quinta-feira, 28 de junho de 2007

O Cristão e o Monge Budista


Certo Cristão, um dia, visitou
um bom Monge Budista e disse-lhe:
«Permita-me que eu lhe leia
algumas passagens do Evangelho,
o Sermão da Montanha, por exemplo».

«Ouvirei com prazer», respondeu o Monge.

E depois de ter lido várias linhas
o Cristão pára um pouco e o Monge diz,
sorrindo:«Quem disse tais palavras
era, de facto, um grande iluminado!».
Alegrou-se o Cristão e continuou...
Mais uma vez o Monge interrompeu:

«Quem tais palavras disse é, na verdade,
digno de ser chamado o Salvador
de toda a humanidade».

Empolgou-se o Cristão ainda mais
e levou a leitura até ao fim.
E outra vez o Budista comentou:
«Quem disse essas palavras deve ser
um homem que irradia Divindade!».

O Cristão transbordava de alegria
e voltou para casa decidido
a convencer o bom Budista
a tornar-se também um bom Cristão.

No caminho para casa, encontrou Jesus e disse-Lhe com esfuziante entusiasmo:«Mestre, eu consegui que aquele homem confessasse e admitisse a Vossa Divindade!».

Jesus sorriu e disse: «E qual foi a utilidade disso para ti, para além de inchar o teu ego cristão?».

O canto do pássaro, Anthony de Mello

BOM DEUS


BOM DEUS,
bem sabes que, às vezes,
gosto mais de leis
do que apelos à Liberdade,
mesmo quando me queixo disso…
Porque a verdade
é que as leis me desresponsabilizam,
livram-me de assumir iniciativas,
não me obrigam a pensar,discernir, optar e arriscar…
BOM DEUS,
liberta-me de todas as servidões,
sobretudo daquelas que me foram
e são impostas
em nome de um "deus" que não és Tu!
Dá-me a Liberdade
e a Responsabilidade
da Nova Lei do Espírito Santo,
o compromisso com Jesus Cristo,
como anunciador da sua Vida e continuador da sua Missão…


terça-feira, 26 de junho de 2007

«Amas-me?»


«Depois de terem comido, perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes? Respondeu-lhe: Sim, Senhor; tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta os meus cordeirinhos. Tornou a perguntar-lhe: Simão, filho de João, amas-me? Respondeu-lhe: Sim, Senhor; tu sabes que te amo. Disse-lhe: Pastoreia as minhas ovelhas. Perguntou-lhe terceira vez: Simão, filho de João, amas-me? Entristeceu-se Pedro por lhe ter perguntado pela terceira vez: Amas-me? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas; tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas- João 21, 15-17
O mistério insondável de Deus é que Ele é um Enamorado que quer ser amado. Aquele que nos criou está á espera da nossa resposta ao amor que nos deu o ser. Deus não diz apenas: «Tu és o meu amado», mas pergunta também: «Amas-me?», oferecendo-nos inumeráveis oportunidades para dizer «sim». É isso a vida espiritual: a possibilidade de dizer «sim» à nossa verdade interior.

A vida espiritual, assim entendida, muda tudo radicalmente. Nascer e crescer, deixar a casa e prosseguir uma carreira, ser admirado e ser rejeitado, caminhar e descansar, orar e distrair-se, ficar doente e ser curado - sim, viver e morrer - tudo são expressões desta pergunta divina: «Amas-me?». E, em todos os pontos da jornada, há a opção entre dizer «sim» e dizer «não».

Henri Nouwen, Viver é ser amado

Sementes que dão fruto


A vida é uma oportunidade dada por Deus para nos tornarmos quem somos, para afirmarmos a nossa própria e autêntica natureza espiritual.Um dos maiores actos de fé é acreditar que os poucos anos que vivemos nesta terra são como uma pequena semente plantada num solo muito fértil. Para que esta semente possa produzir fruto, deve morrer.

