domingo, 29 de novembro de 2009

SÓ EXISTE UM INFERNO

«Só existe um inferno e talvez já o tenhas conhecido: é o lugar onde nada se espera, onde não se ama absolutamente ninguém e de ninguém se atende absolutamente nada, onde não se tem confiança em ninguém...
Isto é a tentação. A nossa tentação. De todos. É o pecado infernal que nos assediará até ao fim dos nossos dias: a instalação definitiva no canto (onde nos deixarão em paz, onde acabaremos por não sofrer mais, por não escutar mais nenhum apelo, onde a dilacerante comunicação será, por fim, cortada. Extinta). Isto é Inferno. Ter perdido o gosto de amar - para não sofrer mais.»

Louis Evely, em "Sofrimento"

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O SOFRIMENTO E A VERDADE

«O sofrimento não nos aproxima necessariamente da virtude, mas aproxima-nos sempre da verdade.(...)

«O que, para a maioria das criaturas nem o amor nem a oração nem a poesia nem a arte puderam conseguir, só a morte e o sofrimento serão capazes de o alcançar. Mas talvez ainda venha um dia em que o amor, a arte e a oração exerçam tal poder sobre nós que possamos ser dispensados de sofrer e de morrer.»

Louis Evely, em "Sofrimento"

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O NOSSO PODER SOBRE DEUS

«Amar um ser representa, inevitavelmente, depender dele; dar-lhe poder sobre vós.
Deus amou-nos livremente, Deus deu-nos poder sobre Ele. Deus quis ter necessidade de nós.

A Paixão é a revelação do nosso terrível poder sobre Deus. Ele entregou-se a nós, tivemo-Lo à nossa disposição, fizemos dele o que quisemos.

Na Normandia, lê-se. sobre os pratos, esta frase cruel: "Aquele que menos ama é sempre o mais forte!" É sempre o menos enamorado que obriga o outro a andar, que conserva a cabeça fresca e o domínio da situação. Deus, em relação a nós, será sempre o mais fraco porque nos ama.

Podemos renegar, esquecer Deus;
Deus não pode renegar-nos nem esquecer-nos.
Nós poderemos estar sem Deus; Deus não pode estar sem os homens.
Nós podemos deixar de ser filhos; Ele não pode cessar de ser Pai.

«O homem revoltado contra Deus é o pássaro que, na tempestade, se lança contra a falésia. Mas Deus, na Sua piedade, fez-se carne para que a violência do choque fosse suportada por Ele e não por nós.»

Assim, Deus será sempre o mais fraco contra nós, porque nos ama.»

Louis Evely, em "Sofrimento"

domingo, 22 de novembro de 2009

UMA DESINTEGRAÇÃO ATÓMICA

«Deus é um risco total. Abrir-se a Deus é dar um salto mortal.

O amor descentra e liberta. Mas é preciso começar por mergulhar. Por saltar da cama tépida e confortável. Quem perde a sua vida, salva-a. Mas importa, primeiramente, aceitar «perder». É indispensável passar por este despojamento doloroso.

Passar do egoísmo para o amor é quase tão violento como uma desintegração atómica. Coisa parecida.

O que constitui a integridade do átomo é ele ser um sistema fechado onde os electrões giram, continuamente, em redor do seu núcleo.
Tudo salta, tudo estremece, tudo se anima, quando um electrão, por virtude dum inaudito dinamismo, se desprende desta ronda infernal, se interessa por um centro que não é o seu e ingressa no circuito de um outro.

Quando nos pomos a amar, quer dizer a preferir à nossa vontade a vontade de alguém que não somos nós, opera-se uma reviravolta psicológica da mesma ordem.

Mas é este o preço da vida eterna. Porque a vida eterna é amor.»

