terça-feira, 29 de maio de 2007

Viver pela graça de Deus


O Deus do amor e da graça encarnou em Jesus Cristo. A graça é a expressão activa do amor. O cristão vive pela graça como filho do Pai, rejeitando por completo o Deus que pega as pessoas de surpresa ao menor sinal de fraqueza - o Deus incapaz de sorrir diante dos nossos erros desajeitados, o Deus que não aceita um lugar nas nossas festividades humanas, o Deus que diz «tu vais pagar por isso», o Deus incapaz de compreender que as crianças sempre se sujam e são distraídas, o Deus sempre a bisbilhotar à caça de pecadores.

Viver pela graça significa reconhecer toda a história da minha vida, o lado bom e o mau. Ao admitir o meu lado escuro, aprendo quem sou e o que a graça de Deus significa. Como disse Thomas Merton: "Um santo não é alguém bom, mas alguém que experimentou a bondade de Deus".A graça proclama a assombrosa verdade de que tudo é de presente. Tudo de bom é nosso não por direito, mas meramente pela generosidade de um Deus gracioso.A nós foram-nos dados Deus na nossa alma e Cristo na nossa carne. Temos o poder de crer quando outros negam; de ter esperança quando outros desesperam; de amar quando outros ferem. Isso e muito mais é pura e simplemente de presente; não é recompensa pela nossa fidelidade, a nossa disposição generosa, a nossa vida heróica de oração. Até mesmo nossa fidelidade é um presente. "Se nos voltamos para Deus", disse Agostinho, "até mesmo isso é um presente de Deus". Minha consciência mais profunda a respeito de mim mesmo é de que sou profundamente amado por Jesus Cristo e não fiz nada para consegui-lo ou merecê-lo.

A graça diz-nos que somos aceites como estamos. Podemos não ser o tipo de pessoa que desejaríamos, podemos estar muito distantes dos nossos objectivos, podemos contar mais fracassos do que realizações, podemos não ser ricos, poderosos ou espirituais, podemos até mesmo não ser felizes, mas somos apesar de tudo aceites por Deus e seguros nas suas mãos. Essa é a promessa feita a nós em Jesus Cristo, uma promessa na qual podemos confiar.

Viver pela graça inspira uma consciência crescente de que sou o que sou aos olhos de Jesus e nada mais. É a aprovação dele que conta. Fazer de Jesus o nosso lar, do modo que ele faz de nós o seu, leva-nos a ouvir criativamente: «Já passou pela tua cabeça que eu esteja orgulhoso de que tu tenhas aceitado o dom da fé que te ofereci? Orgulhoso de que tu me tenhas escolhido livremente, depois que eu te escolhi, como teu Amigo e teu Senhor? Orgulhoso de que com todas as tuas rugas e cicatrizes tu não desististe? Orgulhoso de que tu confias em mim o bastante para tentares, vez após vez?Tu não fazes ideia de quanto eu valorizo o facto de tu me quereres? Quero que tu saibas quanto me sinto grato quando tu páras para sorrir e confortar uma criança perdida. Sinto-me grato pelas horas que tu dedicas a aprender mais a meu respeito(...) ; pela tua visita ao doente(...)A minha tristeza é quando tu não crês que te perdoei totalmente, ou quando tu não te sentes à vontade para te aproximares de mim».

Jesus diz:" Tu tens o meu amor. Tu não tens de pagar por ele. Tu não o adquiriste e não tens como merecê-lo. Tu tens apenas de abrir o coração e recebê-lo. Tu tens apenas de dizer sim ao meu amor, um amor muito além de qualquer coisa que tu possas intelectualizar ou imaginar".

O amor tem as suas próprias exigências. Ele não pesa e não poupa nada, mas espera tudo. Talvez isso explique a nossa relutância em arriscar. Sabemos muito bem que o evangelho da graça é um irresistível chamamento a amarmos da mesma forma. Não é de admirar que muitos de nós escolham entregar a alma a regulamentos em vez de viver em união com o Amor.
Brennan Manning - O Evangelho Maltrapilho

sábado, 26 de maio de 2007

O Regresso do Filho Pródigo III

Um Regresso Atribulado

Poucos dias depois, o filho mais novo ajuntando tudo, partiu para um país distante, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente. E, havendo ele dissipado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a passar necessidades. Então foi encontrar-se com um dos cidadãos daquele país, o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos. E desejava encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam; e ninguém lhe dava nada. Caindo, porém, em si, disse: Quantos empregados de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus empregados. Levantou-se, pois, e foi para seu pai. - Lucas 15, 13-20



