domingo, 30 de março de 2008

Entra na Nova Terra


«Fazes uma ideia do aspecto da nova terra. Contudo, ainda te sentes muito em casa, embora não inteiramente sereno, na tua velha terra. Conheces os seus caminhos, as suas alegrias e sofrimentos, os seus momentos alegres e tristes. Passaste lá a maior parte dos teus dias. Embora saibas que lá não encontraste o que o teu coração mais deseja, manténs-te bastante agarrado a ela, porque se tornou parte integrante de ti.

Agora apercebes-te de que deves deixá-la partir e entrar na nova terra, onde mora o teu Amado. Percebes que o que te auxiliou e guiou na velha terra deixou de funcionar, mas então por onde te deves regular? É-te pedido que confies em que encontrarás na nova terra o que necessitas. Isso exige a morte do que se te tornou tão precioso: influência, sucesso, sim, até mesmo o carinho e o elogio.

É dificílimo confiar, já que não tens onde te apoiar. Ainda assim, confia no que é essencial. A nova terra é o lugar onde és chamado a dirigir-te, e a única maneira de lá entrar é despido e vulnerável.

Parece que estás continuamente a atravessar a fronteira de um lado para o outro. Durante algum tempo sentes-te verdadeiramente feliz na nova terra. Mas depois sentes receio e começas a ter saudades do que deixaste para trás, por isso regressas à antiga terra. Então, descobres consternado que ela perdeu o seu encanto. Arrisca dar mais uns passos na nova terra, confiante de que cada vez que entras irás sentir-te mais confortável e conseguirás permanecer mais tempo.»

Henri Nouwen, em "A Voz Intima do Amor"

sexta-feira, 28 de março de 2008

Santificação

"A Santificação não significa a perfeição alcançada, mas o progresso da vida divina em direcção à perfeição. A santificação é a cristianização do cristão." - Dallas Willard, em "A Renovação do Coração"


"...uma parte do processo da redenção é que ela é uma obra progressiva, que continua ao longo da nossa vida terrena. Também é uma obra em que Deus e o homem cooperam, cada um desempenhando papeis distintos. Essa parte do processo da redenção é chamada de santificação: a santificação é uma obra progressiva de Deus e do homem que nos torna mais livres do pecado e mais semelhantes a Cristo na nossa vida actual." - Wayne Gruden, citado por Dallas Willard, em "A Renovação do Coração."

quinta-feira, 27 de março de 2008

Pecado(s)

"Só há um pecado: o pecado de ser o contrário de Deus, de não nos criarmos, de ficarmos escravos do nosso egoísmo, do eu, do olhar sobre nós mesmos. É este o único pecado." - François Varillon, em "Viver o Evangelho"

«O orgulho endurece-nos, a avareza fecha-nos, a inveja rói-nos, a luxúria corrompe-nos, a gula embrutece-nos, a cólera desfigura-nos e a preguiça paralisa-nos.» - Paul Claudel, citado por François Varillon, em "Viver o Evangelho"

quarta-feira, 26 de março de 2008

A Luz que brilha através de nós


«Faz-se o bem, não na medida do que se diz e do que se faz, mas na medida do que se é, na medida da graça que acompanha os nossos actos, na medida em que Jesus vive em nós, na medida em que os nossos actos são actos de Jesus agindo em nós e através de nós...

Toda a nossa existência, todo o nosso ser deve proclamar o Evangelho aos quatro ventos; toda a nossa pessoa deve respirar Jesus, todos os nossos actos, toda a nossa vida devem proclamar que estamos com Jesus, devem mostrar a imagem da vida evangélica; todo o nosso ser deve ser uma pregação viva, um reflexo de Jesus, um perfume de Jesus, alguma coisa que proclame Jesus, que faça ver Jesus, que brilhe como uma imagem de Jesus» - Charles de Foucauld

sexta-feira, 21 de março de 2008

Um Sinal de Amor


«Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.» - Apóstolo Paulo na Carta aos Gálatas 2:20

«Que siginifica a cruz? É o despojamento do amor próprio, da vontade própria e do interesse próprio. (...)