Louis Evely, em "Sofrimento"

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A EDUCAÇÃO CRISTÃ

«A educação cristã é, primariamente, educação para a Paternidade de Deus e não para o Sacrifício; para o amor de Deus por nós e não para o nosso amor por Deus; para aquilo que Deus fez por nós e não para o que nós fazemos por Deus.» Louis Evely, em "Sofrimento"

terça-feira, 17 de novembro de 2009

SÓ DEUS SALVA

«A maior parte das pessoas lê a Bíblia como se ela fosse um código moral revestido de autoridade sagrada, um conjunto de prescrições cuja estrita observância deveria nos assegurar uma existência isenta de culpa. Bela utopia, na verdade! Mas como a Bíblia não pode ser obediência em todos os seus detalhes, nasce um desespero, uma angústia neurótica de cometer algum sacrilégio, uma culpa que não encontra solução. (...)

O sentido do Sermão do Monte não será o de uma receita para se libertar da culpa por uma conduta meritória. Muito pelo contrário. É a palavra que abala, que sacode, que convence de morte aquele que não perjurou; de adultério aquele que não o cometeu; de ódio aquele que vangloriou de amor, e de hipocrisia aquele que era conhecido por sua piedade. Como se vê, é totalmente o contrário de um código moral; pode-se muito mais compará-lo com um diálogo socrático sobre a impotência do homem em atender à virtude autêntica e assim se justificar por sua conduta impecável.»

Paul Tournier, em "Culpa e Graça"

domingo, 15 de novembro de 2009

A LINGUAGEM DE DEUS

«Deus fala-nos em todo o tempo. Fala-nos desde sempre na Sua linguagem, nesta severa e simples linguagem da nossa existência quotidiana.
E nós não O ouvimos porque preferíamos que Ele falasse na nossa linguagem, na linguagem da felicidade como nós a sonhamos, através de pobres e estúpidas satisfações de sentimento, de amor-próprio ou de conforto, únicas mensagens que estamos decididos a reconhecer como suas.

Mas Deus fala-nos na Sua linguagem, com perseverança. Deus fala-nos nessa língua, para nós desconhecida e que temos repugnância em aprender, da aceitação, do sacrifício, da renúncia, do plano prodigiosamente vasto, inimaginavelmente audacioso, duma generosidade inconcebível, pelo qual Ele nos quer salvar, a nós e o mundo.

Deus fala-nos sem cessar através dos acontecimentos da nossa vida, através da obstinação com que Ele contraria os nossos mesquinhos arranjos humanos, pela regularidade com que decepciona os nossos projectos e as nossas tentativas de evasão, pelo fracasso perpétuo de todos os nossos cálculos para nos dispensarmos d`Ele.
E pouco a pouco, Ele nos educa e nos familiariza. E um dia, quando estamos cravados numa cama, humilhados por um fracasso, isolados por uma desgraça, esmagados pela sensação da nossa impotência; um dia, Ele consegue resignar-nos a escutar a Sua linguagem, a admitir a Sua presença e a reconhecer a Sua Vontade.

E percebemos então que Ele nos falava a toda a hora

Louis Evely, em "Sofrimento"

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

TRANSFORMADOS EM AMOR

«Não podemos crer que Deus nos ama, sem acreditar que tal amor nos confere um valor. (...)

O amor de Deus não nos impele somente a fazer o que não teríamos feito mas permite-nos vir a ser o que não seríamos: um ser infinitamente mais aberto, mais ágil, mais abandonado, mais alegre, mais irradiante, mais calmo do que aquele que teríamos forjado e cuja desoladora imagem nos obstinamos, em conservar. Um ser mais amável, em suma.

«Simão, tenho uma coisa a dizer-te... Aquele a quem se perdoa pouco, ama pouco. Aquele a quem se perdoa muito, muito ama».

Só Deus sabe amar. E somente os que sabem ser assim amados, perdoados são capazes de por sua vez amar. Aquele que ama nasceu de Deus (I João 4, 7). E conhece Deus. Só aqueles que responderam a este amor, retribuindo-o, comunicando-o, serão convidados a entrar mais profundamente nele.
«As minhas ovelhas conhecem a minha voz. E seguem-me». Não descansarão enquanto não fizerem pelos outros o que Deus fez por eles. Este novo ser que Deus neles acordou, aquele rosto que lhes apresentou e no qual puderam finalmente reconhecer-se e aceitar-se, irão eles agora, com igual amor e a mesma paciência, ajudar os outros a descobri-lo em si. Vão auxiliar outros a descobrirem-se capazes daquela fidelidade, daquela gratidão, daquela ternura cuja revelação receberam.