Num dos seus livros mais conhecidos e aclamados - O regresso do filho pródigo - Henri Nouwen escreveu: "O regresso do filho pródigo está cheio de ambiguidades. Segue viagem pelo caminho certo , mas que confusão! Admite ser incapaz de o percorrer por si mesmo e reconhece que seria mais bem tratado como escravo em casa do seu pai do que como pária numa terra estranha; no entanto, está longe de se fiar no amor do pai. Sabe que continua a ser filho, mas diz de si para si que perdeu a dignidade de ser chamado «filho»; prepara-se para aceitar a condição de «jornaleiro» e assim conseguir ao menos sobreviver. Há arrependimento, mas não um arrependimento à luz do imenso amor de um Deus que perdoa. É um arrependimento interesseiro que lhe proporciona a possiblidade de sobreviver. É como quem diz: «Bem, não sou capaz sozinho, tenho de reconhecer que Deus é o único recurso que me resta. Irei ter com Ele, pedir- Lhe- ei que me perdoe e me permita sobreviver fazendo trabalhos forçados». Deus continua a ser visto como um Deus severo, um Deus justiceiro. É este Deus que faz que me sinta culpado, preocupado e que ecoem no meu interior todas estas desculpas. A submissão a um Deus assim não confere a verdadeira liberdade interior; apenas consegue alimentar a amargura e o ressentimento.

Um dos grandes desafios da vida espiritual é receber o perdão de Deus. Há qualquer coisa em nós, seres humanos, que nos faz ficar presos aos nossos pecados e nos impede de deixar Deus apagar o nosso passado e oferecer-nos um recomeço completamente novo. Ás vezes parece que quero provar a Deus que a minha escuridão é grande demais para ser superada. Enquanto Ele quer devolver-me toda a dignidade da minha condição de seu filho, eu continuo a afirmar que me contentaria com ser um empregado.

Mas quererei realmente que me seja devolvida toda a responsabilidade de filho? Desejarei de facto ser totalmente perdoado e que me seja possível viver de outra forma? Terei fé suficiente em mim mesmo e numa emenda tão radical? Desejarei acabar com a rebelião contra Deus, tão arraigada em mim, e render-me ao seu amor tão absoluto que pode fazer surgir em mim uma pessoa nova? Receber o perdão implica vontade de deixar Deus ser Deus e de O deixar realizar toda a acção de cura, restauro e renovação da minha pessoa. Sempre que me esforço por o fazer sozinho, e só em parte, acabo por me conformar com soluções do tipo «converter-me em empregado». Sendo empregado, posso continuar à distância, posso continuar rebelde ou queixar-me do salário. Mas se for filho amado, tenho que reclamar a minha dignidade e começar a preparar-me para vir a ser pai."



Henri Nouwen, o regresso do filho pródigo

O Regresso do Filho Pródigo II


Confissões de um Sacerdote


Já partilhei alguns trechos do livro de Henri Nouwen - "O Regresso do Filho Pródigo" num post recente. Nessa altura, ainda estava a iniciar a leitura do livro. Agora, que eu estou praticamente no fim, estou plenamente convicto que é um dos melhores livros que li até hoje.

Vou continuar a partilhar alguns trechos desta obra inspirada nas observações/contemplações de um quadro famoso do pintor holandês - Rembrandt.



Na cadeira de Moisés se assentam os escribas e fariseus. Portanto, tudo o que vos disserem, isso fazei e observai; mas não façais conforme as suas obras; porque dizem e não praticam. Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; mas eles mesmos nem com o dedo querem movê-los. Todas as suas obras eles fazem a fim de serem vistos pelos homens; pois alargam os seus filactérios, e aumentam as franjas dos seus mantos; gostam do primeiro lugar nos banquetes, das primeiras cadeiras nas sinagogas, das saudações nas praças, e de serem chamados pelos homens: Rabi. - Mateus 23, 2-7


Os escribas e os fariseus criticavam frequentemente Jesus por se associar com pessoas que eles consideravam pecadoras. Numa dessas ocasiões, em que esses pecadores se reuniram para escutar Jesus, e os escribas e fariseus estavam presentes, Jesus conta uma série de parábolas, entre as quais a do Filho Pródigo, na qual os escribas e fariseus se encontram representados pelo filho mais velho.