Como seria diferente a nossa vida se fôssemos realmente capazes de acreditar que ela se multiplica em frutos quando se entrega como dom!
Como seria diferente a nossa vida se acreditássemos que todo e qualquer acto de fidelidade, todo e qualquer gesto de amor, toda e qualquer palavra de perdão, toda e qualquer fracção de alegria e de paz se multiplicam enquanto houver pessoas para os receberem e que, mesmo assim, ainda sobrará alguma coisa!


Henri Nouwen, Viver é ser amado

sábado, 23 de junho de 2007

O Mestre do Amor


A sua tranquilidade e generosidade
transformaram-se em gotas de orvalho
que humedeceram o seco solo dos nossos sentimentos.
Soube ser alegre e soube sofrer.
Fez da vida humana uma fonte de inspiração.
Escreveu recitais com a sua alegria
e poemas com a sua dor.

Mostrou-nos que podemos vencer
as algemas do medo
e as amarras das nossas dificuldades.
Transformou as dificuldades e os problemas
em ferramentas para afinar os instrumentos
da inteligência e da emoção.
Regeu a orquestra sinfónica da sabedoria numa terra onde
se cantava a música do preconceito e da rigidez.
As pessoas que o acompanhavam
eram lentas para aprender o alfabeto do amor
e rápidas para soletrar o alfabeto da discriminação e do ódio.
Ele queria o coração e não o serviço.
Quando alguém se dispunha a segui-lo,
não exigia nada,
apenas que aprendesse a amar.

O amor é o único sentimento
que nos leva a esquecermo-nos de nós mesmos
e a doarmo-nos sem medida.

Tinha todos os motivos do mundo
para desistir e para desanimar.
Todavia, nunca desistiu da vida
nem deixou de se encantar com o homem.
A vida que pulsava nas crianças,
nos adultos e nos idosos
era esplêndida para si.
Ele sempre soube que não somos
gigantes nem heróis,
mas ainda assim fomos super-amados.

A vida ficou mais agradável e suave
depois da sua vinda.
O mundo nunca mais foi o mesmo,
depois que o Mestre do amor passou por aqui.
Já faz tantos séculos,
mas parece que foi ontem.

Texto adaptado do livro "O Mestre do Amor" de Augusto Cury

Ser o bem-amado


Jesus mostra-nos o caminho da compaixão, não só pelo que diz mas também pela forma como vive. Jesus fala e vive como o Filho bem-amado de Deus. Um dos acontecimentos centrais da vida de Jesus é relatado por Mateus: «Uma vez baptizado,Jesus saiu da água e eis que os céus se lhe abriram e viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e vir sobre Ele. E uma voz vinda do céu dizia: "Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência"» (Mateus 3,16-17).Este evento revela a verdadeira identidade de Jesus. Jesus é o «Bem-Amado» de Deus. Esta verdade espiritual guiará todos os seus pensamentos, palavras e acções. É a rocha sobre a qual o seu mistério de compaixão será construído. E isto torna-se óbvio quando o Evangelho nos diz que o mesmo Espírito, que desceu sobre Ele quando saía da água, O conduziu também ao deserto para ser tentado. Aí o «Tentador» veio ter com Ele pedindo-lhe que demonstrasse que valia a pena amá-lo. O «Tentador» disse-lhe: «Faz algo de útil, como transformar pedras em pão. Faz algo de sensacional, como lançares-te duma torre. Faz algo que traga o poder, como honrar-me a mim» (ler Mateus 4, 1-9). Estas três tentações eram três maneiras de levar Jesus a tornar-se um «competidor» pelo amor.O mundo do «Tentador» é precisamente o mundo em que as pessoas competem pelo amor fazendo coisas úteis, sensacionais e poderosas, para assim obterem medalhas que lhes ganhem afecto e a admiração dos outros.Jesus, porém, é muito claro na sua resposta: «Não tenho que demonstrar se sou digno de amor. Eu sou o Bem-Amado de Deus. Aquele em quem Deus se compraz.» Foi essa vitória sobre o «Tentador» que fez de Jesus um homem livre para optar por uma vida de compaixão.


Henri Nouwen, Aqui e Agora

terça-feira, 19 de junho de 2007

O Amor...