É monstruoso ser simplesmente correcto com um crucificado . Há pessoas para quem o ideal é serem correctas. Não faço mal, cumpro as minhas regras religiosas, sou correcto; não têm nada a censurar-me. Visto que o nosso Deus é um Deus crucificado, que o perdão divino está ligado à cruz, tenho de admitir que ser simplesmente correcto, educado, com um crucificado, é verdadeiramente monstruoso.» - François Varillon, em "Viver O Evangelho"

"A cruz só pode ser lida no amor, como sinal de Deus que salva e purifica o homem, como sinal de Jesus que traduz a Sua liberdade de ser fonte e meio de salvação para o homem. Sem amor a cruz é não-significante.(...)
Ele restaura-nos no amor vindo alto. Mas isto só se pode realizar no interior de nós mesmos por meio de um dilaceramento, de um aniquilamento de nós mesmos, de uma sincera purificação da nossa vontade, de modo a podermos responder sim na plena liberdade do amor." - Pe. Constant Tonnelier, em "Quinze dias com São João da Cruz"

quarta-feira, 19 de março de 2008

Passagem para a vida divina

O que é o Mistério Pascal, o Mistério da Morte e Ressurreição do Senhor? A Páscoa é o centro de tudo.(...) É uma palavra que quer dizer passagem. Passagem para a vida divina. (...) A Páscoa é o centro da vida cristã. Mas a Páscoa é muito mais; é, numa palavra, a própria vida cristã. (...)

Jesus que sobe o Calvário a caminho da morte, na realidade vai a caminho da verdadeira vida, a caminho da liberdade.(...)

Tenho de compreender que cada uma das minhas decisões tem uma estrutura pascal. (...) A nossa vida é um tecido de decisões; é através das minhas decisões que me construo, que me torno homem e homem livre. As minhas decisões têm uma estrutura pascal, são uma passagem pela morte.(...)
Toda a decisão é uma passagem pela morte, para sair da escravatura a caminho da liberdade. A minha decisão arranca-me à escravatura do meu egoísmo, porque sou sempre escravo do meu egoísmo. As minhas decisões arrancam-me à escravatura e fazem-me entrar no Amor. Mas o arrancar-me à escravatura é, evidentemente, uma morte. É uma morte parcial, deixar o travesseiro, quando está frio e a névoa é densa, mas é a passagem para a liberdade e para uma liberdade verdadeiramente divina, uma vez que Cristo diviniza o que nós humanizamos.
Toda a decisão deve ser humanizante de certa forma, tornar-me mais homem, tornando os homens e o mundo mais humanos.(...)

O essencial da nossa fé, esta morte parcial, a morte que a minha decisão implica, é uma passagem à vida de Cristo. É uma ressurreição, uma passagem à liberdade, quer dizer, ao triunfo sobre todas as formas de egoísmo. (...)

Portanto, sou transformado, a pouco e pouco, pelo conjunto das decisões que tomo livremente e que fazem morrer a minha escravidão.

François Varillon, em "Viver o Evangelho"

Perder para Ganhar

«Acção de graças, trabalho, comunidade. Tudo isto implica uma morte. A acção de graças é a morte do meu instinto de propriedade. O trabalho é a morte à minha preguiça. A comunidade é a morte do meu individualismo. A morte está absolutamente em tudo. Mas creio que ela é, ao mesmo tempo, ressurreição. A ressurreição não se dá depois da morte; já está presente na própria morte. Morrendo ao meu individualismo, à minha preguiça, ao meu instinto de propriedade, passo para Cristo, torno-me mais Cristo, até me tornar totalmente Ele, depois dessa morte que é a morte final.»