Ora, o seu filho mais velho estava no campo; e quando voltava, ao aproximar-se de casa, ouviu a música e as danças; e chegando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo. Respondeu-lhe este: Chegou o teu irmão; e o teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo. Mas ele se indignou e não queria entrar. Saiu então o pai e instava com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: Eis que há tantos anos te sirvo, e nunca transgredi um mandamento teu; contudo nunca me deste um cabrito para eu me regozijar com meus amigos;vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado. Replicou-lhe o pai: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu;era justo, porém, regozijarmo-nos e alegramo-nos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado. - Lucas 15, 25-32


Henri Nouwen escreveu:" Para mim, pessoalmente, é de crucial importância a possível conversão do filho mais velho. Dentro de mim há muito de comum com o grupo frente ao qual Jesus é tão crítico: os fariseus e os escribas. Estudei os livros, conheço as leis, e com frequência apresento-me como tendo autoridade em matéria de religião. As pessoas testemunham-me muito respeito e até me tratam por «reverendo». Tenho tido compensações em cumprimentos e louvores, dinheiro, prémios e aplausos. Fui muito crítico para com alguns comportamentos e emiti muitas vezes juízos contra outros.

Assim, quando Jesus conta a parábola do filho pródigo, devo escutá-la consciente de estar mais próximo daqueles que, ao ouvi-lo, comentavam: «Este acolhe os pecadores e come com eles». Resta-me alguma possibilidade de voltar para o Pai e de me sentir acolhido em sua casa? Ou estou tão enredado nas minhas queixas farisaicas que estou condenado, contra vontade, a ficar fora de casa, revolvendo-me na ira e no ressentimento?

Jesus diz: «Felizes os pobres... felizes os que agora tendes fome... felizes os que agora chorais...»(Lucas 6, 20-21); mas eu não sou pobre, nem tenho fome, nem choro. Jesus diz: «Bendigo-Te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes» (Lucas 10,21). E é precisamente a este grupo - o dos sábios e entendidos - que eu pertenço.

Jesus mostra preferência pelos marginais da sociedade - os pobres, doentes, os pecadores- e eu não sou, por certo, nenhum marginal. A dolorosa pergunta que me ocorre, baseada no Evangelho, é esta: «Terei já recebido a minha recompensa?». Jesus é muito crítico para com os que rezam « de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens» (Mateus 6, 5); e diz acerca deles: «Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa». Considerando tudo quanto escrevi e disse sobre a oração e quão conhecido sou, sinto-me na obrigação de perguntar se estas palavras me são dirigidas.

De facto, estão no Evangelho. Mas a história do filho mais velho lança uma nova luz sobre todas essas perguntas; mostra que Deus não ama o filho mais novo mais do que o mais velho. Na história, o pai sai a receber o filho mais velho como fez ao mais novo, anima-o a entrar e diz-lhe: «Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu».

É a estas palavras que devo prestar atenção, deixando-as penetrar até ao centro de mim mesmo."


Henri Nouwen, O regresso do filho pródigo

terça-feira, 22 de maio de 2007

Meu Deus, Liberta-me do meu Egocentrismo!


O egocentrismo é um fenómeno presente em toda a experiência humana. Isto é evidente na rica variedade das palavras da nossa língua que incluem o componente "ego" ou "auto". Quantas delas carregam em si um sentido pejorativo ou negativo? Egoísmo, egolatria, auto-afirmação, auto-acusação, auto-agressão, autopiedade, auto-comiseração, autodestruição, auto-indulgência, auto­promoção, autopunição, auto-suficiência...Além do mais, nosso egocentrismo é de uma tirania terrível. Malcolm Muggeridge costumava falar e escrever a respeito do "calabouçozinho escuro que é o meu próprio eu". E que escuridão tem esse calabouço! Deixar-se absor­ver nos seus próprios interesses e ambições egoístas, sem qualquer consideração pela glória de Deus ou pelo bem-estar dos outros, é estar confinado na mais intrincada e insalubre das prisões. Mas Jesus Cristo, que ressurgiu dentre os mortos e está vivo, pode libertar-nos. Nós podemos conhecer "o poder da sua ressurreição". Ou, colocando a mesma verdade por outras palavras, o Jesus que vive pode, através do seu Espírito, impregnar a nossa personalidade e virar-nos do avesso. Não que nós sejamos perfeitos, é claro; só que, pelo poder do seu Espírito que habita em nós, pelo menos já começamos a experimentar uma transformação do eu para o não-eu. Nossa personalidade, antes fechada em si mesma, começa a abrir-se para Cristo, assim como uma flor se abre para o sol nascente.