A minha amiga Flôr, do blog http://flor-odesabrochar.blogspot.com/ escolheu-me para dissertar sobre esse nobre e transcendental sentimento que é o AMOR. Fico muito feliz e honrado por ter sido escolhido pela autora de um dos blogs mais amorosos que conheço.

O que é que eu posso dizer sobre o amor que já não tenha sido dito. O que significa amar? Como e a quem devemos amar? Qual a fonte do amor?

Existem certamente muitas respostas para estas questões. Contudo, eu escolhi as palavras de alguém que conviveu intimamente com um Homem extraordinário, que é a personificação do amor, e que fez da sua vida enquanto homem uma sinfonia de amor transcendental, sublime, incondicional. O Apóstolo João foi discípulo de Jesus e teve oportunidade de O conhecer intimamente. Certamente que as palavras que ele escreveu sobre o amor foram inspiradas por essa experiência de comunhão profunda e amizade verdadeira, bem como pelo Espírito de Deus.
« Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus; e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em que Deus enviou seu Filho unigénito ao mundo, para que por meio dele vivamos. Nisto está o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, nós também devemos amar-nos uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é em nós aperfeiçoado.E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem permanece em amor, permanece em Deus, e Deus nele.No amor não há medo, antes o perfeito amor lança fora o medo; porque o medo envolve castigo; e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor.» - I João 4; 7-12, 16, 18
O que é a vida sem o amor? Que valor têm as mais nobres acções, dons, talentos ou virtudes se não forem permeadas pelo amor?
"Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa, ou como um sino que tine. E ainda que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e tivesse toda a fé, até ao ponto de transportar montanhas, se não tivesse amor, não seria nada. E, ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse amor, nada me aproveitaria." - I Coríntios 13, 1-3
Qual a forma de amor mais sublime, majestosa, transcendental, incondicional?
"Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos." - João 13, 15
"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigénito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." - Joaõ 3,16
"Amai aos vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem..." - Mateus 5, 44
Pessoalmente, durante toda a minha existência procurei incessantemente esta fonte de amor sublime, que excede todo o nosso entendimento. A vida só faz sentido e só pode ser vivida na sua plenitude se cultivarmos e aperfeiçoarmos este amor que emana de Deus.
Convido-vos a visitar o meu blog - Abrigo dos Sábios para lerem algo mais sobre o amor: http://abrigodossabios-paulo.blogspot.com/2007/04/sabes-que-te-amo.html ( um texto inspirado no amor que me une à minha querida esposa). http://abrigodossabios-paulo.blogspot.com/2007/06/feliz-aniversrio-minha-princesa.html ( um presente de aniversário para a minha esposa). http://abrigodossabios-paulo.blogspot.com/2007/03/o-amor-divino.html ( texto de Augusto Cury sobre o amor, inspirado na vida e personalidade de Jesus Cristo). http://abrigodossabios-paulo.blogspot.com/2007/03/o-amor-incondicional.html ( um poema sobre o amor incondicional).
Bem, agora tenho de escolher 10 pessoas para divagarem sobre o amor. Os eleitos são:
António Francisco - http://achologia.wordpress.com/

sábado, 16 de junho de 2007

Que Homem é este?

«Foi honrado como ninguém e humilhado como poucos. A sua inteligência ultrapassava os limites da dos pensadores, mas a sua humildade era mais refinada que a dos moribundos da sua sociedade. Era sólido emocionalmente, mas sabia chorar e confessar a sua angústia. Quando abandonado, não reclamava, pois sabia fazer da solidão um convite para a reflexão.

Viveu a glória dos reis e o anonimato dos miseráveis. Somente uma pessoa tão despojada, agradável e altruísta poderia lembrar-se daqueles que não tiveram piedade dele. Que Homem é este que não excluiu ninguém? Que Homem é este que não dá tréguas ao amor?»

