terça-feira, 31 de março de 2009

HISTÓRIAS DOS PADRES DO DESERTO II

Milagres e Visões

Um certo eremita persistiu nos seus propósitos durante trinta anos. E um dia, pensou para consigo: «Estou aqui há tantos anos e ainda não tive nenhuma visão nem fiz nenhum milagre como os Padres que foram monges antes de mim.» E viu-se tentado a abandonar aquela vida. Foi então que lhe disseram: «Que milagre queres tu fazer que seja tão extraordinário como a paciência e a coragem que Deus te deu, e que te permitem perseverar durante tanto tempo?»

Perguntaram a um ancião: «Como é que alguns dizem: “Temos visões de anjos?”» Ele respondeu: «Feliz aquele que não cessa de ver as suas falhas!»

Salvação

Um irmão interrogou um aba: «Diz-me uma coisa: como posso eu ser salvo?» O ancião respondeu-lhe: «Senta-te na tua cela. Se tiveres fome, come, se tiveres sede, bebe. Mas não digas mal de ninguém».

Benevolência

Reuniu-se um conselho para o qual se convidou o aba Moisés. Mas ele recusava-se a participar. O padre enviou alguém a dizer-lhe: «Vem, porque está toda a gente à tua espera».
Então, ele levantou-se e partiu. Pegou numa bilha furada, encheu-a de água, e levou-a às costas.
Os outros, que foram ao seu encontro, disseram-lhe: «O que é isso, Pai?»
O ancião respondeu: «Os meus pecados esvaem-se atrás de mim e eu não os vejo, e venho hoje aqui para julgar o erro de outro!»
Ouvindo isto, não disseram nada ao irmão e perdoaram-no.

"Os Padres do Deserto" - Marcel Driot

domingo, 29 de março de 2009

HISTÓRIAS DOS PADRES DO DESERTO I

Perdoar os Inimigos

Um irmão foi para junto do aba Salviano e manifestou-lhe a intenção de se vingar de alguém que lhe tinha feito mal. E disse: «Façamos juntos uma oração».
Levantaram-se e disseram o Pai Nosso. Mas o aba modificou-o assim: «Não nos perdoeis as nossas dívidas, assim como nós não perdoamos os nossos devedores».
O irmão ripostou: «Assim não, Pai».
- «Sim, sim. Eu não farei outro tipo de oração por ti».
Então, o irmão perdoou ao seu inimigo.

Um irmão foi ao Pai Matoes e lhe disse, "como se explica que os monges de Scete fazem mais do que as Escrituras pedem, amando seus inimigos mais do que a si mesmos?"
Pai Matoes respondeu-lhes, "Eu por mim, ainda não consegui amar aqueles que me amam, como eu me amo a mim mesmo."

Caridade

Um ancião disse: «Tudo o que distribuis como esmola por temor a Deus, não o dês com dureza e frieza, mas olha o pobre com alegria na alma e com um rosto doce, e eleva-o assim acima de ti com honra, sabendo que a oferenda ao pobre é do agrado de Cristo e que o Senhor ama aquele que dá com alegria».

Dizem os que o conheceram, que o aba Agatão, quando tinha de ir fazer compras ao mercado, olhava à sua volta para escolher o vendedor. Se visse uma viúva em dificuldades com o objecto que ele pretendia adquirir, perguntava-lhe: «Por quanto vendes isso?» E dava-lhe o que ela lhe pedia; mas, se não tivesse dinheiro suficiente, dizia-lhe apenas: «Perdoa-me».

Um irmão foi ter com uma viúva para lhe comprar pano. E ela gemia, enquanto estava a servi-lo. O irmão perguntou-lhe: «O que tens tu?» A viúva respondeu: «Foi Deus que te mandou ter comigo para que os meus filhos tenham que comer». O irmão, ao ouvir estas palavras, teve pena dela, e sem que ela desse conta, deixou o pano que tinha pago, junto da viúva.

"Os Padres do Deserto", Marcel Driot

sexta-feira, 27 de março de 2009

VIVER A VERDADE

"E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará ." (João 8, 32)


"Quem permanece na palavra de Jesus reconhece a verdade e está na verdade. Está em contacto com a realidade. (...)

A verdade dá ao ser humano clareza a respeito de si próprio. O homem se reconhece na verdade, a sua existência se ilumina. E isso quer dizer liberdade para ele. Não se trata da liberdade política ou da liberdade do espírito. Com essa frase, João quer dizer: quem conhece Jesus, vendo por meio dele o Deus verdadeiro, está livre do apego às aparências do mundo.(...)


