quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

AMOR PACÍFICO E FECUNDO


Não quero amor
que não saiba dominar-se,
desse, como vinho espumante,
que parte o copo e se entorna,
perdido num instante.

Dá-me esse amor fresco e puro
como a tua chuva,
que abençoa a terra sequiosa,
e enche as talhas do lar.
Amor que penetre até ao centro da vida,
e dali se estenda como seiva invisível,
até aos ramos da árvore da existência,
e faça nascer
as flores e os frutos.
Dá-me esse amor
que conserva tranquilo o coração,
na plenitude da paz!

Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

UM SANTO NATAL



Um Santo e abençoado Natal para todos vós.
Sintam-se abraçados fraternalmente.

"Ouvi contar esta história.
Uma criança com toda a naturalidade, voltou-se para Deus e perguntou-lhe:
"E tu, o que é que queres ser quando fores grande?"
"Pequeno", respondeu-lhe Deus, também com toda a naturalidade.
Os homens querem ser grandes, mas a grandeza de Deus está em tornar-se pequeno, em dar a vida, em desaparecer pelo bem do outro."

(Vasco Pinto de Magalhães, s.j. in "Não há soluções, há caminhos")

domingo, 20 de dezembro de 2009

FELIZ NATAL




Jesus, neste natal encontrar-nos-ás?...

Já houve um dia em que não tiveste lugar nas casas iluminadas da cidade...

Hoje, com as pernas e o Coração a Caminho,
procuro-te nas ruas enfeitadas,
nas luzes, nas montras, nos rostos,
nas mãos carregadas de presentes sem história…

Há passos apressados e sacos cheios de menoridades necessárias
que esvaziam as algibeiras
mas não vejo encherem muito os corações…
Há rostos pesados e cansados
de olhares em sobressalto
entre a mais recente promoção e os últimos nomes da lista…
Há embrulhos, laços, postais, música…

E há as crianças...

Sim, sempre elas, a dar o tom da Alegria
Sem outra preocupação senão descobrir a última novidade
no céu, no semáforo que fica intermitente
ou no rafeiro que está deitado à entrada de um prédio...

Há as crianças...

Porque a alegria da maior parte dos que não são como elas não me convence…
Estão preocupados demais
para poderem estar alegres.
Estão apressados demais
para saborearem os caminhos que percorrem.
Estão ocupados demais
para perguntarem o porquê dos gestos que fazem.

Parece-me que o natal lhes sai dos bolsos
mas não lhes entra no coração!

E depois, sem que se dêem conta,
o natal já passou.
E não ficou…

Porque inventámos um natal
onde ninguém precisa de nascer para que seja NATAL!
Porque já vai longe a lembrança
de que um dia um Menino nasceu,
antes de haver shoppings e cartões de crédito;
num país onde não havia um Pai Natal
que gostasse de andar atrelado a renas;
onde não havia pinheirinhos com luzinhas
nem se cantava Jinglebells…

E, apesar de faltar tudo isso,
consta que houve NATAL…
E hoje,
apesar de haver tudo isso,
consta que não há tanto NATAL como as montras dizem…

Rui Santiago, Derrotar Montanhas

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

QUEM É PERDOADO PERDOA


«Tenho dificuldade em perdoar quem me ofendeu verdadeiramente, principalmente quando acontece mais que uma vez. Começo a duvidar daquele que pede perdão pela segunda, terceira ou quarta vez. Mas Deus não faz contas. Deus aguarda simplesmente o nosso regresso, sem ressentimento ou desejo de vingança. Deus quer que regressemos a casa. «O Amor do Senhor é para sempre.»

Talvez o motivo porque eu tenho tanta dificuldade em perdoar aos outros seja o de não acreditar ser inteiramente perdoado. Se eu fosse capaz de aceitar como verdade que sou perdoado e não tivesse que viver com culpa e vergonha, seria verdadeiramente livre. A minha liberdade permitir-me-ia perdoar aos outros setenta vezes sete.

Não perdoando, eu próprio me acorrento ao desejo de vingança, perdendo assim a liberdade. Quem é perdoado perdoa. É isto que proclamamos quando rezamos «perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.

Esta luta duma vida inteira é o centro da vida cristã.»

(Henri Nouwen, em "A Caminho de Daybreak")

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A MISSÃO DO CRISTÃO

«O mistério do amor de Deus consiste em que os nossos corações ardentes e os nossos ouvidos e olhos receptivos possam descobrir que Aquele que encontrámos na intimidade do nosso ser continue a revelar-se a nós entre os pobres, os doentes, os famintos, os prisioneiros, os refugiados e todas as pessoas que vivem no medo.

Assim percebemos finalmente que a nossa missão não consiste apenas em ir falar do Senhor ressuscitado aos outros, mas também em receber esse testemunho daqueles a quem somos enviados.
Muitas vezes, a missão é vista exclusivamente em termos de dar, mas a verdadeira missão também é receber. Se é verdade que o Espírito de Jesus sopra onde quer, não há ninguém que não possa transmitir esse mesmo Espírito. A longo prazo, a missão só é possível na medida em que for tanto receber como dar, tanto ser amado como amar. Nós somos enviados aos doentes, aos moribundos, aos deficientes, aos prisioneiros e aos refugiados para lhes levar a boa nova da ressurreição do Senhor.
Em breve, porém, ficaremos queimados, se não conseguirmos receber o Espírito do Senhor daqueles a quem somos enviados.

Esse Espírito, o Espírito de amor, está escondido na sua pobreza, fragilidade e dor. Foi por isso que Jesus disse: «Bem aventurados os pobres, os perseguidos, os que choram.» De cada vez que lhes estendermos a mão, eles, por sua vez – quer tenham consciência disso quer não – abençoar-nos-ão com o Espírito de Jesus, tornando-se assim nossos ministros.