O Mestre do Amor - Augusto Cury

Um Amor transcendental


«Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem». - Lucas 23, 34

Esta frase proferida por Jesus Cristo talvez seja uma das mais célebres e conhecidas de toda a história.
No livro «O Mestre do Amor», Augusto Cury afirma que esta frase de Jesus «parece ter sido um pensamento que interrompia um diálogo com o seu Pai e não algo isolado, solto. Parece que essa frase foi uma interrupção da acção do seu Pai». A partir desta possibilidade, ele faz uma análise muito interessante, imaginando o que podia estar por detrás desta frase proferida por Jesus. Acredito que vale muito a pena reflectirmos sobre o que ele escreve.

«O Pai via Jesus a morrer, cada gemido calava fundo na sua alma. Ele estava a respirar rápido, ofegante e a gemer de dor. Então, de repente, parece que o Pai não aguentou mais. Talvez tenha dito algo assim: "Filho, o que fizeram os homens contigo!? Eu amo-te intensamente e não suporto mais ver-te sofrer. Os homens chegaram às últimas consequências da injustiça ao crucificarem-te. Nós amamos a humanidade, mas o teu cálice é amargo demais. Vou terminar os teus sofrimentos. Vou julgar os teus carrascos e toda a Humanidade."
Então, o Filho, contorcendo-se de dor e com os olhos embaçados, talvez tenha dito algo mais belo e comovente do que eu consigo dizer: "Pai, ama-os. Não te importes comigo, não os condenes. Eu peço-te por eles. Esquece a minha dor. Não sofras por mim."

As gotas de sangue escorriam do seu corpo e tornava-se cada vez mais difícil respirar. Não havia posição confortável . Se procurasse inclinar o peito e o corpo para relaxar, não conseguia ter forças para expandir os pulmões e respirar. Se procurasse recostar-se na cruz para respirar, tinha de fazer um grande esforço para um corpo debilitado, além de provocar um aumento da dor.
O Pai, vendo a agonia do Filho intensificar-se, resolve intervir definitivamente. Quando o Filho percebe a intenção do Pai de condenar os homens, entra em desespero. Acomoda as suas costas no leito da cruz, enche os pulmões e verbaliza o seu pensamento para abrandar a dor do seu Pai e defender a Humanidade. Proclama: "Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem."
Perdoar está no imperativo. Reflecte o seu clamor diante da acção iminente do Pai para julgar os seus inimigos e a humanidade emocionalmente falida.

Em seguida, Jesus recolhe-se dentro de si e talvez, em pranto, tenha dito, silenciosamente, para o seu Pai ouvir: "Toma-me como sacrifício pela Humanidade. Eu amo-a e morro por ela!"»
O Mestre do Amor - Augusto Cury

terça-feira, 12 de junho de 2007

O Olhar de Jesus


No evangelho de Lucas( 22; 60-62) lemos a seguinte passagem:

«Mas Pedro disse: Homem, não sei o que dizes.
Imediatamente, enquanto ele ainda falava,
o galo cantou e o Senhor, voltando-Se,
fixou o olhar em Pedro... E Pedro, saindo,
chorou amargamente».

Eu tinha um relalcionamento bastante bom com o Senhor. Conversava com Ele, pedia-Lhe coisas, louvava-O, agradecia-Lhe. Mas tinha sempre um sentimento ou sensação inesquecível de que Ele queria que eu olhasse bem no fundo dos Seus olhos... E isto eu não queria. Conversava muito, mas desviava os olhos, cada vez que percebia que Ele estava a olhar para mim. Sim, olhava sempre para outro lado. E eu sabia porquê! Tinha medo. Receava encontrar uma acusação nos olhos d´Ele: algum pecado não arrependido. Mas pensava também poder encontrar, naquele olhar, algum pedido: algo que Ele quisesse de mim.Um dia, finalmente, juntei toda a minha coragem e olhei! Não havia acusação alguma. Nem exigência ou pedido. Aqueles olhos diziam-me, simplesmente: «Eu amo-te!». Nessa altura eu olhei-os ainda mais no fundo com a persistência de quem procura algo. Nada encontrei, apenas a mensagem de sempre: «Eu amo-te!». Como Pedro, também eu saí... e chorei.
O canto do pássaro
de Anthony de Mello

domingo, 10 de junho de 2007

Continua a caminhar em direcção à encarnação integral


"Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim." - Gálatas 2, 20

Não desprezes o que já conseguiste. Deste passos importantes em direcção à liberdade que procuras. Decidiste dedicar-te inteiramente a Deus, em tornar Jesus no centro da tua vida e deixar-te transformar num instrumento da graça divina. Sim, continuas a sentir-te interiormente dividido, a sentir necessidade de aprovação e de louvor. Mas sabes que fizeste escolhas importantes que te mostram para onde queres realmente ir.

Podes olhar para a tua vida como para um cone largo, que estreita à medida que vais descendo. Nesse cone existem muitas portas que te permitem sair do caminho. Mas tens vindo a fechar estas portas uma após outra, centrando-te cada vez mais profundamente em ti mesmo. Sabes que Jesus te aguarda no fim, tal como sabes que Ele te guia na tua caminhada nessa direcção. Sempre que fechas mais uma porta - seja ela a porta da satisfação imediata, a porta dos negócios, a porta da culpa e da preocupação ou a porta da autocensura - comprometes-te contigo mesmo a penetrar cada vez mais fundo no teu coração e portanto mais fundo no coração de Deus.
Este é um movimento na direcção da encarnação total. Leva-te a ser o que já és - filho de Deus; permite-te encarnar cada vez mais a verdade do teu ser, faz-te assumir o Deus que vive em ti. Sentes-te tentado a pensar que não és ninguém na vida espiritual e que os teus amigos estão muito à tua frente na sua caminhada, mas isto é um erro.
Deves confiar na profundidade da presença divina em ti e viver a partir daí. Assim se caminha em direcção à encarnação total.


A voz íntima do amor
de Henri Nouwen

sexta-feira, 8 de junho de 2007

A mais bela lição de Amor e Compaixão


Os homens dos pergaminhos arrastavam-na pela rua.Vinha quase nua. Suja, ferida e cabisbaixa. Ferida. Eles traziam pedras nos bolsos, para atirar a ela e ao Mestre. Principalmente ao Mestre.

Empurraram a pecadora para perto dele e fecharam o círculo dos juízes impolutos, prontos a derramar o sangue pecador. O apedrejamento ia começar.

- Que dizes tu disto? – apontando eles com o dedo indicador para a mulher, que soluçava prostrada na terra.


Silêncio.


O Mestre nada disse. Continuava a enigmática escrita no pó da terra. Pensavam consigo que finalmente o tinham desmascarado. Apanharam-no.- Não respondes? Não vais cumprir com o que dizem os Pergaminhos? – insistiam eles, gritando.


Pacientemente, O Mestre levantou-se. - Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire uma pedra contra ela. – inclinando-se novamente, continuou a escrever na terra.

Os pergaminhos.

Silenciosamente os mais velhos começaram a sair. Depois os mais novos. Saíram todos.


Ficou a mulher sozinha com O Mestre.- Ninguém te condenou?- Ninguém, Senhor.- Nem eu te condeno. – disse Ele ajudando-a a levantar-se pelo braço - Vai-te e não peques mais.


A mulher, como que removendo todas as pedras da sua existência, renasceu. Saiu dali irradiando alegria. Sentia-se limpa, curada e perdoada. Curada.


(Baseado em João 8:3-11)

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Deus Procura-te


Este post surge na continuação dos posts que tenho publicado com base em transcrições do livro "O regresso do filho pródigo" de Henri Nouwen. A passagem que passarei a transcrever a seguir reflecte em parte o que tem sido a minha busca espiritual e o meu desejo insaciável por conhecer Deus e a verdade.


Ao longo de toda a minha vida tenho lutado por encontrar Deus, por conhecer Deus, por amar a Deus; procurei seguir as directrizes da vida espiritual - orar constantemente, trabalhar pelos outros, ler as Escrituras - e evitei muitas tentações de arranjar desculpas. Falhei muitas vezes, mas voltei sempre a tentar, mesmo quando estive à beira do desespero.