François Varillon, em "Viver o Evangelho"

domingo, 16 de março de 2008

Sobre a Salvação

François Varillon, descreve no livro "Viver o Evangelho" , uma discussão sobre a salvação com um marxista eminente, Gilbert Mury, que o ajudou a compreender o que é a salvação. Segundo esse marxista a salvação levanta quatro questões, ás quais responde como marxista:

1. Quem é salvo? - O homem.
2. De quê? - Da alienação.
3. Quem salva? - O proletariado organizado em partido.
4. Para chegar a quê? - A sociedade sem classes.

O marxista diz: «É a sua vez, padre». Para François Varillon as coisas eram muito simples:

Quem é salvo? - O homem.
Quem salva? - Jesus Cristo.
De quê? - Da finitude acrescida pelo pecado.
Para chegar a quê? - A viver a própria vida de Deus.

François Varillon, em "Viver o Evangelho"

sexta-feira, 14 de março de 2008

Liberdade

«Deus que me criou livre, liberta a minha liberdade e a minha vontade de todas as suas insuficiências, das suas limitações e dá à minha liberdade a faculdade plena de se exercer. Ele não aniquila a minha liberdade. Ele não quer em meu lugar. Mas dá-me a possibilidade de querer como Ele quer. Torna-me capaz de querer como Ele quer e, agarrando esta capacidade na plena liberdade do meu ser, eu quero como Deus quer. A minha vontade transformou-se na sua.
E se é assim, já nada é contrário a Deus na minha vontade livre. Tudo é puro e recto naquilo que me leva a agir como Deus quer que eu aja.»

Pe. Constant Tonnelier, em "Quinze dias com São João da Cruz"

quarta-feira, 12 de março de 2008

O Teu Olhar de Amor


Este texto foi adaptado por mim com base na obra "Quinze dias com São João da Cruz" do Pe. Constant Tonnelier.

«O Olhar de Deus é o seu amor. Quando fixa o seu olhar em alguém, ama. (cf. Mc 10,21)

O teu olhar, Senhor, está sempre em primeiro lugar.
Um olhar de amor que me faz existir e me faz crescer no amor.
Pois só me podes olhar, amando-me. (...)
Amas-me na gratuidade do amor. (...)
Gravas em mim uma parte de Ti mesmo,
O que eu sou capaz de acolher.
Tornas-me capaz de ler em Ti e, portanto,
De poder adorar o que em Ti os meus olhos vêem e descobrem.(...)

É o Deus de amor que me olha ao chamar-me a amar.
O Deus com coração de mãe, cheio de misericórdia,
O Deus que Se inclina com misericórdia para a alma,
O Deus que imprime e derrama nela o seu amor e a sua graça.(...)

Revestes-me com o teu próprio esplendor.
Transfiguras o meu ser pelo dom da tua graça,
Ajustando-o a ti,
Fazendo dele um reflexo do que és.
Mas um amor está sempre em crescimento
Ou já não é amor.
Quanto mais crescer em mim o amor por Ti,
Tanto mais todo o meu ser se reveste da Tua beleza,
Cresce em beleza e Te encanta.


Pe. Constant Tonnelier, em "Quinze dias com São João da Cruz"

O que é o sacrifício?

[Em primeiro lugar], reparemos que «sacrifício» não quer dizer «privação»; portanto, não quer dizer «mortificação». (...)

O que é o sacrifício? Vejamos a sua realidade positiva. A sua realidade positiva é o amor, dar-me a mim mesmo aquele a quem amo. O sacrifício é o dom, o dom total de si mesmo. Santo Agostinho escreve-o com todas as letras: o sacrifício não é senão amor. Ora, obediência é o verdadeiro nome do amor pelos homens. É preciso termos coragem de o dizer, mas sem nos deixarmos equivocar sobre o sentido da verdadeira obediência. Quando se trata do amor da criatura para com Deus, não é um amor de igual para igual. É uma amor que se exprime assim: «Quero fazer a tua vontade».(...) [O amor] é a «descentração» de si mesmo. Deixamos de nos considerar como centro de nós mesmos. O homem pode então dizer à mulher que ama: «Agora és tu o meu centro. O meu centro já não está em mim, mas em ti». (...) A essência do amor é fazer a vontade daquele ou daquela a quem se ama. Claro que isto não significa fazer tudo o que apetece ao outro ou satisfazer todos os seus caprichos. (...) Aderir ao amor é aderir ao sacrifício, inevitavelmente. (...)