Para João, Jesus é aquele que abre os olhos das pessoas para a verdadeira realidade, para a realidade de Deus. Ele liberta o homem do apego à realidade externa. Ele o coloca em contacto com o verdadeiro eu. E o verdadeiro eu é livre.

Não é só a verdade que nos liberta, mas, em útima análise, também a fé.
Quem crê está verdadeiramente livre. Ele não depende da opinião dos homens. Ele enxerga mais além. Ele vê o essencial. Ele é simples. É totalmente ser.

E aquele que é puro exisitir já não precisa orientar-se pelo que os outros pensam dele. Não precisa agarrar-se aos bens, à fama, à aparência. Ele descansa no ser.
Ele está no momento presente, na verdade e na liberdade. Ninguém o determina. Ele está simplesmente aí. Puro ser é simultaneamanente verdade e liberdade."

(Anselm Grün, em "Jesus - Porta para a Vida")

quinta-feira, 26 de março de 2009

SEMPRE PRESENTE


"Na tarde da sua ressurreição, Jesus aproxima-se de dois dos seus discípulos que se dirigem para a aldeia de Emaús. Mas eles não se apercebem que é o Ressucitado que caminha a seu lado.(ver Lucas 24, 13-35).

Há momentos na vida em que se dissipa a consciência de que o Ressuscitado nos acompanha, pelo Espírito Santo.

Reconhecido ou ignorado, Ele está presente, mesmo nos momentos em que nada nos deixa pressenti-lo."

(Irmão Roger, de Taizé, em "Viver em tudo a Paz do Coração")

terça-feira, 24 de março de 2009

AMADURECER NA FÉ (2 ªParte)

«Os silêncios pertencem à sabedoria de Deus, incompreensível para a inteligência que só vê o horizonte.
Se Deus acudisse com frequência para resolver situações de sofrimento ou se manifestasse sempre de maneira sensível, como consolador das horas más, bem podíamos cruzar os braços nesta criação inacabada cujos acabamentos nos são também confiados.


Há milagres e graças extraordinárias que Deus faz e dá quando entende, na sua infinita sabedoria, que isso é o bem maior e mais universal, sobretudo nos humildes começos de um projecto de salvação ou quando pretende acordar para ela a consciência adormecida dos homens.

De resto, o chamamento à fé é proclamado à sombra de sinais evidentes, o que o torna tão difícil quanto libertador e responsabilizador.

Na obscuridade do silêncio, agravada por situações de sofrimento que levam o salmista a perguntar «meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? As palavras do meu clamor não são por vós ouvidas» (Salmos 22, 1), o grande pedagogo da fé vai levando quem se entrega a uma fé mais pura. É a pedagogia pascal. Dela há-de jorrar vida em abundância - a vida eterna.»

(Luís Rocha e Melo, s.j., em "Se tu soubesses o dom de Deus")

domingo, 22 de março de 2009

AMADURECER NA FÉ (1ªparte)

«O Deus revelado em Jesus Cristo e já antes manifestado pelos profetas não é Deus que acuda de imediato a todas as angústias dos homens, não fosse Ele desresponsabilizar os humanos ao substituir-se a eles nas lutas da vida que são chamados a combater.

Não é de estranhar que o Deus de muita gente seja a esperança de remédio para tudo, pois a fé como relação gratuita de amor não aparece por geração espontânea. Educa-se na pedagogia de Jesus.

Deus não se zanga com ninguém por causa da imperfeição da sua fé. Nascemos assim; somos chamados a um caminho de perfeição mas ainda não chegámos a ela.

Nada mais normal que a primeira noção sobre Deus seja a de um «Deus-solução-para-tudo». Mas não é assim que Ele se revela.

No silêncio, onde nada acontece nem a voz da consolação se faz sentir, Deus é o grande pedagogo do amor que faz passar de uma relação infantil e interesseira à relação madura e responsável. Não chama apenas à fé, chama também ao amadurecimento da fé que é interpelada a crescer como o grão da mostarda (Lc 17, 5-6).»

(Luís Rocha e Melo, s.j., em "Se tu soubesses o dom de Deus")

quinta-feira, 19 de março de 2009

O CRISTÃO

«O cristão não é alguém que "tem" a verdade, alguém mais inteligente, mais amante do que os outros. O cristão não é melhor do que um outro homem, mas tem alguém em sua vida. Tem o Cristo, aquele que sopra no sopro de cada um dos seus dias.

Mas, mesmo que o receba como um beijo, como uma presença, não é por isso que o cristão é melhor... Ele poderá ser melhor somente porque alguém de melhor marcha com ele, está nele!»