O verdadeiro amor, no entanto, impõe restrições ao amante, pois o amor é essencialmente autodoador. E isto nos leva a um surpreendente paradoxo cristão. A verda­deira liberdade é a liberdade para ser eu mesmo, assim como Deus me fez e como ele pretendia que eu fosse. E Deus me fez para amar. Mas amar é dar, é autodoação. Portanto, para ser eu mesmo, eu tenho que negar-me a mim mesmo e doar-me. Para ser livre eu tenho que servir. Para viver, eu tenho que morrer para o meu próprio egocentrismo. E, para encontrar-me, tenho que esbanjar-me em dar amor. A verdadeira liberdade é, pois, exactamente o oposto do que muita gente pensa. Não é ser livre de toda a respon­sabilidade que tenho para com Deus e os outros, a fim de viver para mim mesmo. Isto é ser escravo do meu próprio egocentrismo. Pelo contrário, a verdadeira liberdade é a libertação do meu tolo e diminuto ego, a fim de viver responsavelmente com amor a Deus e aos outros."Quem quiser, pois, salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho, salvá-la-á."- Marcos 8, 35


John Stott - Ouça o Espírito, Ouça o Mundo


Não tenho dúvida de que boa parte, senão a totalidade, da infelicida­de humana explica–se por essa tendência de viver de maneira egoísta. Num mundo tão diverso, ninguém consegue ser feliz se tudo o que valoriza é o seu conforto e bem–estar pessoal. Por mais distintas que sejam, todas as tradições de espiritualidade têm um ponto comum: concordam que as pessoas mais estabilizadas na vida, e por que não dizer, felizes, são aquelas que cultivam o espírito abnegado, solidário, altruísta. Esse é mais um, se­não o, paradoxo da vida: o caminho da auto–realização é a negação do ego.


Ed René Kivitz - Vivendo com propósitos

domingo, 20 de maio de 2007

O Regresso do Filho Pródigo


Comecei há pouco dias a ler um livro de Henri Nouwen - "O regresso do filho pródigo". A escrita deste livro tem origem num encontro do autor com um quadro. Um encontro significativo e marcante. Nouwen descreve-o:" Um encontro aparentemente insignificante com um cartaz em que se via em pormenor de O Regresso do Filho Pródigo de Rembrant, foi para mim o início de uma longa aventura espiritual que me levaria a entender melhor a minha vocação e a cobrar novas forças para viver. Os protagonistas desta aventura são: um quadro do século XVII e o seu autor, uma parábola do séc. I e o seu autor, e um homem do séc. XX à procura do sentido da vida."