Deus não é senão amor. Pela obediência, obedeço àquele que amo, respondo ao seu desejo. O sacrifício é uma atitude interior de amor obediente. [E qual é o desejo de Deus?] O desejo de Deus é que sejamos totalmente d`Ele. Estamos a dizer que é impossível. É aqui que intervém Cristo.

Em primeiro lugar, Cristo é um ser sem pecado. Não há n´Ele o menor sinal de egoísmo. É o ser totalmente sem retorno sobre Si mesmo. Podíamos definir Cristo, dizendo que é alguém para-os-outros; Cristo é para os outros. Não é alguém que primeiramente existe e depois dá-se aos outros. A sua própria existência é ser para os outros. Ele só quer o que o Pai quer: «O meu alimento é a fazer a vontade do Pai» (cfr. Jo 4, 34 e 6, 38). Toda a vida de Cristo, todo o Evangelho, é um ímpeto de amor obediente, e obediente até à morte(...).



François Varillon, em "Viver o Evangelho"

terça-feira, 11 de março de 2008

ALPINISMO OU ACOLHIMENTO?

Fonte da imagem:http://emanuel-cartoon.blogspot.com/2007/11/eu-disse-o-reino-de-deus-de-quem-o.html

"Muitas pessoas julgam que a religião consiste naquilo que fazem por Deus: aquelas pobres, tristes e débeis coisas que porventura fazem por Deus. Deste modo, toda a religião lhes parece pobre, triste, débil. Vão subindo sem alegria, à custa de «sacrifícios» enfadonhos, para se aproximarem um pouco (não demasiado!) daquele Ser que imaginam Supremo e sem inquietações.

Mas a religião consiste no que Deus faz por nós: as grandes e estupendas coisas que Deus inventa para nós. Deus é de tal modo Bom que é Ele que se aproxima. Tudo quanto nos pede é que nos maravilhemos com Ele. Não temos mais do que admirar e aquietar-nos. Seremos religiosos na medida do nosso deslumbramento. «O Senhor fez por mim maravilhas».

Deus não é aquele que recebe e muito menos aquele que arrebata: é Aquele que dá, que perdoa e cujos benefícios cantaremos por toda a eternidade.

Religião fácil? Desenganai-vos. É penoso para nós sermos amados gratuitamente, pois aceitar tal amor é admitir que não valemos nada, que não valeríamos nada sem este amor que nos cria. E é também aceitar sermos criados... à Sua imagem. Aceitar entrar neste jogo terrível de um amor que nada calcula, nada avalia, tudo espera. Se temos tanto medo, é porque sabemos perfeitamente que tal amor é um apelo irresistível a amarmos daquela maneira. Sem condições.»
Louis Evely, em "Tu és esse homem"

domingo, 9 de março de 2008

Confissões

Dedico este post ao Pe. Sandro Rogério

«Deixa-me dizer-te, meu caro, pode bem acontecer que vás através da vida sem saber que debaixo do teu nariz existe um livro no qual a tua vida é descrita em todo o detalhe. Aquilo do qual nunca te deste conta antes, vais relembrando aos poucos, assim que comeces a ler esse livro, e encontras e descobres... alguns livros tu lês e lês e não lhe consegues encontrar qualquer sentido ou lógica, por mais que tentes. São tão "espertos" que não consegues perceber uma palavra daquilo que dizem... Mas esse livro que talvez esteja logo debaixo do teu nariz, tu lês e sentes-te como se tivesses sido tu próprio a escrevê-lo, tal como - como é que hei-de dizer ? - tal como tivesses tomado posse do teu próprio coração - qualquer que este possa ser - e o tivesse virado do avesso de forma que as pessoas o consigam ver, e descrito com todos os detalhes(...)» - Fiodor Dostoievski, in "Pobre Gente"