(Jean-Yves Leloup, em "Amar... apesar de tudo")

terça-feira, 17 de março de 2009

TORNAR-SE «O AMADO» (2ª parte)

«Tornar-se amado significa deixar que a verdade do «ser amado» incarne em tudo o que pensamos, dizemos ou fazemos.

Ora, isso comporta um longo e penoso processo de apropriação ou, melhor ainda, de incarnação. Enquanto o «ser amado» pouco mais for que um belo pensamento ou uma ideia sublime a pairar suspensa na minha vida e que se limita a evitar que eu caia na depressão, nada muda realmente. O que é necessário é tornar-me amado nos lugares comuns da minha existência diária e, pouco a pouco, colmatar o vazio que existe entre o que sei que sou e as inumeráveis realidades específicas da minha vida quotidiana.

Tornar-se «amado» significa aplicar esta mesma realidade, que me é revelado do alto, à ordinariedade do que sou e, por conseguinte, do que penso, digo e faço hora a hora. (...)

Estou totalmente convencido de que a origem e a finalidade da nossa existência tem tudo a ver com a maneira como pensamos, falamos e actuamos na vida de todos os dias.
Se a nossa mais profunda convicção for a de que somos «os amados» e se a nossa maior alegria e paz consistirem em reivindicar essa verdade, a consequência lógica é que isso tem que se tornar visível e palpável na forma como comemos e bebemos, falamos e amamos, nos distraímos e trabalhamos.

Quando as mais profundas correntes da nossa vida já não têm repercussão à superfície das ondas, então a nossa vitalidade acabará eventualmente por se esgotar e nós acabaremos por fraquejar e por nos aborrecermos, mesmo quando estamos ocupados.»

(Henri Nouwen, em "Viver é ser amado")

domingo, 15 de março de 2009

TORNAR-SE «O AMADO» (1ª parte)

«Caro amigo, o «ser amado» é a origem e a plenitude da vida do Espírito. Digo isto porque, logo que conseguimos algum vislumbre desta verdade, iniciamos uma viagem na procura da sua plenitude e não descansamos senão nessa mesma verdade. A partir do momento em que assumimos a verdade de que somos «amados», somos logos confrontados com uma chamada interior a tornarmo-nos naquilo que já somos.
Tornar-se «o amado»: é essa a viagem espiritual que temos a fazer.
As palavras de Agostinho: «A minha alma não descansa enquanto não repousar em Ti, ó Deus» caracteriza bem esta viagem.

O facto de estar sempre numa constante procura de Deus, sempre numa tensão contínua para descobrir a plenitude do Amor, sempre com o desejo ardente de chegar à verdade completa, diz-me que já me foi dado saborear alguma coisa de Deus, do Amor e da Verdade. E, com efeito, de alguma forma, só posso procurar alguma coisa quando já a tiver encontrado. Como poderia procurar a beleza e a verdade a não ser que essa mesma beleza e verdade já fossem conhecidas no mais profundo do meu coração? (...)

Na profundidade dos meandros da mente e do coração está escondido o tesouro que procuramos. Conhecemos o seu valor e sabemos que contém o dom que mais desejamos: uma vida mais forte do que a morte.»

(Henri Nouwen, em "Viver é ser amado")

quinta-feira, 12 de março de 2009

A ARMADILHA DA AUTO-REJEIÇÃO (2ª parte)

"A auto-rejeição é o pior inimigo da vida espiritual, porque contradiz a voz sagrada que nos chama pelo nome de «amados».
Ser amado exprime a verdade central da nossa existência. (...)

O que conta realmente é que somos os «amados».
Fomos intimamente amados muito antes de os nossos pais, professores, cônjugues, filhos e amigos nos terem amado ou ofendido. Esta é a verdade da nossa vida. (...)

Sempre que escutares com atenção a voz que te chama «amado», descobrirás no mais íntimo de ti o desejo de tornar a ouvir essa voz ainda por mais tempo e com maior profundidade. É como descobrir uma fonte de água no deserto: logo que se encontra terra húmida, dá vontade de cavar ainda mais fundo.

Tenho vindo a «escavar» bastante nos últimos tempos e sei que ainda só comecei a ver correr um pequeno riacho que serpenteia pela areia árida. Mas há que continuar a escavar, porque esse pequeno riacho provém dum enorme reservatório sob o deserto da minha vida. A palavra «escavar» talvez não seja a melhor, pois sugere trabalho duro e penoso, mas sei que é uma operação que me leva finalmente ao lugar onde posso matar a sede.