Vou partilhar alguns trechos do livro, que está a ser uma leitura muito interessante e proveitosa.
«Quanto mais falava sobre O Filho Pródigo, mais o considerava como se fosse a minha própria obra: um quadro que encerra, não só o essencial da história que Deus quer que eu conte, mas também o que eu próprio quero contar a Deus e aos homens e mulheres de Deus. Nele está todo o Evangelho. Nele está toda a minha vida e a dos meus amigos. Este quadro converteu-se numa misteriosa janela através da qual posso pôr um pé no Reino de Deus»
A Parábola do Filho Pródigo está registada na Bíblia, em Lucas 15, 11-32. Jesus conta a história de um pai com dois filhos. O filho mais novo reclama a herança do pai ainda vivo e abandona o lar, partindo para uma «terra longínqua» para ali desperdiçar a sua herança através de uma vida mundana e dissoluta. O que significa o abandono do lar no contexto desta parábola?~
Nouwen diz:« Deixar o lar(...) é muito mais que um simples acontecimento que tenha a ver com um lugar e um momento determinados. É a negação da realidade espiritual de que pertenço a Deus com todo o meu ser, de que Deus me tem a salvo num abraço eterno, de que estou gravado nas palmas das mãos de Deus e coberto pela sua sombra. Deixar o lar significa ignorar a verdade de que Deus me formou em segredo, na terra mais profunda, e me teceu no seio da minha mãe( Salmos 139, 13-15). Deixar o lar significa viver como se não tivesse casa e me visse obrigado a andar de um lado para o outro à procura de alguma.
O lar é o centro do meu ser, o centro onde posso ouvir a voz que diz: "Tu és o meu filho muito amado; em Ti pus todo o meu enlevo" - a mesma voz que deu vida ao primeiro Adão e falou a Jesus, o segundo Adão; a mesma voz que fala a todos os filhos de Deus e os livra de ter de viver num mundo de trevas, fazendo que permaneçam na luz. Eu ouvi essa voz. Falou-me, no passado, e continua ainda agora a falar-me. É a voz do amor que não cessa de chamar, que fala desde a eternidade e que dá vida e amor onde quer que seja escutada. Quando a oiço, sei que estou em casa com Deus e que não preciso de ter medo de nada(...)
A verdadeira voz do amor é uma voz muito suave que me fala dos pontos mais recônditos do meu ser. Não é uma voz ruidosa que se imponha e exija atenção. É a voz do pai quase cego que muito chorou e muitos combates travou. É a voz que só pode ser escutada por aqueles que se deixam tocar(...)
Mas há muitas outras vozes, vozes fortes, vozes cheias de promessas muito sedutoras. Estas vozes dizem: "Sai e mostra o que vales". Pouco depois de escutar a voz que o chamava "meu filho muito amado", Jesus foi conduzido ao deserto para que ouvisse aquelas outras vozes. Disseram- Lhe que provasse que merecia ser amado, que merecia ter êxito, fama e poder. Estas vozes não me são desconhecidas. Estão sempre presentes e sempre atingem o mais íntimo de mim mesmo, o ponto onde me interrogo sobre a minha bondade e duvido do meu valor. Sugerem-me que, por meio de uma série de esforços e de um trabalho muito duro, alcance o direito de ser amado. Querem que me prove a mim mesmo e aos outros, que mereço que me queiram, e impelem-me a que faça todo o possível por ser aceite. Negam que o amor seja um dom completamente gratuito(...)
Observando de novo a pintura do regresso do filho mais novo, vejo agora que há muito mais que um simples gesto compassivo para com um filho caprichoso. O grande acontecimento que diviso é o fim da grande rebelião. É perdoada, assim, a grande rebelião de Adão e de todos os seus descendentes, é restabelecida a bênção original pela qual Adão recebeu a vida eterna.
Agora, parece-me que estas mãos sempre estiveram abertas - inclusivelmente quando não havia ombros sobre os quais as colocar. Deus nunca retirou as suas mãos, nunca negou a sua bênção, jamais deixou de ter em conta o seu filho muito amado.
Mas o Pai não podia obrigá-lo a ficar em casa. Não podia forçar o seu amor. Tinha que o deixar partir em liberdade, sabendo inclusivelmente a dor que tal facto causaria a ambos. Foi precisamente o amor que o impediu de reter o filho a todo o custo. Foi o amor que lhe permitiu deixar o filho encontrar a sua própria vida, mesmo correndo o risco de a perder.»

Henri Nouwen, O Regresso do Filho Pródigo

sexta-feira, 18 de maio de 2007

O Peso do Julgamento

Imaginemos que não temos nehuma necessidade de julgar ninguém. Imaginemos que não temos nenhuma vontade de decidir se alguém é boa ou má pessoa. Imaginemos que somos completamente livres de sentir e ajuizar sobre o tipo de comportamento, seja de quem for. Imaginemo-nos com capacidade para dizer: «Não vou julgar ninguém!»
Imaginemos - não seria isto uma autêntica liberdade interior? Os Padres do deserto do século IV diziam: «Julgar os outros é um fardo pesado.» Eu tive alguns momentos na vida em que me senti livre da necessidade de fazer qualquer juízo de valor acerca dos outros. Senti que me tinha sido tirado um peso dos ombros. Nesses momentos, experimentei um amor imenso por todos os que encontrei, por todos aqueles de quem ouvi algumas coisas e, sobretudo, por aqueles dos quais li algumas coisas.
Uma solidariedade profunda com todos os povos e um profundo desejo de os amar desceram as paredes do meu íntimo e tornaram o meu coração grande como o universo.
Um desses momentos ocorreu depois duma passagem de sete meses por um mosteiro de Trapistas. Vivia tão inundado da bondade de Deus que via essa bondade onde quer que fosse, mesmo atrás das fachadas de violência, destruição e crime. Tive que me coibir de abraçar as mulheres e homens que me venderam géneros alimentícios, flores e um fato novo. É que todos me pareciam santos!
Todos podemos desfrutar destes momentos se estivermos atentos ao movimento do Espírito de Deus dentro de nós. São como amostras de céu, de beleza e de paz. É fácil descartar estes momentos como produto dos nossos sonhos ou da nossa imaginação poética. Mas, quando optamos por pedi-los como uma forma de Deus nos dar umas pancadinhas no ombro e de nos mostrar a verdade mais profunda da existência, gradualmente somos capazes de ultrapassar a necessidade de julgar os outros e a inclinação para ajuizar acerca de tudo e de todos. Então poderemos crescer rumo a uma verdadeira liberdade interior e a uma verdadeira santidade.
Mas, só poderemos pôr de lado o fardo pesado de julgar os outros quando não nos importarmos de suportar o ligeiro peso de ser julgados!