«Não há no mundo livros que se devam ler, mas somente livros que uma pessoa deve ler em certo momento, em certo lugar, dentro de certas circunstâncias e num certo período da sua vida»- Lin Yutang




"Nada tinha para te responder quando me dizias: Levanta-te, tu que dormes, e ergue-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará (1) ; e a ti, que mostravas de todos os lados que dizias a verdade, não havia absolutamente nada que eu te pudesse responder, convencido da verdade, a não ser apenas umas palavras arrastadas e sonolentas: «Já vou, vou já, só mais um bocadinho.» Mas o «já vou» e o «vou já» não tinham fim, e o «só mais um bocadinho» prolongava-se em muito. Em vão me deleitava na tua Lei, segundo o homem interior, uma vez que outra lei lutava nos meus membros contra a lei do meu espírito e me levava cativo na lei do pecado, que estava nos meus membros (2). Pois é lei do pecado a violência do hábito, que arrasta e prende o espírito mesmo contra a sua vontade, sendo isso merecido, porque é voluntariamente que nele cai. (...)"

(1) Efésios 5:14
(2) Romanos 7: 22-23

"... Tu estavas junto de mim, eu suspirava e tu ouvias, flutuava e tu seguravas o leme, caminhava pela via larga do mundo e não me abandonavas."

"... quanto mais aguda era a preocupação, que roía o meu íntimo, sobre a verdade a que me devia agarrar, tanto mais me envergonhava de ter sido iludido e enganado durante tanto tempo com a promessa de certezas e de, com pueril erro e entusiamo, ter tagarelado tantas incertezas como se certezas fossem. Mais tarde tornou-se-me evidente que eram falsidades."

"Eu caminhava nas trevas e em terreno resvaladiço, buscava-te fora de mim e não te encontrava, Deus do meu coração; chegara ao profundo do mar, e desanimava, e desesperava de encontrar a verdade."

"E onde estava eu quando te procurava? E tu estavas diante de mim, mas eu afastara-me de mim e não me encontrava: e muito menos a ti!"

"Ó minha alegria que tardaste em chegar! Calavas-te então, e eu continuava a afastar-me de ti atrás de várias e várias estéreis sementes de dor, com um orgulhoso abatimento e um desassosegado cansaço..."

"(...) tu estavas junto de mim, eu suspirava e tu ouvias, flutuava e tu seguravas o leme, caminhava pela via larga do mundo e não me abandonavas..."

Santo Agostinho, em "Confissões"

sábado, 8 de março de 2008

Teologia

«O teste crucial de qualquer teologia é este: é o Deus apresentado um Deus que se possa amar, e amar de todo o coração, alma, entendimento e força? Se a resposta ponderada e sincera é "não", então é necessário procurar em outro lugar ou com maior profundidade. Pouco importa a sofisticação intelectual ou doutrinária da abordagem teológica. Se ela não apresenta às pessoas um Deus que se possa amar - um ser radiante, feliz, amigável, acessível e absolutamente capaz -, então está errada. Não devemos continuar na mesma direcção, mas buscar um outro caminho.»


Dallas Willard, em "Conspiração Divina"

quinta-feira, 6 de março de 2008

A Pureza Absoluta do Amor

Compreendamos que somos pecadores, não em relação a regras de moral, nem mesmo em relação a uma espiritualidade. Somos pecadores em relação à pureza absoluta do amor. Esta pureza do amor é necessária para que a minha vocação se realize, uma vez que se trata de entrar em Deus e de viver a sua vida. Isso só será possível quando já não houver em mim a mais pequena réstia de egoísmo, e para falar de S. Bernardo, o menor retorno de mim sobre mim; quando já não houver a menor preocupação comigo mesmo e a menor tentação de me olhar ao espelho. Só nesse momento é que posso entrar na glória de Deus, mas não antes.