O que é preciso é, talvez, remover a areia árida que cobre a fonte de água. Talvez haja uma quantidade bastante grande de areia árida na nossa vida, mas Aquele que tanto deseja matar-nos a sede, ajudar-nos-á a remover essa areia. O que precisamos é de um grande desejo de encontrar água e de beber."

(Henri Nouwen, em "Viver é ser amado")

terça-feira, 10 de março de 2009

A ARMADILHA DA AUTO-REJEIÇÃO (1ª parte)

Quando todo o povo fora batizado, tendo sido Jesus também batizado, e estando ele a orar, o céu se abriu; e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como uma pomba; e ouviu-se do céu esta voz: Tu és o meu Filho amado; em ti me comprazo.» (Lucas 3, 21-22)

"As palavras «Tu és o meu amado» revelam a mais profunda verdade sobre todos os seres humanos, pertençam ou não a uma determinada tradição particular.

«Tu és o meu amado, em Ti pus a minha complacência». Claro que não é fácil ouvir essa voz num mundo cheio de vozes que gritam: «Tu não és bom, és feio, não vales nada, és desprezível, não és ninguém... a não ser que consigas demonstrar o contrário».
Estas vozes negativas são tão fortes e persistentes que é fácil acabarmos por acreditar nelas. É essa a grande armadilha. É a armadilha da auto-rejeição.
Com os anos, cheguei à conclusão de que a maior cilada da nossa vida não é o sucesso, a popularidade ou o poder, mas a auto-rejeição.

O sucesso, a popularidade e o poder são, como é evidente, uma grande tentação, mas a sua força de sedução deriva frequentemente da forma como tudo isso faz parte duma maior tentação, que é a auto-rejeição. Se acreditarmos nestas vozes, que nos tratam como gente que não vale nada e que é indigna de amor, então sim, o sucesso, a popularidade e o poder são facilmente percebidos como solução alternativa e atraente. Mas a verdadeira cilada é a auto-rejeição.»

(Henri Nouwen, em "Viver é ser amado")

domingo, 8 de março de 2009

ESPERAR COM PACIÊNCIA E HUMILDADE

O mistério cristão é de uma grande humildade,
a humildade de Deus.
Há uma associação curiosa entre cada um de nós e Jesus.
Caminhamos realmente juntos,
e é juntos que marcamos o ritmo.

Jesus dá-nos a graça
mas compete-nos a nós avançar (...)

Jesus pede-nos que nos ocupemos de nós próprios,
que tentemos estar em forma humana e espiritualmente,
que tenhamos o repouso necessário, que comamos saudavelmente,
que tenhamos tempo de distracção,
que depositemos n´Ele tudo o que nos oprime,
que repousemos n´Ele,
que nos alimentemos espiritualmente
sem esperar ter grandes iluminações
mas sabendo que, silenciosamente, docemente,
cresceremos pouco a pouco.

Se escutarmos a palavra de Deus,
se tomarmos a sério as suas promessas,
se nos alimentarmos dos sacramentos da Igreja,
se nos deixarmos alimentar pelo coração do pobre,
o sacramento do pobre, então,
na humildade, imperceptivelmente, secretamente,
cresceremos pouco a pouco,
compreenderemos o que não compreendíamos antes,
tornar-nos-emos mais pacíficos e mais amáveis.

Deus conduz tão docemente, tão lentamente,
nada tem a provar, nada a defender,
é o Amor e o Dom total de Si próprio
e tudo o que Ele quer é dar-se-nos nesta aliança,
fazer-nos entrar nesta aliança que fará de nós seres vivos.

É preciso que nos tornemos amigos do tempo.
É preciso que aceitemos que as coisas levem tempo,
que sejamos homens e mulheres que sabem esperar,
para que saibam que o Eterno - que está fora do tempo -,
já está presente
e que se trata de viver n´Ele, hoje, agora.

(Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas")

quinta-feira, 5 de março de 2009

ESPERAR A HORA DE DEUS

«É muito difícil esperar na provação.
Ou somos assaltados pela angústia e tentamos forçar os acontecimentos,
tentamos "fazer coisas", lançamo-nos numa actividade louca e sem real objectivo,
apenas para canalizar essa angústia, evacuar as energias doidas que nos submergem pouco a pouco.
Ou então destruímos tudo, escapamo-nos, fugimos: não podemos mais permanecer quando nada se passa e nada muda.

Na provação, é preciso aprender a esperar, muitas vezes sem nos mexermos,
numa atitude de oração e oferenda.