Henri Nouwen, Aqui e Agora

segunda-feira, 14 de maio de 2007

A Presença de Deus


" Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve." - Mateus 11:28-30


Frank Laubach, nasceu nos Estados Unidos em 1884. Tornou-se um missionário entre pessoas analfabetas, ensinando-as a ler para que pudessem conhecer a beleza das Escrituras(...) Não satisfeito com a sua própria vida espiritual, com a idade de quarenta e cinco anos Laubach resolveu viver em "contínuo diálogo com Deus e em perfeita receptividade à vontade dEle".Descreveu a sua experiência em forma de crónica, a partir de 30 de Janeiro de 1930, no seu próprio diário. Vou partilhar convosco algumas dessas passagens que encontrei no livro de Max Lucado - "Simplesmente como Jesus".


1 de Março de 1930: A sensação de estar sendo conduzido por uma mão invisível que segura a minha, enquanto outra mão estende-se adiante e prepara o caminho, cresce em mim a cada dia...Isso ás vezes requer um longo período da manhã. Determino não me levantar da minha cama até que esteja de acordo com aquela disposição mental a respeito de Deus.


18 de Abril de 1930:Tenho experimentado uma emocionante comunhão com Deus, a qual tem feito com que eu sinta aversão a tudo o que não esteja de acordo com Ele. Durante esta tarde, a presença de Deus me surpreendeu com a mais absoluta alegria e a ponto de pensar que nunca conheci nada igual. Deus estava tão próximo e tão maravilhosamente amável, que me senti completamente derretido, com uma felicidade e uma satisfação nunca dantes experimentadas.Após esta experiência que, agora, me sobrevém várias vezes durante a semana, a imundícia me causa repulsa, porque conheço o poder que ela possui para me arrastar para longe da presença de Deus. E após uma hora de íntima comunhão com Deus, minha alma se sente limpa como a neve que acabou de cair.


24 de Maio de 1930:Manter-me concentrado em Deus é um trabalho árduo, mas todas as demais coisas também deixaram de ser tão difíceis. Agora penso mais claramente, e não me esqueço das coisas com tanta frequência. Coisas que eu outrora fazia e me deixavam extenuado, agora faço com facilidade e sem qualquer esforço. Nada mais me preocupa, e não perco mais o sono. Durante uma boa parte do meu tempo, sinto-me andando no ar. Até mesmo o espelho revela uma nova luz nos meus olhos e na minha face. Não me sinto mais ansioso por coisa alguma. Tudo vai bem. Encontro-me calmo a cada minuto, como se cada minuto não fosse importante(...)


1 de Junho de 1930: Ah, Deus, que nova proximidade isso traz para ti e para mim, estar consciente de que tu sozinho és capaz de compreender-me, porque tu somente conheces todas as coisas! Não és mais um estranho, Deus! És o único Ser no universo que pode ser completamente conhecido! Estás dentro de todo o meu ser - comigo, aqui(...)

Segunda-feira passada foi o dia mais bem-sucedido de toda a minha vida. Consagrei todo o meu dia a fazer uma completa entrega a Deus... Lembro-me de como olhava para as pessoas com um amor dado por Deus, e em resposta as pessoas olhavam-me e agiam como se quisessem seguir-me. Pude então sentir que por um dia vi um pouco do maravilhoso impulso que Jesus possuía, quando andava dia após dia "inebriado da presença de Deus", e radiante com a comunhão interminável da sua alma com Deus.


Caros leitores, lanço agora algumas questões e aguardo os vossos comentários: Expressem os vossos pensamentos, sentimentos, emoções baseados na relação/comunhão que têm com Deus. Descrevam experiências relacionadas com a presença de Deus nas vossas vidas...

sábado, 12 de maio de 2007

Jesus - O Mestre dos Mestres


O psiquiatra Augusto Cury estudou a vida, personalidade e inteligência de Cristo durante bastante anos. Dos seus estudos e investigações resultaram cinco livros, nos quais ele analisa a inteligência e a personalidade únicas e extraordinárias de Jesus Cristo. Trata-se de uma análise psicológica/científica e não teológica/religiosa. Muitas pessoas das mais diversas áreas já leram os livros e ficaram fascinadas e positivamente impressionadas com as características da personalidade e inteligência de Cristo reveladas pela análise do Dr. Augusto Cury.