Sem esta troca mútua de dar e receber, missão e ministério tornam-se facilmente manipuladores ou violentos. Quando só um é que dá e o outro recebe, quem dá, em breve, torna-se opressor e quem recebe torna-se vítima. No entanto, quando o que dá recebe e o que recebe dá, o círculo de amor, iniciado na comunidade dos discípulos, pode crescer até abarcar o mundo.»

(Henri Nouwen, em “Não nos ardia o coração?”)

domingo, 13 de dezembro de 2009

VIVER E PENSAR COMO JESUS


«Quando os olhos de Jesus observavam as ruas e ladeiras, ele sentia compaixão porque as pessoas estavam desorientadas. Ele lamentou por Jerusalém. Suas palavras não vinham carregadas de repreensão e humilhação, castigo e moralismo, acusação e condenação, ridicularização e depreciação, ameaça e chantagem, avaliação e rotulagem.
Sua mente era constantemente habitada pelo perdão de Deus. Ele tomou a iniciativa de procurar os pecadores e justificou sua incrível facilidade e familiaridade com eles por meio de parábolas de misericórdia divina. (...)

Ele era impiedoso somente com aqueles que mostravam desprezo pela dignidade humana, e não tinha compaixão dos que punham intoleráveis fardos nas costas de outros, eles próprios se recusando a carregá-los. Jesus desmascarou as ilusões e boas intenções superficiais dos fariseus pelo que eles eram, chamando-os hipócritas: "Raça de víboras" (Mt 12:34). Ele não compactuava com os que não mostravam misericórdia ou compaixão.
Viver e pensar como Jesus é descobrir a sinceridade, a bondade e a verdade muitas vezes ocultas por trás do grosso e áspero exterior de nossos semelhantes. É ver nos outros o bem que eles próprios não vêem e afirmá-lo em face de poderosas evidências em contrário. (...)

Brennan Manning, em "Convite à loucura"

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

DEUS É AMOR


«Ao escolher a pobreza, a humildade, a fraqueza e a dor, Deus não Se apropriou de qualidades que não possuía para Se tornar mais atraente!
Procurou valores humanos que, de algum modo, correspondessem a valores divinos.

Quando Ele se define Amor e se declara vulnerável não está a qualificar assim a Sua natureza humana mas a revelar algo da Sua natureza divina.»

Louis Evely, em "Sofrimento"

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

VIVER PELA GRAÇA DIVINA


«O que resta de autêntico na minha vida?» é a pergunta que de vez em quando ouço, depois de a pessoa ter feito uma lista dos seus motivos escondidos, descobertos em situações e acções em que fora particularmente fiel...

O que sobre de autêntico na nossa vida é o que vem de Deus e não de nós mesmos; da sua graça e não dos nossos próprios méritos.»

Paul Tournier, em "Culpa e Graça"

domingo, 6 de dezembro de 2009

VISLUMBRES DA GRAÇA DIVINA


«A graça não pode ser armazenada; nós só temos vislumbres dela...

Mas esses momentos têm sabor suficiente para nos fazer entrever o verdadeiro relacionamento humano e nos fazer desejá-lo ardentemente.» Paul Tournier, em "Culpa e Graça"

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O «OURO» OU OS «LADRÕES»?

Um antigo mestre cristão disse uma vez ao seu discípulo: «Estás carregado de ouro; cuidado com os ladrões». Nós, da mesma forma que esse discípulo, também estamos carregados de ouro porque temos Jesus.
Mas devemos estar alerta; ter cuidado com os ladrões porque estão sempre à espreita.
Podemos encontrá-los dentro da sociedade que nos quer arrastar para um estilo de vida em muitas ocasiões não muito próximo do Evangelho. Mas também os podemos encontrar dentro de nós mesmos. E têm nomes: preguiça, passividade, egoísmo, falta de relação com Deus...
Nós estamos carregados de ouro porque Jesus é o nosso grande tesouro.
Mas, embora queira habitar em todos os corações, embora se dê gratuitamente, temos de ter os meios para O reconhecer, O experimentar e viver.

Quem não se preocupa com a sua vida, jamais estará próximo de Deus, apesar de Deus estar perto d`Ele. Quem não se preocupa com a sua vida, começará a perder este enorme tesouro que é Jesus. Quem não se preocupa com a sua vida, deixará de ter medo aos ladrões, porque deixará de estar carregado de ouro. Quem não se preocupa com a sua vida perderá o melhor que tem: ele mesmo.

Na nossa vida estão presentes o «ouro» e os «ladrões». Por qual dos dois queremos apostar?»

Pedro Muñoz Peñas, em "Orar com Deus"

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

UM DEUS VIVO

«Tomemos cuidado para não despojar Deus da sua humanidade, sob o pretexto de libertarmo-nos de um antromorfismo ingénuo, pois então não teríamos mais que um Deus glacial, remoto, imutável, na eternidade, estranho à vida, estranho à hsitória, estranho à nossa própria vida, um Deus de filósofos e não o Deus vivo da Bíblia. Um Deus sem sentimentos seria, se ouso dizer, um Deus sem alma, morto, mais morto ainda que o deus de Nietzsche.

O Deus da Bíblia é o Deus que entra na história, que age, fala e combate. Ele trava uma dura luta com o homem, para arrancá-lo de sua desgraça, oferecendo-lhe sua salvação final.
A Bíblia descreve a relação entre Deus e o homem como um combate, um conflito, onde Deus age tanto mais forte quanto mais o homem se endurece, para arrancá-lo deste endurecimento nefasto.»

Paul Tournier, em "Culpa e Graça"