terça-feira, 30 de dezembro de 2008

NA PROFUNDEZA DO NOSSO DESEJO

«Nunca tu me procurarias, se me não tivesses já encontrado» (Blaise Pascal)
«Felipe achou a Natanael, e disse-lhe: Acabamos de achar aquele de quem escreveram Moisés na lei, e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José.

Perguntou-lhe Natanael: Pode haver coisa bem vinda de Nazaré?

Disse-lhe Felipe: Vem e vê.

Jesus, vendo Natanael aproximar-se dele, disse a seu respeito: Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!

Perguntou-lhe Natanael: Donde me conheces?

Respondeu-lhe Jesus: Antes que Felipe te chamasse, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira.» (João 1: 45-48)

"É de notar que Jesus se revelou a Natanael como alguém quue não lhe é estranho nem desconhecido, mas como quem já o conhecia duma forma pessoal e íntima. E, sobretudo, que o aprecia e o estima.

«Nunca tu me procurarias se me não tivesses já encontrado» - é uma frase que Pascal põe na boca de Cristo. Mas talvez fosse mais apropriado dizer: «Nunca tu me procurarias, se eu não te tivesse já encontrado», se eu te não tivesse descoberto no mais íntimo de ti mesmo.

Deus é sempre o primeiro a amar. Qualquer movimento de aproximação do homem a Deus é sempre precedido do movimento de Deus em direcção ao homem. Deus já se encontra presente no mais íntimo do desejo humano.

Este encontro de Jesus com Natanael está carregado de sentido. Jesus manifesta-se como alguém com quem já estamos relacionados no mais recôndito de nós mesmos, ainda antes de O conhecermos. Na profundeza do nosso desejo

(Eloi Leclerc, em "Vida em Plenitude")

domingo, 28 de dezembro de 2008

A VERDADEIRA FIDELIDADE

«Importa esperar contra toda a esperança, é preciso crer que o fracasso é só aparente, que não é senão o sinal, proposto à nossa fé, das misteriosas vitórias do amor de Deus. A resignação não é a fé. Nunca...

A verdadeira fidelidade não consiste em dizer: parece que tudo fracassou, mas em afirmar: é um êxito. Parece que não vai acontecer... mas acontece doutro modo, doutra maneira. Não compreendo como, não compreendo porquê, não me foi dado compreender. Mas eu creio naquilo que o Senhor afirmou...

A exigência de Deus é tremenda, no que diz respeito à fé, à esperança e à confiança.
Os santos são pessoas que aceitaram acreditar sem compreender.»

(Louis Evely, em "Tu és esse homem")

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

UM SANTO NATAL


Um Santo e abençoado Natal para todos vós, caros amigos, leitores, irmãos.

Sintam-se abraçados fraternalmente.


"Ouvi contar esta história.
Uma criança com toda a naturalidade, voltou-se para Deus e perguntou-lhe:
"E tu, o que é que queres ser quando fores grande?"
"Pequeno", respondeu-lhe Deus, também com toda a naturalidade.
Os homens querem ser grandes, mas a grandeza de Deus está em tornar-se pequeno, em dar a vida, em desaparecer pelo bem do outro."

(Vasco Pinto de Magalhães, s.j. in "Não há soluções, há caminhos")

«Já não sabendo como fazer para ser compreendido, o próprio Deus veio à Terra, pobre e humilde: se Jesus Cristo não tivesse vivido no meio de nós, Deus permaneceria longínquo, inatingível. Pela sua vida, Jesus concede-nos a graça de ver Deus de forma transparente

(Irmão Roger, de Taizé, em "Viver em tudo a paz do coração")

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

COMO MARIA


Senhor, dá-me um coração enamorado
como o coração de Maria;
um coração generoso
como o coração de Maria;
um coração aberto à tua Palavra
como o coração de Maria.

Faz com que descubra cada vez mais
a riqueza insondável que és Tu,
e que ninguém conhece, como a Tua Mãe;
que descubra que só com um coração desprendido,
chegarei a pôr a minha confiança em ti,
como a pôs a tua Mãe.

Faz enfim, Senhor,
Que como para Maria,
Tu sejas a minha única riqueza, o meu único tesouro,
a minha única seiva, a minha única vida;
o meu sustento e alimento;
meu bem e minha alegria.

(Pedro Muñoz Peñas, em "Orar com Deus")

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A LUZ DA LIBERDADE

«O amor quer que o outro seja e que seja verdadeiramente outro. Não um reflexo de si, não um satélite, mas uma outra liberdade. Deus quer - é o seu próprio ser, o seu acto simples, eterno - que o outro seja, que os outros sejam. E este querer é eficaz, como todo o querer divino.

Aquele que é a luz, quer que a luz resplandeça nos olhos do ser amado. Se te amo, não posso querer que os teus olhos sejam baços. Se te amo, quero que haja luz nos teus olhos e desejo estar junto de ti como um contágio de luz, uma transmissão de existência luminosa.

Um olhar de amor ou amizade, é um olhar de ambição para o outro. Amo-te quer dizer: sou ambicioso em relação a ti, sobretudo não quero dominar-te nem abafar a tua liberdade, desejo despertar-te. Quero que a minha liberdade comungue com a tua, o que não é possível se a tua não existir.(...)

Deus é suscitador de pessoas livres. Ele não pode amar-nos se não vir nos nossos olhos a luz da liberdade

(François Varillon, em "Alegria de Crer e Viver")

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

«VÓS TAMBÉM QUEREIS ABANDONAR-ME?»

«Diante de Jesus cada qual se sentia colocado perante uma exigência absoluta, uma escolha rigorosa e decisiva. Ficava-se, acto contínuo, despojado de todos os refúgios. Perdia-se segurança, vacilava-se estonteado com as alturas para que Ele impelia.

Então, uns refechavam-se rancorosamente, recusando-se logo, para maior segurança, não descansando enquanto não alcançavam medrosamente os seus covis. «Ele exagera... Impossível! Com que direito exige tudo isto?». E para futuro evitavam encontrá-l`O, ouvi-l`O e pensar no caso.

Sempre foi muito fácil fugir de Deus. Deus não força ninguém. Deus espera. Deus chama com infinita paciência. Mas nada pode contra aqueles que recusam expor-se ao Seu olhar e à Sua voz, aqueles que fingem prudentemente não O terem reconhecido.

«Vós também quereis abandonar-me?»

Porém, outros, ainda que também amedrontados, agitados e aturdidos, continuavam a escutar. E à medida que Ele falava sentiam e compreendiam haverem desde sempre esperado que Alguém lhes exigisse aquelas coisas inauditas, haverem sempre esperado Alguém, para crerem n`Ele, que ousasse exigir-lhes tudo aquilo. Só uma exigência assim total podia corresponder à sua imensa esperança.

Era como que um orvalho que despertasse, de súbito, a parcela mais profunda de nós mesmos: sentia-se que a verdadeira religião não poderia ser senão aquela; que Aquele que exigia a renúncia a tantas coisas era também Aquele que nos podia dispensar delas; que somente Aquele que exigia tudo isto, podia infundir a coragem de nos conformarmos.

O maior sacrifício era a maior libertação. Pois estamos obrigados a confiar absolutamente naquele que de tudo nos despojou...»

(Louis Evely, em "Tu és esse homem")

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

AS BEM-AVENTURANÇAS

«As Bem-aventuranças são uma primeira confrontação com o Deus vivo: revelação d`Ele e de nós. No mesmo relance, vemos como nos não parecemos com elas e principiamos a ver ao que Deus Se assemelha.
O Evangelho é o «Revelador» que faz aparecer na chapa sensível o desenho antes invisível para os nossos olhos.

Deus propõe-Se a nós, manifesta-Se -nos, Deus mostra-nos, enfim, um Rosto - e pede para nós o reflectirmos. Deus mostra-nos o Seu caminho e convida-nos amistosamente a acompanhá-l`O.

Qual tem sido a nossa resposta?
Que teríamos feito, que fizeram aqueles que rodeavam Jesus na montanha?»

(Louis Evely, em "Tu és esse homem")

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

DÁ-NOS O TEU OLHAR


Nunca homem algum respeitou os outros homens como este homem. Para Ele, o outro é sempre mais e melhor do que aparenta ser. Vê sempre, naquele a quem encontra, uma esperança, uma promessa viva, uma possibilidade maior, apesar dos seus limites, dos seus pecados e até dos seus crimes. Enfim, alguém chamado a um novo porvir.

Jesus não disse: «Esta mulher é frívola, néscia, com a cabeça cheia de pássaros, está marcada pelo atavismo moral e religioso do seu ambiente», Ele disse: «É uma mulher!» Ele pediu-lhe um copo de água e iniciou com ela uma conversão (Jo 4, 1-42).

Jesus não disse: «Aqui tendes uma pecadora pública, uma protistuta enlameada para sempre no vício.» Ele disse: «Tem mais oportunidades de entrar no Reino de Deus do que aqueles que confiam na sua riqueza e se atêm à sua riqueza e saber» (Lc 7, 36-49)

Jesus não disse: «É uma adúltera.» Ele disse: «Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não voltes a pecar» (Jo 8, 9-10)

Jesus não disse: «Esta que quer tocar a minha túnica é uma histérica». Ele escutou-a, falou-lhe e curou-a. (Lc 8, 43-48)

Jesus não disse: «Esta velha que deita uns tostões no tesouro do templo é uma supersticiosa.» Ele disse que aquela velhinha era formidável e que o seu desinteresse merecia ser imitado (Mc 12, 41-44)

Jesus não disse: «Estas crianças não fazem senão parvoíces.» Ele disse: «Deixai que se aproximem de Mim e procurai parecer-vos com elas» (Mt 19, 13-15).

Jesus não disse: «Este homem é um funcionário corrupto, que enriquece adulando os ricos e oprimindo os pobres.» Ele convidou-se para a sua mesa e deixou claro que com Ele tinha entrado naquela casa a salvação.» (Lc 19, 1-10).

Jesus não disse: «Este centurião pertence às forças da ocupação.» Ele disse: «Nunca vi tanta fé em Israel» (Lc 7, 1-10).

Jesus não disse: «Este sábio não tem os pés na terra». Ele abriu-lhe o caminho para que voltasse a nascer do Espírito. (Jo 3, 1-21).

Jesus não disse: «Este indivíduo viveu sempre fora da lei.» Ele disse-lhe: «Hoje estarás comigo no paraíso.» (Lc 23, 39-43).

Jesus não disse: «Judas, traíste-me.» Ele viu-o e disse-lhe: «Amigo, vendes-me com um beijo?» (Mt 26, 50)

Jesus não disse: «Este impostor negou-me.» Ele disse-lhe: «Pedro, amas-me?» (Jo 21, 15-17)

Jesus não disse; «Os sumo-sacerdotes são uns juízes injustos; este rei é um títere, o procurador romano é um cobarde, esta multidão que vocifera contra mim é um populacho, estes soldados que me maltratam são uma podridão.» Ele disse: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.» (Lc 23, 34)

Dom Albert Decoutray (bispo de Dijon, França)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

UM ACTO DE AMOR MÚTUO

«O Pai gera Jesus no Espírito que é amor. Ele o gera amando-o. Ora, as relações de amor se estabelecem na liberdade, e Jesus devia se deixar gerar.
Face ao Pai, a quem pertence a iniciativa, Ele devia desempenhar um papel, o papel da receptividade filial. Pois não se pode doar a quem não quer receber...

Jesus era o homem livre por excelência, descompromissado com as tradições dos escribas e dos fariseus, contrário à imagem que eles faziam de Deus, crítico dos chefes dos sacerdotes, porque abusavam do seu poder religioso, livre até de si mesmo em sua renúncia pessoal total. Mas, perante Deus, Ele viveu em submissão absoluta...

Sua submissão a Deus é expressa por meio de actos de liberdade...

Os sofrimentos encaminharam Jesus para um consentimento eterno. Um cristão que vive suas provações com espírito de fé e caridade torna-se disponível para com Deus, num grau de profundidade nunca antes experimentado. E assim foi com Cristo: "Embora fosse Filho, aprendeu, contudo, a obediência pelo sofrimento; e, levado à perfeição, tornou-se princípio de salvação para todos" (Hb 5, 8).
A paixão de Jesus nada teve de um castigo infligido a um Inocente, que Deus teria escolhido para sofrer em lugar dos pecadores.

O ancestral desobediente cede lugar ao novo Adão (Rm 5, 12-18) "feito obediente até à morte". A redenção é uma obra de obediência, por meio de amor mútuo: "Por isto o Pai me ama, porque dou minha vida para retomá-la... esse é o preceito que recebi do Pai" (Jo 10, 17s.)» (Pe. François-Xavier Durrwell, em "Cristo Nossa Páscoa")

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O CÉU COMEÇA AQUI

«O mundo terrestre tem acesso ao mundo celeste todas as vezes que há amor, dom, comunhão.
Daí que «ganhar o céu» vem a ser uma expressão não apenas falsa mas absurda; e a acusação de que o cristão é «mercenário» cai pela base. Não ganhamos o céu mas familiarizamo-nos com ele, habituamo-nos e aclimatamo-nos a ele. Preparamo-nos para ele. E construimo-lo. Todos juntos...

