quarta-feira, 30 de abril de 2008

Ama-me como és

«Eu, teu Deus, conheço a tua miséria,
os combates e as tribulações da tua alma,
a fraqueza e as enfermidades do teu corpo;
conheço a tua frouxidão, os teus pecados, as tuas falhas;
mesmo assim, eu te digo:
"Dá-me o teu coração, ama-me como és".
Se esperas ser um anjo para te entregares ao amor,
nunca me amarás.
Embora tornes a cair muitas vezes nessas faltas
que desejarias nunca conhecer,
embora sejas indolente na prática da virtude,
não te permito que não ames.
Ama-me como és.
Em cada instante e em qualquer situação em que te encontrares,
no fervor ou na aridez,
na fidelidade ou na infidelidade,
ama-me tal como és.
Quero o amor do teu coração indigente.
Se, para me amares, esperas ser perfeito, nunca me amarás.
Meu filho, deixa-me amar-te, eu quero o teu coração.» - Luís Rocha e Melo S.J. , em "Se tu
soubesses o dom de Deus"

domingo, 27 de abril de 2008

Imitação de Cristo

"Até onde devo imitar-te, Senhor? Que esperas tu de mim? Eu bem sei que «a medida da imitação é a do amor».

Para me assemelhar a Ti, não se trata de copiar... Para saber o que Tu dirias, o que Tu farias em meu lugar, devo estar impregnado do teu espírito a tal ponto que isso brote espontaneamente. Não se trata de aderir a um programa ou de respeitar um regulamento, mas de ser um outro Tu-mesmo, semelhante e diferente...

Quando falo de imitação, não viso reproduzir os traços de um modelo exterior, mas é do interior, como por um impulso de vida divina, que Tu queres realizar por mim as Tuas palavras e os Teus actos, toda a Tua semelhança.

Ás vezes sonho ser «a custódia», de que fala o abade Huvelin ao Irmão Carlos: «mostrar Jesus». aí onde eu vivo. «Eu queria ser suficientemente bom para que se dissesse: se o discípulo é assim, como será o Mestre?»

Senhor Jesus,
eu creio que queres agir através de mim,
faz com que eu seja transparente,
livra-me de toda a opacidade
para que eu seja um reflexo de Ti,
que Tu te faças ver pela minha vida.
Faz com que eu pregue o Evangelho em silêncio,
cada dia...

(Michel Lafon, em "Orar 15 dias com Carlos de Foucauld")

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Transforma meu pranto em dança

Ultimamente os posts que tenho publicado têm abordado o tema da dor, do sofrimento(motivado essencialmente pela ausência de Deus, ou melhor, pela alienação humana de Deus), da fragilidade e fraqueza humanas. Quem leu os posts mais recentes sabe do que falo...

Ontem, ao visitar o blog dum amigo deparei-me com um texto sublime de um dos meus autores mais amados e queridos: Henri Nouwen. Não conhecia o texto porque, infelizmente, o livro do qual foi retirado não está editado em Portugal.

Quero agradecer ao Vitor a partilha. Para mim, o texto é uma dádiva preciosa!




«Mas é precisamente aqui, durante a dor, a pobreza ou a fraqueza que o Dançarino convida-nos a levantar e a dar os primeiros passos. É dentro do nosso sofrimento, e nunca fora dele, que Jesus entra em nossa tristeza, toma-nos pela mão, puxa-nos gentilmente fazendo-nos ficar de pé e convida-nos a dançar. E descobrimos o caminho da oração, como o salmista; converteste o meu pranto em dança (Salmos 30:11), porque, no âmago da nossa tristeza encontramos a graça de Deus.
E, enquanto dançamos, percebemos que não precisamos ficar confinados ao diminuto espaço da nossa tristeza, mas podemos sair dali. Paramos de centralizar nossa vida em nós mesmos. Chamamos outros para dançarem connosco a dança maior. Aprendemos a dar espaço aos outros, e principalmente ao “Outro gracioso” que está em nosso meio. E quando nos fazemos presentes para Deus e Seu povo, nossa vida enriquece-se ainda mais. E constatamos que o mundo é nossa pista de dança. Nosso passo torna-se mais leve e ligeiro, porque Deus está chamando outros a dançarem também.»
- Henri Nouwen, em "Transforma meu pranto em dança" - Blog: Amando ao Próximo

Meu Coração

Este poema representa para mim, o resumo poético da minha busca de Deus; das aventuras e desventuras da minha vida interior e espiritual. Quando o li pela primeira vez, senti no meu coração: deslumbramento, espanto, surpresa, gratidão, beleza, amor, alegria, esperança... Foi longo, penoso e duro o caminho que trilhei até aos Teus braços, Senhor, "mas a tristeza que me enviaste tornou-se alegria em minha vida...". Quero dedicar este poema a um amigo muito especial: Nelson Viana. Sei que estes versos também significam muito para ele.