Estamos a falar da pureza absoluta do amor, isto é, de um amor absolutamente purificado de todo o egoísmo. Não nos enganemos com esta palavra "pureza". Habituámo-nos a chamar pureza apenas ao que diz respeito à carne, à luxúria, ao sexto mandamento. Não é disso que se trata aqui, mas sim de um amor sem mistura de egoísmo.

É em relação a isso que eu sou pecador; por outras palavras, a minha vocação é a pureza absoluta do amor, e tenho de reconhecer que o meu ponto de partida é impuro. Na glória de Deus, amarei como Deus ama, sem o menor retorno sobre mim mesmo.



François Varillon, em "Viver o Evangelho"

terça-feira, 4 de março de 2008

Salvação

A salvação (...) é o esvaziamento, a desapropriação de nós mesmos!(...)

O Pai só é para o Filho, o Filho só é para o Pai, o Espírito Santo é a energia do amor que faz com que Eles sejam um para o outro. Fizemos da salvação algo que se pode possuir, quase que em sentido físico. Seria uma espécie de «sucesso desportivo ideal», e os santos os únicos que o teriam alcançado. Se considerarmos que o fim da nossa vida, dos nosso esforços, é a nossa salvação pessoal, desconhecemos por completo o projecto de Deus e estamos à margem do espírito de Cristo.(...)

Em pleno Sermão da Montanha, Jesus diz-nos: «Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 48). É preciso que compreendamos bem o que isto quer dizer: «Sede Pai com Ele!» Isto é: «Tende a preocupação permanente de toda a comunidade». A perfeição do Pai é a de estar todo dado aos seus filhos. Não façamos do amor ao próximo um meio de salvação ou uma condição para a salvação. Seria subordinar os outros a nós próprios, ou seja, seria não os amar. Dar-me aos outros pelo facto do dom de mim mesmo ser condição para a salvação seria precisamente não me dar. O dom de si mesmo, isto é, o amor do próximo, é constitutivo da salvação. Não é um meio para a salvação, não é uma condição para a salvação. É a própria salvação.



François Varillon, em "Viver o Evangelho"

segunda-feira, 3 de março de 2008

Deus não é senão amor

Escrevi este texto em verso inspirado no livro "Viver o Evangelho" de François Varillon. Um livro que me tem encantado e aberto novos horizontes de fé.

Deus não é senão amor;
Amor que recria, ilumina, unifica,
cura, transforma, diviniza...

É preciso amar mais,
sempre mais,
até ao fim,
até à morte.
Sim, dar a vida pelos amigos,
se for preciso.

Só amando assim
seremos homens e mulheres verdadeiramente livres;
Porque o homem é homem quando ama;
quando se torna semelhante a Deus.
Somos livres quando não há egoísmo
misturado com o nosso amor.

Amar até doer.
Amar até alcançarmos
a pureza absoluta do amor;
sem mácula de egoísmo,
sem retorno sobre si mesmo.

Amor é dom e acolhimento;
dom de si mesmo,
movimento para o outro,
preferência do outro
e não de nós mesmos.

Que significa a cruz?
É o despojamento do amor próprio,
da vontade própria
e do interesse próprio.

Deus não é senão amor;
Amor que exprime a sua plena profundidade
no perdão...
"Deus não só esquece a falta,
mas esquece o próprio perdão".
O Perdão é a graça das graças;
é o dom perfeito.
Por isso, temos de perdoar sempre;
"Porque aquele que não perdoa,
volta as costas a Deus,
ao que há de mais profundo em Deus".

Só experimentamos a paternidade de Deus no perdão.

Deus tem profunda alegria em perdoar.
Se quero que a minha alegria
seja semelhante à de Deus,
que é a alegria de perdoar,
é preciso que a minha alegria seja a de ser perdoado,
e que seja a minha suprema alegria.

Texto baseado em "Viver o Evangelho" , de François Varillon