As reacções têm sido animadoras, como o próprio descreve no primeiro livro da série - O Mestre dos Mestres :"Muitas escolas têm recomendado aos professores a sua leitura e o têm adoptado em diversas disciplinas, com o objectivo dos seus alunos expandirem as funções mais importantes da inteligência.
Psicólogos o têm utilizado e estimulado os seus pacientes a lê-lo, com o objectivo de ajudá-los a prevenir a depressão, a ansiedade e o stress. Empresários têm adquirido centenas de exemplares para distribuir aos seus melhores amigos e clientes. Professores universitários o têm recomendado em faculdades. Leitores têm confessado que sua vida ganhou um novo significado após a leitura de “Análise...”. Além disso, apesar deste livro tratar de psicologia e não de religião, pessoas de diversas religiões têm sido ajudadas por ele e o utilizado sistematicamente."
Humildemente o autor afirma:"Todas essas reacções não são méritos meus, mas do personagem central aqui estudado. Investigar a inteligência de Cristo realmente abre as janelas das nossas mentes, expande o prazer de viver e estimula a sabedoria.


No livro "O Mestre da sensiblidade", O Dr. Augusto Cury faz um breve resumo das características fundamentais da personalidade e inteligência de Jesus Cristo:

1) Protegia a sua emoção diante dos focos de tensão.
2) Filtrava os estímulos stressantes.
3) Não fazia da sua memória uma lata de lixo das misérias existenciais.
4) Não gravitava em torno das ofensas e rejeições sociais.
5) Pensava antes de reagir.
6) Era convicto no que pensava e gentil na maneira de expor os seus pensamentos.
7) Transferia a responsabilidade de crer nas suas palavras e segui-lo aos próprios ouvintes.
8) Vivia a arte do perdão. Podia retomar o diálogo a qualquer momento com as pessoas que o frustravam.
9) Era um investidor em sabedoria diante dos Invernos da vida. Fazia das suas dores uma poesia.
10) Não fugia dos seus sofrimentos, mas enfrentava-os com lucidez e dignidade.
11) Quanto mais sofria, mais alto sonhava.
12) Não reclamava nem murmurava. Supervalorizava o que tinha, e não o que não tinha.
13) Geria com liberdade os seus pensamentos. As ideias negativas não tinham lugar na sua mente.
14) Era um agente modificador da sua história, e não vítima dela.
15) Não sofria por antecipação.
16) Rompia todo o cárcere intelectual. Era flexível, solidário e compreensível.
17) Brilhava no seu raciocínio, pois abria as janelas da sua memória e pensava em todas as possibilidades.
18) Contemplava o belo nos pequenos eventos da vida.
19) Não gravitava em torno da fama e jamais perdia o contacto com as coisas simples.
20) Vivia cada minuto da vida com intensidade. Não havia nele sombra de tédio, rotina e angústia existencial.
21) Era sociável, agradável, relaxante. Estar ao seu lado era uma aventura contagiante e estimulante.
22) Vivia a arte da autenticidade.
23) Sabia compartilhar os seus sentimentos e falar de si mesmo.
24) Vivia a arte da motivação. Conseguia erguer os olhos e ver as flores antes que as sementes tivessem brotado, antes do cair das primeiras chuvas.
25) Não esperava muito das pessoas que o rodeavam, nem das mais íntimas, embora se doasse intensamente por elas.
26) Tinha enorme paciência para ensinar e não vivia em função dos erros dos seus discípulos.
27) Nunca desistia de ninguém, embora as pessoas pudessem desistir dele.
28) Tinha enorme capacidade para encorajá-las, ainda que fosse com um olhar. Usava os seus erros como adubo da maturidade, e não como objecto de punição.
29) Sabia estimular as suas inteligências e conduzi-las a pensar em outras possibilidades
30) Conseguia ouvir o que as palavras não diziam e ver o que as imagens não revelavam.
31) A ninguém considerava seu inimigo, embora alguns o considerassem uma ameaça para a sociedade.
32) Conseguia amar com um amor incondicional, um amor que ultrapassava a lógica do retorno.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Eu sou importante?


Será que somos importantes? Aqui na terra, Deus experimentou na carne por 33 anos o que é ser um de nós. Nas histórias que contou e nas pessoas cuja vida tocou, Jesus respondeu de uma vez por todas a essa pergunta renitente.