Meu Coração

«Eu perdi o meu coração no empoeirado caminho deste mundo;
Mas Tu o tomaste em Tuas mãos.
Eu buscava alegria e apenas colhi tristezas;
Mas a tristeza que me enviaste tornou-se alegria em minha vida.
Os meus desejos se espalharam em mil pedaços;
Mas Tu os recolheste e reuniste em Teu amor.
E enquanto eu vagava de porta em porta,
Cada passo meu me estava conduzindo ao Teu portal.»
(Rabindranath Tagore)

O Nelson enviou-me uma reflexão em forma de diálogo com o Mestre Jesus Cristo. Tomei a liberdade (sei que o Nelson não se importa) de partilhar convosco este diálogo que foi inspirado pelo poema que lhe dedico.

"Diálogo com Jesus:

Quem eras Tu para que eu não te visse?

Eu Sou aquele que tu não vias, porque na tua “sombra” a minha presença se escondia.

Quem eras Tu para que eu não te escutasse?

Eu Sou aquele que tu não escutavas, porque no silêncio não me procuravas.

Quem eras Tu para que eu não te falasse?

Eu Sou aquele que tu não falavas, porque ainda não me amavas". (Nelson Viana)

domingo, 20 de abril de 2008

Caminhos entrelaçados


"Deus sabe melhor do que eu
quem sou.
Por isso a sorte que me deu
é aquela em que melhor estou."
- Fernando Pessoa

"Deus é um Deus do presente: como te encontra, assim te assume e te permite vires a Ele. Deus não pergunta o que tens sido, mas o que tu és agora." (Eckart)

"Tarde te amei,
beleza tão antiga e tão nova,
tarde te amei. (...)
Tu estavas comigo e eu não estava contigo. (...)
Chamaste, e clamaste, e rompeste a minha surdez;
brilhaste, cintilaste, e afastaste a minha cegueira;
exalaste o teu perfume, eu aspirei e suspiro por ti;
saboreei-te, e tenho fome e sede;
tocaste-me, e abrasei-me no desejo da tua paz. " (Sto. Agostinho, em "Confissões")

Há pouco tempo, descobri no testemunho pessoal de vivência cristã dum amigo , as palavras que há muito procurava para definir o que tenho vivido, sentido e experimentado no meu percurso de vida interior, espiritual; na minha busca de Deus: «Se alguém me perguntar qual é a maior graça que recebi de Deus, eu responderei: em primeiro lugar, o dom da vida, mas em segundo lugar tudo aquilo que Ele permitiu que eu sofresse e que me fez procurá-Lo “com todo o meu coração, com toda a minha alma, com todas as minhas forças e com todo o meu entendimento”.Agora percebo realmente as palavras que Deus disse a São Paulo: “Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza”. Assim, também eu posso repetir: “De bom grado, portanto, prefiro gloriar-me nas minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo...pois quando sou fraco, então é que sou forte”.», são estas as palavras do meu amigo Nelson. (cliquem sobre o nome para acederem ao blog que contém o seu testemunho; que, em breve, se Deus o permitir, será publicado em livro)

Revejo-me em muitos aspectos, vivências, sentimentos, emoções e experiências no testemunho do Nelson. Sinto-me feliz pelo facto de nos termos cruzado neste "mundo virtual".

Caros amigos(as), leitores(as), irmaõs(ãs), confesso-vos que também vivi anos de sofrimento, dor, angústia, solidão, enganos, lutas, ilusões. Mergulhei em trevas profundas. A minha vida não fazia sentido, parecia-me um absurdo. Sobretudo, os anos marcados por um rebelde ateísmo e negação de Deus. Mas, com a graça de Deus, consegui superar e mover "montanhas". Deus esteve sempre comigo, mesmo quando eu não queria saber dele, nem acreditava que existisse. Mas, hoje sei que a minha vida sem Ele não fazia sentido, por isso por diversas vezes desejei acabar com tudo, pôr termo à vida, ou melhor, acabar com a dor, o sofrimento. Augusto Cury escreveu: "Quando uma pessoa pensa em suicídio, ela quer matar a dor, mas nunca a vida.".

Mas, o que seria eu hoje sem as lições da dor; sem o crescimento e o aperfeiçoamento através do sofrimento? Embora na altura julgasse sofrer inutilmente, absurdamente. Hoje, graças à fé em Jesus, meu Mestre, tenho uma visão diferente das coisas. O meu amigo Nelson escreveu no seu testemunho algo que não posso deixar de compartilhar:" Muitas vezes perguntamos qual a razão para sofrermos tanto. O exemplo de São Paulo ensina-nos muito sobre este mistério. Se aceitarmos o sofrimento com fé, o “jugo torna-se suave e o fardo leve”[8], mas se rejeitamos o sofrimento, isto é, não o aceitando, rejeitamos também a nossa própria natureza. Será que há alguém que não sofra? Também acredito que não haja ninguém que goste de sofrer, mas se aceitarmos o sofrimento com fé, damos provas de que confiamos em Deus e na sua palavra, pois também São Paulo nos ensina: “Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças, mas, com a tentação, vos dará os meios de sair dela e a força para a suportar”[9]. Afinal de contas, foi o sofrimento de Jesus que nos abriu as portas da eternidade, por isso, também nós somos chamados a viver o sofrimento como algo que purifica e que nos faz estar em comunhão com o Mestre, pois “o servo não é mais do que o seu senhor" [10].

O abençoado, Henri Nouwen, escreveu estas palavras sublimes: "Deus é o Pai que anda em busca dos filhos, vela por eles, corre ao seu encontro, os abraça, roga, suplica e anima a que voltem para casa. Por estranho que pareça, Deus deseja encontrar-me tanto, se não mais, do que eu desejo encontrar Deus. Sim, Deus reclama-me tanto como eu a Ele.". Quando olho para trás, para o meu percurso de vida, para a minha busca espiritual, não posso deixar de sentir e acreditar profundamente na veracidade destas palavras.

[8] Mt 11, 30
[9] 1 Cor 10, 13
[10] Jo 15, 20

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Viver o Amor

«Nunca se alcançou nada de uma vez para sempre. Não nos podemos instalar no amor. O amor vive-se. Cresce, desenvolve-se, progride sempre, ou então começa a enfraquecer.

Talvez devamos desconfiar de um amor encolhido, de um coração que dá sem se dar, de uma vontade que se oferece sem se entregar totalmente, de uma liberdade que se afirma, mas não se constroí plenamente. Lealmente, diante de Deus, vejamos se o vidro dos nosso olhos, do nosso coração, da nossa vontade, da nossa Liberdade, da nossa sensibilidade não estará um pouco escurecido, a ponto de não permitir que o raio do amor de Deus nos penetre inteiramente. Vidro escurecido pelas nuvens da tibieza, do pouco-mais-ou-menos, da falta de generosidade, do deixar-correr. Vidro escurecido pelas manchas, por mais pequenas que sejam, mas que acabam por empobrecer o amor, por impedir os impulsos do amor, por diminuir as capacidades de se dar verdadeiramente. De facto, amar pouco mais ou menos já não é amar. (...)»

Pe. Constant Tonnelier, em "Quinze dias com São João da Cruz"

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Faz sentido sofrer?

«Deus sussura nos nossos prazeres, fala na nossa consciência, mas grita no nosso sofrimento: ele é o Seu megafone para despertar um mundo surdo. (...)


(...) Não há dúvida de que o sofrimento como o megafone de Deus é um instrumento terrível, podendo levar à rebelião final, que não dá lugar ao arrependimento. Mas ele fornece também a única oportunidade que o perverso pode ter de emendar-se. Ele remove o véu, planta a bandeira da verdade na fortaleza de uma alma rebelde.

Se a primeira operação do sofrimento destroça a ilusão de que tudo está bem, a segunda faz cair a ilusão de que aquilo que temos, quer seja bom ou mau em si mesmo, é nosso e basta para nós. Todos sabem como é difícil voltarmos os pensamentos para Deus quando tudo vai bem connosco. A expressão "temos tudo o que queremos" é uma frase terrível quando esse "tudo" não inclui Deus. Nós achamos que Deus é uma interrupção. Como diz Sto. Agostinho em algum lugar: "Deus quer dar-nos algo, mas não pode, porque as nossas mãos estão cheias - não há nelas lugar para colocá-lo". Ou como afirmou um amigo meu: "consideramos Deus como um aviador considera o seu pára-quedas; ele o leva para as emergências, mas não espera jamais ter de usá-lo."»


C.S. Lewis, em "O problema do sofrimento"

terça-feira, 15 de abril de 2008

Um Deus desconcertante


O nosso Deus é desconcertante. Quando menos se espera, como que em assalto nocturno, Deus cai sobre uma pessoa, deita-a por terra com uma presença poderosa e inefavelmente consoladora, confirma-a para sempre na fé e deixa-a a vibrar, quem sabe, talvez para toda a vida. Diante de operações tão espectaculares e gratuitas, muitos ficam a perguntar-se: E porque não a mim? A Deus não se podem fazer perguntas. Tem-se de começar por aceitá-Lo tal como Ele é.

A umas pessoas leva-as o Senhor pelas areias do deserto, numa eterna tarde de aridez. A outras deu-lhes uma sensibilidade notável para as coisas divinas, tal como predisposição inata de personalidade e, no entanto, nunca lhes concedeu uma gratuidade infusa propriamente dita. Homens houve na história que jamais se preocuparam com Deus, fosse para atacá-Lo, fosse para defendê-Lo; no entanto, o próprio Deus saiu ao encontro deles com glória e esplendor. Há quem navegue num mar de consolações, desde o nascer até ao pôr do sol da sua existência. Há almas destinadas a fazer da sua peregrinação através duma perpétua noite, e noite sem estrelas. Pessoas há que caminham entre altos e baixos e vaivéns, à luz de sol brilhante ou sob espessas nuvens. Para outros, a vida com Deus é um dia perpetuamente cinzento. Cada pessoa é uma história, e uma história absolutamente única e singular.» - Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Coração de águia


«Considero-me como débil passarinho coberto de leve plumagem. Não sou águia; só tenho dela os olhos e o coração, mas apesar da minha extrema pequenez, atrevo-me a olhar fixamente para o Sol divino, o Sol do amor, e o meu coração sente em si todas as aspirações da águia. O passarinho quisera voar até esse brilhante sol que fascina seus olhos.
Que será dele? Morrerá de dor vendo-se impotente? Oh não! O passarinho nem sequer chega a afligir-se. Com um abandono audaz quer continuar a olhar fixamente para o seu divino sol. Nada o assusta, nem o vento nem a chuva. Se nuvens escuras vêm ocultar o Astro do Amor, o passarinho não muda de lugar; sabe que além das nuvens o seu Sol continua a brilhar, que o seu esplendor não poderá eclipsar-se nem um só momento» (1)

Somos apenas um pardal, mas temos coração de águia. Este é o mistério terrível e contraditório do homem: sentir-se, ao mesmo tempo, pardal e águia; ter um coração de águia e asas de pardal.

Que fazer? Sei que não posso voar tão alto. Nem tentarei. Nem sequer baterei as asas; entregar-me-ei às asas do vento; o vento é Deus. O resto fá-lo Ele. Sei que sou um pardal, mas sei também que, com uma grande paz, me entrego a Deus. Ele pode emprestar-me poderosas asas de águia. Haverá alguma coisa impossível para Ele? Sei que sou um montão de ruínas e desolação; mas sei também que, se me entrego a Deus, Ele pode transformar-me numa mansão deslumbrante. Ele é Poder e Graça.» - Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

(1) Santa Teresa do Menino Jesus

sábado, 12 de abril de 2008

Fé Infantil vs Fé Adulta

"(...) fé infantil será aquela que, para se entregar, precisa de apoios, seguranças, tranquilizantes. Fé adulta será aquela que sem apoios, sai de si mesma, corre todos os riscos, confia, permite e se entrega. Entrega-se no vazio de seguranças, evidências e tranquilizantes. Fá-lo de pé, sozinho.(...)

O «adulto» na fé supera as distâncias e limitações inerentes à fé, saindo de si mesmo: desprende-se de todos os arrimos intelectuais que o raciocínio lhe proporciona e dá o grande salto no vazio, em plena noite escura, abandonando-se ao absolutamente Outro. É um salto no vazio porque o crente abandona as «razões» e deixa-se cair nesse abismo profundo que é o mistério.


Este é o grande momento da fé. É este o acto radical onde vai buscar todo o seu mérito e valor transformante. Só tem valor a crença na luz quando se vive na noite. Eu creio que por trás deste silêncio respiras Tu. Eu creio que por trás desta escuridão brilha o Teu Rosto. Ainda que tudo me saia mal, ainda que chovam os infortúnios, eu creio que me amas. Ainda que tudo pareça fatalidade, mesmo que nos pareça absurdo o mundo, mesmo diante do espectáculo de homens a odiar e de crianças a sofrer, mesmo ao ver que reina a tristeza e que mataram a pomba da paz, nem que me atormente a vontade de morrer..., eu creio, eu entrego-me a Ti. Sem Ti, que sentido teria a vida? Tu és a vida eterna.» - Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Omnipotência de Deus (2ªparte)


«Deus pode tudo, excepto obrigar o homem a amá-lo».

A sua omnipotência realiza-se, portanto, numa omnifraqueza: Deus deixa existir o outro na sua liberdade, liberdade que se pode virar para o bem como para o mal. É um mistério fundamental: Deus não pode agir no mundo senão através de corações que se abrem livremente a Ele, e então age como um influxo de luz, de paz e de amor. De forma alguma Deus pode agir a partir de fora, como o faria um ditador ou um furacão. (...)

Se se parte da ideia de uma omnipotência que tudo faz, então Deus faz com que a sua criação seja ao mesmo tempo maravilhosa e falhada: é uma ideia sem pés nem cabeça! Mas se dizemos: o que é maravilhoso é o que Deus faz, e o que é falhado é todo o mal que procura desfigurar a obra de Deus, podemos, nesse momento, situarmo-nos nesse combate. " - Oliver Clément, em "Taizé, um sentido para a vida"

A omnipotência de Deus

«A omnipotência de Deus é a omnipotência do amor, o amor é que é todo-poderoso!

Por vezes, diz-se: Deus pode tudo! Não, Deus não pode tudo. Deus não pode senão o que pode o Amor. Porque Ele não é senão Amor.(...)

Em Deus, não há outro poder que o do amor e Jesus diz-nos (é Ele quem nos revela quem é Deus): «Não há maior amor do que morrer pelos amigos» (Jo 15, 13). Ele revela-nos a omnipotência do amor ao consentir morrer por nós. Quando Jesus é preso pelos soldados, maniatado, amarrado, no Jardim das Oliveiras, Ele próprio nos diz que teria podido chamar uma legião de anjos para O arrancarem das maõs dos soldados. Absteve- Se, contudo, de fazê-lo, porque ter-nos-ia, então, revelado um falso Deus: ter-nos-ia revelado um Deus todo-poderoso em vez de nos revelar o verdadeiro. Aquele que chega a morrer por aqueles que ama. (...)» - François Varillon, em "Alegria de Crer e de Viver"

domingo, 6 de abril de 2008

Verdadeira Felicidade

«... nós sonhamos com uma felicidade de saldo, feita de alegrias fáceis. É este sonho que Jesus vem condenar, e o que Ele propõe (é esta a palavra essencial) é que o nosso apetite de felicidade seja ele próprio transformado. Felizes, bem-aventurados aqueles cuja alma é suficientemente elevada para que o seu desejo essencial seja o de viver como filhos do Pai que está nos céus!(...)

(...) a verdadeira festa humana, a única afinal , é saber-se filho de Deus. Jesus trá-la aos homens. é preciso acolhê-la, isto é, fazer a experiência da filiação divina: viver, e não só pensar, como filhos que têm um Pai.» - François Varillon, em "Alegria de Crer e de Viver"

sábado, 5 de abril de 2008

A Felicidade de amar

"No fundo, se bem que haja quatro bem-aventuranças em Lucas e oito em Mateus, não há mais do que uma: bem-aventurados os que fazem a experiência da existência verdadeira. Fazer esta experiência é, ao mesmo tempo e indivisivelmente, a felicidade e a cruz, as duas juntas. Porque o cristianismo é ligação estreita entre a felicidade e a cruz. De facto, para chegar à felicidade mais alta, é preciso renunciar à felicidade demasiado fácil, leviana. Aquilo a que chamamos a felicidade do céu, é a felicidade de amar, isto é, de sair de si mesmo, de já não pensar em si, de já não se debruçar sobre si.

Como é que queremos que neste mundo a aprendizagem desta felicidade se faça sem sacrifício? Porque, espontaneamente, nós só pensamos em nós próprios; porque, espontaneamente, mesmo no amor humano, o outro é sempre um meio privilegiado para o amor que temos a nós mesmos. A cruz é ir mais além das felicidades baratas e aceder a essa grande felicidade, a única digna dos filhos de Deus, a felicidade de amar. O acesso a esta felicidade passa pelo sacrifício, o que todos nós experimentamos mais ou menos na vida de cada dia." - François Varillon, em "Alegria de Crer e de Viver"

quinta-feira, 3 de abril de 2008

A Profundidade da Liberdade Humana


«Consideremos o Discurso da Montanha; primeiro ponto: a exigência é radical; segundo ponto: sois livres quanto à maneira de viver este radicalismo da exigência. É esta a razão pela qual muitos homens têm medo da liberdade e reclamam instruções formais que Jesus não dá e se recusa a dar. Jesus mostra simplesmente a profundidade da liberdade do homem.(...)

Poderíamos dizer que não é Ele, Jesus, quem é exigente: somos nós quem o somos sem o sabermos. Somos nós que dissimulamos a nós mesmos as nossas próprias exigências, porque temos medo delas e tememos ter de ser homens, Jesus não faz mais do que nos revelar a nós mesmos. Ele descobre-nos a grandeza da nossa liberdade, arranca as máscaras que nos fabricámos com as nossas mãos, por medo e por egoísmo. Ele diz-nos: tu vales mais do que pensas, a tua grandeza ultrapassa a consciência que tens dela. Vive de acordo com essa grandeza; quanta mais experiência fizeres dessa vida, mais darás conta de que és grande e de que essa grandeza é uma exigência. Descobrirás até onde pode conduzir-te a tua liberdade se recusares as máscaras.

A Lei nova, o cristianismo, não pode ser uma lista de instruções. Trata-se, com a ajuda de exemplos típicos, da revelação dos horizontes sem limites da grandeza humana. (...) É uma grandeza sem limites vivida na existência mais humilde e mais quotidiana. Horizonte sem limites no coração dos horizontes mais familiares: o lar, a vizinhança, o bairro, a profissão... Jesus diz-nos tudo de que o homem é capaz na vida mais simples, com a condição de que seja o filho dum Deus que é Pai." - François Varillon, em "Alegria de Crer e Viver"

terça-feira, 1 de abril de 2008

Desce ao lugar do teu sofrimento

Para compreender a essência deste texto, é necessário ler o post anterior. Pode-se dizer que os dois textos estão intimamente relacionados.

«Tens que viver gradualmente o teu sofrimento retirando-lhe assim o poder que detém sobre ti. Sim, é preciso penetrares no teu sofrimento, mas só quando já te tiveres fortalecido um pouco. Quando entras simplesmente no teu sofrimento, apenas para sentir a sua aridez, ele pode afastar-te do caminho que pretendes trilhar.

O que é o teu sofrimento? É a experiência de não receberes o que mais precisas. É um local de vacuidade, onde a ausência do amor que tanto desejas se torna mais pungente. É difícil regressar a esse lugar, por que aí te confrontas com as tuas feridas, bem como com a incapacidade de te curares a ti mesmo. Tens tanto medo desse lugar que o encaras como um sítio mortal. O teu instinto de sobrevivência faz-te fugir dali e procurar qualquer outro sítio onde te sintas acolhido, embora lá no fundo saibas perfeitamente que esse lugar não existe.

Tens que começar a acreditar que a tua experiência de vacuidade não é a experiência final, que para além dela se encontra um ponto onde o amor te acolhe. Enquanto não confiares nesse ponto para além da tua vacuidade, não conseguirás regressar facilmente ao local do sofrimento.

Assim, é preciso que, quando vais ao teu local de sofrimento, o faças convicto de que já encontraste aquele novo lugar. Já provaste alguns dos seus frutos. Quanto mais raízes lançares na nova terra, tanto mais fácil te será fazer o luto pelo lugar antigo e libertares-te do sofrimento que lá permanece. Não podes fazer o luto por alguma coisa que ainda não morreu. No entanto, os velhos sofrimentos, vínculos e desejos que outrora tanto significaram para ti devem ser enterrados.

Deves chorar os teus sofrimentos perdidos para que eles te possam abandonar gradualmente e fiques liberto para viver inteiramente no novo local sem melancolia ou saudade.»



Henri Nouwen, em "A voz Íntima do Amor"