Eu estou convencido de que o céu consistirá em reviver, numa plenitude de luz, os maravilhosos instantes da nossa existência terrena. A cada passo nos deteremos confundidos com a generosidade do nosso Deus e confusos pela nossa inconsciência passada. Reviver um só momento nos lançará em transportes de júbilo e de reconhecimento. Como era belo o mundo e quanto nós grosseiros ao caminhar assim, enjoados e desiludidos, a meio de todas as suas maravilhas!
Deus não soubera que mais inventar para nos alegrar a cada hora, em cada minuto. Procedera como o pai que para fazer sorrir o filho exibe tesouros diante dele e só obtém do tiranozinho insaciável esta resposta:
«Quero mais. Dá-me outras coisas».

A mais espantosa das surpresas que por nós espera no céu será a de não encontramos lá nada de novo.»

(Louis Evely, em "Tu és esse homem")

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

UM AMOR DESCONCERTANTE

“[o amor] tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” – 1 Coríntios 13, 7

“Jesus esperava tudo de todos. Para além das nossas comédias mais enfadonhas, das nossas defesas mais consternadoras – respeitabilidade, seriedade, sobranceria, dignidade ou indignidade, mutismo ou imprecações, Ele adivinhava a criança insuficientemente amada que tinha cessado de crescer porque tinham deixado de crer nela.
O Senhor não se prendia a nenhuma das nossas aparências: sabia que as pessoas são capazes de tudo, tanto para ter boa como para ter má aparência. E que tão digna de dó é uma como outra. É por não termos sido amados, descobertos, incentivados, considerados capazes de melhorar… que nos tornamos tão maus.
Deus existe em cada ser e espera ser adivinhado nele para nele crescer.

Amar um ser é dirigir-lhe o mais forte e imperioso apelo, é alvoroçar nele um ser oculto e mudo que não pode evitar levantar-se à nossa voz; um ser tão novo que era desconhecido até daquele que o contém e todavia tão verdadeiro que não pode deixar de o reconhecer quando o descobre.

Amar alguém é chamá-lo à vida, é convidá-lo a crescer.

E não se tem a coragem de crescer senão para alguém que crê em nós.
Ao nível em que cessaram de crescer é que devemos atingir aqueles que encontramos, ao nível em que foram abandonados e se aprisionaram então a si mesmos, em que principiaram a segregar uma carapaça porque imaginavam estar sós.
Importa que alguém nos ame bem profundamente, bem audaciosamente para nós ousarmos mostrar-nos humildes, bondosos, ternos, simples, vulneráveis. (Louis Evely, em "Tu és esse homem")

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

A GRANDE ILUMINAÇÃO - Paul Claudel

Paul Claudel (1868-1955) :grande poeta e dramaturgo francês do século XX. Sua obra, profundamente marcada pela sua repentina conversão ao catolicismo, muitas vezes gira em torno de um dos principais temas do cristianismo: a acção da graça e a correspondência humana.


Paul Claudel nasceu a 6 de agosto de 1868, durante a festa da Transfiguração, em Villeneuve-sur-Fère-en-Tardenois, pequena aldeia do Aisne onde seu tio-avô foi cura. Entretanto, apesar da família de Claudel ter dado vários padres à Igreja, ele “era indiferente e, depois de nossa chegada a Paris”, escreveu o poeta em Ma Conversion (1913), “tornei-me nitidamente estranho às coisas da Fé”.
Não nos surpreende, pois foi o que se passou na segunda metade do século XIX com numerosas famílias burguesas. Claudel acrescenta: “Tinha feito uma boa primeira comunhão, que, como ocorre com a maioria dos jovens, foi ao mesmo tempo o coroamento e o fim das minhas práticas religiosas”.