É preciso pedir a Jesus essa graça de saber esperar, sem compreender sempre o que se passa,
e sem querer ditar a nossa vontade aos acontecimentos, às coisas e às pessoas.
É certo, o ser humano tem vontade de compreender, de saber, de avançar, e é magnífico.
Mas às vezes, também, é preciso aceitar não compreender imediatamente.

Há muitas coisas que não se compreendem e, às vezes, é preciso saber esperar a luz, permanecer, não se mexer, velar, esperar a hora de Deus.»

(Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas")

terça-feira, 3 de março de 2009

ANSEIO POR UM AMOR PERFEITO



Hoje, é o lançamento oficial do livro "Onde está Deus? Crendo em Deus num Mundo Descrente", do meu amigo Eduardo Cruz. Convido-vos a passar pelo blogue dele para saberem mais sobre o livro e lerem alguns trechos.
Partilho convosco um texto maravilhoso desse mesmo livro:
«João inclinou a cabeça no peito de Jesus.
João inclinou-se de joelhos ao pé da cruz.
A primeira inclinação é de descanso, depois de tanto procurar ele havia encontrado o amor perfeito.
Amor que não exigia que ele fosse mais do que era para amá-lo.
Amor que perdoa, cura, restaura, fortalece, aquece a alma e inunda o ser tornando-o transbordante de graça.
Enfim, João descansava a cabeça no peito daquele que havia lhe dado o amor em sua plenitude e perfeição. Como ansiamos por esse amor. Dentro de nós existe uma ansiedade quase que incontrolável pelo amor em sua completa perfeição.
No vácuo da nossa alma, encontra-se a medida exata para recebermos tal amor. Na ânsia que nos consome ao ponto de, muitas vezes, chegarmos ao desespero, vamos buscando e encaixando amores. Estes infelizmente não preenchem o vazio, e de quebra, fazem estrago na nossa esperança, que vai se consumindo.

Até que algo vai se achegando mansamente, e não fazemos esforço algum, apenas relaxamos e esperamos. A vida segue e quando nos apercebemos o vazio não existe mais. Quando todo o processo se deu? Quando identificamos claramente que a ânsia de ser amado se foi, e agora um estranho desejo por amar nos empolga. Com o tempo vemos claramente essa realidade única, Deus é amor. O amor em toda a sua essência e perfeição. O amor não corrompido, não alterado. Puro como foi criado. Um amor inexplicavelmente atraente.O amor de Deus, o Deus de amor, nos encontrou. Onde havia um vazio há agora uma vida. João saciou-se do amor pleno que havia nele.
A segunda inclinação é de angústia. João viu ao pé da cruz, sua fonte de amor se esvaindo.
Nós podemos imaginar o que João sentia naquele momento. Afinal, como ele, nós também não queremos lembrar que fomos amados um dia. Nós queremos ser amados agora e sempre.
Ao ver Jesus espirar João também espirou. Ao voltar para casa talvez uma certeza o consumisse “Não haverá jamais amor como esse”.
Mas o verdadeiro amor não morre a morte não pode detê-lo. Este amor é perfeito na expressão, na ação e no sacrifício. E Jesus completou esse ciclo de amor pela humanidade. Porque Ele veio ao mundo por amor, padeceu por amor e ressuscitou porque é amor. E só o amor de Deus é eterno.
Hoje todos nós podemos nos inclinar e descansar nesse amor.»
(Pr. Eduardo Cruz, em "Onde está Deus? Crendo em Deus num Mundo Descrente" )

domingo, 1 de março de 2009

É PRECISO SABER ESPERAR

Quando se faz tudo o que havia a fazer,
é preciso saber esperar (...)
esperar com confiança e com a certeza de que a Ressurreição virá.

Pois é essa a nossa espera mais profunda:
a de que nós ressuscitaremos.
Sem dúvida no último dia e no fim dos tempos,
mas em primeiro lugar desde já,
que sejamos arrancados à nossa prisão de medo, de incapacidade e de tristeza,
que sejamos libertos do túmulo da nossa solidão e do nosso egoísmo,
que vivamos em plenitude.

Somos como árvores que crescem muito lentamente.
Há na Amazónia uma árvore pouco conhecida e muito bela, o bacuri.
O bacuri leva quarenta anos a dar o seu primeiro fruto.
Às vezes somos como os bacuris:
esperamos frutos durante trinta e cinco anos e não vemos chegar nada!
No entanto, a ressurreição está em nós,
e os frutos preparam-se em segredo.

É preciso saber esperar.
Há o nosso tempo e o tempo de Deus,
e Deus sabe esperar por nós.»

(Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas")