sábado, 31 de maio de 2008

Caminho estreito

«Custa a crer que Deus nos revelaria a sua divina presença na vida de autodespojamento e humildade do Homem de Nazaré. Uma grande parte de mim procura influência, poder , sucesso e popularidade. Mas o caminho de Jesus é o do recato, da falta de poder e da pequenez. Não parece um caminho muito atraente. E, no entanto, quando penetrar na verdadeira, profunda comunhão com Jesus, descobrirei que é este caminho estreito que conduz à paz e à alegria verdadeiras.(...)


Continuo tão dividido. Desejo sinceramente seguir-te, mas quero igualmente seguir os meus próprios desejos e ainda dou ouvidos às vozes que falam de prestígio, de sucesso, de reconhecimento humano, de prazer, de poder e de influência. Ajuda-me a ficar surdo a essas vozes mais atento à tua voz, que me chama a escolher o caminho estreito...
Em todos os momentos da minha vida tenho que escolher o teu caminho. Tenho de escolher pensamentos que sejam os teus pensamentos, palavras que sejam as tuas palavras e acções que sejam as tuas acções. Não existem nem tempos nem lugares sem escolhas. E eu sei quanto resisto a escolher-te. » - Henri Nouwen, em "A caminho de Daybreak"

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Dar da sua pobreza


«Jesus, levantando os olhos, viu os ricos deitarem as suas ofertas no cofre; viu também uma pobre viúva lançar ali dois leptos; e disse: Em verdade vos digo que esta pobre viúva deu mais do que todos; porque todos aqueles deram daquilo que lhes sobrava; mas esta, da sua pobreza, deu tudo o que tinha para o seu sustento.» (Lucas 21:1-4)

«Dar, não da minha riqueza mas da minha pobreza, como a viúva de Jerusalém que deu a sua última moeda, esse é o grande desafio do Evangelho. Quando avalio criticamente a minha vida descubro que a minha generosidade surge sempre num contexto de abastança. Dou algum do meu dinheiro, algum do meu tempo, parte da minha energia e alguns dos meus pensamentos sobre Deus aos outros, mas guardo sempre para mim dinheiro, tempo, energia e pensamentos suficientes para a minha própria segurança. Assim nunca dou verdadeiramente a Deus a possibilidade de me demonstrar o Seu Amor sem limites.» (Henri Nouwen, em "A Caminho de Daybreak")

terça-feira, 27 de maio de 2008

SER POBRE

«Jesus não afirmou: "Felizes os que servem os pobres", mas sim: "Felizes os pobres." Ser pobre é o convite de Jesus, e isso é muito, muito mais difícil do que servir os pobres. A vida velada, simples e sem glória, em solidariedade com pessoas que não nos podem dar nada que nos faça sentir importantes, está longe de ser atraente. É o caminho da pobreza. Não é um caminho fácil, mas é o caminho de Deus, o caminho da Cruz.» - (Henri Nouwen, em "A Caminho de Daybreak")

sábado, 24 de maio de 2008

Comunidade L´Arche




A Caminho de Daybreak é um diário do autor (Henry Nouwen), onde ele relata a experiência pungente de um ano passado em L' Arche (cliquem! vale a pena ler este texto na íntegra. É inspirador!), uma comunidade para deficientes.
Existem muitas Comunidades da Arca espalhadas pelo mundo. O seu fundador é Jean Vanier ,ao qual pertencem os pensamentos(não há tradução em português, mas penso que são facilmente compreensíveis) do video postado.

Eis alguns trechos do diário de Henri Nouwen:

«A palavra chave aqui não são «direitos iguais» mas, pelo contrário, «partilhar os dons». Os deficientes são diferentes dos seus assistentes, mas nas suas diferenças residem dons que precisam ser descobertos, compreendidos e partilhados. Os deficientes e os assistentes necessitam uns dos outros, embora por vezes de formas diferentes. Juntos procuram formar uma verdadeira fraternidade de fracos, em permanente agradecimento a Deus pelo dom frágil da Vida.»

"... Aqui não existe necessidade de sucesso; aqui o tempo é preenchido a vestir, alimentar, transportar ou simplesmente fazer companhia aos que precisam. É um caminho extremamente exigente e cansativo, mas não existe rivalidade, nenhum grau a conquistar, nenhuma honra a possuir - apenas serviço dedicado.»

"Estar em L´Arche significa muita coisa, mas uma delas é o chamamento a um coração mais puro. De facto, Jesus fala através dos corações despedaçados dos deficientes, considerados marginais e inúteis. Mas Deus escolheu-os para serem os pobres, através dos quais Ele se dá a conhecer, o que é difícil de aceitar numa sociedade orientada para o sucesso e para a produtividade.»
- (Henri Nouwen, em "A Caminho de Daybreak" )

quinta-feira, 22 de maio de 2008

O AMOR COM QUE DEUS NOS AMA


«...Os perdões arrogantes geram revolta; os reticentes esmagam; os sem amor não conseguem libertar nem salvar. Só o verdadeiro perdão, fruto de um amor puríssimo, pode fazer brotar uma nascente de vida no coração do infiel e regenerar quem fracassou no amor fazendo-o renascer para ele.

Também para Deus, e antes de mais para Deus, perdoar é amar, amar com um amor tal que faça surgir na escuridão e na impureza da alma um amor inteiramente novo que a purifica, transforma e encaminha para uma perfeição também inteiramente nova. Pensemos no olhar de Cristo sobre Pedro quando este acabou de negá-lo... Não foi, como toda a certeza, um olhar de censura ou de cólera. Foi, o que é muito mais terrível, um olhar de amor, de amor intenso, exprimindo uma ternura mais solícita, mais calorosa e mais envolvente que nunca.
Pedro não pôde resistir-lhe; partiu-se-lhe o coração e soltaram-se-lhe as lágrimas, ao mesmo tempo amargas e doces. Simultaneamente, pela acção conjugada do olhar de Jesus e do Espírito de Cristo operando nele, um amor novo apoderou-se de todo o seu ser. De tal modo que, poucos dias depois da sua negação, ele ousou afirmar sem hesitações: «Tu sabes que eu sou deveras teu amigo». E Pedro não mente: esse amor novo que o olhar do seu Mestre fez jorrar nele levá-lo-á ao dom da sua vida numa cruz, depois de uma existência passada a pregar às multidões o amor com que Deus nos ama.» - (Henri Caffarel, em "Nas Encruzilhadas do Amor")

segunda-feira, 19 de maio de 2008

A LENTA TRANSFORMAÇÃO

«Para viver o tudo há que passar pelo nada...

Quem caminha para o nada de que falam os místicos aproxima-se de Deus. O espírito de Jesus - a humildade -só tem sentido em perspectiva religiosa, pois o nada é espaço do Tudo.

Despojar-se ou esvaziar-se é deixar outras esperanças (pontos de apoio ou fundamentos de felicidade), para encontrar a Esperança e colocar em Deus a confiança única e total...

... Convém notar que o nada de que falamos e o tudo de Deus em nós não são realidade feita nem acabada: são caminho no qual se entra e pelo qual se vai.

É próprio da alma humilde não se afligir por causa da lentidão com que avança, e tudo esperar do Senhor que também não tem pressas.
A pedagogia divina adapta-se misteriosamente à nossa debilidade e não se assusta com ela: também se adapta ao ritmo do crescimento humano que não pode ser mais rápido sob a pena de se destruir. O jardineiro que cuida a sua planta rega-a e poda-a, mas não puxa por ela para a fazer crescer mais depressa. O que o Senhor pede de nós é a fé.

Na lentidão precisamente se prova a fé, a paciência e a constância.

Quem anda em humildade também não se aflige ao ver a meta ainda longe, nem lhe interessa saber a que distância está dela. O que importa é estar no seu caminho. Jesus é o Caminho (Jo 14,6)». - (Luís Rocha e Melo, em "Se tu soubesses o dom de Deus")

sábado, 17 de maio de 2008

Alta Fidelidade


"Não é vantagem nenhuma manter-se erguido como um álamo numa tarde serena. O mérito da fidelidade está em permanecer de pé quando todas as tempestades se desencadeiam sem tréguas. E foi precisamente aí, na hora da Grande Prova, que Jesus se abandonou à vontade do Pai com pureza e radicalidade, sem restrições nem atenuantes. Foi o momento da Alta Fidelidade.

No Getsémani, Jesus transformou-se no grande miserável, não no sentido de ter carregado com todas as misérias humanas, mas no sentido de que experimentou a miséria de sentir-se homem até à limitação última da contingência humana, até sentir a cobardia, a náusea e a contradição. Desceu aos mais remotos níveis da condição humana.
Distinguiu com aterradora lucidez duas vontades que se enfrentaram violentamente entre si.

Jesus vinha a ser nesse momento um campo de batalha onde duas forças antagónicas travavam
a sua luta final: «o que eu quero» e «o que Tu queres» ". - (Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto")

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Quero o que TU Queres

«Ó Cristo, hoje Tu me chamas!
Nas portas que abres e que fechas,
nas surpresas que nem sempre entendo,
és Tu que me maravilhas no desejo permanente de me fazer feliz.
Mesmo sem me perguntar se posso,
mesmo sem saber se me apetece,
sem me perguntar se quero,
quero o que Tu queres,
agora e sempre,
Ámen».

(Oração atribuída a Madeleine Delbrêl, em "Se tu soubesses o dom de Deus", de Luís Rocha e Melo S. J.)

quarta-feira, 14 de maio de 2008

TU AMAS-ME

«Se Ele não acolhesse senão os que são dignos dele, quem acolheria? Não é Ele o amante das nossas almas, procurando o seu amor sempre e em primeiro lugar?»

... o que caracteriza o cristão, não é que ele ame a Deus, mas é que ele acredite que Deus o ama.
Esta convicção apela a uma viragem do meu olhar. Em vez de lançar os olhos sobre as minhas faltas e os meus limites, sobre a tibieza do meu amor, ergo a cabeça, contemplo o Senhor, não cessando de repetir: Tu amas-me, Senhor, é maravilhoso! Esta «conversão», que me descentra, faz-me passar do «eu» para o «Tu». O importante és Tu, a certeza do teu amor, de tal modo deslumbrante que não vejo mais que ele.

É por causa do que Tu és que me amas e que me amas como eu sou. Faz, Senhor, que esta convicção habite em mim, enraizada, mesmo nos dias de trevas. «Ele ama-nos porque é bom, não porque nós sejamos bons - as mães não amam os seus filhos extraviados?» - (Michel Lafon, em "Orar 15 dias com Charles de Foucauld")

Nota: as palavras em itálico são de Charles de Foucauld

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Fazer-se criança




"Se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no reino dos céus.» (Mt. 18: 1-4)

"Permanecer criança é reconhecer o seu próprio nada, esperar tudo de Deus, como um menino espera tudo do seu pai...
Ser pequeno significa não atribuir a si mesmo as virtudes que se praticam, acreditando-se capaz de alguma coisa, mas reconhecer que Deus põe esse tesouro da virtude na mão da criança; mas é sempre tesouro de Deus". - (Santa Teresa de Lisieux)

"... essa simplicidade de alma, esse terno abandono na majestade divina é a meta da nossa vida, que queremos alcançar, ou voltar a encontrar se alguma vez a conhecemos, pois é dom da infância, que muito amiúde não lhe sobrevive". - (G. Bernanos)


"Salvar-se, segundo Jesus, é fazer-se progressivamente criança.

A criança é um ser essencialmente pobre e confiado, confiado porque sabe que à sua debilidade corresponde o poder de alguém; numa palavra, a sua pobreza é riqueza. Por si, a criança não é forte, nem virtuosa, nem segura. Mas é como o girassol que todas as manhãs se abre para o sol; dele espera tudo, dele recebe tudo: calor, luz, força, vida." - (Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto")

Abandono

"Se entrarmos dentro de Jesus, se descermos até aos fundamentos da Sua pessoa e ali explorarmos os impulsos que estão na origem das Suas inclinações e aspirações, das Suas intenções e dos Seus desejos, e sobretudo se nos pusermos à busca da força secreta capaz de nos explicar tanta grandeza moral, a única coisa que encontraremos será o abandono, cumprir a vontade do Pai.
É este o seu alimento e a sua respiração. A vontade do Pai sustenta e dá sentido à sua vida. Viveu como uma criança pequena e feliz, levado nos braços de Seu Pai: «Aqui estou para fazer a Tua vontade. Eu o quero, meu Deus, e a Tua lei levo-a nas minhas entranhas» (Sal. 39).

Para Jesus, abandonar-se significou sair do seu próprio interesse e entregar-se ao Outro, repousando confiadamente a Sua cabeça e a Sua vida nas mãos do Seu querido Pai.

O acto de abandono é, pois, uma transmissão de domínio, o dar o «eu» a um «tu»...

Abandonar-se é entregar-se com amor a Alguém que me quer e eu quero-o, e porque o quero, entrego-me." - Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Viver o Espírito de Jesus

«A humildade é o lado oculto do amor... (1)

Todas as bem-aventuranças são a lei nova do amor ou a pedagogia dele - o seu lado oculto - e supõem uma espiritualidade pascal de morte e ressurreição. Amar é sair de si; para sair de si é preciso esquecer-se de si... (2)

O espírito de Jesus que está na base de todas as bem-aventuranças é o espírito da humildade...As bem-aventuranças são sete, oito ou nove situações (podem ser muitas) - situações humanas concretas que implicam um comportamento moral - em que o espírito de Jesus se vive, em estreita relação com o amor do Pai derramado nos corações. Sem elas, o amor não é verdadeiro. Os pobres, os mansos, os misericordiosos, os que têm fome e sede de justiça são homens modestos que não fazem alarido, que pensam pouco em si e que, por isso mesmo, não têm medo de dar a cara. A humildade é neles energia de aceitação de si que lhes dá capacidade de integração de todas as coisas, define a sua personalidade de homens e os prepara para serem perseguidos por causa da justiça. São homens unificados que não esperam nada de nada e podem olhar o mundo pelo prisma de Deus com olhos de misericórdia, de justiça, de pureza...
Homens que vivem o espírito de Jesus, vão reproduzindo neles a sua imagem». - Luís Rocha e Melo, em "Se tu soubesses o dom de Deus"

(1) Caridade - cfr. 1 Cor 13: 4-7.
(2) «Negar-se a si mesmo» - Mt 16, 24; «perder a vida para ganhá-la» - Mt 16, 25.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

O Libertador

"Jesus é o homem que não tem a mínima consideração consigo mesmo e é incapaz de se compadecer de si mesmo. É essencialmente um pobre de coração: não tem interesses pessoais nem presta culto à Sua imagem...

Foi insoburnável porque no jogo da vida não jogou nada - porque nada tinha -; apostou tudo, isso sim, no Outro...
Jesus não é «político», e menos ainda diplomático. Nunca agiu com «tino», com «prudência» ou por cálculos humanos. De outro modo, não teria morrido numa cruz mas numa cama. Não Lhe importa nem a Sua honra nem a Sua vida, mas só a Glória do seu Amado Pai.

Atirou-se inteiro e foi coerente. Os Seus próprios adversários fizeram uma perfeita fotografia psicológica d´Ele: «Mestre, sabemos que és sincero e que não lisonjeias a ninguém; porque não olhas para as aparências dos homens mas ensinas o caminho de Deus, segundo a verdade» (Mc. 12, 14).
Ao renunciar à Sua vontade para assumir a vontade do Pai, Jesus libertava-se de si mesmo. Ao ficar liberto de si mesmo, era constituído Libertador." - Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

terça-feira, 6 de maio de 2008

O mais livre dos homens

"Deixando-se conduzir confiadamente pelo Pai, Jesus de Nazaré adquiriu uma estatura moral única, convertendo-se em testemunha incorruptível do Pai, cheio de liberdade interior...

Um homem actua com soberania quando é livre. Quando o homem está intimamente cheio de interesses, então a insegurança e os medos esmagam-no e fazem da sua vida um mendigar apreço e estima das pessoas, alienando a sua liberdade...

Confiante, carinhoso, entregue nas mãos do Seu querido Papá, oferece-se a todos. Entrega-se sem se preocupar com a Sua pessoa, preocupado com os outros.
Sente-se livre para servir a todos sem preconceitos moralistas; seja com pagãos ou com prostitutas, sentando-se à mesa com publicanos e pecadores.
Sente-se livre para servir a todos sem preconceitos nacionalistas ou patrióticos, aos romanos como ao centurião, aos samaritanos que eram considerados «herejes», aos pagãos de Tiro, Sidónia e Cesareia de Filipe.
Está decididamente do lado dos pobres mas é livre para estar também com os ricos. Está decididamente pela gente humilde mas é livre para atender a fariseus e sinedritas como Nicodemos e José de Arimateia." - Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