Jesus disse que Deus é como um pastor que deixa 99 ovelhas no aprisco para ir em busca frenética da única que se perdeu; como um pai que não consegue parar de pensar no filho ingrato, mesmo tendo outro que lhe obedece e o respeita; como um anfitrião rico que abre as portas da sala de banquete para um bando de pedintes e vagabundos. Deus ama as pessoas não como raça ou espécie, mas como tu e eu as amamos: uma de cada vez. Somos importantes para Deus. Num breve momento em que Jesus puxou a cortina entre o mundo visível e o invisível, ele disse que os anjos se alegram com cada pecador que se arrepende. Um acto solitário que acontece neste pequeno planeta reverbera por todo o cosmo.
Em seus contactos sociais, Jesus saía do caminho normal para abraçar os não amados e indignos, aqueles sem muita importância para o resto da sociedade, mas muito importantes para Deus.

As pessoas com lepra, em quarentena fora dos muros da cidade, Jesus tocou-as mesmo que os seus discípulos retrocedessem com repulsa. À mulher de raça mista que já tinha tido cinco maridos e com certeza era o alvo preferencial da bisbilhotice e do maldizer das pessoas da cidade, Jesus fez dela a primeira missionária. Outra mulher, envergonhada demais com a sua condição humilhante para se aproximar de Jesus face a face, tocou na sua roupa, torcendo para que ele não notasse. Mas ele notou a sua presença. Ela aprendeu, como tantos outros "desconhecidos", que não é fácil escapar do olhar de Jesus. Somos importantes demais.

O romancista Reynolds Price disse que há uma frase que toda a humanidade anseia escutar: " O Criador de todas as coisas ama-me e quer-me". Essa foi a frase que Jesus proclamou, tão alto quanto um doce trovão. O Criador de todas as coisas é o Criador de todos os seres humanos, uma espécie ímpar que ele inexplicavelmente considerou digna de atenção e amor individual. Ele demonstrou esse amor em pessoa, nas colinas enrugadas da Palestina e por fim numa cruz.

Philip Yancey, A Bíblia que Jesus lia

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Feitos para amar


«A liberdade de toda criatura é limitada pela na­tureza que Deus lhe deu. O peixe, por exemplo. Deus criou os peixes para viverem e se desenvolverem na água. Suas guelras são adaptadas para absorver o oxigénio da água. A água é o único elemento em que o peixe pode ser peixe, encontrar a sua identidade de peixe, sua realização, sua liberdade. Uma liberdade que se limita à água, é verdade; dentro dessa limitação, porém, ela é liberdade.

Se os peixes foram feitos para a água, os seres humanos foram feitos para quê? Eu acho que a nossa resposta é a seguinte: se a água é o elemento em que os peixes se encontram como peixes, então o elemento em que os humanos se encontram como huma­nos é o amor, as relações de amor. Morris West dá-nos um exemplo impressionante disto em seu livro Filhos do Sol, que conta a história dos scugnizzi, os meninos de rua abandonados de Nápoles, e do amor de Frei Mário Borelli por eles. "Existe em nós (os napolitanos) uma coisa que nunca muda", disse Mário para Morris. "Nós necessita­mos tanto de amor quanto um peixe necessita de água, ou uma ave de ar." E então explicou que cada um dos scugnizzi que ele conhecia "tinha saído de casa porque não havia mais amor para ele".

Mas não são apenas as crianças de rua do mundo que necessitam amar e ser amadas, e que descobrem que vida significa amor. Todos nós somos assim. É no amor que nos encontramos e nos realizamos. Além do mais, não é preciso ir muito longe para buscar a razão para isso. É porque Deus é amor em sua essência, de tal forma que, quando ele nos criou à sua própria imagem, deu-nos a capacidade de amar assim como ele ama. Não é à toa, portanto, que os dois grandes mandamentos de Deus são amá-lo e amar uns aos outros, pois é esse o nosso destino. Uma existência verdadeiramente humana é impossível sem amor. Viver é amar, e sem amor nós murchamos e mor­remos. Como expressou Robert Southwell, poeta católico romano do século XVI: "Não quando eu respiro, mas sim quando eu amo, aí é que eu vivo." Ele provavelmente estava fazendo eco à observação de Agostinho, de que a alma vive onde ela ama, não onde ela existe.»-John Stott, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo

Nada é grave...

"Nada é grave, a não ser perder o amor." [Irmão Roger de Taizé]