de que Deus realmente nunca te abandona. É verdade que no deserto Deus Se oculta mas, na realidade, Ele está particularmente perto de ti. Nunca como nessas ocasiões se encontra tão próximo. Somente espera que Lhe demonstres a tua fé, espera que Lhe estendas os teus braços confiantemente."

Tadeusz Dajczer, em "Meditações sobre a Fé"

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A GLÓRIA DE DEUS

"Cada um de nós tem que cumprir esta missão, deixar que toda a glória de Deus se manifeste através de si. (...)

Cristo em pessoa é que é o nosso Mestre. Cristo é mistério. Nós não podemos possuir nunca a verdade de Cristo; o que podemos é pedir-Lhe para sermos possuídos por Ele, pela sua verdade e pelo seu amor, "que estão para lá do nosso alcance".

Quando Ele estabelece a sua morada em nós, não somos nós que O deixamos entrar na nossa vida, mas somos nós que Lhe devolvemos a casa, porque Ele é o Senhor de tudo e ama tudo o que criou."

George W. Hughes, em "O Deus das surpresas"

domingo, 7 de fevereiro de 2010

DAR TUDO

Eu mendigava de porta em porta,
pelo caminho da aldeia,
quando um carro de ouro surgiu à distância
e parecia um sonho esplêndido.

Perguntei a mim mesmo quem seria esse Rei de todos os reis.
Minhas esperanças subiram ao céu.
Eu pensava: terminaram os meus dias nefastos.
E tive esperança de esmolas espontâneas e de riquezas soltas na areia.

O carro parou onde eu estava.
Ele me olhou e disse sorrindo.
Eu senti que afinal chegara o dia da minha felicidade.

E de repente estendeu-me a mão direita, perguntando:
"Que tens para mim?"
Ah, teu gesto real de estender a mão direita a um mendigo!
Confuso, perplexo, meti a mão na sacola
e, devagar, retirei um pequeno grão de trigo, que lhe ofereci.

Mas, à tardinha, foi enorme a minha surpresa.
Esvaziando a minha sacola,
vi um grão de ouro entre os de trigo.

Chorei lágrimas amargas e lamentando-me dizia:
"Por que não lhe dei tudo?"

Rabindranath Tagore

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

DAR A VIDA

«Jesus tinha duas idéias centrais: o Reino dos Céus e a justiça na terra. Por causa desta segunda idéia, os sacerdotes o mataram.
Jesus percebeu o Reino dos Céus no coração dos homens - um mundo de beleza, de verdade, de intensidade - e se dispôs a morrer por isto, pois acreditava que só o seu martírio nos faria entender a importância deste Reino.

Jesus podia ter salvado a si mesmo, simplesmente demonstrando aos sacerdotes que Ele não estava pedindo nenhum poder terreno para si. Mas, se recusando a morrer, seu sacrifício não seria total; Jesus sabia que apenas as palavras e os ensinamentos não bastam.
Então resolveu entregar-se à crucificação, certo que a morte gravaria os seus ensinamentos nos discípulos -para sempre. Demonstrando sua coragem de não fugir dos perseguidores, conseguiria mantê-los unidos, fiéis ao que Ele viera ensinar.
Tenho plena certeza do que estou dizendo, assim como estou certo que a decisão de morrer deve ter sido aceite por Jesus depois de uma intensa luta consigo mesmo. Ele morreu, e a idéia do Reino dos Céus nunca mais se perdeu na escuridão.»

Kahlil Gibran, em "Cartas de amor do Profeta"

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A LUZ DA LIBERDADE EM CRISTO

«A verdadeira unidade não é a unicidade mas a riqueza dum pluralismo soldado pelo amor. Uma sinfonia é feita duma pluralidade de notas que não têm valor senão em relações que mantêm umas com as outras. Mas cada nota deve manter-se ela mesma e querer que as outras sejam elas mesmas, porque, se ela desaparecesse, o acorde já não seria um: ficaria mais pobre.
O ideal da orquestra não é que haja só violões. O violão deve querer que o violoncelo seja plenamente violoncelo, a flauta plenamente flauta e que essa diferença, essa riqueza e essa diversidade dos instrumentos constituam uma orquestra verdadeiramente una.

O amor quer que o outro seja e que seja verdadeiramente outro. Não um reflexo de si, não um satélite, mas uma outra liberdade. Deus quer - é o seu próprio ser, o seu acto simples, eterno - que o outro seja, que os outros sejam. E este querer é eficaz, como todo o querer divino.

Aquele que é a luz, quer que a luz resplandeça nos olhos do ser amado. Se te amo, não posso querer que os teus olhos sejam baços. Se te amo, quero que haja luz nos teus olhos e desejo estar junto de ti como um contágio de luz, uma transmissão de existência luminosa.

Um olhar de amor ou amizade, é um olhar de ambição para o outro. Amo-te quer dizer: sou ambicioso em relação a ti, sobretudo não quero dominar-te nem abafar a tua liberdade, desejo despertar-te. Quero que a minha liberdade comungue com a tua, o que não é possível se a tua não existir.(...)

Deus é suscitador de pessoas livres. Ele não pode amar-nos se não vir nos nossos olhos a luz da liberdade.» - François Varillon, em "Alegria de Crer e Viver"