Mais tarde, porém, acontece a sua fulgurante e repentina conversão. Uma experiência que haveria de dominar toda a sua vida:

"Assim era a infeliz criança que, a 25 de dezembro de 1886, foi a Notre-Dame de Paris para assistir aos ofícios de Natal. (...)
...conduzido e apertado pela multidão, assisti, com um prazer medíocre, à grande missa. Depois, não tendo nada melhor a fazer, voltei para assistir às vésperas. As crianças do coro, vestidas de branco, e os alunos do seminário-menor de Saint-Nicolas-du-Chardonnet, que os ajudavam, estavam a preparar-se para iniciar o canto que mais tarde soube ser o Magnificat.

“Estava misturado ao povo, junto do segundo pilar à entrada do coro, à direita da sacristia. E foi então que se produziu o acontecimento que domina toda a minha vida. Num determinado instante, meu coração foi tocado e acreditei. Acreditei com tal força, com tal adesão de todo o meu ser, com tão poderosa convicção, com tal certeza sem deixar lugar a qualquer espécie de dúvida que, depois, todos os livros, todos os raciocínios, todos os acasos de uma vida agitada, não puderam abalar-me a fé, nem mesmo, para ser mais preciso, tocá-la de leve que fosse.
“Tive de súbito o forte sentimento da inocência, da eterna juventude de Deus, uma revelação inefável.

Tentando, como o fiz várias vezes, reconstituir os minutos que se seguiram a este instante extraordinário, encontro os elementos seguintes que, entretanto, não formam senão um clarão, uma única arma de que a Providência Divina se servia para atingir e abrir enfim o coração de uma pobre criança desesperada: “Como aqueles que crêem são felizes! E se fosse verdade? É verdade! Deus existe, Ele está em toda parte, É alguém, é um Ser tão pessoal como eu. Ele me ama, Ele me chama.

“As lágrimas e os soluços vieram... e o canto tão doce do Adeste , aumenta ainda mais a minha emoção. Emoção bem doce, mas a que se misturava um sentimento de espanto e quase de horror. Porque as minhas convicções filosóficas não estavam destruídas. Deus as havia deixado desdenhosamente onde estavam, e eu nada via a mudar nelas; a religião católica me parecia continuar o mesmo tesouro de anedotas absurdas, seus padres e fiéis me inspiravam a mesma aversão que ia até o ódio e o desgosto. O edifício de minhas opiniões e de meus conhecimentos permanecia de pé e nada via de falho nele.
Tinha apenas me retirado. Um novo e terrível ser, com exigências terríveis para o jovem e o artista que eu era, tinha se revelado e não sabia como conciliá-lo com coisa alguma que me cercava.“O estado de um homem que fosse arrancado de um golpe de seu corpo, para ser colocado em um corpo estranho, no meio de um mundo desconhecido, é a única comparação que posso encontrar para exprimir este estado de confusão completa. O que mais repugnava a minhas opiniões e a meus gostos, é que era a verdade e com o que seria necessário que de bom ou de mau grado eu me adaptasse. Ah! Isso não aconteceria sem que tentasse tudo que me fosse possível para resistir”.

Claudel trava então uma "luta contra Deus" que durou quatro anos. Quem estiver interessado em saber como se desenrolou essa luta e outros aspectos da vida e obra deste poeta e dramaturgo, é só clicar aqui:http://www.quadrante.com.br/pages/servicos02.asp?id=193&categoria=Biografia_Testemunho&pg=buscaartigo&campo=paul

Fonte: Quadrante

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

ORAR É MORRER


«Todo o Cristianismo se resume em saber morrer e ressuscitar, em acreditar que Cristo é Aquele de cuja Morte e Ressurreição nós podemos participar...

A oração é uma preciosa experiência de morte e de ressurreição.
A oração é transformadora.

Principia-se habitualmente por pedir aquilo que não convém.
E importa morrer para aquilo que se pede e despertar para Aquele a Quem se pede...

Orar é colocar-se ao dispôr de Deus para que Ele realize finalmente em nós o que sempre desejou e para o qual nunca lhe oferecemos nem tempo, nem oportunidade, nem possibilidade.

Orar é colocar-se ao dispôr de Deus para que Ele finalmente nos possa dar aquilo que desde sempre quis dar-nos e que nós nunca nos decidimos a receber porque nunca Lhe proporcionamos tempo, ocasião, liberdade para no-lo dar.

Orar é o tempo da incarnação de Deus nós, o tempo em que Lhe consentimos trabalhar em nós para nos transformar n´Ele

Louis Evely, em "Fraternidade e Evangelho"

Nada é grave...

"Nada é grave, a não ser perder o amor." [Irmão Roger de Taizé]