Agora pergunto se durante todo este tempo tive ou não suficiente consciência de que Deus andou a procurar encontrar-me, conhecer-me e amar-me. A questão não é «Como hei-de encontrar Deus?», mas: «Como hei-de deixar que Deus me encontre?». A questão não é «Como posso conhecer Deus?» , mas: «Como posso deixar que Deus me conheça?». Finalmente, a questão não é: «Como vou amar a Deus?», mas: «Como vou deixar-me amar por Deus?». Deus anda por longe à minha procura, tratando de me encontrar e desejando levar-me para casa.

Nas três parábolas em que Jesus responde à pergunta: porque come com os pecadores? , põe a tónica na iniciativa de Deus. Deus é o pastor que vai à procura da ovelha perdida. Deus é a mulher que acende uma candeia, varre a casa e procura por todo o lado até encontrar a moeda perdida. Deus é o pai que anda em busca dos filhos, vela por eles, corre ao seu encontro, os abraça, roga, suplica e anima a que voltem para casa.

Por estranho que pareça, Deus deseja encontrar-me tanto, se não mais, do que eu desejo encontrar Deus. Sim, Deus reclama-me tanto como eu a Ele. Deus não é o patriarca que fica em casa, imóvel, à espera que os filhos voltem para ao pé dele, à espera que peçam desculpa pelo seu comportamento, que peçam perdão e prometam emendar-se. Pelo contrário, abandona a casa sem fazer caso da sua dignidade, corre à procura deles, não quer saber de desculpas e promessas de emenda, e condu-los à mesa magnificamente preparada.


Henri Nouwen - "O regresso do filho pródigo"

sexta-feira, 1 de junho de 2007

O Regresso do Filho Pródigo IV


Um Convite à alegria

...o pai disse aos seus servos: Trazei depressa o melhor vestido, e vesti-lho, e ponde-lhe um anel no dedo e alparcas nos pés; trazei também o bezerro, cevado e matai-o; comamos, e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a regozijar-se. - Lucas 15, 22-24

A celebração faz parte do reino de Deus. Deus não só oferece perdão, reconciliação e cura, mas quer dar todas essas iguarias aos que estiverem presentes, como prova da sua alegria. Nas três parábolas em que Jesus explica porque se senta à mesa com os pecadores, Deus alegra-Se e convida outros a que se alegrem com Ele. «Alegrai-vos comigo», diz o pastor, «encontrei a ovelha que se tinha perdido». «Alegrai-vos comigo», diz a mulher, «encontrei a dracma que tinha perdido». «Alegrai-vos», diz o pai, «este meu filho estava perdido e foi encontrado».

Deus alegra-Se. Não por terem sido resolvidos os problemas do mundo, não por se terem acabado a tristeza e o sofrimento humanos, não porque milhares de pessoas se tenham convertido e estejam agora a dar-Lhe graças pela sua bondade. Não. Deus alegra-Se porque um dos seus filhos se tinha perdido e foi encontrado.O pai do filho pródigo entrega-se totalmente à alegria que lhe dá o facto de o filho ter voltado. Tenho de aprender a ser assim. Tenho de aprender a «captar» toda a alegria que houver para «captar» e fazê-la ver aos outros(...) Isto exige disciplina. Exige optar pela luz, mesmo que haja muita escuridão que me faça medo, optar pela vida mesmo que as forças da morte estejam tão à mostra, e optar pela verdade mesmo que esteja rodeado de mentiras. Tenho tanta tendência para me impressionar com a tristeza inata da condição humana, que já não conto com a alegria que se manifesta em moldes muito pequenos, mas autênticos(...)A alegria não nega a tristeza, mas transforma-a numa terra fértil para cultivar mais alegria.

Tal como o filho de Deus que regressou e que vive agora na casa do Pai, também eu posso fazer minha a alegria de Deus. Quando creio de verdade que já cheguei e que o meu pai me vestiu uma túnica, me pôs um anel e umas sandálias, então tiro a máscara de tristeza do meu coração e faço desaparecer a mentira que me fala do meu próprio eu; então descubro a verdade, com a liberdade interior de filho de Deus.


Henri Nouwen - O regresso do filho pródigo