domingo, 4 de maio de 2008

Amar e orar

"... O ponto de partida para entrar em oração é o de exercitar na fé a consciência de ser amado por Deus. Ser amado significa imensas coisas, mas baste-nos isto para já: é ser desejado, querido, acolhido e escolhido, aceite e respeitado, cada um como é com todas as suas qualidades e com todos os seus defeitos.
Deus acolhe cada um assim mesmo como é e não como deveria ser, pois o que cada um devia ser mas não é nem sequer existe. Deus não ama o que não existe. Se Deus amasse esse ser ideal, perfeito, criava-o porque amar e criar são acções simultâneas em Deus. Só existe de facto a realidade do que cada um é no presente com suas grandezas e misérias.
É a esse homem real que Deus ama, respeita, acolhe e escolhe, com predilecções que a nossa inteligência não pode sequer entender.
A consciência de ser amado por Deus vai ganhando corpo quando se insiste na oração e na contemplação silenciosa da vida de Jesus Cristo." - Luís Rocha e Melo S. J. , em "Se tu soubesses dom de Deus"

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Ama!

Ama!
«...Quero que, da indigência, continuamente se eleve este grito:
Senhor, eu vos amo.
É o canto do teu coração que Eu procuro.
Acaso necessito Eu da tua ciência e dos teus talentos?
Não são as virtudes que Eu te peço;
e se Eu tas concedesse, tão fraco como és,
em breve se lhes juntaria o amor-próprio.
Não te perturbes com isso.
Podia destinar-te para grandes coisas.
Não, tu serás o servo inútil;
tomar-te-ei até o pouco que tens,
pois te criei para o amor.

Ama!
O amor te levará a fazer tudo o resto, sem que penses nisso;
procura apenas preencher o momento presente com o teu amor.
Hoje, estou à porta do teu coração,como um mendigo,
Eu, o Senhor dos Senhores.
Bato e espero;
apressa-te a abrir-me a porta,não alegues a tua miséria.
Se tu soubesses perfeitamente a tua indigência,
morrerias de dor.
A única coisa que poderia ferir-me
seria ver-te duvidar e perder a confiança.

Quero que penses em Mim
em todas as horas do dia e da noite;
não quero que admitas a acção mais insignificante
por um motivo que não seja o amor.
Quando tiveres de sofrer,
dar-te-ei a força necessária.
Tu me deste amor,
Eu te concederei amar para além de tudo o que poderias sonhar.
Mas lembra-te: ama-me tal como és.
Não esperes ser um santo
para te entregares ao amor,
senão,nunca amarás».

(Luís Rocha e Melo, em "Se tu soubesses o dom de Deus")

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Deixar-se amar

«O amor gratuito não espera dividendos nas suas actuações e investe o seu capital sem juros...


Qual será o prémio de quem corresponde ao amor gratuito de Deus senão a de ser amado por Ele e a de compartilhar com Ele a vida eterna que Ele dá como herança, de forma condicionada no presente (o cem vezes mais) e de forma plena no futuro?
Na presença do nosso Deus revelado, ninguém tem o direito de dizer: «não posso rezar porque não sei amar». Precisa, sim, de se deixar amar como a criança e pôr-se na escola do amor.


Henri Caffarel conta uma história passada em Itália em fins do séc. XVIII, num convento em construção na encosta dos Apeninos: o prior do convento chamou o arquitecto e mandou-lhe construir uma cela isolada sem janelas, com frinchas que apenas deixassem entrar alguns raios de sol; nada mais dentro da cela a não ser uma inscrição com estas palavras: «Amo-te exactamente como és». Nessa cela, ia ser proibido qualquer pensamento ou tema de meditação para além deste: «Deus ama-me infinitamente, ternamente, Deus ama-me exactamente como sou». A cela destinava-se a algum monge que andasse triste ou ansioso a perguntar-se «como é que o Senhor pode amar alguém como eu?». (1) Quem não sabe amar a Deus entre na cela do monge e deixe-se lá ficar; veja a inscrição na parede e não pense em mais nada. «Deus que te ama gratuitamente, te ensinará a amar». - Luís Rocha e Melo, em "Se tu soubesses o dom de Deus"


(1) Caffarek, H., L´oraison de pauvreté, p. 6-8