Porque o mandamento de Jesus não é: Amai-vos uns aos outros, mas: Amai-vos uns aos outros como eu vos amei (Jo 15, 12).

Louis Evely, em "Tu és esse homem"

terça-feira, 10 de novembro de 2009

TUDO CANTA A GLÓRIA DO SENHOR


«Quando rezava, no fundo do meu coração, tudo o que me cercava aparecia sob um aspecto maravilhoso: árvores, ervas, pássaros, terra, água, ar... tudo parecia dizer-me que existem para o homem, que através do Amor de Deus, tudo rezava, tudo cantava a glória do Senhor. Compreendia assim aquilo que a Filocalia chama de consciência, o conhecimento da linguagem da criação, e via como é possível conversar com as criaturas de Deus»

domingo, 8 de novembro de 2009

AQUELE QUE TUDO CRIOU...


"É preciso lembrar-se de Deus em todo tempo, em todo lugar e em todas as coisas.
Se fabricas alguma coisa, deves pensar no Criador de tudo o que existe;
se vês a luz do dia, lembra-te Daquele que criou a luz para ti;
se olhas o céu, a terra e o mar e tudo o que eles contêm,
admira, glorifica Aquele que tudo criou;
se te vestes com uma roupa, pensa Naquele de quem a recebeste e lhe agradece,
a Ele que provê a tua existência.
Em resumo, que todo movimento seja para ti um motivo para celebrar o Senhor:
assim rezarás sem cessar e tua alma estará sempre alegre".

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (3ª PARTE)

«A nossa atitude espiritual, o nosso caminho de procura de paz e perfeição, dependem inteiramente do nosso conceito de Deus.
Se formos capazes de acreditar que Ele é verdadeiramente o nosso Pai amoroso, se conseguirmos realmente aceitar a verdade da sua infinita e compassiva preocupação por nós, se acreditarmos que Ele nos ama, não porque somos merecedores, mas porque precisamos do seu amor, podemos então avançar com confiança. Não seremos desencorajados pelas nossas inevitáveis fraquezas e fracassos. Podemos fazer tudo o que Ele nos pede.

Mas se acreditarmos que Ele é um austero e frio legislador, que não tem verdadeiro interesse por nós, um mero governante, um senhor, um juiz e não um pai, teremos grande dificuldade em viver a vida cristã.
Precisamos, por isso, de começar a acreditar que Deus é o nosso Pai; se assim não for, não conseguiremos enfrentar as dificuldades do caminho da perfeição cristã.
Sem fé, o "caminho estreito" é completamente impossível.»

Thomas Merton, em "Vida e Santidade"

terça-feira, 3 de novembro de 2009

EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (2ª PARTE)

«"Ser perfeito" não é tanto uma questão de procurar Deus com ardor e generosidade, mas de ser procurado, amado e possuído por Deus, de tal modo que a sua acção em nós nos torna completamente generosos, e nos ajuda a transcender as nossas limitações e a reagir contra a nossa fraqueza.
Tornamo-nos santos, não por dominarmos violentamente a nossa fraqueza, mas por deixarmos que Deus nos dê a força e a pureza do Espírito, em troca da nossa fraqueza e miséria.
Não compliquemos as nossas vidas nem nos frustremos, fixando demasiado a atenção em nós mesmos, esquecendo assim o poder de Deus e ofendendo o Espírito Santo.»

Thomas Merton, em "Vida e Santidade"

domingo, 1 de novembro de 2009

EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (1ª PARTE)

«Uma pessoa não se torna perfeita, quando pratica na sua vida um padrão uniforme de perfeição universal, mas quando responde à chamada e ao amor de Deus, realizada nas limitações e circunstâncias da sua vocação particular.
De facto, a nossa procura de Deus não é de modo algum uma questão de O encontrar através de certas técnicas ascéticas. É antes uma pacificação e ordenação de toda a nossa vida pela negação de si mesmo, pela oração e boas obras, para que o próprio Deus, que nos procura mais do que nós O procuramos, possa "encontrar-nos" e "tomar posse de nós".

Thomas Merton, em "Vida e Santidade"